ACTA UNI VERSITATIS CONIMBRIOENSIS A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES Leitura e Notas de Armando Cortesão POR ORDEM DA UNIVERSIDADE 19 7 8
A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES
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ACTA UNI VERSITATIS CON1MBR1GENSIS A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES Leitura e Notas de Armando Cortesão 9r. J. CORDEIRO REREIRA Rue do Mercedo, 7, 2-G Telel. 280004-2740 CASCAIS POR ORDEM DA UNIVERSIDADE 19 7 8
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P RO ÉM IO Uma elas razões por que sempre tive predilecção especial pelo meu livro The Suma Oriental of Tomé Pires and the Book of Francisco Rodrigues, em edição da Hakluyt Society, a qual, embora datada de 1944, só apareceu a público em fins de 1945, é esta obra ter influído de maneira capital para que em 1946 os Drs. Julian Huxley e Joseph Needham me convidassem para ingres¬ sar na Comissão Organizadora de UNESCO, Agência da ONU, em que trabalhei de Outubro de 1946 a Maio de 1952—primeiro como Conselheiro para a História da Ciência e da Cultura, depois como Chefe de várias Divisões, e finalmente como Secretário Gera! da Comissão Internacional para uma História Científica e Cultural da Humanidade. Esse foi um período importante da minha vida em que, entre outras coisas, passei da quase miséria de longos anos de exílio político em Londres para a relativa opulên¬ cia de funcionário superior internacional em Paris. Quando, há muito tempo já, conversava sobre tudo isto com o meu bom e saudoso Amigo Professor Doutor Guilherme Braga da Cruz, desde havia muito Director da Biblioteca Geral, mostrou ele desejo de que a edição inglesa da obra fosse traduzida para português e publicada peta Universidade, pois não fazia sentido que obras tão importantes como a Suma de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues estivessem publicadas em inglês, embora com o texto origina! mas com extensas «Introdução» e numerosas e até certo ponto importantes notas, numa edição, aliás excelente, mas de acesso pouco fácil e praticamente desconhecida do público português. Mais recentemente disse-me ele que estava decidido que essa publicação se fizesse de seguida, e em 6 de Março de 1977,
VIII por conseguinte cinco dias antes do seu inesperado e trágico faleci¬ mento, esteve ele bondosamente em minha casa (dada a quase imobili¬ dade total a que estou reduzido) para ultimar pormenores desta edição. Resolveu-se então que se na edição inglesa a Suma Oriental de Tomé Pires, dada a sua maior extensão e importância, precede o Livro de Francisco Rodrigues, na presente edição este precederia aquela tal como se encontra no códice de Paris, tendo a ordem das notas sido ajustada em conformidade. Além dos Apêndices que já constam da edição inglesa, ntais três aqui se juntam, com valiosas criticas ou opiniões de categorizados autores estrangeiros que possivelmente contribuirão para uma melhor identificação de alguns topónimos e outros nomes referidos por Tomé Pires. Também ficou assente que eu faria o possível por traduzir a Introdução e Apêndices, e que para a difícil e trabalhosa tradução das numerosas notas de rodapé seria solicitada a colaboração da Dr." D. Maria Armanda de Almeida e Sousa, (a quem aqui expresso mais uma vez a minha gratidão), da Faculdade de Letras, cuja inexcedível competência e escrupuloso cuidado já ficaram demons¬ trados na excelente tradução que há anos fizera do meu livro The Nautical Chart of 1424, editado pela Universidade em 1945 e agora (1975) publicada, também pela Universidade, no Vol. III dos meus Esparsos, igualmente por iniciativa do Doutor Guilherme Braga da Cruz. Estes foram, aliás, os menores de entre muitos e assinaláveis serviços que ele prestou à Cultura Nacional. Maio de 1977, Casa das Rosas — S. João do Campo. Armando Cortesão
PREFACIO Quando em 1937 regressei de Paris e disse ao Dr. Edward Lynam, Hon. Secretary da Hakluyl Sociely, que acabava de descobrir o há muito buscado códice contendo a Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues, ele imediata¬ mente sugeriu que eu devia preparar (edit) o manuscrito para a sua Sociedade publicar. Com grande satisfação aceitei o convite, pois nenhuma outra Sociedade erudita poderia tão apropriada- mente publicar esta importante obra quase completamente des¬ conhecida. Por outro lado, os Ingleses sendo os principais her¬ deiros do grande Império Lusitano do Oriente, têm tanto interesse como os Portugueses num documento de taI importância para a história dos primeiros contados regulares entre o Ocidente e o Oriente. O presente estudo permite lançar nova luz sobre a primeira embaixada europeia à China e o seu chefe, Tomé Pires, o homem extraordinário que, depois de ser boticário do desventurado Prín¬ cipe D. Afonso, filho de et-Rei D. João II, foi para a índia em 1511 como «feitor das drogas», viveu dois anos e meio na recém-con- quistada Malaca, onde escreveu a maior parte da Suma Oriental, e então foi enviado como embaixador à China, lá vindo a morrer depois de uns vinte anos de várias e penosas aventuras. Até agora pouco se sabia de Tomé Pires e da sua embaixada, e a escassa informação e documentos dispersos referentes tanto a um como a outra nunca haviam sido reunidos. A segunda guerra mundial desencadeou-se quando eu tinha quase concluída a longa tarefa de transcrever, dactilografar, e traduzir para inglês todo o manuscrito. Apenas em 1942 pude 0
X retomar o meu trabalho, e só por isso o não pude concluir tão cedo como prometera à Hakluyt Society e ao Congresso Internacional de Geografia, de Amsterdão, em 1938, onde apresentei um breve relato sobre o códice e anunciei a intenção de publicar a sua edição critica. A impossibilidade de trabalhar em arquivos portugueses ou em Paris, para esclarecer pontos duvidosos, e a remoção de muita bibliografia antiga do British Museum, causaram-me não poucas dificuldades. Além disso, quando todo o trabalho dacti¬ lografado estava quase pronto, as condições da impressão resul¬ tantes da guerra obrigaram-me a reduzir as minhas anotações em cerca de dois quintos. Tudo isto contribuiu para algumas das deficiências da presente edição. [Seguem-se referências e agradecimentos a vários eruditos, instituições, amigos e outras pessoas que, duma forma ou doutra, auxiliaram o autor.] Londres, Agosto de 1944. A. Z. Cortesão
A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES
ESTAMPA 1 ^-sS QW /£«//' ,w d- *uc£. òy rtrç.w& 'f'-v* **/*'** i^w1 ,h.^v ; »«£ r;.z€.^i}«£H sr.u C-t‘U^A V V. - Primeira página da carta original de Tomé Pires para Afonso de Albuquerque, escrita de Malaca em 10 de Janeiro de 1513.
INTRODUÇÃO O CÓDICE DE PARIS Não deixa de surpreender que documento tão importante para a história da geografia como a Suma Oriental de Tomé Pires — sem dúvida a mais importante e completa descrição do Oriente produzida na primeira metade do século xvi, pois foi escrita em 1512-15 — tenha estado esquecida e praticamente ignorada até agora: tanto mais porque incorporado no mesmo códice está o contemporâneo Livro de Francisco Rodrigues com as suas preciosas cartas geográficas que se tornaram mundial¬ mente famosas em meados do século passado. Quando o Visconde de Santarém reproduziu no seu Atlas datado de 1849 uma série de vinte e seis cartas sob o título geral Portulan dressé entre les années 1524-1530 par Francisco Rodri¬ gues, pilote portugais, qui a fait te voyage aux Moluques, ele não disse onde as cartas se encontravam. O Visconde de Santarém faleceu em 1856, mas muitas das notas que deixou sobre cosmo¬ grafia e cartografia, colhidas durante quase uma vida inteira de investigações em arquivos europeus, sobretudo em Portugal e em França, só em 1919 foram publicadas. Nessas notas encontra-se, sob a epígrafe «Portulano de Francisco Rodrigues», uma extensa descrição do Livro de Francisco Rodrigues que termina com a breve referência à Suma Oriental de Tomé Pires (1). Embora a descrição não seja muito correcta, dá-nos (1) Visconde de Santarém, Estudos de Cartografia Antiga, I, 148-56
4 Tomé Pires e Francisco Rodrigues em nota de rodapé uma indicação muito importante: ao tempo em que a descrição foi escrita (1850) o códice pertencia à «Biblio¬ teca da Assembleia Nacional», em Paris. Em 1933 escrevi para Paris tentando averiguai do paradeiro do códice, e foi-me dito que em parte alguma o encontravam, mas que talvez esti¬ vesse na Bibliothèque Nationale, catalogado sob qualquer título irreconhecível (2). Contudo, quando mais tarde estive em Paris, não consegui encontrá-lo na Bibliothèque Nationale nem em qualquer das outras bibliotecas onde o procurei. Ninguém dele conseguia encontrar vestígios e considerava-se perdido; mas não desisti, e quando em Setembro de 1937 de novo fui a Paris, tive a satisfação de encontrar no volume Paris, Chambre des Députés, do Catalogue général des Manuscrits des Bibliothèques Publiques de France, p. 471, a seguinte rubrica: «Journal de Francisco Rois, pilote de la flotte portugaise, qui découvrit les Molluques. Ouvrage divisé en deux parties, la première lemplie par des cartes, la deuxième contenant le texte proprement dit. Sur le plat intérieur est collé un Ex-libris du chevalier de Fleurieu xvie siècle. Papier. 178 feuillets et 124 pages. 380 sur 265 mil- lim. Rei. veau marbré, portant au dos le soleil de Fleurieu». Rois é a maneira antiga de escrever abreviadamente Rodrigues. A descrição não é muito correcta, como adiante se verá, mas deu-me a enorme satisfação de me conduzir ao lugar onde o precioso e há tanto tempo buscado códice jazia no esqueci¬ mento. O volume está encadernado em carneira com dourados, e no verso tem impresso o sol da família Fleurieu; na parte de dentro da capa está o ex-libris de «Mr. le Ch.er de Fleurieu», célebre hidrógrafo francês, Conde de Fleurieu (1738-1810), um antigo possuidor do códice. Certamente foi encadernado quando (2) Esta vaga informação levou-me a erradamente dizer na minha Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos Séculos XV e XVI (ii, 124), publi¬ cada em 1935, que o códice se encontrava na Bibliothèque Nationale.
Introdução 5 na posse de Fleurieu, e infelizmente foi aparado com brutalidade ao encadernar, o que cortou paites das palavras nalgumas notas marginais ou adições, ou nas cartas, e a maior parte da numeração original das folhas. O volume contém, além de 4 folhas de guarda, 178 fólios de papel grosso medindo 263 por 377 mm. O Livro de Francisco Rodrigues, com os desenhos e cartas, todos no mesmo papel, ocupa os primeiros 116 fólios; a Suma de Tomé Pires preenche os outros 62. O papel dos 178 fólios é todo igual e com a mesma marca de água. Na foi. 5r. está escrita a pala¬ vra Osorio em letra posterior, pro¬ vavelmente a assinatura do célebre Bispo D. Jerónimo Osório, historia¬ dor e bibliófilo quinhentista, ao que parece um prévio possuidor do códice (3). A numeração original dos dois manuscritos desapareceu quase por completo quando o manuscrito foi brutalmente aparado ao encadernar, dela apenas restando Marca de água no papel de todo o Códice de Paris (Tamanho original). (3) Esta suposição, embora muito provável, é meramente conjectural, pois — por muito estranho que possa parecer — não se encontrou até agora, em arquivos portugueses ou noutra parte, qualquer documento com a assi¬ natura do Bispo Osório. D. Jerónimo Osório nasceu em Lisboa cm 1506 e faleceu cm Tavira em 1580. Estudou nas Universidades de Salamanca. Paris e Bolonha, tendo na capital francesa sido companheiro de Santo Inácio de Loiola. Em 1564 foi nomeado Bispo de Silves, depois de ter sido Pro¬ fessor na Universidade de Coimbra. Foi célebre e sábio autor de numerosos trabalhos, sobretudo em latim, sendo um dos mais conhecidos De rebus Emmanuelis Regis Lusitaniae invictissimi virtute et auspicio gestis libri duodecim, Olysipponc 1571. Houve um outro Jerónimo Osório (1545-1611), sobrinho
6 Tomé Pires e Francisco Rodrigues vestígios. Outra numeração foi mais tarde aplicada à Suma de Tomé Pires, e por fim. mais recentemente, o códice foi todo numerado de 1 a 178. A atrás mencionada nota de Santarém diz ainda: «Este precioso manuscripto parece ter pertencido ao celebre Osorio, bispo de Silves, historiador e contemporâneo d’el-rei D. Manuel, e do qual um grande numero de manuscriptos foram achados pelos inglezes a bordo de um navio portuguez, que elles captura¬ ram perto dos Açores, e que transportaram para Inglaterra. Em ultimo logar foi adquirido pelo famoso hydrographo francez Sr. de Fleurieu, cujas armas se vêem na capa. Pertence agora á Bibliotheca da Assembléia Nacional, e devemos esta communi- cação ao Sr. Bliller, seu bibliothecario (1850).» Não consegui averiguar a origem desta curiosa informação. Ao referir-se a Tomé Pires, Barbosa Machado diz na Biblio¬ theca Lusitana que ele escreveu «Summa Oriental começando do estreito do mar roxo até a Cltina, Dedicado a D. Joaõ III, foi. M.S.» Este seria um exemplar mais antigo que o MS de Paris, como adiante se verá, apesar da suposta dedicatória a D. João III, daquele, que foi cónego da Sé de Évora e também bibliófilo. Tem-se dito que quando em 1596 o Conde de Essex saqueou Faro ele levou consigo os livros do Bispo Osório, que depois ofereceu à Bodleian Library, em Oxford. Mas, o Bispo de Faro era então D. Fernando Martins Mascarenhas. Essex «‘quarted hymself on the bushopes hovvse', and two days later set fire to the town and sailed for home; but he saved the Bishop's library, and in 1600 made a gift of some 200 volumes to the Bodleian». Vide o interessante artigo de Miss K. M. Pogson. A Grand Inquisitor, and his Library, publicado juntamente com «A list of books presented by the Earl of Essex in 1600, still in the Bodleian». in The Bodleian Quaierly Record, ui, 239-44. Oxford 1922. J. B. Silva Lopes diz que «Entre os despojos, que (os Inglezes) levárão, foi a preciosa livraria do Prelado, composta de muitos livros, boa parte da qual se diz fôra levada para a Bibliotheca d'Oxford, e que nella entravão não poucos do sabio D. Jeronymo Osorio.» Memórias para a Historia Eclesiástica do Bispado do Algarve, 369. Lisboa 1848. Entre todos os livros presenteados por Essex apenas um é manuscrito; parece que nenhum deles tem a assinatura do Bispo Osório. Vide estampa II.
ESTAMPA II •&- !\ !fe%L &mÊmm h?ra(M ;’S°' | > e®s V ® / I iu- lip y trr, arSr&t. &5F, J’:s- jf⣠js4r r; ** ^ — & =£*& Primeira página do Livro de Francisco Rodrigues, onde se vê a assinatura do Bispo D. Jerónimo Osório
ESTAMPA III Carla de Rodrigues (foi. 18) da Costa Ocidental da Europa e Ilhas Britânicas
Introdução 7 cujo reinado começou em 1521. De facto Tomé Pires dedicou a Suma Oriental a D. Manuel, pai de D. João m. Mas não há dúvida que era um exemplar diferente. O Livro de Rodrigues foi escrito por ele próprio, e a Suma de Pires é uma cópia con¬ temporânea, como se torna evidente não só pela caligrafia de começos do século xvi, mas também pelo facto de o papel ser exactamente o mesmo em ambos os MSS. Além disso a palavra Osorio na fi. 5r do Livro de Francisco Rodrigues parece da mesma mão que, a fls. ,118v., 124v., etc., escreveu as notas referentes à ordem dos fólios da Suma de Tomé Pires. É provável que os dois MSS. fossem reunidos no mesmo códice pelo próprio Fran¬ cisco Rodrigues, ou pelo menos no seu tempo; certamente esta¬ vam juntos quando na posse de D. Jerónimo Osório, antes de 1580. De modo que o exemplar referido por Barbosa Machado não pode ter sido o mesmo, se não ele não teria deixado de men¬ cionar Francisco Rodrigues e o seu Livro, o que não faz. a presente edição — Embora as duas obras sejam muito distintas em carácter — uma um roteiro, um livro de marinharia e um atlas, e a outra uma descrição geográfica, económica e histórica — ambas são muito valiosas, foram escritas aproxima- damente na mesma altura, é de crer que tenham estado juntas desde então, e até certo ponto completam-se mutuamente. Ainda bem que o Conselho da Hakluyt Society concordou em publicar as duas obras juntamente assim como literalmente o texto ori¬ ginal português depois da versão inglesa, o que indubitavelmente aumenta o valor da presente edição. Este exemplar da Suma não é o original escrito por Tomé Pires, e o copista deixou muitos exemplos da sua falta de cuidado. O estilo de Tomé Pires está longe de claro, o que, acrescentado dos enganos do copista e da anárquica pontuação, ou sua total ausência, torna a interpretação do texto extremamente difícil: por vezes a tradução tem de ser muito livre, talvez mais suposição do que outra coisa. Contudo, sempre procurei apreen¬ der o verdadeiro significado do que o próprio Tomé Pires escre-
8 Tomé Pires e Francisco Rodrigues veu, não só comparando o MS de Paris com outro exemplar [o dc Lisboa] e com a versão de parte da Suma publicada por Ramusio, mas também estudando o contexto e outras fontes por ventura existentes. Em todos os casos mais difíceis busquei o auxílio e conselho de sábios especialistas tais como o Dr. Henry Thomas e o Prof. Edgar Prestage. Mesmo assim não estou certo de que tenha sempre conseguido interpretação correcta; mas o leitor, quando em dúvida, tem para referência o texto português fielmente reproduzido, e por ele pode tentar melhor interpre¬ tação. Não lhe faltará assunto para estudo e discussão. Aqui termina a minha limitada responsabilidade. A maior importância e extensão da obra de Tomé Pires tornou aconselhável imprimir a versão inglesa antes da do Livro de Francisco Rodrigues, invertendo a ordem em que se encon¬ tram no códice. Quando os dois manuscritos foram reunidos num só códice numa data recuada, alguns fólios da Suma Orien¬ tal ficaram mal colocados, ou por qualquer razão o texto não segue a ordem que Tomé Pires tencionava dar-lhe. Tudo isto foi ajustado na versão inglesa; mas para o texto português man- tem-se fielmente a ordem e disposição em que se encontra no códice de Paris. Tanto na versão inglesa como no texto por¬ tuguês a numeração dos fólios é dada como se encontra no códice de Paris; isto ajudará o leitor interessado a facilmente encontrar a parte que no texto português corresponde à versão inglesa. Ao anotar o texto procurei não só elucidar, quando possível, os pontos obscuros, mas também explicar ou destacar a importância de certas passagens para a história da geografia; isto justificará a extensão de algumas das notas. Nomes de pessoas e lugares orientais, cuja identificação nem sempre me foi possível, são frequentemente escritos com tão diversas grafias no texto português que a sua versão em inglês se torna problema complexo. Resolvi pois, como regra geral, dar os nomes orientais de pessoas e seus postos oficiais, como ocorrem no texto português, e explicar e dar as formas inglesas, quando possível, em notas. Quanto aos topónimos,
Introdução 9 são sempre dados na forma inglesa na tradução, quando podem ser identificados e há um nome inglês correspondente; mas da primeira vez que o nome aparece, e quando se repete numa forma diferente ou muito mais tarde no texto, a grafia portuguesa original segue entre parênteses. Antes de descrever a Suma Oriental em pormenor, traçarei agora um esboço biográfico de Tomé Pires; depois ocupar-me-ei semelhantemente de Francisco Rodrigues e do seu Livro. NOTA BIOGRÁFICA SOBRE TOMÉ PIRES Tomé Pires aparece como figura modesta quando com¬ parado com alguns dos homens que brilharam na história dos Portugueses no Oriente durante a primeira metade do século xvi. Entre os que nesse tempo lá viveram, contam-se, como os maiores de todos, Albuquerque, o grande capitão e administrador, fun¬ dador de um Império imenso, e Camões, o Príncipe dos Poetas Portugueses, que cantou a glória da sua Pátria e dos seus com¬ patriotas. Duarte Pacheco Pereira, D. João de Castro e António Galvão foram célebres como capitães, administradores e nave¬ gadores ou escritores, Garcia da Orta como cientista, Gaspar Correia e Castanheda como cronistas. Fernão Mendes Pinto, cuja Peregrinação só trinta e um anos depois da sua morte foi publicada, com várias alterações, foi o maior viageiro na história portuguesa e deixou-nos um relato admirável das suas maravilhosas aventuras. Muitos outros ganharam fama imor¬ tal como guerreiros, navegadores ou exploradores. Mesmo Duarte Barbosa se tornou mundialmente famoso, mas o seu Livro foi escrito pouco depois de Pires ter concluído a Suma Oriental—trabalho muito mais vasto. O Livro de Duarte Barbosa, cujo original se perdeu, foi logo traduzido para espanhol e para italiano, sendo pela primeira vez publicado por Ramusio em 1550, tornando-se largamente conhecido, ao passo que apenas uma menos importante parte da Suma de Pires chegou a Ramu¬ sio, que a publicou sem nome do autor, que ele aliás não sabia.
10 Tomé Pires e Francisco Rodrigues A grande obra de Tomé Pires esteve até agora esquecida. O humilde boticário que chegou à índia em 1511 e que graças a seus méritos foi escolhido para a importante missão de primeiro embaixador português à China, onde veio a morrer provavel¬ mente cerca de 1540, tem sido praticamente ignorado, embora a sua contribuição para o antigo conhecimento do Oriente seja da maior importância histórica. Contudo, ele é uma figura muito interessante e a Suma Oriental, além de ser o mais antigo e extenso relato do Oriente escrito por um Português, é também a primeira descrição europeia da Malásia, cujo pormenor não foi, sob muitos aspectos, ultrapassado durante mais de um ou dois séculos. Tomé Pires foi sobretudo um ávido observador, um curioso e penetrante estudioso, e um fiel, exacto e infatigável descritor, e embora o seu estilo literário seja pobre, ele não pode deixar de ocupar um notável lugar entre os primeiros Europeus que escreveram sobre o Oriente. fontes — A informação sobre Tomé Pires, desde pouco depois da sua chegada à índia até à sua morte, não escasseia, embora seja pouco completa; mas quanto à sua vida em Por¬ tugal apenas algumas poucas e vagas referências existem. Tudo o que sobre ele sabemos contém-se no seguinte: a presente Suma Oriental, quatro cartas por ele escritas, cinco outros documentos por ele assinados, uma carta assinada por ele e outros, oito cartas e outros documentos de contemporâneos que a ele aludem, e referências de cronistas e escritores antigos. Estes vão a seguir sumariados. Cartas de Tomé Pires: de Malaca, 7 de Novembro de 1512, para seu irmão João Fernandes, publicada em Cartas de Affonso de Albuquerque, Vol. vu, pp. 58-60; de Malaca, 10 de Janeiro de 1513(4), para Afonso de Albuquerque, ibid. 4-7: de Malaca, (4) Esta carta foi publicada com a data de 10 de Jan. 1512. Refere, porém, acontecimentos passados meses mais tarde, tais como a verificação por Tomé Pires das contas de João Freire, feitor da frota de António de
Introdução 11 10 de Janeiro de 1513, «A quem quer que tiver cargo de prover malaca», ibid., 66-7; de Cochim, 27 de Janeiro de 1516, para o Rei de Portugal. Esta última foi publicada pela primeira vez no Jornal da Sociedade Pharmaceutica Lusitana, Tomo n, N.° 1, pp. 36 seqq. Lisboa 1838; depois na Gazeta de Pharmacia. Lisboa 1866; e outra vez in Obras Completas do Cardial Saraiva, Vol. vi, pp. 419-28, Lisboa 1875. Este interessantíssimo documento encontra-se transcrito em Apêndice i, no fim do presente Volume. Outros documentos assinados por Tomé Pires: auto datado de Malaca, 12 de Novembro de 1513, em que ele figura como testamenteiro de seu cunhado Diogo Lopes, Cartas, vn, 99; recibo datado de Malaca, 24 de Dezembro 1513, ibid., 107; recibo datado de Malaca, 12 de Janeiro 1514, ibid., 112-13; recibo dotado da Malaca, 5 de Maio 1514, ibid., 121-2; carta «A elrey noso senhor — Dos oficiaes de malaca», 7 de Janeiro 1514, assinada pelos «espriuâes Pero salgado, Thomé pires. Garcia chaym, Pero pesoa.», ibid., iii, 89-91. Documentos que se referem a Tomé Pires: mandado de Rui de Brito, Capitão de Malaca, 4 de Novembro 1513, «a vos pero barbosa provedor dos defuntos ... que entregues a thome pirez toda a fazemda que ficou por morte de diogo lopez seu cunhado por que o deixou por seu testamenteiro e por que o dito tome pires he pesoa conhecida e abonada», ibid. vn, 97; carta de Afonso de Albuquerque para o Rei de Portugal, Cana- Abreu às Ilhas das Especiarias, que regressou a Malaca em Dezembro de 1512, assim como o intentado ataque de Pate Unus contra Malaca, que teve lugar no começo de Janeiro de 1513 (vide nota 259 pp. 271-2). Vide Est. I. [A carta foi igualmente publicada por A. B. de Bragança Pereira, Arquivo Português Oriental, I, 455-9, Bastorá 1937, também com a data «10.1.1512» e também referindo «Torre do Tombo. Corp. Chron., parte 1, maço 10. doe. 152». Evidentemente copiada das Cartas de Affonso de Albuquerque. que aliás não cita. Provavelmente a carta de Pires seguiu de Malaca para a índia com os três navios de Fernão Peres de Andrade que partiu em 11 de Janeiro de 1513. Vide Cartas, ni, 51.)
12 Tomé Pires e Francisco Rodrigues nor, 30 de Novembro, 1513, ibid., 141-50; carta de Rui de Brito, Capitão de Malaca, para o Rei de Portugal, Malaca, 6 de Janeiro 1514, ibid., in, 91-7, e in Alguns Documentos da Torre do Tombo, 345-50; carta de Rui de Brito para Afonso de Albuquerque, Malaca, 6 de Janeiro 1514, Cartas, m, 216-31; carta de Jorge de Albuquerque, Capitão de Malaca, para o Rei de Portugal, Malaca, 8 de Janeiro de 1515, ibid., m, 133-9; carta de Jorge de Albuquerque, Capitão de Malaca, para o Rei de Portugal, 1 de Janeiro 1524, ibid., iv, 35-42; duas cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, Cantão 1524, e 10 de Novembro 1524(5). Cópias posteriores destas duas cartas, existentes na Bibliothèquc Nationale de Paris (Fonds Portugais, n.° 65(6) foiam publi¬ cadas — introdução, texto original e tradução — por Donald Ferguson no Indian Antiquary, Bombay 1901-2, sob o título Letters from Portuguese Captires in Canton/written in 1534 and 1536. No Arquivo Nacional da Torre do Tombo existem frag¬ mentos (Fragmentos, Maço 24) do original da primeira destas duas cartas (em tinta da China sobre papel chinês), que foram publicados pelo Dr. E. A. Voretzsch no Boletim da Sociedade Luso-Japonesa, n.° 1, Tokio 1929. Referências nas crónicas e outros livros antigos: Gaspar Correia, Lendas da índia, Vol. II, pp. 473, 528-9, 678, escrito em meados do século xvi; Fernão Lopes de Castanheda, His¬ toria do Descobrimento da índia pelos Portugueses, Liv. IV, caps. iv e xxxi, Liv. V, cap. Ixxx, l.a ed. 1554; João de Barros, As ia, Década III, Liv. II, cap. 8, Liv. VI, caps. 1 e 2, e Liv. VIII, cap. 5, (5) Embora estas duas cartas tivessem sido publicadas com as datas 1534 e 1536, isso foi um engano, como adiante se verá. (6) As duas cartas de Vieira e Calvo estão juntas com o MS da Chro- nica dos Reis de Bisnaga, publicada por David Lopes, Lisboa 1897. A com¬ pilação desta Chronica foi encomendada por João de Barros (cf. David Lopes, Introdução, p. Ixi), que ele utilizou, e assim as duas cartas, como fonte de informação, ao escrever a Terceira Década da sua Asia. [Na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa existe uma separata (Bombay 1902) do artigo de Donald Ferguson no Indian Antiquary, com dedicatória autógrafa do autor].
Introdução 13 1 l.a ed. I563; António Galvão, Tratado, l.a ed. I563; Damião de Góis, Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanuel, Parte IV, caps. xxiiii e xxv, l.a ed. 1567; Fernão Mendes Pinto, Peregri¬ nação, caps. Ixv, xci e cxvi, l.a ed. 1614; Manuel de Faria e Sousa. Asia Portuguesa, Tomo 1, Parte III, caps. 3 e 6, e Appendice, cap. 7, l.a ed. 1666; Diogo Barbosa Machado, Bibliotheca Lusi¬ tana, j.v. Thomé Pires, l.a ed. 1752. ANTES DA CHEGADA À ÍNDIA — MuitO pOUCO de positivo se sabe sobre os primeiros tempos da vida de Tomé Pires. Gas¬ par Correia informa-nos que Pires era filho do boticário de D. João II (1455-95), e Castanheda diz que ele «fora boti¬ cário do príncipe D. Afonso». Este era certamente o desven¬ turado filho de D. João II, nascido em 18 de Maio de 1475 e falecido em 13 de Julho de 1491. Houve também um Príncipe D. Afonso, sétimo filho do Rei D. Manuel (1469-1521), nascido em 23 de Abril de 1509 (7), mas ainda não tinha dois anos quando Pires foi para a índia, e dificilmente poderia ser o príncipe refe¬ rido por Castanheda (8). (7) Este Princípe D. Afonso, que faleceu em 21 de Abril de 1540. foi feito cardeal quando tinha apenas oito anos de idade. (8) [Numa conferencia A propósito do ilustre boticário quinhentista Tomé Pires, que em 1963 proferi na Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra, publicada no Boletim da Escola de Farmácia, em 1964 no Boletim do Centro de Estudos Geográficos, da mesma Faculdade de Letras, e ainda em 1975 incluída no Vol. II dos meus Esparsos, escrevi eu: «Casta¬ nheda é cronista sério e fidedigno, pelo que não hesitei em acatar a sua infor¬ mação. Contudo, o Dr. Jaime Waltcr, num pequeno mas valioso estudo, Simão Alvares e o seu rol das drogas da índia (in Stvdia, n.° 10, Lisboa Julho 1962, com separata), csforça-sc por demonstrar que a minha suposição está errada, pois o ‘príncipe' em questão só podia ser o ‘herdeiro do trono', ou seja o futuro D. João III. O raciocínio do Dr. Walter c meramente con- jectural, e de resto o Príncipe D. Afonso, filho de D. João II, também era ‘herdeiro do trono’. Não seria impossível, antes pelo contrário, que Tomé Pires tivesse sido boticário do Príncipe D. Afonso e depois do Príncipe D. João — hipótese admissível, que talvez tudo pudesse explicar. O principal argu¬ mento do Dr. Jaime Walter é que Afonso de Albuquerque, numa carta escrita de Cananor a D. Manuel, em 30 de Novembro de 1513, se refere a ‘Tomé
14 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Tomé Pires teria pouco mais de quarenta anos quando embarcou para a índia. Na sua carta de 10 de Janeiro de 1513 para Afonso de Albuquerque, Pires queixava-se que Pero Pessoa, o novo feitor de Malaca, nomeado depois da morte de Rui de Araújo, provavelmente no começo de Janeiro de 1512, antes da chegada de Pires, era «tam mamcebo» que ele de princípio não desejava servir como escrivão sob as suas ordens. Na mesma carta diz ele «grandíssima cousa he malaca se os negocios andassem em ordenança, nenhua cousa do mudo he tamanha como malaca queria ver nela tres ou quatro homès de barbas bramcas que êtrase na fazêda del Rey». Daqui se depreende que ele já não era jovem. O Príncipe D. Afonso casou em Pires boticário do príncipe', c conclui: 'Em face dos documentos, o gover¬ nador só podia referir-se-lhe pela função que lhe indicavam: boticário do príncipe, a designação sempre dada ao herdeiro do trono’, p. 127 (11 da sepa¬ rata). Este estudo do Dr. Walter refere-se a uma 'Informação que me deu symão allvêz buticayro mor delRey nosso sõr do nacymento de todalas dro- guas que vão pera o Reyno/. o quaal ha xxxix Anos q serve nestas partes da Imdia seu oficyo homc grandemente curyoso destas cousas’. A primeira página da 'Informação’ tem particular interesse para nós, pelas referências que faz a Tomé Pires: 'Na era de doze partimdo o sefior vyso rey dom garcya de noronha que samta grorea aja veyo tomé piz que ora esta na chyna pera fazer as droguas que eu faço e trazia de sua A. trymta myl ís e vymte quymtaes das mesmas droguas quaes ele quysese cada huu ano como mylhor se poderá ver per seu titollo que esta na matrycola e deste tempo ate vymda de V. S. as fiz eu sempre por mamdado dos goucrnadores por ele ser mamdado por afonso dalbuquerque a malaqua e depois por lopo soarez a chyna e eu me afirmo que ate vimda do gouernador nuno da cunha seus erdeyros lhe arecadarão sempre seus quymtaes que os tomou ele em canella por que huu manoel de marys do mesmo nuno da cunha os arccadou qua por ver- tude de huua precuraçào de huu Jam fernamdcz corryciro Jrmaõ do ditõ tome piz'. Esta ‘Emformação’ encontra-se no Livro que truta das cousas da índia e do Japão, precioso códice de meados do século xvi existente na Biblioteca Municipal de Eivas, que em 1957 foi publicado, com erudito estudo, pelo Dr. Adelino de Almeida Calado, no Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. xxiv. O P.e de Witte também publicou uma breve noticia sobre o mesmo códice no Boletim da Filmoteca Ultra¬ marina Portuguesa, N.° 15. Lisboa 1960».]
Introdução 15 Novembro de 1490, quando tinha apenas quinze anos. É de crer que o então jovem Tomé Pires, filho do boticário do Rei, fosse nomeado boticário do Príncipe. Ele não teria menos de 22 ou 23 anos quando o Príncipe morreu em 1491. Isto é, aliás, confirmado pelo própiio Pires quando no fim da descrição das Ylhas de Pachãm diz: «E em purtugall bem avera vinte annõs q eu tenho vsado as ditas folhas em lugar do dito folio Jmdio que hee betelle». (foi. I58v.). Sendo assim, Tomé Pires nasceu circa 1468, teria uns 43 anos quando foi para a índia, e cerca de 70 quando morreu talvez um pouco antes de 1540. Na sua carta de 7 de Novembro de 1512 para seu irmão consanguíneo João Fernandes (9), ele também menciona sua irmã Isabel Fernandes, uma Maria Godinha, talvez a mulher de seu irmão, e uma Antónia, talvez uma sobrinha, que ele dis¬ tingue da «vosa casa, molher e filhos». Refere-se também a «Diogo lopez meu cunhado esta qua em malaca comigo, e come e bebe e dorme è minha pousada, algua cousa tem, he muito bom cavalleiro e muito bõ homem». A maneira como Pires se refere ao «meu cunhado» parece indicar que Diogo Lopes era irmão de sua mulher, a quem ele aliás não menciona na carta. Talvez Pires fosse viúvo, e possivelmente essa seria uma das razões da sua partida para o Oriente. A carta é dirigida «ao senhor o Senhor João fernandez defronte da porta da madanela, meu irmaão». A Porta da Madalena (10) não ficava longe do canto nordeste do antigo Terreiro do Paço, que correspondia mais ou menos à actual Praça do Comércio, melhor conhecida dos Britânicos por Black (9) Nada tem dc extraordinário que Tomé Pires usasse um nome diferente do de seus irmão e irmã. Embora não muito usuais, de tal não faltam exemplos. (10) Não consegui encontrar qualquer outra referência à «Porta da Madalena». Terá correspondido à velha «Porta do Ferro», também cha¬ mada «Porta da Consolação», que ficava no actual Largo de Santo António da Sé, por detrás da antiga Igreja da Madalena. Castilho. Lisboa Antiga, i, ii, 178 seqq., IV, 112 seqq.
16 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Horse Square, perto do fim da Rua Nova dos Mercadores, então a principal rua comercial de Lisboa, aproximadamente a actual Rua do Comércio. Havia várias boticas nesta rua e não é impossível que alguma delas ou outra perto do sítio pertencesse Tomé Pires, a seu irmão ou aos dois (11). Faria e Sousa diz que Tomé Pires deve ter nascido em Leiria, porque sua filha, em 1543 encontrada por Fernão Mendes Pinto na China, tinha de apelido o nome dessa cidade. Mas deve ser mera conjectura (12). Na mesma carta de 7 de Novembro de 1512 Pires refere-se duas vezes ao «Senhor Jorje de Vacõçelos ... por que tãto devo a elle pellos benefícios que tenho reçebidos de sua merçee, quamto devo a vos por rrezam do samgue». Jorge de Vasconcelos era o provedor da Casa da Mina e índia, estabelecimento onde se centrava a administração portuguesa de além-mar — um ante¬ passado do actual (1944) Ministério das Colónias. Diz ele também que enviava uma carta para o Doutor Diogo Lopes, talvez o cirurgião-mor do Rei, com quem Pires devia ter estado relacionado por causa do seu serviço como boticário do Prín¬ cipe D. Afonso. É muito natural que Tomé Pires tivesse ido para a índia sob a protecção destas duas importantes personagens. Nas suas duas cartas de 10 de Janeiro de 1513, dirigidas a Afonso de Albuquerque e «A quem quer que tiver cargo de prover malaca». Pires diz que em Lisboa o Rei — que escreveu a Afonso de Albu¬ querque recomendando-o para a primeira feitoria que vagasse — o despachara como feitor das drogarias, com 30.000 reais e 20 quin¬ tais de drogas, à sua escolha, cada ano, contando desde o dia (11) João Brandão diz no seu Tratado da majestede, grandeza e abas¬ tança da cidade de Lisboa, p. 82, que em 1552 «Também há na mesma Rua Nova boticas que em olhos de todos, segundo o muito que rêdem, cada botiqua delias pareçe que rende e vali dous mil cruzados». [Mas, como informa a referência no códice de Eivas, citado na n. 8 atrás, João Fernandes. o irmão de Tomé Pires, era correeiro.] (12) Quando a carta de Tomé Pires de 27 de Janeiro de 1516 foi publicada, o Cardeal Saraiva afirmou que ele era natural de Leiria o que não tem mais fundamento que a conclusão de Faria e Sousa, em que provavelmente se baseia.
Introdução 17 do seu embarque em Lisboa, e três homens para o servir, que ele levou consigo para a índia. Foi-lhe também entregue uma «botica», no valor de 4.000 ou 5.000 reais, que para lá era enviada. NA índia antes de seguir para malaca — A armada de seis navios sob o comando de D. Garcia de Noronha, sobrinho de Afonso de Albuquerque, partiu de Lisboa em Março e Abril de 1511. Antes desta partira de Lisboa, em Agosto de 1510, outra armada de três navios comandada por João Serrão; a armada seguinte partiu de Lisboa em Março de 1512. Uma das naus da armada de D. Garcia de Noronha, a Belém («que foi ua das mais formosas que o mar viu», segundo Barros), comandada por Cristóvão de Brito, partiu de Lisboa em 20 de Abril e chegou- a Cananor em 8 de Setembro de 1511 (13). D. Aires da Gama, irmão do Almirante D. Vasco da Gama, partiu ao mesmo tempo na nau Piedade, mas mais tarde separou-se da nau de Cristóvão de Brito, e depois de ter avistado Baticala em 7 de Setembro seguiu para Cananor. Tomé Pires foi para a índia num destes navios, os quais, segundo Barros, foram os únicos dois da armada de D. Garcia de Noronha que lá chegaram nesse ano de 1511. As cartas de Pires de 7 de Novembro de 1512 e de 10 de Janeiro de 1513 mostram que não havia muito tempo que ele estava em Cananor quando Albuquerque após a con¬ quista de Malaca voltou para Cochirn no começo de Fevereiro de 1512. Nas cartas para seu irmão e para Albuquerque, Pires diz que o Governador-Geral o chamara de Cananor, onde era «feitor das drogarias», a Cochirn. Na sua carta de 27 de Janeiro de 1516 para El-Rei D. Manuel, Tomé Pires diz: «Por Chris- tovam de Brito e dom Aires foy lá huma soma de erva lombri- gueyra, que foy comprada por Joham davilla, estando eu em purtugall: portanto saiba vossa Alteza, que nom foy por mim». Estas naus carregaiam logo que chegaram à índia e em Agosto (13) Barros, II, vi, 10. Castanhcda (III, lxxi) diz que Cristóvão dc Brito partiu de Lisboa cm 19 de Abril dc 1511 e primeiro se dirigiu a Goa; Correia (II, 197) diz que ele chegou a Cananor em Agosto.
18 Tomé Pires e Francisco Rodrigues de 1512 estavam de regresso a Portugal. É de crer que a refe¬ rida erva-lombrigueira não tivesse sido adquirida muito antes de enviada para Portugal, e se Pires ainda aqui estava nessa altura, e em fins de Fevereiro já estava na índia, só para lá podia ter seguido numa das naus de Cristóvão de Brito ou de D. Aires da Gama. Pode pois concluir-se com segurança que Tomé Pires partiu de Lisboa em 20 de Abril e chegou à índia em 8 de Setembro de 1511, ou um ou dois dias depois (14). Na sua carta de 30 de Novembro de 1513 Afonso de Albu¬ querque diz a el-Rei dos distúrbios e irregularidades por parte dos homens nomeados «quadrilheiros e tanadares e escrivães das presas» em Malaca. Em vista do que «e tamto que ho soube, mandey lá Tomé Pires, boticário do Primcipe, por me parecer homem solicito, que ele e Rui de Araújo [que Albu¬ querque deixara como feitor em Malaca] e o capitão tirasem inquirição sobre todo este feito». Tomé Pires partiu de Cochim para Malaca a bordo do Santo André (15), de conserva com a nau Santo Cristo, em Abril ou Maio de 1512, depois de oito meses na índia. Pela sua carta de 10 de Janeiro de 1513 para Albuquerque, parece que os dois navios tiveram mau tempo logo à saída de Cochim, tendo alguma carga sido lançada ao mar, entre a qual mais de 400 cruzados de «fazenda» perten¬ cente a Pires. em malaca — A Santo Cristo e o Santo André chegaram a Malaca em Junho ou Julho, pouco depois da morte do feitor (14) Quando a carta dc Pires, de 27 de Janeiro de 1516, foi publicada, D. Francisco de São Luís escreveu: Tomé Pires «passou depois à índia, c creio que fez esta viagem entre os anos 1512 c 1515». Mas trata-se de mera suposição infundada. (15) Navio dc 70 toneladas construído em Cochim por Gonçalo Eanes. Cartas, III, 128, 355; V, 492. Este navio fazia parte duma frota que em 1513 foi a Java com Tomé Pires como feitor, e da que em 1516-17 o levou para a China. O Santo André perdeu-se em Outubro de 1518 quando de regresso a Malaca. Barros, III, ii, 8.
Introdução 19 Rui de Araújo (16). A carta de 7 de Novembro de 1512 para seu irmão é o primeiro documento que temos sobre a estadia de Tomé Pires em Malaca. Nessa carta diz ele: «estou em Malaca por escrivão da feitoria e por contador e por veador das drogarias». Gozava de boa saúde e já estava rico, «mais do que cuidareis», apesar da sua fazenda, de valor superior a 400 cruzados, no Santo André ter sido lançada ao mar, e das queixas sobre o seu salário que mais tarde fez a Afonso de Albu¬ querque. Pedia a este mais 50.000 reais pelo seu serviço «com a escrivaninha», além de 30.000 reais como «feitor das drogarias que de Portugal trouxe». Também se queixava que estivera a maior parte do tempo de cama com febres. «Por eu estar muito doente dois meses em cama», segundo diz, o que mostra ter adoe¬ cido logo depois de escrever a carta a seu irmão. Diogo Lopes, seu cunhado, ainda vivia com ele em Novembro de 1512, mas em 4 de Novembro de 1513 já falecera e Tomé Pires foi seu testamenteiro. Em 6 de Janeiro de 1514 Rui de Brito, Capitão de Malaca, escreveu a el-Rei D. Manuel e a Afonso de Albuquerque dizendo- -Ihes que em Março de 1513 enviara a Java uma frota de quatro navios, comandada por João Lopes de Alvim, buscar especiarias. Três dos navios eram: São Cristóvão, Santo André e uma caravela, comandados respectivamente por Francisco de Melo, Martim Guedes e João da Silveira, «e por feitor da armada, Tomé Pires, escrivão desta feitoria e contador dela», acrescenta Rui de Brito. Partiram de Malaca em 14 de Março e regressaram em 22 de Junho de 1513, com cerca de 1.200 quintais de cravo (17). Pela (16) Numa carta escrita de Malaca a Afonso de Albuquerque em 22 de Fevereiro de 1513, F. P. de Andrade diz que o Santo André e a Santo Cristo chegaram durante os acontecimentos que ocorreram entre o dia de S. João (24 Junho) e o dia de S. Tiago (26 Julho), Cartas, III, 545. (17) Castanheda (III, exi) e Barros (III, v, 6) dizem que Alvim foi a Japara buscar algum cravo salvo do junco naufragado no ano anterior, quando voltava da primeira expedição portuguesa às Ilhas das Especiarias. Vide p. 455.
20 Tomé Pires e Francisco Rodrigues sua descrição de Java (fols. 148-55) — «Da melhor maneira que dela pude inquerir e investigar, verificando-me com muitos. E o que me parecia concordarem bem concordado isto escrevi» — se vê que Pires visitou a costa norte da ilha, pelo menos de Cherimon a Grisee. Ao referir-se a Baros, um porto na costa noroeste de Samatra, diz ele: «Eu fui já por detrás desta ilha obra de 15 léguas.» Essa foi evidentemente uma viagem dife¬ rente da de Java mas não sabemos em que data. Talvez tivesse escrito, ou pelo menos tencionasse escrever, outro livro como sugere quando se refere à «moeda e pesos de Java», dizendo que «destes pesos e medidas se falará geralmente em todas as partes em outro livro» (foi. 150v.); mas se o chegou a escrever, tal livro infelizmente está agora perdido. Dois documentos de 12 de Novembro de 1513 e três outros de 7 de Janeiro, 12 de Janeiro e 5 de Maio de 1514, mostram que Pires estava então em Malaca; em 27 de Janeiro de 1515, data da morte de Ninachatu, ainda ele lá estava, como se vê pela última página da Suma (18). Mas p.-ovavel r ente terá partido para Cochim pouco depois dessa data. De facto, na sua carta de 8 de Janeiro de 1515 para el-Rei D. Manuel, Jorge de Albu¬ querque, o novo capitão de Malaca, menciona a China e a Cochin- china, e os reinos de Sião, Bornéu, Lucoes e «Tanjunpura, onde é a mina dos diamantes, como Tomé Pires melhor leva todas estas coisas declaradas». Claro está que isto se refere à Suma Oriental. Parece que Pires partiu de Malaca ao mesmo tempo que esta carta, imediatamente após 27 de Janeiro de 1515, num dos dois navios que chegaram a Cochim no fim de Fevereiro. Sabemos da chegada destes navios por dois documentos datados de 30 (sic) de Fevereiro e 3 de Março de 1515, em que Pêro de Mascarenhas, Capitão de Cochim. dá ordem para que fosse (18) Pires diz: «e se por ventura eu não chegasse diante da pessoa de el-Rei nosso senhor ou do seu governador das índias, deve vir sem detença a Malaca com poder». Isto parece querer dizer que ele ainda estava a escrever em Malaca. Vide nota p. 441-2.
Introdução 21 abastecida uma atalaia (barco) que enviava a Goa com notícias de Malaca para Afonso de Albuquerque (19). REGRESSO À ÍNDIA E EMBAIXADA À CHINA — Pelas palavras atrás citadas da carta de Jorge de Albuquerque para D. Manuel se vê que Tomé Piies partiu de Malaca com intenção de regressar a Portugal. Mas a sorte de Tomé Pires estava por outras pala¬ vras escrita no Livro do Destino. Afonso de Albuquerque tinha partido de Goa para Ormuz em 21 de Fevereiro de 1515 e só regressou uns dez meses depois, para falecer à entrada de Goa em 16 de Dezembro. Entretanto o novo Governador- -Geral da índia, Lopo Soares de Albergaria, partira de Lisboa com uma armada de treze (ou quinze) naus no princípio de Abril, e chegou a Goa no começo de Setembro de 1515. Daí seguiu para Cananor e Cochim, onde chegou antes do fim de Setembro. Com o novo Governador ia Fernão Peres de Andrade, que el-Rei enviava como Capitão-Mor duma armada para ir da índia «descobrir a China» e levar lá um Embaixador português. Castanheda informa-nos «que el-Rei de Portugal não o (embaixador) mandava com ela, antes cuidando que el-rei da China estava perto mandou a Fernão Peres que mandasse lá um dos capitães, ou quem lhe bem parecesse. E o governador não quis senão mandar este Tomé Pires, que mandou com con¬ selho dos fidalgos e capitães da índia, e porque este Tomé Pires fora boticário do Príncipe Dom Afonso, e por que conheceria melhor que outro as drogas que havia na China.» Por outro lado Gaspar Correia diz que o Governador, depois de ir a Goa e voltado a Cochim em Fevereiro de 1516, «despachou Fernão Peres de Andrade para China, como vinha ordenado; e mandou com ele um Tomé Pire, filho do boticário de elRey dom João, que era muito de sua amizade, e por ele ser homem muito pru¬ dente, e muito curioso de saber todas as coisas da índia» (20). (19) Canas, vi, 252-3. (20) É estranho que Gaspar Correia parece ler esquecido que Pires 3
22 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Assim, parece que o Governador já era velho amigo de Pires, o que o deve ter influenciado na sua escolha para tão importante missão, apesar do boticário ser homem do povo, como os cro¬ nistas se não esquecem de salientar. Ele deve ter escolhido Pires ao encontrá-lo quando pela primeira vez chegou a Cochim em fins de Setembro. Pires certamente era então um homem muito rico, e gostaria de regressar a Portugal depois de uma ausência de quase cinco anos. Mas a ideia de ir ver por si pró¬ prio aquela grande e misteriosa China, de que tanto tinha ouvido em Malaca, com novas e excepcionais possibilidades de aumentar a sua riqueza, deve tê-lo fortemente seduzido. Além disso, ele sentir-se-ia agravado poi Albuquerque, que utilizou a sua com¬ petência mas nunca o promoveu acima do modesto cargo de escrivão, apesar das suas justificadas queixas e pedidos. Alber¬ garia era inimigo de Albuquerque, e, segundo Gaspar Correia, era amigo de Pires, que possivelmente lhe teria sido fortemente recomendado em Lisboa. Nessa altura Pires tinha acabado ou estaria prestes a concluir a Suma Oriental, que poderia ter impressionado não só o novo Governador como ainda os mui¬ tos «fidalgos e capitães da índia» referidos por Castanheda. Também se não deve esquecer que Pires, assim como seu pai, embora homens de condição humilde, tinham estado infima¬ mente relacionados com a corte, e certamente tinha melhor educação do que a grande maioria dos fidalgos portugueses então na índia. Na carta para seu irmão, Pires refere «as deli¬ cadezas em que me eu criei viciosamente». Barros diz: «o embai¬ xador ... havia nome Tomé Pires, que Lopo Soares, na índia, escolheu para isso. E posto que não era homem de tanta qua¬ lidade, por ser boticário e servir na índia de escolher as drogas de botica que haviam de vir pera este reino, pera aquele negócio já estava no Oriente quando acrescenta: «por isso veio com ele embarcado pera ir nesta viagem da China, que em Portugal se falavam grandes coisas da China que o Tomé Pires cubiçou de ir saber e ver, para as escrever, como depois foi, e adeante d’ele contarei». 11, 473.
Introdução 23 era o mais hábil e auto que podia ser; porque, alem de ter pessoa e natural descrição com letras, segundo sua faculdade, e largo de condição e aprazível em negociar, era mui curioso de inquiiir e saber as cousas, e tinha um espírito vivo para tudo». Assim, a escolha do modesto mas inteligente, industrioso, experiente e bem educado Tomé Pires para o importante posto de embai¬ xador àquela China desconhecida afigura-se menos extraordinária do que talvez tenha parecido a alguns cronistas posteriores (21). Embora Tomé Pires tenha partido de Malaca em fins de Janeiro de 1515 com a ideia de regressar a Portugal, a sua muito interessante carta de 27 de Janeiro de 1516 «sobre as drogas e onde nascem» (Apêndice I), mostra que ele já não pensava em regressar tão cedo. Daqui se pode depreender que Pires já então sabia da sua próxima ida à China. de cochim a cantão — Assim que Lopo Soares de Alber¬ garia regressou a Cochim em Fevereiro de 1516 logo despachou Fernão Peres de Andrade para a China com uma esquadra de quatro velas (22), em que ia o embaixador Tomé Pires. A esqua- (21) Osório, De rebus Emmanuelis, lib. XI, c Couto, Década XII, v. 4, referem-se à embaixada e ao embaixador, mas nem sequer mencionam o seu nome. Não sabemos se o códice contendo a Suma Oriental, agora cm Paris, estava na posse do Bispo Osório quando ele escreveu a sua célebre obra; mas parece que não estava, de contrário ele teria mostrado mais con¬ sideração pelo nome de Tomé Pires. (22) Góis (IV, ii) diz-nos que Albergaria chegou a Cochim c imedia¬ tamente despachou Andrade para a China; Barros (III, i, 2) informa que Albergaria partiu de Cochim cm 8 de Fevereiro de 1516 depois de ter des¬ pachado a armada de Andrade para a China; por seu turno Galvão diz que a armada para a China partiu de Cochim em Abril. Numa muito interes¬ sante e ainda inédita carta escrita de Malaca, 10 de Agosto de 1518, para el-Rei D. Manuel, Simão de Andrade diz que quando em 20 de Janeiro de 1516, vindo da entrada do Mar Roxo chegou a Goa, aí encontrou Alber¬ garia. (Torre do Tombo, Gaveta 15, Maço 17, N.°27). Tão pouco os cronistas são muito claros quanto à composição da armada. Barros (II, ii, 6) diz que el-Rei D. Manuel ordenara que a «frota havia de ser de quatro velas, que na índia se haviam de armar»; Correia (II, 473) diz que Andrade partiu
24 Tomé Pires e Francisco Rodrigues dra tocou primeiro no porto de Pacém, em Samatra, onde se lhe juntou o navio do comerciante Joannes Impole (Giovanni da Empoli), florentino ao serviço português, que lá se encon¬ trava carregando pimenta para levar para a China. Mas o navio de Impole incendiou-se e a carga perdeu-se, pelo que Andrade decidiu que, depois de escalar Malaca, iria a Bengala antes de seguir para a China. Porém o Capitão de Malaca, Jorge de Brito, insistiu em que Andrade devia ir à China sem demora, pois estava preocupado por causa de Rafael Peres- trelo, que no ano anterior lá tinha ido com outros Portugueses num junco. Embora com relutância, porque a monção já estava muito adiantada, Andrade fez-se à vela para a China em 12 de Agosto de 1516(23), na nau Santa Barbara, com António Lobo Falcão numa caravela, Manuel Falcão noutra nau, e Duarte Coelho num junco. A armada encontrou tempo adverso ao largo da costa da Cochinchina e os navios estiveram quase per¬ didos. Estava-se em meados de Setembro e Andrade decidiu regressar a Malaca. O junco foi a Sião, onde Duarte Coelho tinha estado anteriormente; os outros três navios, depois de fazerem aguada na costa, voltaram para sul passando por Pulo Condore e Patani. Quando Andrade chegou a Malaca encontrou Perestrelo de regresso da China com grandes proventos. Decidiu adiar a expedição a Bengala e em Dezembro foi a Pacém carregar de pimenta a fim de seguir para a China logo que a monção permitisse. Em Maio voltou a Malaca onde verificou que, tendo Jorge de Brito morrido, havia grande disputa entre Nuno Vaz Pereira, cunhado de Brito, e António Pacheco, Capitão-mor do Mar, pois ambos queriam suceder-lhe na capitania da forta- de Cochim «e em sua companhia Simào d'Alcáçova, e António Lobo Falcão, e Jorge Mascarenhas, e foi demandar Pacém». Mas Castanhcda (IV, iiii) e Góis (ibidem) mencionam Falcão apenas, «porque a mais companhia havia de tomar em Malaca». (23) Quase todos os cronistas indicam esta data, mas Castanhcda diz que foi em 15 de Agosto.
Introdução 25 leza. Depois de vãos esforços para os reconciliar, Andrade partiu de Malaca em Junho com uma frota de oito velas. Cas- tanheda refere-se-lhe assim: Andrade «foi na nau Espera que seria de duzentas toneladas, e em Santa Cruz Si mão de Alcáçova, e Pero Soares em Santo André, e Jorge Mascarenhas em San¬ tiago, e foi também com ele Jorge Botelho em um junco dum mercador de Malaca chamado Curiaraja. e Manuel de Araújo em outro de Pulata, e em outro seu António Lobo Falcão, e era uma armada de sete velas, com que partiu para a China». Porém, Barros diz que havia um oitavo navio, comandado por Martim Guedes (24). A armada chegou a Tamão ou Tumon(25), aproximada- mente a meio da entrada do Rio de Cantão, em 15 de Agosto de 1517, depois de encontrar uma esquadra chinesa cruzando ao largo da ilha, como protecção contra os piratas. Os Chineses fizeram fogo contra os Portugueses sem contudo lhes causarem qualquer dano, e Andrade não retribuiu o fogo, com todas as demonstrações de paz e amizade. Todos os cronistas descre¬ vem, por vezes muito pormenorizadamente, o que aconteceu a Andrade e à armada desde a chegada a Tamão até ao desem¬ barque do embaixador Tomé Pires em Cantão (26). Assim que ancorou em Tamão, Andrade enviou uma mensagem ao capitão daquela armada chinesa que, nas pinturescas palavras de Barros, «vinha ladrando trás ele, fazendo-lhe saber quem era, e como vinha com uma embaixada del-Rei D. Manuel de Por¬ tugal, seu senhor, a el-Rei da China». O capitão chinês deu as boas-vindas a Andrade e disse «que já por aquele navio de (24) Correia também diz sete navios, Galvão e Sousa oito, c Góis e Osório nove. O engano de Góis está cm ele dizer que Duarte Coelho foi num navio com Andrade; mas quando este chegou a Tamão, já havia um mês que aquele lá estava, pois tinha vindo dircctamente de Sião onde fora no ano anterior, quando se separou de Andrade na costa da Cochinchina. (25) Ilha Lin Tin. Vide foi. 16lr. (p. 362) e Apêndice IV. (26) Correia II, 524 seqq.; Castanhcda, IV, xxviii-xxxi; Barros, III, i, 8; Góis, VI, xxviiii. As citações que seguem no texto são de Barros.
26 Tomé Pires e Francisco Rodrigues sua companhia, que havia dias que viera ante ele, tinha sabido como ele partira de Malaca; e por os chins que a ela iam, tam¬ bém tinha noticia da verdade e cavalaria dos portugueses. Que qualquer coisa que houvesse mister, mandasse pedir ao Pio da vila de Nantó ... que servia um cargo como entre nós o oficio de Almirante do Mar, e era nome do oficio e não da pessoa» (27). Então Andrade enviou uma mensagem ao Pio — que entretanto mandara um mensageiro para saber quem eram e o que dese¬ javam — a informá-lo «fazendo-lhe saber quem era, e como vinha com uma embaixada del-Rei D. Manuel de Portugal, seu senhor, a el-Rei da China ... e que a principal causa da sua vinda era trazer um embaixador, que el-Rei de Portugal, cujo capitão ele era, mandava a el-Rei da China com cartas sobre assento de paz e amizade; que lhe pedia houvesse por bem de lhe dar pilotos, que com aquelas velas que trazia o metessem dentro na cidade Cantão.» O Pio respondeu com palavras muito amáveis, mas que a licença teria de vir dos governadores da cidade. Depois de muitas mensagens e demoras, Andrade decidiu não esperar mais e ir a Cantão com alguns dos seus navios, utilizando os pilotos chins que trouxera de Malaca. Mas assim que os navios saíram do porto foram assaltados por um grande temporal, e só com muita dificuldade e danos se pude¬ ram salvar. Os Chineses em terra recusaram qualquer assis¬ tência para a reparação dos navios portugueses, mas Andrade fez o melhor que pôde e «mandou aparelhar dois navios somente — o de Martim Guedes, em que se meteu, e o de Jorge Mas- carenhas — e derredor de si os batéis das outras naus, todos (27) «O Pci-wo (abreviatura do titulo Pei-wo Tu-chih-hui, coman¬ dante militar cuja função principal era guardar a costa contra as depredações dos piratas japoneses] em Nan-t’ou tinha autoridade para examinar todos os navios que fossem a Cantão... Pei-wo pronuncia-se pi-wo no dialecto do distrito costeiro, e de pi-wo temos a forma Pio nos relatos e manuscritos portugueses.» T'ien-tsc Chang, Sino Portuguese Trade jrom 1514 to 1644, p. 41. Sobre Nan-t’ou, chamado Nantoo por Pires e Nantó pelos cronistas, vide nota em p. 362.
Introdução 27 mui bem aparelhados, assi de guerra como de paz, e partiu-se para o porto de Nantó, deixando por capitão das outras velas a Simão de Alcáçova, com fundamento de mais perto mandar seus recados e requerimentos ao Pio, que o deixassem ir à cidade Cantão; e quando lho impedisse, tomar por si a licença. Che¬ gado a Nantó, mandou logo o feitor da armada Joanes Impole, mui bem acompanhado de gente limpa e trombetas, com um requerimento ao Pio, pedindo-lhe licença pera passar a Cantão, com recado e embaixador que levava». Depois de novas demoras «começou Fernão Peres a fazer seu caminho; ao qual o Pio, quando o viu partir, lhe mandou pilotos da terra, que o levaram ante a cidade Cantão ... aqui chegou, que foi quase em fim de Setembro com toda a pompa e festa que ele pôde». A jornada pelo rio acima levou três dias, porque Andrade não desejava viajar de noite. chegada a cantão — Cerca de dezanove meses haviam decorrido desde que Pires partira de Cochim até chegar em frente de Cantão — viagem que, em condições favoráveis, pode¬ ria levar cerca de quatro meses. Os cionistas nada dizem das reacções de Pires em face de tais demoras, contratempos e des¬ gostos que sofreu durante todos estes meses, mas pode-se ima¬ ginar o que seria o seu desespero, impaciência e aborrecimento. Mas isso ainda nada era comparado com o que o esperava na China, embora os primeiros contactos com os Chineses, através do Pio de Nantó, tivessem sido premonitórios do que lhe estava reservado. É natural que Andrade frequentemente pedisse a opinião de Pires e ambos agissem de comum acordo. Desfraldando bandeiras e salvando com toda a artilharia, os navios portugueses lançaram ferro em frente do cais prin¬ cipal, antes do posto de Huai-yuan (28). O Pu-chêng-shih ou (28) Esta informação consta dum relato chinês contemporâneo sobre a chegada de Andrade a Cantão em 1517. O relato, publicado sob a Dinastia Ming em 1621, bastante confuso e por vezes inexacto, foi traduzido por
28 Tomé Pires e Francisco Rodrigues tesoureiro provincial, Wu T'ing-chu (29), mais alta autoridade ao tempo em Cantão, protestou contra o que dizia serem violações do costume da terra da parte dos Portugueses, que além disso vinham sem consentimento oficial. Andrade respondeu que as salvas de artilharia e desfraldar de bandeiras eram devidas à sua ignorância, e significavam um sinal de respeito, e quanto à sua vinda sem autorização, que o Pio afinal o autorizara a ir e lhe enviara pilotos. O Pu-chêng-shih deu-se por satisfeito e, segundo os cronistas portugueses, enviou uma mensagem aos «Governadores» da cidade, o Tuiam, o Concam e o Chumpim (30), que estavam ausentes. Entretanto Andrade deu ordem para que nenhum Português fosse a terra nem qualquer visitante chinês fosse consentido a bordo dos seus navios. Pouco depois os três altos dignatários chineses chegaram a Cantão em dias dife¬ rentes e com grande cerimonial. Foi arranjado um encontro com os Portugueses. Andrade enviou a terra o feitor da armada. W. F. Mayers, com o título First arrival of lhe Portuguese in China, in Notes and Queries on China and Japan, I, 129-30. Hongkong 1868. (29) Chang, op. cit., p. 42. O Pu-chêng-shih é o Puchancij de Barros ou Puchãci de Castanhcda. (30) Estes são os nomes dados por Barros; Castanheda chama-lhes Tutão, Conquão e Compim. A questão de saber a que expressões chinesas correspondem estas antigas versões portuguesas tem sido objecto de con¬ trovérsia e ainda está em dúvida. Mas segundo Pelliot (Un ouvrage sur les premiers temps de Macao, p. 64), parece que eles correspondiam a Tu-t’ang, Tsung-kuan e Tsung-ping. O Prof. Moule diz-me que o significado destas expressões é: Tu-t'ang — propriamente um oficial no primeiro departamento da Junta de Censores, mas também um titulo dado comummente a um Vice- -rei (Tsung-tu) ou Governador provincial (Hsiin-fu); Tsung-ping — Bri¬ gadeiro-General, comandante das tropas num distrito chamado Chên: Tsung-kuan — comandante das tropas num departamento (ou condado) ou subdepartamento, fu ou citou; o cargo era muitas vezes exercido pelo gover¬ nador civil da área respectiva. Dalgado ocupa-sc destes nomes, mas as suas conclusões devem ser consideradas com toda a reserva. Glossário Luso- -Asiático, s.v. Tutão, Compim, Conquão. O Tutam ou Vice-rei era «Ch’ên Hsi-hsien, que então residia em Wu-chou na actual província de Kwang-si». Chang, p. 43.
Introdução 29 bem acompanhado «de gente vestida de festa e com trombetas diante, por ir com mais pompa, vendo que os chins nestas cousas eram mui fumosos, e que as celebravam com grande aparato». O feitor disse aos «Governadores» chineses como El-Rei D. Manuel de Portugal, desejando «ter conhecimento e prestança de amor e amizade com este tamanho príncipe, como era el-Rei da China, mandara armar alguns navios a ele, Fernão Peres, seu capitão, para trazer um embaixador com cartas e presente que ali vinha. O qual embaixador e presente ele, Senhor Rei, mandava que fosse entregue aos seus governadores de Cantão, que (segundo tinha sabido), por meio deles podia ser encaminhado à Corte, onde estava o seu Rei, e ele, Fernão Peres se tornasse para Malaca, e no seguinte ano tornaria lá outro capitão para trazer o dito embaixador, porque já nesse tempo poderia ser despachado». Os «Governadores» chineses «responderam com muitas palavras de contentamento ... E quanto ao embaixador, que logo se daria aviamento pera ser agasalhado em terra; e tanto que eles rece¬ bessem a entrega dele, escreveriam a el-Rei seu senhor a causa de sua vinda, pera saber o que mandava que nisso fizessem, porquanto sem recado seu não podia dali partir. ... Finalmente, no dia em que Fernão Peres de Andrade o entregou no cais de pedra com grande estrondo de artelharia e trombetas, e a gente vestida de festa, ele com sete Portugueses, que ficaram em sua companhia pera irem com ele a esta embaixada, foram levados a seu aposentamento. que eram umas casas das mais nobres que haviam na cidade. O qual foi logo visitado dos principais da cidade.» As casas eram aquelas em que vivia o Superintendente da repartição dos juncos comerciais, de nome Ying-hsiang (31). O presente para o Rei da China, que Correia diz «ia fechado, que se não havia de abrir senão ante el-Rey», foi levado para a mesma casa e fechado à chave, sendo esta entregue a Pires. O desembarque da embaixada deve ter sido em fins de Outubro de 1517. (31) Chang, p. 44.
30 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Depois de declinar várias solicitações para ir a terra, Andrade despediu-se dos «Governadores» porque tinha recebido notícias de que os navios portugueses em Tamão tinham sido atacados pelos piratas, ainda que sem êxito, e também porque alguns dos seus homens caíam doentes com febres e desinteria, nove dos quais morreram, incluindo Impole. Desta vez os Chineses ajudaram bem a reparar os navios portugueses, e Andrade des¬ pachou Coelho no junco para Malaca, onde chegou em fins de Março de 1518, «para levar nova a Malaca como fora recebido o embaixador que levara, e tinha assentado paz com os gover¬ nadores de Cantão, e como nossas cousas eram mui bem rece¬ bidas naquelas partes». Ao mesmo tempo Jorge Mascarenhas foi enviado à descoberta das Ilhas Liu Kiu. Depois de chegar a Chang-chou e Fukien, Mascarenhas foi por Andrade mandado regressar, pois este recebera notícias de Malaca, onde o auxílio da sua esquadra era necessário, e porque os «Governadores» de Cantão o informaram que o seu Rei lhes dissera que lhe podiam enviar o Embaixador Tomé Pires. Antes de partir, Fernão Peres de Andrade «mandou lançar pregões que se queria partir; que se houvesse pessoa que de algum Português tivesse recebido algum dano, ou lhe devesse cousa alguma, viesse a ele pera lhe mandar satisfazer tudo; a qual cousa foi mui louvada dos naturais e nunca entre eles vista, e houveram sermos homens de muita verdade e justiça». Então Andrade fez-se à vela com toda a sua esquadra em Setembro de 1518 (32), depois de quase catorze meses na China, e chegou a Malaca «mui próspero em honra e fazenda, cousas que poucas vezes juntamente se conse¬ guem», comenta Barros. De Malaca Andrade seguiu directamente para a índia, e passado um ano partiu em Janeiro de 1520 para Lisboa, onde chegou em Julho. Góis termina o capítulo «Da viagem que (32) Correia diz Setembro, Castanheda o começo de Setembro, Barros o fim de Setembro, e Góis diz Outubro.
Introdução 31 Femão Peres de Andrade fez à China, e do que lhe aconteceu até tornar ao Reino», dizendo que Andrade foi de Lisboa a Évora onde o Rei e a Rainha então estavam, «dos quais foi mui bem recebido, e el-Rei lhe perguntava muitas vezes pelas coisas da China, e das outras províncias daquela região, ouvindo-as com muito gosto, porque de seu natural era curioso de saber o que passava pelo mundo, pera disso tomar o que mais cum¬ prisse ao governo de seu estado, reinos, e senhorios.» (IV, xxiiii). Isto mostra o interesse que as pormenorizadas notícias da China, trazidas directamente por Andrade e sua gente, despertou em Portugal, e explica como os cronistas dispunham de tanto mate¬ rial para as suas longas descrições de Cantão, da chegada de Pires, e tudo que lá se passou com Andrade e a sua armada. em cantão — Barros diz que sete Portugueses ficaram com Pires em Cantão. Porém Cristóvão Vieira informa-nos na sua carta escrita de Cantão em 1524 que «a gente que fica em companhia de Tomé Pires» eram Duarte Fernandes, Fran¬ cisco de Budoia (33), Cristóvão de Almeida, Pedro de Faria e Jorge Alvares, todos portugueses; «eu próprio, persa de Ormuz», doze moços e cinco intérpretes; i.e., cinco portugueses, um persa lusitanizado, e dezassete outros. Apesar da mensagem enviada pelos «Governadores» de Cantão a Andrade, antes dele partir de Tamão, que o seu Rei lhes dissera que podiam enviar-lhe o Embaixador português, Pires e a sua comitiva tiveram que esperar para cima de quinze meses. Mais adiante Barros diz: «porque é tanta a majestade dêste príncipe e os negócios desta qualidade são tão vagarosos, principalmente quando gente estrangeira há-de ir a ele, por (33) Mais adiante escrito Bedois. Não conheço tal nome em portu¬ guês; sugere engano do copista por ‘Bulhões', nome não muito raro, ou ‘Budens’, aldeia algarvia perto de Lagos. (A. A. Cortesão regista «topó¬ nimo Bedonis» e o apelido «Bodonia» no seu Onomástico Medieval Por¬ tuguês. Coimbra 1903).
32 Tomé Pires e Francisco Rodrigues tudo ser resguardos e cautelas, que há mister muita paciência quem houver de esperar seus vagares. E contudo, sendo já idos três recados de Cantão a el-Rei, e ele ter mandado outros tantos aos governadores da cidade, perguntando mui miuda- mente por nossas coisas, mandou que fosse o embaixador». Quando Andrade deixou Pires com os «Governadores» de Can¬ tão disse-lhes que daí a um ano outro Capitão português viria com uma armada buscar o Embaixador. Andrade chegou à índia em fins de 1518, e o novo Governador, Diogo Lopes de Sequeira, que tomou posse do cargo em 27 de Dezembro desse ano, nomeou António Correia, seu sobrinho, para ir com uma armada à China, evidentemente com o propósito de trazer a Embaixada de Tomé Pires. Mas Simão de Andrade, irmão de Fernão Peres de Andrade, havia escrito a el-Rei D. Manuel a carta atrás referida, de 10 de Agosto de 1518, datada de Malaca onde era Capitão do Mar, enumerando os seus serviços e pedindo para ser nomeado capitão de alguma das fortalezas de Malaca, Goa ou Ormuz, ou que lhe fosse concedida qualquer outra mercê. Esta carta deve ter seguido juntamente com as notícias trazidas da China pelo junco de Duarte Coelho, que chegou a Malaca em fins de Março de 1518. O Rei certamente ficou bem impressionado com o êxito da visita de Fernão Peres de Andrade à China, e, embora não nomeasse Simão de Andrade para qualquer fortaleza, enviou autorização para a sua ida à China como capitão da primeira armada que lá fosse depois do regresso de seu irmão. Simão de Andrade apresentou a auto¬ rização real e foi enviado à China em vez de António Correia. Em Abril de 1519 partiu de Cochim com uma nau e em Malaca juntaram-se-lhe três juncos, cujos capitães eram Jorge Botelho, Álvaro Fuzeiro e Francisco Rodrigues, todos sob o comando de Simão de Andrade. A pequena frota chegou a Tamão em Agosto do mesmo ano. Contrastando singularmente com seu irmão, Simão de Andrade não só tinha pouco tacto como era vaidoso, capri¬ choso e violento, qualidades que os cronistas não deixam de
Introdução 33 salientar. A sua nomeação em vez de António Correia, homem melhor qualificado para tal missão, foi um daqueles pequenos mas fatídicos acidentes que por vezes ocorrem no decurso da história e que neste caso se tornou na causa principal do desas¬ troso fim da Embaixada de Tomé Pires e de todas as desgra¬ ças que os Portugueses sofreram na China durante mais de trinta anos. Simão de Andrade esperava, não sem razão, que quando chegasse a Tamão encontraria Pires de regresso da embaixada ao «Rei da China». Em vez disso verificou que o Embaixador ainda não partira de Cantão. Pires devia estar muito aborre¬ cido com as insuportáveis demoras chinesas, e naturalmente queixou-se ao Capitão português. Acostumado ao prestígio e respeito de que os Portugueses desfrutavam no Oriente, Andrade certamente ficou ressentido com o procedimento dos Chineses, que tomou como uma afronta à dignidade portuguesa. Não é de estranhar que a sua indignação e irritação fossem muito grandes. Isso sem dúvida contribuiu para o estado de espírito que o levou aos seus lamentáveis desmandos — um ponto a que os historiadores, tanto do passado como do presente, não têm prestado a devida atenção, embora tal me pareça neces¬ sário para o juízo sóbrio deste muitas vezes discutido passo histórico. Referindo-se às demoras de que a Embaixada de Tomé Pires foi vítima, Barros comenta: «é tanta a magestade deste Príncipe (o Rei da China), e os negocios desta qualidade são tão vagarosos, principalmente quando gente estrangeira ha-de ir a ele, por tudo ser resguardos, e cautelas, que há mister muita paciência quem houver de esperar seus vagares». Mas paciência não era virtude de Simão de Andrade, ele cometeu vários actos que as autoridades chinesas consideraram violação das suas leis, tal como a construção de um forte de pedra e madeira em Tamão, com o pretexto de se defender dos ataques dos piratas, e a erecção duma forca em que um marinheiro foi executado. Não sabemos se estes e outros actos mais repreensíveis, tal como a compra de crianças chinesas roubadas, foram praticados antes
34 Tomé Pires e Francisco Rodrigues de Pires seguir de Cantão para Pequim, mas sem dúvida foram ominosos e tiveram a mais desastrosa repercussão em aconte¬ cimentos futuros. de cantão a pequim — Cristóvão Vieira diz-nos, na sua carta de 1524, que Pires partiu de Cantão para Pequim em 23 de Janeiro de 1520 (34). Embora Barros utilizasse esta carta para compilar a sua pormenorizada descrição das aventuras da Embai¬ xada na China, ele recebeu informação de outra origem — talvez do próprio Pires. Pode ter-se como certo que Pires escreveu várias vezes informando sobre o progresso e acontecimentos da sua viagem depois que partiu de Cochim, e que pelo menos algu¬ mas dessas cartas chegaram à índia e a Lisboa. Correia diz mesmo que Pires «em tempo do Governador [D. Duarte de Menezes, que governou a índia de Janeiro de 1522 a Dezembro de 1524] lhe mandou um livro em que lhe dava conta das riquezas e gran¬ dezas do Rei da China, que pareciam duvidosas de crer» (II, 678). Infelizmente não restam vestígios de qualquer coisa que Tomé Pires tivesse escrito da China. A Embaixada começou a subir pelo rio acima em três galés chinesas, com toldos de seda e bandeiras portuguesas. Quando chegaram perto da cordilheira a norte de Kwang-tung deixaram as embarcações e seguiram pelo desfiladeiro de Mei-ling em liteiras, a cavalo e a pé. Duarte Fernandes, da comitiva de Pires, morreu nestas montanhas. Daí escreveu Pires a Simão de Andrade informando-o do progresso da viagem. Seguiram para norte e chegaram a Nanquim em Maio de 1520. O Impe¬ rador estava nesta cidade mas não quis receber aí o Embaixador, mandando-lhe dizer que seguisse para Pequim e lá aguardasse (34) Todas estas datas referentes à viagem de Pires até Pequim c volta a Cantão são dadas por Vieira e foram utilizadas por Barros. Góis (IV, xxv) diz, evidentemente cm erro, que Simão de Andrade chegou a Tamão em Agosto de 1518, e que Pires partiu de Cantão em Outubro de 1519 c chegou a Pequim em Janeiro de 1520.
Introdução 35 a sua chegada (35). Sabemos por Vieira que em 2 de Agosto foram enviadas cartas para Cantão, as quais foram entregues a Jorge Botelho e Diogo Calvo em Tamão. Vasco Calvo diz que as cartas eram dirigidas a D. Aleixo de Menezes, e que Jorge Alvares foi encarregado de as levar (36). Não sabemos a data da chegada de Tomé Pires a Pequim, mas já lá estava quando o Imperador entrou na cidade em Fevereiro de 1521 (37). Enquanto o Imperador esteve em Nanquim chegou aí um embaixador do ex rei de Malaca queixando-se contra os Portugueses, «ladrões do mar» que tinham tomado o seu reino, e pedindo ajuda visto ser vassalo do Imperador. Trouxera uma carta do seu rei, e o Imperador também recebeu carta de dois mandarins de Pequim e ainda outra dos mandarins de Cantão acumulando queixas contra os Portugueses, sobretudo por causa dos desmandos se Simão de Andrade. Além disso Pires levava três cartas para (35) [Curioso é o que Vieira diz na sua carta de 1524: «Nós em Nanquim vimos o Rei em pessoa, que andava folgando, contra estilo e costume da terra, que está em costume o Rei nunca sair de seus aposentos, e desde que a terra da China é terra pouco se acuida Rei de sair do estilo, nem estrangeiro ver Rei de China como digo que o vimos. Nos fez honra e folgou de nos ver. e jogou com Tomé Pires às távolas por vezes estando nós ao presente; assim nos mandou banquetear com todos os grandes; ao presente vemos por isto três vezes. Entrou nos paros em que nós íamos. Mandou sair todas as arcas fora, tomou os vestidos que lhe pareceram bem, e fez mercê a Tomé Pires, que nos fôssemos a Pequim que nos despachava. Mandou nos dar os melhores paraos que ha na terra da China e nos mandou honradamente como já disse. Chegou a Pequim, faleceu assim dizem.») (36) Foi. I30v. Calvo enganou-se ao escrever Dom Estêvão em vez de Dom Aleixo, como veremos adiante. Jorge Álvares não podia ter levado a carta porque morreu em Tamão cm 1521. Foi ele o primeiro Português que esteve na China, em 1513, e lá foi enterrado em 1521, como noutro lugar já mostrei. Expansão Portuguesa através do Pacifico, p. 164. Vide notas fols. 16Ir. e 177r. (pp. 361, 437). (37) Góis (IV, xxv) diz que Pires «foi de Cantão ter à cidade de Pequim, no qual caminho se deteve quatro meses», mas referia-se evidentemente ao tempo em que de facto viajou.
36 Tomé Pires e Francisco Rodrigues o Imperador: de el-Rei D. Manuel, de Fernão Peres de Andrade e dos «Governadores» de Cantão. A carta de Andrade tinha sido mal traduzida para chinês pelos intérpretes; eles escreveram de acordo com os costumes do país, dizendo absurdamente, entre outras coisas, que o Rei de Portugal desejava tornar-se vassalo do Imperador da China. A carta dos «Governadores» de Cantão fôra escrita e entregue a Pires quando eles ainda estavam sob a boa impressão deixada por Fernão Peres de Andrade. Quando a carta selada de D. Manuel foi aberta e traduzida no palácio imperial, achou-se que o seu espírito eia (naturalmente) muito diferente do da carta escrita pelos inter¬ pretes em nome de Andrade (38). Os intérpretes aceitaram responsabilidade pela carta de Andrade, mas foi aberto um inquérito e todos os membros da Embaixada foram proibidos de se aproximar do palácio imperial. Embora, segundo Vieira, o Imperador magnanimamente dissesse «esta gente não conhece os nossos costumes; gradualmente os chegarão a conhecer», mais queixas, algumas absolutamente absurdas, eram trazidas contra os Portugueses. Depois de dizer que uma das queixas era «que comprávamos moços, e moças furtadas, filhos de pes¬ soas honradas, e que os comíamos assados», Barros comenta: «as quais coisas eles criam serem assim, porque de gente que nunca tiveram notícia, e éramos terror, e medo a todo aquelle Oriente, não era muito crer-se que fazíamos estas cousas, porque outro tanto cremos nós deles, e de outras nações tão remotas, e de que temos pouca notícia.» (III, iv, 1). Alguns antigos historiadores chineses chegam mesmo a dar vívidos pormenoies quanto ao preço pago pelas crianças e a maneira como eram assadas (39). Entretanto o Imperador Wu-tsung morria três meses depois da sua chegada a Pequim, sucedendo-lhe Shih-tsung, um jovem (38) Vieira dá muitos pormenores sobre estas cartas. Op. cit., foi. 104 (39) Chang, p. 48.
Introdução 37 de catorze anos. A Embaixada foi então mandada sair da capi¬ tal e regressar a Cantão com os presentes destinados ao Imperador, os quais foram recusados. Alguns altos funcionários da côrte declararam que a Embaixada não era genuína, e desejavam que se procedesse energicamente contra os Portugueses, insistindo que deviam matá-los como espiões; mas por então a sua quali¬ dade diplomática salvou-os. Porém, segundo Vieira, dos cinco intérpretes, um morreu de doença e «os outros quatro foram decapitados em Pequim, por terem deixado o país e trazido os Portugueses à China» e os seus criados foram dados como escravos aos mandarins por terem pertencido a traidores. rkgrusso a cantão—Finalmente Tomé Pires e os seus companheiros deixaram Pequim em 22 de Maio e chegaiam a Cantão em 22 de Setembro de 1521, tendo Francisco de Budoia morrido durante a viagem. De Pequim foram enviadas ins¬ truções para Cantão mandando que o Embaixador e sua comi¬ tiva ficassem sob prisão, e que só depois de os Portugueses evacuarem Malaca devolvendo-a ao seu rei, vassalo do Impe¬ rador da China, seriam libertados os membros da Embaixada. Entretanto, depois da partida de Simão de Andrade, a nau Madalena, que pertencia a D. Nuno Manuel, vinda de Lisboa sob o comando de Diogo Calvo, chegou a Tamão com alguns outros navios de Malaca, entre os quais o junco de Jorge Alvares, que no ano anterior não pudera seguir com a armada de Simão de Andrade, porque tinha água aberta. Quando as instruções de Pequim contra os Portugueses chegaram a Cantão, juntamente com a notícia da morte do Imperador, os Chineses prenderam Vasco Calvo, irmão de Diogo Calvo, e outros Portugueses que estavam em terra negociando em Cantão. Em 27 de Junho de 1521 Duarte Coelho chegou a Tamão com dois juncos. Além de capturarem alguns dos navios portugueses, os Chineses, com uma grande frota de juncos armados, bloquearam a nau de Diogo Calvo e quatro outros navios portugueses em Tamão. Umas semanas mais tarde chegou Ambrósio do Rego com duas 4
38 Tomé Pires e Francisco Rodrigues outras naus. Como muitos dos tripulantes portugueses tinham sido mortos em combate, massacrados depois ou feitos prisio¬ neiros, já não restavam bastantes Portugueses para todos os navios, pelo que Calvo, Coelho e Rego resolveram abandonar os juncos para melhor tripular as três naus. Fizeram-se à vela em 7 de Setembro mas foram atacados por uma frota chinesa, conseguindo porém escapar, graças a uma providencial tem¬ pestade que dispersou os juncos inimigos, e chegaram a Malaca em Outubro de 1521. Vieira menciona outros juncos que che¬ garam à China com Portugueses a bordo; todos foram atacados, e as tripulações mortas em combate ou aprisionadas e depois massacradas. Da nau de Diogo Calvo ficaram Vasco Calvo, sete outros Portugueses e quatro servos, que escaparam à matança por dizerem que pertenciam à Embaixada de Tomé Pires. Mas muitos outros morreram na prisão, alguns de fome, muitos estran¬ gulados, «depois de levar cartazes dizendo que morreriam como ladrões do mar», um com a cabeça esmagada com um maço, e outros espancados até à morte. Pires e os seus companheiros chegaram a Cantão quinze dias depois dos três navios portugueses se terem escapado de TamSo, e encontraram-se numa situação muito difícil. Foram imediatamente chamados à presença do Pochanci (40) e disseram a Pires que escrevesse aos Portugueses em Malaca dizendo-lhes para restituírem o país ao seu ex-rei. Deixemos Vieira descrever o que aconteceu: «Respondeu Tomé Pires que não vinha a isso, nem convinha a ele em tal falar, que da carta que trazia lhe daria razão, que de al não sabia. ... nestas perguntas nos teve de joelhos quatro horas; acabado de se enfadar, mandou cada um à cadeia donde estava. Em 14 de Agosto de 1522 lançou o Pochanci a Tomé Pires cormas nas mãos, aos da companhia cormas e ferros nos pés, as cormas asseladas nos pulsos: e nos tomaram toda a fazenda que tínhamos. Assim, com cadeias (40) Pu-chêng-shih ou Tesoureiro Provincial. Cf. Ferguson. p. 5!.
Introdução 39 nos pescoços e por meio da cidade nos levaram para a casa do Anchuci (41). Ali nos quebraram as prisões e nos deitaram outras cadeias mais fortes nas pernas, cormas asseladas e cadeias aos pescoços; e dali levaram toda a fazenda, e mandaram-nos assim a esta cadeia. À entrada da cadeia morreu António de Almeida das prisões fortes que trazíamos, os braços inchados e as pernas roçadas das cadeias estreitas. Isto com determinação que dali a dois dias nos matarem. Antes de ser noite deitaram a Tomé Pires outras de novo e o levaram a ele só e descalço, sem barrete, com apupadas de rapazes, à cadeia de Cancheufu (Kuang-chou-fu) a ver a fazenda que nos tomaram que se havia de escrever, e escreviam dez e furtavam trezentos. ... A fazenda que nos tomaram eram: vinte quintais de ruibarbo, mil e quin- nhentas ou seiscentas peças de seda ricas, obra de quatro mil lenços de seda que os chins chamam xopas (cheu-pa) de Nanquim, e muitos abanos, e mais três arrobas de almíscar em pó, mil e trezentos papos de almíscar, quatro mil e tantos taéis de prata e setenta oitenta taéis de ouro e outras peças de prata, e todos os vestidos e peças de preço, assim portuguesas como chins, o pucho (raízes de incenso) de Jorge Botelho, incenso, roçamola (estoraque liquido), cascas de tartaruga, assim pimenta e cousas miúdas (42). Tudo isto foi entregue na feitoria de Cancheufu (Kuang-chou-fu) como fazenda de ladrões. O presente de el-Rei nosso Senhor que mandava ao Rei da China está na fei¬ toria do Pochanci» (fols. 106-7). Ferguson resume assim: «Depois de uma grotesca mostra de respeito pelos membros (41) An-ch’a-shih ou Juiz Provincial. Cf. Chang, p. 56. (42) Isto é dc acordo com os fragmentos da carta de Vieira, em Lisboa. Barros (III, iv, 2), seguindo o MS de Paris (ff. 106-7), dá lista um tanto diferente dos bens confiscados. Mas em vez de dizer, como Vieira, que a fazenda lhes foi tomada, diz foi tomada a ele (Tomé Pires). Talvez a esta alteração se devam os injustos comentários de Faria e Sousa (I, ii, 6). Nada tinha de estranho que toda esta fazenda pertencesse a Pires, que já tinha grangeado fortuna considerável antes de ir para a China; e afinal nem todos os bens lhe pertenceriam exclusivamente.
40 Tomé Pires e Francisco Rodrigues da embaixada, que se estendeu por mais de dez meses, eles foram todos encarcerados e tudo o que lhes pertencia assim como o presente do Rei de Poitugal para o Imperador foi confiscado, a parte de lião, como era de esperar, cabendo aos mandarins» (43). Fernão Mendes Pinto diz-nos que em 1541 viu o mandarim de Nouday «em cima de um bom cavalo com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo, as quais depois soubemos que foram de um Tomé Pires, que el-Rei D. Manuel de gloriosa memória mandara por Embaixador à China na nau de Fernão Peres de Andrade, governando o Estado da índia Lopo Soares de Albergaria» (44). Entretanto da índia, onde as notícias deste estado de coisas ainda não haviam chegado, outra armada de quatro naus sob o comando de Martim Afonso de Melo Coutinho partia para a China em Abril de 1522. Coutinho tinha saído de Lisboa um ano antes, encarregado por Dom Manuel duma mensagem amistosa para o Imperador da China, para o que levava consigo outro embaixador. Chegou a Malaca em Julho e aí soube das desgraças que tinham acontecido aos Portugueses na China. Não obstante, ele resolveu continuar a sua viagem, acompanhado por outra nau e um junco com Ambrósio do Rego e Duarte Coelho, que relutantemente e só sob grande pressão acedeu em voltar à China, onde no ano anterior tinha escapado por pouco, como atrás se viu. A armada de Coutinho, de seis velas, partiu de Malaca em 10 de Julho e chegou a Tamão em Agosto de 1522. Foram logo atacados por uma armada chinesa, sendo muitos Portugueses mortos e aprisionados, perderam-se dois navios e o junco, e depois de tentar em vão restabelecer relações com as autoridades cantonesas, Coutinho regressou com os outros navios a Malaca, onde chegou em meados de Outubro de 1522. Embora alguns cronistas ponham a culpa nos Chineses, Chang (43) Op. cil., pp. 18-9. (44) Peregrinação, lxv.
Introdução 41 cota fontes chinesas que afirmam que os Portugueses é que devem ser considerados responsáveis pelo começo das hostilidades (45). Segundo Vieira os mandarins tornaram a mandar que Pires escrevesse uma carta ao Rei de Portugal, que os embaixadores do ex-rei de Malaca deviam levar a Malaca, para que o seu país e povo fossem restituídos ao seu antigo senhor; se não viesse resposta satisfatória, o embaixador português não regressaria. Uma minuta da carta em chinês foi enviada aos prisioneiros portugueses, para que por ela escrevessem três cartas: parael-Rei D. Manuel, para o Governador da índia e para o Capitão de Malaca. Estas cartas foram entregues às autoridades cantonesas em 1 de Outubro de 1522. O embaixador malaio pouca vontade tinha de ser o correio, e não era fácil encontrar outro. Por fim um junco com quinze malaios e quinze chineses partiu de Cantão em 31 de Maio de 1523 e alcançou Patani. Na sua carta de 1 de Janeiro de 1524 para el-Rei D. Manuel, Jorge de Albu¬ querque, Capitão de Malaca, dizia que D. Sancho Henriques, Capitão-mor do Mar em Malaca, tinha ido bloquear Bintang no começo de Julho de 1523, e daí foi a Patani com Ambrósio do Rego e outro navio espeiar um junco português que estava em Sião «e saber novas da China, dos chins que aí vêm ter». Ambrósio do Rego voltou primeiro a Malaca com notícias, «que lhe dissera um língua que entre os chins e os portugueses tratava, quando estavam de paz. Disse-lhe que eram vivos (em Cantão) de oito até treze portugueses; e não se afirmam em quantos, porque uns dizem oito e outros dizem treze; e que diziam que o embaixador Tomé Pires que era ainda vivo. Veio um recado a el-rei de Bintam, do seu embaixador, o qual homem que o trouxe tornou logo a fama que el-rei de Bintam lançou pela terra que os chins haviam de vir sobre Malaca. Isto não é muito certo; porém são coisas que podem ser. Se vierem, grande dano farão, salvo se o capitão-mor (da índia) acudir a (45) 0/7. cit.. p. 59.
42 Tomé Pires e Francisco Rodrigues tempo, como lhe eu escrevo; porém, o meu parecer é que tal não farão, que também dizem na China que desejam paz conosco» (46). Este documento lança alguma luz sobre o assunto. É evidente que as três cartas trazidas no junco de Cantão nunca chegaram ao seu destino, tendo provavelmente sido retidas pelo ex-rei de Malaca, intriguista de primeira ordem a quem não faltavam razões para odiar os Portugueses, e talvez mesmo Tomé Pires em especial. O homem que trouxe a men¬ sagem ao rei de Bintang logo regressou, diz Jorge de Albuquerque. Vieira informa que o junco «tomou recado de el-Rei de Malaca e veio a Cantão a cinco dias de Setembro» (foi. 110v.). Não sabemos o que a mensagem dizia, mas pode-se imaginar, pois, como Vieira informa, «No dia de S. Nicolau (6 de Dezembro) no ano de 1522 lhes lançaram tábuas com sentenças que morres¬ sem em troncos por ladrões pequenos do mar enviados pelo ladrão grande falsamente vêm espiar nossa terra para virem sobre ela. Cortem-lhes as cabeças, sejam esquartejados. Foi recado ao Rei segundo a informação dos mandarins; confir¬ mou o Rei a sentença a 23 dias de Setembro de 1523. Foram estas 23 pessoas feitas em sete pedaços cada uma, a saber cabe¬ ças, pernas, braços, e suas naturas nas bocas, o tronco do corpo em redondo pela barriga em dois pedaços; pelas ruas de Cantão, fora dos muros, pela povoação, pelas ruas principais foram mortos, à distância de um tiro de besta uns dos outros, para todos os verem, assim os de Cantão como os do termo, por darem a entender que não tinham em conta Portugueses, por o povo não falar em Portugueses. Foram assim nos navios tomados às mãos por se não acordarem os capitães ambos; e tomados assim todos nos navios, a todos mataram, e as suas cabeças e naturas foram trazidas às costas dos Portugueses diante dos mandarins de Cantão, com tangeres e prazeres; foram vistas penduradas pelas ruas e depois deitadas nos monturos. E daí ficou não consentirem mais Por¬ tugueses na terra nem outros estrangeiros». (46) Carlas, rv, 41-2.
Introdução 43 A carta de Vieira, provavelmente acabada de escrever em Novembro de 1524, diz que de todos os Portugueses só ele e Vasco Calvo ainda viviam, e que «Tomé Pires faleceu de doença no ano 1524 em Maio» (foi. 112v.). Esta data, porém, não pode ser aceite sem muita reserva, como veremos. cartas de vieira e calvo — As cópias das duas cartas de Ciistóvão Vieira e Vasco Calvo existentes na Bibliothèque Natio- nale de Paris provavelmente foram feitas na segunda metade do século xvi. Embora as cartas nestas cópias sejam datadas de 1534 e 10 de Novembro de 1536, não é difícil provar que ambas foram escritas em 1524, sendo a de Vieira concluída um pouco antes de Calvo terminar a sua em 10 de Novembro. As duas cartas, além de muito importantes para a biografia de Tomé Pires, são elementos capitais na história das primeiras relações europeias com a China; a data em que foram escritas é por isso importante e já é tempo para que este ponto seja escla¬ recido. Em primeiro lugar, nenhuma das duas cartas refere qualquer acontecimento posterior a 1524; é extremamente improvável que durante os dez ou doze anos entre 1524 e as supostas datas das cartas nada digno de menção tenha acontecido. Há dois pontos nas cartas que sugerem terem elas sido escritas depois de 1524, mas trata-se de enganos de copista. Na carta de Vieira diz-se: «Na era de 524 fizeram armada de juncos de sal que tomaram por força; até era de 528 fizeram armadas» (foi. 119). 1528 será erro de copista por 1523. Mais adiante Vieira pede que seja enviada uma armada portuguesa à China, e acrescenta: «A primeira coisa é desbaratar a armada [chinesa] se a tiverem, que eu cuido que a não têm» (foi. 122v.). Erros semelhantes são frequentes. Por exemplo, o começo da carta de Vieira diz que Fernão Peres de Andrade chegou à China em 1520, embora ele tivesse chegado em 1517. Na foi. 108v. afirma-se que Mar- tim Afonso de Melo Coutinho foi de Malaca à China em 1521, mas na folha 121 diz-se correctamente que ele chegou em 1522.
44 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Na cópia de Paris diz-se que entre a fazenda pelos Chineses tomada aos Portugueses estavam «três mil e tantos papos de almíscar, quatro mil e quinhentos taéis de prata e setenta ou oitenta taéis de ouro e outras peças de prata e todos os vestidos e peças de preço» (foi. 107), mas nos fragmentos em Lisboa lê-se «mil e trezentos papos de almíscar, quatro mil e tantos vestidos e peças de preço». A cópia de Paris diz que «sessenta bem mor¬ reram no navio» (foi. 108v.), ao passo que nos fragmentos em Lisboa lê-se, correctamente, que «sete também morreram no navio». Onde a cópia de Paris refere «em 23 de Setembro de 1523» (foi. 109), nos fragmentos em Lisboa lê-se «Em 24 de Setembro de 1523». Onde a cópia de Paris tem «trinta léguas» (foi. 113v.), nos fragmentos de Lisboa lê-se «quarenta léguas». Onde na cópia de Paris se lê «obra de oito até dez léguas» (foi. 113), nos fragmentos de Lisboa lê-se «obra de vinte até trinta léguas». Noutro passo da carta de Calvo lê-se: «Sejam Senhor estas cartas mostradas aos seus capitães-mores; não se encubram, Senhor, que se Jorge Álvares amostra as cartas que levava a Dom Estêvão e de nós souberam, eu confio que não estivéramos aqui nesta cadeia vivos ou mortos. Em dois anos ou o Sr. Gover¬ nador houvera de mandar ou de Malaca houvera de ordenar coisa por onde daqui nos tiraram» (foi. 130v.). Ferguson (47) julgou que este «Dom Estêvão» era Dom Estêvão da Gama, filho de Vasco da Gama, que em 1534 era capitão de Malaca e em 1540-2 Governador Geral da índia. Mas há aqui outro engano: o copista escreveu «Dom Estêvão» onde no original estaria «Dom Aleixo». D. Aleixo de Menezes, sobrinho do Governador-Geral Lopo Soares de Albergaria, foi em 1518 com uma armada a Malaca e em 1520 era Governador-Geral interino da índia, quando o Governador-Geral Diogo Lopes de Sequeira foi ao Mar Vermelho (48). Em 1521 D. Aleixo estava em Cochim (47) Op. cit., pp. 29 e 157. (48) Barros, 111, iii, 10. Numa carta escrita de Cochim, 2 de Novem¬ bro de 1520, para El-Rei Dom Manuel, o Ouvidor Geral da índia, Pedro
Introdução 45 onde despachou vários navios para Malaca e China, entre os quais provavelmente se contava o navio de Diogo Calvo que chegou a Tamão em 1521. Não havia então «D. Estêvão» algum na índia a quem pudessem ser enviadas tais cartas. As cartas em questão poderiam ser aquelas que, como atrás se disse, foram em 2 de Agosto de 1520 escritas de Nanquim, ou de Pequim, e talvez algumas mais escritas de Cantão por Vasco Calvo. A referência a Jorge Álvares, que em 8 de Julho de 1521 morreu em Tamão (facto desconhecido de Calvo), como levando as cartas para «Dom Estêvão» (da Gama) que pela primeira vez chegou à índia em 11 de Setembro de 1524, é um anacronismo insuperável. Muitos erros do mesmo género foram cometidos pelos copistas. Por exemplo, na denominação da carta de Vieira escreveu-se que ela é de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, e na denominação da carta de Calvo escreveu-se que é de Cristóvão Vieira apenas. Uma comparação da cópia de Paris com os fragmentos da carta original de Vieira, em Lisboa, revelam muitas de tais incongruências. Na passagem atrás cotada Calvo mostra a sua surpreza porque dentro de dois anos nada fora feito para o salvar e aos seus companheiros de cativeiro. É evidente que se referia às cartas escritas depois de ter sido feito prisioneiro, que supunha terem sido recebidas em 1522; por conseguinte ele escrevia em 1524. Vê-se pela sua carta que ele escrevia ao mesmo tempo que Vieira: «onde Cristóvão Vieira escreve» (foi. 132v.), diz ele «Conforme Cristóvão Vieira nestas cartas» (foi. 133); «do teor que vai nas cartas de Cristóvão Vieiia» (foi. 134v.); «Cristóvão Vieira escreve com pena nossa» (foi. 135v.). Outros pontos na carta poderiam Gomes Teixeira, diz que durante a ausência de Sequeira o governo ficava dividido entre «Dom Alcixo com o mando da fazemda e governança do mar e na terra da gente sobresalente, c o capitão Rui de Meio com sua terra c gente ordenada a ela». Este extenso e importante documento foi publi¬ cado pela primeira vez por A. Cortesão e H. Thomas, Cana das Novas, pp. 127-38.
46 Tomé Pires e Francisco Rodrigues ser interpretados como apontando as datas 1534 e 1536; con¬ tudo o seu exame cuidadoso mostra que eles não contradizem a data de 1524. Não há dúvida que o cronista utilizou as duas cartas na composição dos capítulos em que descreve estes acontecimentos. É o próprio Barros quem diz: «E segundo duas cartas que os nossos daí a dois, ou tres anos houveram dêstes dois homens, Vasco Calvo irmão de Diogo Calvo, e Cris¬ tóvão Vieira, que estavam presos em Camtão» (III, vi, 2). Isto é categórico, e conjugado com o que as próprias cartas dizem, não deixa qualquer dúvida sobre a sua data: foram ambas escritas em 1524 e talvez concluídas em Novembro: as datas 1534 e 1536 serão enganos do copista. Admira que Ferguson, depois de traduzir e comentar as duas cartas tão minuciosamente, não tivesse notado que as suas datas não podiam ser 1534 e 1536, embora mostre a sua sur¬ presa por alguns dos anacronismos e incongruências atrás men¬ cionados, que em vão tentou mas não conseguiu explicar. Tão- -pouco os que têm consultado e cotado o trabalho de Ferguson os notaram ou mencionaram. depois de 1524 — Embora Vieiia diga que «Pero de Freitas nesta cadeia e Tomé Pires aqui faleceram de doença, Tomé Pires na era de 1524 em Maio» (foi. 112v.), mais adianle pede que seja enviada à China uma armada de dez ou quinze navios, e que o seu capitão escrevesse às autoridades chinesas exigindo a libertação de Tomé Pires — «o embaixador seja a mim enviado antes de eu chegar a Cantão» (foi. 123v.). Isto, porém, poderia ter querido dizer que o capitão português pretenderia dar a entender que não sabia que Tomé Pires estivesse morto. Poderia também acontecer que a frase estivesse mal escrita ou mal copiada, como em muitos outros casos, e que o seu verdadeiio significado fosse — «Pêro de Freitas estava nesta cadeia com Tomé Pires, e ele (Pêro de Freitas) aqui morreu de doença...» Mas o signi¬ ficado mais provável é — «Pêro de Freitas morreu nesta prisão, e Tomé Pires morreu de doença [noutro lugar] em Maio de 1524.»
introdução 47 Na verdade Vieira mostra noutras partes da carta que parecia estar convencido de que Pires era já falecido. Apenas Vieira se refere, e não muito claramente, à morte de Pires em 1524. Barros diz que depois do navio de Coutinho se ter escapado de Tamão, os Chineses «leváram muita da nossa gente preza», e «acabáram de matar Tomé Pires, e assim os que com ele foram prezos, e ficou total guerra entre nós, e eles. E segundo alguns dos nossos depois escreveram, mais morre¬ ram na cadeia de fome, e mau tratamento, que lhe nela davam, que por justiça» (III, viii, 5). As execuções só foram levadas a cabo depois de em Setembro de 1523 ter chegado a Cantão a confirmação do Imperador. Embora Barros evidentemente se esteja a referir à caita de Vieira, ele não menciona a data da morte de Tomé Pires. Castanheda, que nessa altura estava na índia, diz que o rei da China «mandou prender o nosso embai¬ xador, e os outros que estavam com ele, e mandou que estives¬ sem apartados uns dos outros, e que lhe fosse tomada toda sua fazenda, escrita e avaliada; e dizem uns que com tristeza adoeceu, e morreu o embaixador; outros que morreu com peçonha. E por¬ que eu não pude saber as particularidades disto o digo assim em suma.» (V, lxxx). Mas Correia, que durante quase todos estes anos também esteve na índia, diz muito positivamente: «O que tanto lhe caiu na vontade (a el-Rei da China) que mandou prender o nosso embaixador, e levar a outra terra em que esteve muito tempo, até que a el-Rei se lhe foi a merencória, e folgou de falar com ele; mas nunca mais o deixou tornar, e lá morreu». Ora Fernão Mendes Pinto diz na Peregrinação que quando em 1543 passou pela cidade de Sampitay, na viagem de Nan¬ quim para Pequim, encontrou uma mulher cristã que, depois de mostrar uma cruz tatuada no braço e o convidar e seus com¬ panheiros para sua casa, lhes disse «que se chamava Inês de Leiria, e que seu pai se chamara Tomé Pires, o qual deste reino fôra por Embaixador a el-rei da China, e que por um alevanta- mento que um nosso Capitão fizera em Cantão, houveram os Chins que era ele espia, e não Embaixador, como ele dizia, e o
48 Tomé Pires e Francisco Rodrigues prenderam com outros doze homens que trazia consigo, e depois que por justiça lhe deram muitos açoites e tratos, de que logo morreram os cinco, aos outros desterraram, apartados uns dos outros, para diversos lugares, aonde morreram comidos de piolhos, dos quais um só era vivo, que se chamava Vasco Calvo, natural de um lugar da nossa terra, que se dizia Alcochete, por¬ que assim o tinha muitas vezes ouvido a seu pai, chorando muitas lágrimas quando nisto falava. E que seu pai lhe coubera em sorte ser seu degredo para aquela terra, aonde se casara com sua mãe, porque tinha alguma coisa de seu, e a fizera cristã, e sempre em vinte e sete anos que ali estivera casado com ela, viveram ambos muito catolicamente, convertendo muitos gentios à fé de Cristo» (49). Quando vivia em Almada, Fernão Mendes Pinto foi visitado, em Outubro de 1582, pelos padres jesuítas G. Maffei, J. Rebelo e G. Gonçalves, que dele foram colher algumas informações sobie a China e Japão. Maffei deixou uma nota registando a conversa que eles tiveram com Pinto, na qual se lê, entre outras coisas: «Ele diz que há alguns ves¬ tígios de ciistandade na China, que são relíquias de Tomé Pires, o primeiro embaixador que lá foi, e lá morreu, e de seus compa¬ nheiros. Ele diz que a filha de um destes homens (50) em memó¬ ria do ciistianismo de seu pai tinha uma cruz tatuada no braço, junto à mão, e quando encontrou alguns Portugueses arregaçou a manga e mostrou a cruz, dizendo em Português a única parte que sabia do Padre-Nosso, o que causou espanto e lágrimas nos outros. Ela era rica e abrigou-os em sua casa. Da mesma (49) Peregrinação, xci. (50) A versão portuguesa está longe de clara. Embora aqui não diga expressamente que o pai era Pires, a Peregrinação c absolutamente positiva neste ponto. A referida nota foi encontrada pelo sábio orientalista Rev. G. Schurammcr, S. J., entre os papéis de Maffei no arquivo da Com¬ panhia de Jesus. Schurammcr publicou-a pela primeira vez sob a epígrafe Um documento inédito sobre Fernão Mendes Pinto in Revista de História, XIII, 81-8, Lisboa 1924, e depois traduziu-a para alemão na sua obra Fernão Men¬ des Pinto und seine «Peregrinaçam», pp. 35-42, Leipzig 1927.
Introdução 49 companhia havia também na cidade Cansi (Kwang-si), antes de ser destruída pelos Tártaros, um certo Português casado com uma chinesa com quatro filhos.» Também Pinto descreve como em 1544 encontrou na cidade de Quansi, não longe de Pequim, um homem velho que, depois de algumas peripécias, lhe disse: «Sou, irmão meu, um pobre Cristão Português, por nome Vasco Calvo, irmão de Diogo Calvo, que foi Capitão da nau de D. Nuno Manuel, natural de Alcochete, que agora faz vinte e sete anos que nesta terra fui cativo com Tomé Pires, que Lopo Soares mandou por Embaixador a este Rei Chim, que depois acabou desastradamente por um desarranjo de um Capitão Português». ... Depois, «me relatou todo o discurso de sua vida, e de tudo o mais que tinha passado, desde que partira deste Reino até então, e assim da morte do Embaixador Tomé Pires, como dos mais que Fernão Peres de Andrade deixou com ele em Cantão para irem ao Rei da China, o que, segundo me ele contou, não se conforma muito com o que os nossos Cronijjas escrevem» (51). Faria e Sousa foi o primeiro cronista a utilizar as informações de Pinto num capítulo inteiro a rectificar o que, seguindo Bar- ros, escrevera anteriormente sobre a suposta morte de Pires em Cantão (52). Depois, em 1829, Abel-Rémusat (53) faz um relato das aventuras de Pires na China em parte baseado também na informação de Mendes Pinto. R. H. Major, na sua excelente Introduction (p. xxxvii) à History of China de Juan Gonzales de Mendoza, cita o relato de Rémusat a fim de completar a descrição que Mendoza faz da embaixada de Pires, que é mais (51) Peregrinação, cxvi. (52) Quando no final dos preliminares no Vol. l da sua Asia Por¬ tuguesa Faria c Sousa menciona os livros que utilizou, diz: «Fernando Men- dez Pinto Historia Indica dcl mismo tiempo (los dias del Rey D. Sebastian). De la verdad delia dudan muchos: y otros tantos que anduvieron por aquellas partes dizen que aun pudicra con ella dezir cosas mâs dificiles al credito. Yo lo tengo por muy verdadero, por muchas razones, que a cllo me sugetan. Però quando no lo sea, esso es en cosas que se quedan fuera de mis argumentos.» (53) Nouveaux Mètanges Asiatiques, ti, 203-6.
50 Tomé Pires e Francisco Rodrigues ou menos baseada em Barros, e defende Pinto a propósito da tirada de William Consgrave em Love for Love (1695) — «Fer- dinand Mendes Pinto era apenas do teu tipo, tu mentiroso de primeira grandeza» (54). Comentando a defesa que Major faz de Pinto, Ferguson escreve: «Surprende-me que um erudito tão categorizado como Mr. Major, na Introdução à edição de Mendoza pela Hakluyt Society, depois de se referir às supostas aventuras de Mendes Pinto na China, concluísse: "Julgamos que, no todo, as suas observações não deixam dúvida de que ele foi testemunha ocular do que regista'», (p. 36 n.). Para Ferguson tudo o que Pinto diz sobre Pires é «invenção», «descarada falsidade», «embuste». Não menos surpreendente é atitude semelhante de outio notável erudito, Henri Cordier. Depois de transcrever parte do relato de Rémusat sobie os encontros de Pinto com Inês de Leiiia e Vasco Calvo, Cordier, sem qualquer justificação, liquida toda a questão em seis palavras: «Pinto mentia e Rémusat enganou-se.» (55), Poderá este assunto ser liquidado tão sumariamente? Con¬ forme atrás se notou, Barros não menciona qualquer data para a morte de Tomé Pires, embora estivesse a seguir a carta de Vieira o qual declara que Pires morreu em Maio de 1524; e a cópia da carta de Vieira, publicada por Ferguson, está cheia de erros de toda a espécie. Castanheda, que em 1528 foi para a índia e lá permaneceu cerca de dez anos, mostra que nada de positivo sabia sobre a morte de Pires e ainda menos a sua data; mas informa que a ordem para a prisão de Pires e seus companheiros deter¬ minava «que estivessem apartados uns dos outros». Gaspar Correia, que em 1512 foi para a índia e lá viveu muitos anos (foi na índia, onde morreu, que escreveu as Lendas), ocupando (54) Deve notar-se que Consgrave pòe a graçola sobre Pinto na boca de Foresight, o pateta da comédia, «um sujeito ignorante, impertinente c teimoso, supersticioso, e pretendendo saber de astrologia, quiromancia. fisionomia, agoiros, sonhos, etc.». (55) Varrivée des Porlugais en Chine, p. 520.
Introdução 51 postos tais como o de secretário de Afonso de Albuquerque, diz muito positivamente que depois da sua prisão em Cantão Pires foi levado para outra cidade onde viveu muito tempo. Além disso o próprio Ferguson cita uma fonte chinesa, mencio¬ nada por Mayers em Notes and Queries, na qual se declara que «o interprete sofreu a pena capital e os seus homens foram enviados presos para Cantão, e expulsos para além das fronteiras da pro¬ víncia». Mayers diz em nota que o intérprete em questão seria o próprio Tomé Pires. Ferguson, baseando-se na carta de Vieira, declara que isto é um erro: «os interpretes indígenas é que foram degolados». Mas Cordier (p. 521) concorda com a interpretação de Mayers. O que parece mais provável é que a confusa referência queira dizer que os intérpretes foram dego¬ lados, e os Portugueses que escaparam à morte foram expulsos da província de Cantão. Como já se mostrou, parece, do que Vieira diz, que Pires se encontrava noutra prisão e não está claro ter ele querido dizer que também o Embaixador morreu. Além disso é bastante estranho que Vieira desse informação tão por¬ menorizada sobre a morte dos seus companheiros e fosse tão breve quanto à morte do mais importante dos Portugueses em Cantão — o próprio Embaixador. Ele nem mesmo diz o dia da morte, nem o que aconteceu ao corpo. Pires estava noutra prisão, e parece evidente que Vieira colheu a sua informação em segunda mão. Que Vieira e Calvo não estavam muito bem informados se depreende, entre outras coisas, da sua ignorância da morte de Jorge Alvares em 1521 em Tamão. É muito possí¬ vel que os Chineses tivessem propositadamente enganado Vieira, dizendo-lhe que Tomé Pires moriera, quando de facto ele tinha sido enviado para fora de Cantão, conforme as instruções de Pequim. Contra a dúbia informação de Vieira existe prova bastante positiva a mostrar que é injustificável classificar a infor¬ mação de Fernão Mendes Pinto como «descarada falsidade». Um ponto importante que Ferguson descuidou na carta de Vieira: «As mulheres dos línguas assim as de Tomé Pires, que ficaram em esta cidade no ano presente foram vendidas
52 Tomé Pires e Francisco Rodrigues como fazenda de traidores» (foi. 112). Se Pires tinha «mulhe¬ res» antes de 1524, e estava aproximadamente nos 50 anos quando em 1517 chegou a Cantão, nada tem de tão extraordinário que Pinto em 1543 tivesse encontrado uma mulher que lhe disse ser filha do desafortunado embaixador português e duma mulher chinesa. Quanto ao encontro de Pinto com Calvo, Ferguson baseia a sua afirmação de «embuste» principalmente na suposição de que a carta de Calvo tivesse sido escrita em 1536. Conforme se disse atrás é mais razoável assumir que Pinto foi verdadeiro do que dizer, como Ferguson: «Pode-se ter como absolutamente certo que Vasco Calvo morreu na prisão em Cantão dentro de um ano ou dois depois de ter escrito a carta de 1536» (56). Existe, porém, uma incongruência evidente quando Pinto informa que Inês de Leiria lhe dissera que sua mãe fôra casada com Tomé Pires durante vinte e sete anos, incongruência que se repete quando Pinto afirma que Calvo lhe dissera que havia já vinte e sete anos desde que ele e Pires foram aprisionados; como eles foram presos em 1522, apenas tinham decorrido vinte e dois anos, não vinte e sete. Esta inexactidão parece mais de estranhar porque Pinto mostra ter lido o que os cronistas sobre o assunto escreveram, e podia ter facilmente verificado a sua estimativa (57). (56) Op. cil., p. 38. Ferguson não diz a razão do seu «absolulamente certo». Na introdução à sua edição da Peregrinação (Lisboa 1908) J. I. Brito Rebelo já notara (p. xxiv) que Ferguson não fizera caso da referência na carta de Vieira às «mulheres dos intérpretes e também às de Tomé Pires» c a tão gratuita como peremptória afirmação sobre Vasco Calvo. A parcia¬ lidade de Ferguson contra Mendes Pinto é demasiado evidente. Sobre as referências de Pinto ao terrível massacre dos Portugueses em Liampó e Chang- -chou (Chincheo) em 1545 e 1549, Ferguson comenta: «Eu considero estas duas histórias pura ficção, sem qualquer fundamento de factos; e sinto-me mesmo muito duvidoso de que a tal ilha 'Lampacau' jamais tenha existido fora da imaginação do escritor» (p. 39). Pinto estava certo, porém, como já foi reconhecido pelo próprio Cordier (op. cil., p. 523) entre outros. (57) Pinto não começou a escrever a Peregrinação antes de 1569; ora o Livro V da Historia de Castanheda e a Década 11/ de Barros foram publicados pela primeira vez em 1554 e 1563 respectivamente. Brito Rebelo.
Introdução 53 Por outro lado, se Pinto desejasse inventar a história sobre Pires, com o propósito de enganar os seus leitores, podia facilmente fazê-la parecer mais verdadeira ajustando a sua descrição aos relatos dos cronistas e mencionando Vieira, sobre quem aliás nada diz. Que ele o não fez, é mais uma prova da sua boa-fé. Pinto regressou do Oriente a Portugal em 1558 e só onze anos mais tarde começou a escrever a Peregrinação; depois de tantas aventuras não é de crer que ele tivesse podido conservar um livro de notas, pelo menos daquele primeiro período (58). Ele escrevia de memória, e maravilhosa memória era a sua. Não é de admirai que devido a um lapsus memoriae ou mesmo um simples lapsus calatni ele escrevesse vinte e sete em vez de vinte e dois anos. Também o que Inês de Leiria contou, conforme o que Pinto nos transmitiu, carece de ajustamento num ou dois pontos meno¬ res. Quanto a inexactidões não se deve esquecer que ela falou a Pinto em chinês, porque apenas poucas palavras conhecia de português, e Pinto pode ser desculpado por ter cometido alguns, não muitos, erros quando passados vinte e seis anos escrevia de memória. Ele nem mesmo se recordava do ano em que Pires morreu, o que Inês de Leiria certamente lhe diria e Calvo também lhe deve ter dito; se realmente desejasse enganar, podia inventar mais uma data. A mãe de Inês de Leiria deve ter sido uma das mulheres de Tomé Pires, referidas por Vieira, que em 1524 «foram vendidas como fazenda de traidores». Quando em 1520 Pires foi de Nanquim a Pequim pelo Grande Canal, e também no seu regresso uns meses mais tarde, ele passou pela cidade de ainda convencido dc que Pires realmcntc morrera cm Cantão cm 1524, julga que quando o MS da Peregrinação foi «corrigido» antes dc ser publicado, «os correctores do livro transferiram para o pai o período de tempo que se referia à filha». Loc. cit. (58) Contudo Pinto refere-se nos capítulos cv, cvt e cvtt a «um livrinho, que trata das grandezas de Pequim, chamado Aquesgdo, que eu trouxe a este Reino». 5
54 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Sampitay, tal como Pinto vinte e três anos mais tarde. É de crer que numa daquelas ocasiões Pires tivesse encontrado a mãe da futura Inês de Leiria. Não sabemos para onde, em 1524, ele foi banido de Cantão, mas não lhe seria difícil dirigir-se a Sampitay, onde a mãe de Inês «tinha alguma coisa de seu». Embora Pinto não nos diga em que ano Pires morreu, parece pelo seu relato que este já morrera alguns anos antes daquele ter encontrado Inês de Leiria, talvez não muito antes de 1540. Pires certamente tentou comunicar com Malaca, mas segundo parece sem resultado, pois durante uns vinte anos depois de 1524 os Portugueses infelizmente não eram consentidos na China, e as comunicações com o mundo exterior tornaram-se muito mais difíceis; embora talvez não tivesse sido impossível a Pires enviar alguma carta ou outra mensagem para fora da China, decerto não era coisa fácil. sampitay. Quanto a Sampitay, é possível deduzir do relato de Pinto que corresponde à actual cidade de P'ei chou ou Hsin- -p'ei-chou. um lugar cerca do limite norte da província de Kiangsu. A frequência com que, através dos séculos, os nomes de lugares chineses mudam, torna extremamente difícil a identificação dos que são mencionados em antigos relatos. Tais perplexidades, como as que encontramos na descrição que Pinto faz da sua viagem de Nanquim a Pequim, aparecem em quase todas as narrativas deste género. A viagem de Pinto, conforme ele a descreve nos caps. lxxxvii-c da Peregrinação, pode ser suma¬ riada assim: com os seus oito companheiros portugueses e trinta ou quarenta outros presos, Pinto embarcou numa lantea (barco a remos rápido) e partiram de Nanquim uma manhã cedo. Ao pôr do sol chegaram à aldeia de Ninhacutem, donde era natural o homem deles encarregado, o Chifu, como lhe chamavam, onde ficaram três dias. Pinto refere-se à «impetuosa corrente» do rio (Yangtze) cujo nome era Batampina, que quer dizer «rio flor». Talvez por causa da «quantidade infinita» de peixe que nele há. No quarto dia de viagem chegaram a Pocasser, uma
Introdução 55 boa cidade, duas vezes tão grande ou maior que Cantão, onde havia um grande pagode. Partiram no dia seguinte e chegaram a outra grande cidade chamada Xilingau. Seguindo pelo rio acima viram grandes campos com muito gado vacum e outro, durante umas dez ou doze léguas, e chegaram à pequena cidade de Junquileu. Encontraram aqui o mausoléu do embaixador Trannocem Mudeliar, tio do rei de Malaca, que havia quarenta anos viera à China pedir auxílio contra os Portugueses (59). O rio era então mais estreito que em Nanquim. As margens* pelo rio acima são povoadas «de cidades, vilas, aldeias, lugares, fortalezas e castelos». Onze dias mais tarde chegaram à cidade de Sampitay, onde ficaram cinco dias. Depois de passarem por muitas outras cidades e lugares, e cidades inteiramente for¬ madas por barcos, chegaram a Pequim em 9 de Outubro de 1543. Examinemos agora esta parte do itinerário de Pinto. Diz ele que no quarto dia da sua jornada, e depois de ter parado (59) Esta cidade é referida nos Comentários (III, xxx) como Jan¬ il ui leu, e o embaixador nialaio chamado Tuão Nacem Mudaliar. O mausoléu tinha uma inscrição que os Comentários e Pinto dão praticamente nas mesmas palavras; mas as descrições que fazem do próprio monumento são muito diferentes, de modo que Pinto dificilmente poderia ter tomado a história dos Comentários (cuja primeira edição data de 1557, ao passo que a Pere¬ grinação só foi começada a escrever uns doze anos depois). Parece-me mais provável que algum dos companheiros de Pinto, ou ele mesmo indirec- tamente, tenha dado a informação utilizada pelo autor dos Comentários. É óbvio que Pinto escreveu qualquer coisa como Tuan nacem. que o editor da Peregrinação erradamente leu como Trannocem, como exactamente acon¬ teceu a muitos outros nomes exóticos. Não é fácil ajustar este nome — Tuam Nacem Mudeliar, ou Tuan Hasan Mudeliar — no complicado período da confusa história malaia antiga. Pires refcre-sc a Tuam Açem ou Tuan Hasan; mas parece que ele era primo coirmão, não tio, do rei Mahmud de Malaca, que em 1510 ordenou que ele e outros membros da sua famí¬ lia fossem mortos. Vide p. 407. Malaca foi tomada pelos Portugueses em 1511, de modo que a viagem do embaixador de Malaca à China fora cerca de trinta, não quarenta, anos antes.
56 Tomé Pires e Francisco Rodrigues três dias em Ninhaculem, chegou a Pocasser, que parece corres¬ ponder a Chinkiang (60). Ninhaculem não ficaria muito longe de Chinkiang, pois estava apenas a um dia de distância de Nan¬ quim, o que, graças à «impetuosa corrente», era bastante para cobrir os 70 Km. de rio que separam as duas cidades. Daí foi a Xilingau, que deve corresponder a Yangchow (61), a mais importante cidade no começo do Grande Canal a norte do Yangtze. 45 li (uns 26 Km) de Chinkiang. Pinto diz que um dia depois de passar por outro lugar 5 léguas além de Xilingau viu grandes campos durante 10 ou 12 léguas antes de Junquileu. O lugar 5 léguas além de Xilingau deve ser Shaopo, a cidade importante seguinte, que fica a 50 li (uns 29 Km) de Yangchow; Junquileu corresponderá a uma pequena cidade, a que Gandar chama Wei-kué-leou — Wei-ch'ueh-lou em inglês —, entre Fanshui e Paoying, cerca de 160 li (uns 92 Km) de Shaopo actualmente (62). (60) No cap. lxxxix Pinto refere-se à grandeza de Pocasser e no Cap. ccxxii menciona a libertação de «uns cinco Portugueses que havia mais de vinte anos que estavam presos na Cidade de Pocasser». Em ambos os casos Pocasser deve corresponder a Chinkiang. Dificilmente poderia ser gralha tipográfica. Mas não consigo encontrar qualquer explicação para o nome. O Prof. Moule diz-me: «No século xvi Chinkiang não era cha¬ mada coisa alguma parecida com Pocasser. A única hipótese c que algumas cidades ocasionalmente tinham nomes populares que não ficaram registados nas histórias oficiais». Poderá ser isso o que aqui acontece. Como, segundo Pinto diz, o Chifu era natural de Ninhaculem, uma aldeia perto de Pocasser, é muito natural que ele tivesse ouvido esse nome, como outros nomes ao longo do caminho, ao seu guarda indígena. (61) J. B. du Haldc na sua descrição do Grande Canal, indo de norte para sul, diz: «...la ville de Yang tcheou, l'un des plus célèbres ports de 1’Empirc. Peu après il (o Canal) entre dans le grand fleuve Yang tse Kiang, à une journéc de Nanking.» Descriplion de 1'Empire de Chine, III, 156. (62) Para estas distâncias sigo a importante obra de Gandar, Le Grand Canal. pp. 66-75, que descreve o itinerário do Canal de Hangtcheou (Hangchow) a Pequim. F. J. Maycrs, porém, dá um itinerário ou tabela de distâncias para esta parte do Canal, entre Chinkiang e Chunghing, cujo total perfaz 511 li. Record of a Trip in Norlh-Easl Kiangsu, October 1920, p. 29. As distâncias dadas por Gandar para a mesma parte do Canal montam
Introdução 57 Onze dias depois de Junquileu Pinto chegou a Sampitay a cidade onde provavelmente Pires morrera uns anos antes. Esta cidade deve ser Hsin P’ei chou (lat. 34° 25', long. 118° 6'), que hoje fica a pouco mais de nove quilómetros a nordeste do ponto mais perto na margem do Grande Canal, na vizinhança dum pequeno lago ou paul, num emaranhado de valas e pequenos canais. P"ei chou é Pingiu ou Piju de Marco Polo, a que ele chama «uma grande, rica, e nobre cidade, com grande comér¬ cio, vastas manufacturas e uma grande produção de seda. Esta cidade fica à entrada da grande província de Manzi, e aí vivem numerosos mercadores que deste lugar enviam carros com grande quantidade de mercadorias para diferentes cidades de Manzi» (63). É também mencionada num Itinerário de 1276, traduzido numa edição crítica por A. C. Moule. Yen Kuang-ta, o autor do Itinerário, diz que, viajando de barco, «parou à noite fora dos muros de P"i chou ... Todos os oficiais foram visitar a cidade de P’i chou. Os muros da cidade e as paredes das casas estavam desmantelados, e o povo vivia nas ruínas. Daí por diante todas as cidades por que passámos estavam na mesma condição. Ficámos de noite desabrigados na margem» (64). Parece que isto aconteceu depois da descrição de Marco Polo ou, mais provavel¬ mente, que a cidade foi recuperada antes dele deixar a China em 1292. P i chou, P'ei chou ou Peichow são os nomes que geralmente se encontram em cartas e livros modernos. Mas, por exemplo, numa carta de 1928 «Compiled by Messrs. The Asiatic Petroleum Co. (N.C.), Ltd., Shanghai» ele aparece como Sinpichow, e no China Postal Atlas, publicado em 1919 em Pequim, os caracteres chineses que indicam esta cidade têm o mesmo significado. a 485 li, com diferenças parcelares que chegam a 20 li (quase 12 km.). Um li é igual a 576 m. (63) II, lxiii. Yule, Marco Polo, 11, 141. Vide Moule, Hangchou lo Shang-tu. (64) Loc. cit., p. 397.
58 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Nesta edição do Postal Atlas a leitura correcta dos três caracteres é Hsin P"ei chou; além destes há depois outros caracteres entre parênteses que se lêem P"ei hsien. Hsien quer dizer distrito. Numa edição mais recente do Posta! Atlas (Nanking 1933) o lugar, a par dos dois caracteres chineses tem a palavra corres¬ pondente Pi hsien. de acordo com a moderna nomenclatura oficial chinesa, chou tendo sido mudado pela República para hsien, que significa «novo», muitas vezes se escreve sin ou, no caso de lugares no sul, sun. Por exemplo, um Cantonês leria sun o mesmo carácter que no norte se lê hsin ou sin. Sob a epígrafe Hsia P'ei, i.e., Baixo P'ei, um Dicionário Geográfico Chinês moderno (65) diz que a velha muralha de Hsia P’ei (ou antiga P’ei chou) ainda existe a leste da actual P’ei — três li a leste de P'ei chou, segundo Playfair (66). Do atrás referido Itinerário de 1276 vê-se que a cidade de P'ei estava então em ruínas, talvez como consequência da conquista mongol ou das terríveis inundações que no século xm forçaram o Rio Amarelo a mudar de curso e assim a correr através da região onde P'ei estava situada, ou como consequência de ambas. É evidente que no tempo de Pires e de Pinto uma nova cidade fôra há muito construída na margem do Canal, a oeste da outra arruinada, e talvez chamada Hsin (ou Sun) P'ei, i.e. Nova P’ei. Tai quer (65) Chung kuo ku chin ti ming tu tz’u tien (Dicionário Geral dos antigos e modernos topónimos da China), Shangai, Commercial Press, 1931. Segundo este Dicionário, no «Later Han (A.D. 25-220)» a sede do Governo do Reino Hsia P'ei era na «Velha Muralha de Hsia P’ei». «A Velha Muralha está a leste de P’ei Hsien no moderno Chiang-su» (Kiangsu). Embora a cronologia em casos tais nem sempre seja muito clara e por vezes mesmo contraditória, depreende-se dos quatro artigos referentes a P‘ci no Dicio¬ nário (pp. 48 e 537) que o nome e estatuto da cidade mudaram várias vezes através dos séculos; parece também que mais duma vez mudou de lugar. Nenhum dos quatro artigos refere quer a «velha» quer a «actual» cidade como Hsin, «Nova», mas pelo menos as duas cartas acima mencionadas são bem explicitas. (66) The Cities and Towns of China, 2549.
introdução 59 dizer «terraço» e t'i (ou Vai em cantonês) quer dizer «dique» ou «margem» (67). Atrevo-me a sugerir que no tempo de Pinto o lugar se chamava Hsin ou Sun P'ei t'ai, i.e., Sampitay, ou pelo menos que esse era o nome usual entre os barqueiros e por isso era o que lhe chamavam quando falavam com Pinto. Esta parte da província de Kiangsu, atravessada pelo velho curso do Rio Amarelo, tem sido através dos séculos cenário de cheias terríveis, consequentes mudanças na hidrografia da região e provavelmente no curso do Canal (68), sendo muito possível que depois do tempo de Pinto o Canal se tenha deslocado para oeste. Este ponto do Canal está a 480 li, ou 276 Km, de Wei- -ch’ueh-lou ou Junquileu, o que representa uma média de uns 25 Km diários durante os onze dias que Pinto levou para cobrir essa distância, com várias comportas ou açudes a atravessar (69), e a água correndo fortemente de norte para sul. Não admira que Pinto escievendo Sampitay dê uma melhor versão deste topónimo que em muitos outros casos. Não só ele aí se demorou mais tempo que em qualquer outro lugar durante a sua viagem, mas o encontro com Inês de Leiria e a história que ela lhe contou sobre Tomé Pires deve tê-lo impressionado mais do que qualquer outro acontecimento, e assim se deve melhor ter fixado na sua memória. É fácil encontrar várias inexactidões na narrativa de Fernão Mendes Pinto, mas em muitos pontos a sua boa-fé não pode ser posta em dúvida. Devemos, porém, admitir algumas inexactidões, devidas ao facto de que ele escrevia de memória muitos anos mais tarde, o que fez com que misturasse vários dos muitos nomes exóticos (67) H. A. Giles, A Chinese-Englisli Diclionary, 10.577, 10.914, 10.917. (68) Vide Gandar, op. cil., pp. 29 seqq. Numa carta publicada por Yule, Marco Polo, II, 144, Pcichau está situada na margem oriental do Grande Canal e apenas a poucos quilómetros a norte do velho curso do Rio Amarelo «de circa A.D. 1200 a 1853». (69) Gandar, op. cit., p. 26. W. J. Garnett, Reporl of a Journey ihrough rhe Provinces of Shantung and Kiangsu, p. 19. London 1907.
60 Tomé Pires e Francisco Rodrigues orientais, ao facto de que não conhecemos o manuscrito do seu livro e, certamente o responsável pela edição da Peregrinação (só publicada vinte e um anos depois da morte de Pinto) não pôde compreender a maior parte dos nomes de lugares e pessoas escritos por Pinto e provavelmente corrompeu muitos deles, como no caso de Tuam Nacem atrás referido. No caso de Tomé Pires, como em muitos outros, o estudo minucioso do problema tem mostrado quão inconsistentes e injustas podem ser as acusa¬ ções lançadas sobre Fernão Mendes Pinto pelos seus detiac- toies(70). Há ainda muitos pontos na Peregrinação aguar¬ dando que sejam destrinçados e explicados — talvez aguardando em vão — como tem acontecido com muitas narrativas antigas. Mesmo no Livro de Marco Polo, apesar dos estudos exaustivos a que tem sido sujeito, há pontos que não podem ser compreen¬ didos. Em quase todas as crónicas ou antigas narrativas de viagens se encontram nomes de lugares que não podem ser iden¬ tificados, afirmações contraditórias e datas erradas, como cons¬ tantemente se pode ver na sucessão de notas que acompanham esta edição da Suma Oriental de Tomé Pires. Contudo ninguém se lembra de dizer que Correia, Galvão, Castanheda, Barros, Couto ou qualquer outro escritor antigo mentiu, ou escreveu descaradas falsidades ou embustes quando o que dizem não corresponde perfeitamente à verdade estabelecida e provada. As andanças e aventuras de Fernão Mendes Pinto indubi¬ tavelmente constituem um dos mais maravilhosos capítulos na história de viagens, e o belamente escrito livro que ele legou à posteridade é na verdade uma jóia neste fascinante género de literatura. O grande viajante e escritor certamente merece um (70) Georgc Philips escreve: «Eu tenho cm meu poder um exemplar da edição do Marco Polo de Marsdcn, a qual em 1826 pertenceu ao Dr. Mor- rison, que disto oferece uma curiosa ilustração, porque no fim do livro encontro escrita a lápis a seguinte apreciação do carácter do grande viajante: 'Com toda a deferência pelo sábio Vcneziano, chego à conclusão de que ele é um consumado mentiroso.’» The Seaporis of índia and Ceylon, p. 215. Fernão Mendes Pinto ainda tem que achar o seu Sir Henry Yule.
Introdução 61 tratamento mais justo, e a sua memória deve ser invocada com mais respeito. Na verdade já não é cedo para prestar a Fernão Mendes Pinto a reparação a que tem direito (71). (71) Uma das muitas aventuras extraordinárias de Pinto, durante os vinte e um anos que passou no Oriente, foi a sua entrada em 1554 como noviço na Companhia de Jesus e tê-la abandonado em 1556 — grave e imper¬ doável ofensa, segundo alguns julgam. Cristóvão Aires, um dos seus bió¬ grafos, escreve: «A animadversão dos Jesuítas contra Pinto, a ponto de man¬ darem suprimir o seu nome de todos os seus registos, muito contribuiu para o sistemático descrédito da Peregrinação.» Fernão Mendes Pinto e o Japão. p. 3. Pinto escreveu duas cartas à Companhia, enquanto esteve ao seu serviço, uma de Malaca em 1554, e outra de Macau em 1555; os Jesuitas publicaram a primeira destas cartas mas não a segunda, e mais tarde o nome do autor foi apagado ou alterado em ambas elas. Vide o muito interessante e valioso trabalho de Jordão de Freitas, Fernão Mendes Pinto. pp. 57-60. Vários historiadores jesuítas utilizaram o manuscrito da Peregrinação antes de ser impresso; o primeiro deles foi G. Pietro Maffei na sua Historia Indica (1589), mas a menção do nome de Pinto foi cuidadosamente evitada. Na sua Historia da Igreja no Japão o Jesuíta João Rodrigues, de alcunha Tçuzzu (1561-1634), refere-se a Pinto apenas para rotular a Peregrinação de «seu livro dos fingimentos». A. Cortesão, Cartografia, I, 165-6; idem, A Expan¬ são Portuguesa através do Pacifico, pp. 170-2. A Peregrinação foi publi¬ cada pela primeira vez em Lisboa, 1614, depois de ser corrigida pelo cronista Francisco de Andrada. Francisco Fíerrera Maldonado, cuja tradução espanhola da Peregrinação foi em 1627 publicada em Madrid, diz na sua introdução: «Francisco de Andrada, Cronista-mor daquele Reino de Por¬ tugal, recebeu este escrito original de Fernão Mendes Pinto, para o ordenar, corrigir e arranjar antes de ser impresso ... mas ele deixou este livro tão imperfeito que em vez de o corrigir o danificou, de modo que o arranjo errado que lhe deu foi a causa de a sua verdade originar dúvidas e juízos entre gente de espírito acanhado» ... foi. lv. Isto explicará por que a Pere¬ grinação, depois de corrigida, não faz a menor alusão a acontecimentos tão importantes na vida de Pinto como os três anos que esteve na Companhia de Jesus, período durante o qual o Governador-Geral da índia o enviou como embaixador oficial ao Japão (1554-6). Tem-se dito que Pinto foi expulso da Companhia de Jesus «porque era marrano, i.e. de sangue judaico», e esta infundada fantasia já conseguiu mesmo entrar na Encyclopaedia Bri- tannica (í.v. Pinto, Fernão Mendes). Já noutro lugar mostrei que Pinto não foi expulso e que não era de sangue judaico. Fernão Mendes Pinto não era de origem judaica, in Seara Nova, N.° 842, 2 de Outubro de 1943,
62 Tomé Pires e Francisco Rodrigues resumindo — Demasiadas interrogações e dúvidas se encon¬ tram por toda esta tentativa de reconstrução biográfica de Tomé Pires, infelizmente. Mas, mantendo todas as reservas onde a prova é meramente circunstancial, a biografia do primeiro Embai¬ xador europeu à China pode ser assim esboçada: Tomé Pires nasceu cerca de 1468, talvez em Lisboa, onde deve ter vivido na Porta da Madalena, perto do canto nordeste da actual Praça do Comércio. Seu pai era boticário de D. João II, e o próprio Tomé Pires foi boticário do Príncipe D. Afonso. Em 20 de Abril de 1511, talvez então viúvo, Pires embarcou em Lisboa para a índia, onde chegou em 7 de Setembro ou uns dias mais Lisboa. [O sábio historiador Dr. Domingos Maurício Gomes dos Santos, S.J., escreveu a propósito da «suposta anatematização de Mendes Pinto pela Companhia de Jesus»: «O corte do nome ou das referências normais nas cartas de 1554 e 1555 e nos catálogos da Companhia de Jesus só se explica por inimizade ou pode ter explicação em evitar qualquer equívoco? O A. da Peregrinação foi simplesmente noviço e os Jesuítas não sentem inimizades por se averiguar que qualquer dos seus candidatos não tem vocação.» (Brotéria, Vol. 101, p. 237. Lisboa 1973.)] Se muitos Jesuítas no passado, e alguns no presente, atacaram Pinto, excepções se podem citar. Em 1710 o Padre Francisco de Sousa, S.J. escreveu no seu Oriente Conquistado: «...Pinto bem conhecido pelo livro das suas peregrinações, tão verdadeiro no juízo dos doutos como duvidoso na opinião do vulgo» (p. 106); em 1925 o Rev. L. Besse, S.J. c o Rcv. H. Holsten, S.J., escreveram: «A testemunha principal é Fernão Mendes Pinto, cuja veracidade sobre os acontecimentos da Birmânia entre 1545 e 1552 dificilmente pode ser posta em dúvida.» Father Manoel da Fonseca, S.J., in Ava (Burina) (1613-1652), p. 45, in Journal of lhe Asiatic Society of Bengal, vol. XXI, 1925. Embora muitos auto¬ res, tanto antigos como modernos, tenham verificado e proclamado a hones¬ tidade do autor da Peregrinação, o anátema foi lançado, e a calúnia nunca desapareceu de todo. Na última edição [1943, depois suprimido, tal como na última edição da Encyclopaedia Britannica, a referência acima citada) do RogeFs Tltesaurus of English Words and Phrases, «Fernão Mendes Pinto» ainda é dado como sinónimo de «embusteiro, mentiroso, charlatão, burro em pele de leão», etc. [Sobre Fernão Mendes Pinto e respectiva biblio¬ grafia vide a excelente e monumental obra de S. M. El-Rei D. Manuel. Livros Antigos Portugueses, II, 478-83. Londres 1932.)
Introdução 63 tarde. Em Lisboa ele fora nomeado «feitor das drogarias» na índia, mas depois de oito ou nove meses em Cananor e Cochim, Afonso de Albuquerque despachou-o para Malaca a fim de fazer um inquérito sobre algumas irregularidades, e também como feitor das drogarias, escrivão e contador da feitoria. Pires partiu de Cochim em Abril ou Maio e chegou a Malaca em Junho ou Julho de 1512. De Março a Julho de 1513 foi a Java como feitor duma armada. Deixou Malaca em fins de Janeiro de 1515 e chegou a Cochim em fins de Fevereiro. A maior parte da Suma Orienta! foi escrita em Malaca mas concluída na índia. Pires tencionava regressar a Portugal, mas o novo Governador- -Geral, Lopo Soares de Albergaria, seu velho amigo pessoal, escolheu-o, apoiado no conselho de outros capitães e fidalgos portugueses na índia, para ir à China como embaixador. Par¬ tiu de Cochim em fins de Fevereiro de 1516, fez escala em Pacem e foi a Malaca, donde em 12 de Agosto largou a caminho da China. Tempo adverso fez com que a esquadra que acompa¬ nhava Pires regressasse a Malaca; de novo partiu de Malaca em Junho de 1517 e chegou a Tamão em 15 de Agosto, e a Cantão em fins de Setembro, desembarcando cerca de um mês mais tarde. Depois de mais demoras desesperantes, Pires e a sua comitiva partiram de Cantão em 23 de Janeiro de 1520, chegaram a Nanquim em Maio, e antes de Fevereiro de 1521 estavam em Pequim, tendo viajado pelo Grande Canal. Depois de ter sido muito mal recebido pelos funcionários da corte, Pires deixou Pequim em 22 de Maio, sem ver o Imperador, e estava de regresso a Cantão em 22 de Setembro de 1521. Pires e os seus com¬ panheiros foram imediatamente presos, e em 14 de Agosto de 1522 ele foi posto a ferros. Banido de Cantão em fins de 1523 ou começos de 1524, Tomé Pires foi para Sampitay, uma povoação nas margens do Grande Canal, onde dois anos antes, quando viajava entre Nanquim e Pequim, ele encontrara uma mulher chinesa com alguns bens da qual tivera uma filha chamada ínês de Leiria. Pires deve ter morrido em Sampitay não muito antes de 1540, quando tinha cerca de 70 anos. Sampitay corres-
64 Tomé Pires e Francisco Rodrigues ponde à actual pequena cidade Hsin-P'ei-chou, Sinpichou ou Pihsien, perto da fronteira norte da província de Kiangsu. Tomé Pires dificilmente poderia tei imaginado que futuro lhe estava reservado ao aceitar a chefia daquela malfadada embaixada à China. Quando estava prestes a regressar a Por¬ tugal, feliz e rico, surge-lhe o que parecia uma oportunidade dourada de elevação em categoria social e aumentar enorme¬ mente a sua riqueza em conhecimentos e em dinheiro. Mas não só perdeu tudo o que tinha como, depois de terríveis sofri¬ mentos, ansiedades, humilhações e misérias, veio a morrer igno¬ rado, esquecido e sem esperança nalguma pequena cidade daquela longínqua sempre misteriosa e estranha China. Depois de se ler a Suma Oriental e saber como foi escrita nos pequenos inter¬ valos duma vida extremamente ocupada, pode ter-se a certeza que, desde a partida de Cochim em 1516 até a sua morte na China vinte e tal anos depois, Pires continuou a escrever. Por Gaspar Correia se sabe, conforme atrás referido, que antes de 1524 Pires enviou ao Governo da índia «um livro em que lhe dava conta das riquezas e grandezas do Rei da China». Mas nem vestígios hoje existem desse precioso livro, nem tão-pouco do livro que trata dos «pesos e medidas em todos os diferentes lugares» do Oriente, que o próprio Pires anuncia na Suma. A Suma Oriental e a carta de 27 de Janeiro de 1516 «sobre as dro¬ gas e onde elas nascem» podem dar-nos alguma ideia do que Tomé Pires teria escrito sobre aquela China que ele conheceu tão infi¬ mamente. Uma breve referência na carta de Cristóvão Vieira dá alguma ideia do rigor que Pires pôs no seu estudo da China — «Nanquim, dizia Tomé Pires que está em 28 ou 29 graus; Pequim, que está em 38 a 39» (72). A latitude correcta de Pequim é 39° 54' e a de Nanquim 32° 5'. Nanquim é evidentemente um engano de Vieira; talvez ele quisesse dizer Nan-chang (72) Voretzsch, op. cit., p. 62. O nome de Tomé Pires que aparece nos fragmentos de Lisboa da carta original de Vieira, foi aqui omitido na cópia de Paris (foi. H2v.).
Introdução 65 (lat. 28° 30’ N.), por onde Pires provavelmente passou na sua viagem entre Cantão e Nanquim. Foi uma grande perda para a história da ciência e da geo¬ grafia o desaparecimento do que Tomé Pires escreveu sobre a China, tanto o que ele enviou antes de 1524 como o que nunca conseguiu contrabandear para fora da China. A «SUMA ORIENTAL» DE TOMÉ PIRES o manuscrito DE lisboa — Além do MS de Paris há um outro na Biblioteca Nacional de Lisboa, sem nome de autor e contendo apenas uma porção da Suma Oriental. Esta cons¬ titui parte dum códice, MSS 299, que começa com uma Chrorlica geral dos reinos de Guzerate, fols. I-4!v., e é completado com a Soma horientall que trata do mar Roxo ate os chims, fols. 41 v.-98v. Faltam fols. 42-47. Segundo o índice no códice, anteriormente ele também continha uma Chronica troiana, que agora está no MS 298. Todo o códice está escrito claramente com a mesma letra de meados da primeira metade do século xvi. O começo é idêntico ao de foi. 118v. do códice de Paris, mas falta o texto desde «nacimento do njllo» até cerca do terceiro quarto da foi. 121 r, pois se encontrava nos últimos seis fólios desaparecidos; segue-se a descrição da Arábia, Ormuz, Pérsia, Noutaques, Ris- butos. Cambaia, Canará, Narsinga. Malabar, Bengala, Aracão, Pegu, Siâo, Camboja, Champá, Cochinchina, e China (73). Todo o resto — Ceilão, Choromândel, Arquipélago índico. Léquios, Japão, e a história de Malaca — falta por completo. Não só as epígrafes c ordem dos capítulos ou partes são diferentes nos dois MSS, mas ainda os textos diferem em muitos passos e (73) Os fólios nos MSS de Lisboa c de Paris correspondem da seguinte maneira: 41v. = 118v; 48r. a 59v. = 121r. a 125r.; 59v. a 63v. = I30r. a 131v.; 64 = 130r.; 65r. a 70r. = 132r. a 134r.; 70r. a 84v. = I25v. a I29v.; 84v. a 98r. - I34r. a 139v.; 98r. a 98v. = I6lr. a 162v.
66 Tomé Pires e Francisco Rodrigues é mais reduzido no MS de Lisboa, sobretudo nas descrições de Sião e da China. Algumas variantes entre os dois textos vão apontadas em notas de rodapé, quando necessário, mas muitas mais existem. O MS de Lisboa deve ser cópia de algum original agora perdido, que aliás não foi aquele de que se fez a cópia que cons¬ titui o MS de Paris. Embora as reduções no texto até Bengala pudessem ser explicadas como mero desejo de simplicar por parte do copista ou de quem mandou fazer a cópia, a mesma simples explicação se não pode aplicar ao muito reduzido texto depois da desci ição de Bengala. Por outro lado, o MS de Lis¬ boa. pelo menos na passagem referente a Malik ‘Aiyaz, acrescenta alguma informação à que é dada pelo MS de Paris (74); a data 1522 mostra que foi acrescentada muito depois do original ser escrito e não pelo próprio Pires. Não só aí se encontram pala¬ vras e passagens que estão erradas no MS de Paris e correctas no MS de Lisboa, mas vice-versa, palavras como agenb e çamar- cante naquele aparecem erradamente escritas neste. É possível que o MS de Lisboa seja cópia de algum relatório preliminar que Pires tivesse enviado não muito depois da sua chegada a Malaca. Ele deve ter recebido instruções, antes de partir de Lisboa, para enviar relatórios no género da Suma Oriental, sobretudo de carácter económico embora com um fundo his¬ tórico. Talvez Pires se referisse a este relatório preliminar, ou algum outro escrito pouco depois, quando na carta de Malaca de 7 de Novembro de 1512 diz a seu irmão: «A el-Rei nosso Senhor escrevo Iargamente das coisas de Malaca», e depois acrescenta que esta é enviada com outras cartas para o «senhor Jorge de Vasconcelos», o Provedor da Casa da Mina e índia, um antigo Ministério das Colónias. Durante a sua estadia em Malaca Pires deve ter podido colher muito mais informação sobre o Extremo Oriente, a ínsulíndia, e a própria Malaca com os países vizinhos, que mais tarde inclui na Suma Orientai Por outro lado não há dúvida de que a Suma OrientaI foi oficialmente (74) Vide nota 68, p. 165.
ESTAMPA IV As primeiras linhas referentes à China na Suma Oriental de Tomé Pires. Em cima - MS de Lisboa; em baixo - MS de Paris
ESTAMPA V Desenho panorâmico de Alor (foi. 43) por Francisco Rodrigues
Introdução 67 mantida secreta, e é muito possível que apenas da parte referente a matérias já do domínio público fosse pelas autoridades portugue¬ sas autorizada a transcrição e saída dos ciosamenle guardados arqui¬ vos oficiais; o MS de Lisboa talvez seja cópia de tal transcrição. a tradução de ramusio — No seu Primo Volume delle Navigationi et Viaggi, pela primeira vez impresso em Veneza cm 1550, Ramusio publica, depois do Libro di Odoardo Barbosa, o Sommario di tutti li Regni, Citta, & populi orientali, con li traf- fichi & mercantie, che iui si trouano, cominciando dal mar Rosso fino alli popoli dalla China. Tradotto dalla lingua Portoghese nella Italiana. A tradução foi feita dum original semelhante ao do MS de Lisboa (75), e contém a parte correspondente aos seis fólios que neste faltam. A tradução destas partes mostra muitas diferenças do MS de Paris; por exemplo, toda a secção desde a referência à escassez de chuva no Egipto até a descrição de Meca, em foi. 119v. do MS de Paris, falta em Ramusio. Mas também há diferenças entre o MS de Lisboa e a tradução de Ramusio; além de muitas outras menores, há uma longa omissão ao descrever o Golfo Pérsico. Após cinco linhas sob a epígrafe Del golfo Pérsico, Ramusio segue com os Naitaques, a que chama Motages, deixando de fora todo o conteúdo de fols. 54r.-57r. do MS de Lisboa sobre os lios Eufrates e Tigre, e acerca do Sofi. Quando se refere a Melique ‘Aiyaz, a tradução de Ramusio tem a mesma referência ao ano 1522 que o MS de Lisboa. Ramusio não sabia quem era o autor do relato que traduziu. No «Discorso di M. Gio. Battista Ramusio sopra il Libro di Odoardo Barbosa, & sopra il Sommario delle Indie Orientale» que precede a tradução de ambos, diz ele: «Do mesmo modo o sumário, segundo o que consegui averiguar, também foi com¬ posto por um cavalheiro português, que navegou por todo o (75) Conforme a Encyclopaedia Britanniea diz, o original deste Sumário de lodos os Reinos, Cidades, e Nações do Mar Vermelho à China nunca foi impresso ou notado em parte alguma. S.v. Ramusio, Gian Battista. 6
68 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Oriente, e tendo lido o Livro de Barbosa, desejou descrever quase as mesmas coisas à sua maneira e de acordo com a informação que recebera, e especialmente sobre aquela parte onde estão as Molucas, que têm para norte uma longa costa de terra firme, que alguns pilotos portugueses pensam, por informação colhida em Malaca, corre para leste; e segundo me disseram, ele tentou descrevê-la com mais pormenor do que era capaz, pois essa é uma das partes mais singulares e notáveis que o globo descreve, e completamente habitada e cheia de cidades e gente branca, dotada de bom intelecto e cortês, e havendo lá, além desta, muitas ilhas bem povoadas e abundando em tudo o que é preciso para o sustento humano. Contudo, quando ele regressou à pátria, se quis que o seu livro fosse visto, foi obrigado a dele suprimir toda aquela parte que, para o fim, trata das Molucas e das especiarias. E tendo eu nesse tempo ordenado, com grandes complicações e dificuldades, que o livro fosse transcrito mesmo em Lisboa, apenas consegui obter uma cópia, e mesmo essa imperfeita; e o mesmo fiz para o Livro de Barbosa em Sevilha. Tanto podem os interesses do príncipe. Eu bem teria querido que, assim como não deixei de ter todos os cuidados para obter estes livros, uma melhor fortuna os tivesse feito chegar às minhas mãos mais completos e mais correctos, e eu muito mais contente e rapidamente os teria impresso e publicado; não para qualquer outro fim ou propósito que não seja agradar aos estudiosos que têm prazer em tais leituras...» (76) Embora ele erradamente supusesse que o autor do Sommario tinha lido o Livro de Duarte Barbosa, que de facto foi escrito dois anos mais tarde, o relato de Ramusio é muito interessante. Vê-se que ele tinha obtido informação sobre a Suma Oriental, tal como a conhecemos pelo MS de Paris, mas não conseguiu obter uma cópia completa apesar de todos os seus esforços. (76) Esta tradução segue a edição de 1613 (I, 287v.). As palavras «i/uasi» e «& delle spetierie», e a frase «Tanto possono gl'interessi de! príncipe» não se encontram na edição de 1550 (I, 310v.).
Introdução 69 Quem quer que lhe forneceu a sua cópia incompleta teve de lhe dizer que o autor tinha sido forçado a deixar de fora toda a matéria referente às Molucas e às especiarias — uma história especiosa para disfarçar a sua incapacidade para conseguir melhor. O que era mais importante e interessante para Ramusio tinha ficado de fora, i.e., justamente a informação sobre as pre¬ ciosas especiarias, as Molucas e as outras ilhas da Insulíndia, de que nada mais se sabia além das vagas referências de antigos escritores, a fantasiosa descrição de Varthema, que nunca passou além da índia, o muito incompleto relato em segunda mão de Duarte Barbosa, e a excitante mas breve descrição de Pigafetta, tratando quase que exclusivamente da parte relativamente pequena que ele viu. É fácil de compreender a óbvia contrariedade de Ramusio. De acordo com a política de segredo em matéria de descobrimentos, seguida pela Coroa desde a primeira metade do século xv, as importantes informações sobre as Ilhas das Especiarias e as índias Orientais não podiam ser divulgadas. Embora a Espanha tivesse oficialmente desistido das suas pre- tençõesàs Molucas pelo Tratado de Saragoça (22 de Abril de 1529), os Espanhóis nunca desistiram, e os seus espiões não cessaram de tentar obter as informações que pudessem até 1580, quando começou aquele triste período da história portuguesa, em que Portugal esteve sessenta anos sob o domínio espanhol (77). Assim, a parte da Suma de Pires, que se consentiu transpirasse, ou que algum agente estrangeiro conseguiu obter — a que consta do MS de Lisboa e da tradução de Ramusio — nada mais con¬ tém do que informações relativamente pouco importante que toda a gente conhecia. O Sommario que chegou a Ramusio tinha sido expurgado de tudo o que fosse considerado segredo de Estado. (77) Vide o meu ensaio O Descobrimento da Australásia e a «Questão das Molucas», pp. 148 seqq. Tenho mesmo razões para crer que os Por¬ tugueses tinham já descoberto a Austrália em 1522, e que o segredo foi ciosa¬ mente guardado, como mostrei noutro ensaio — A Expansão Portuguesa através do Pacifico, pp. 155-9.
70 Tomé Pires e Francisco Rodrigues «Tanto possono gfinteressi del príncipe», como o célebre Vene- ziano tristemente diz. o manuscrito de paris — Já vimos que os 62 fólios contendo a Suma Oriental constituem a segunda parte do códice em que o Livro de Francisco Rodrigues ocupa a primeira parte. A cali¬ grafia é tão parecida com a das cartas de Tomé Pires existentes em Lisboa, que de princípio se pode julgar que a presente cópia da Suma foi escrita pelo próprio autor (78). Mas um exame cuidado mostra definitivamente que não foi feita pelo próprio Pires. Além das razões de ordem paleográfica, há muitas indicações no manuscrito que mostram tratar-se de mera cópia, a qual não podia ter sido escrita pelo próprio Pires. Por exemplo, na descrição da Pérsia, quem fez a cópia de Paris (foi. 122v.) escreveu Ydamca em vez de índia, que aparece correctamente no MS de Lisboa, e consequentemente na Iradução de Ramusio (vide n. p. 150). Quando se refere aos mercadores da Pérsia, o MS de Paris (foi. 124r.) tem cauo em vez de Cairo, o que está correcto no MS de Lisboa e em Ramusio (nota p. 158). No começo da descrição do «Reino de Cambaia» falta uma palavra no MS de Paris (foi. 125r.), mas no MS de Lisboa e em Ramusio a frase está completa (nota p. 163). Um pouco adiante o MS de Paris tem, erradamente, Dalmãs, que no MS de Lisboa é dado correctamente como gemte darmas, e igualmente em Ramusio (nota p. 163). Na descrição do «Reino de Narsinga» o MS de Paris (foi. 126r.) tem que, mas o MS de Lisboa dá correctamente porque, e o mesmo faz Ramusio; outro tanto sucede com arte num, e corte nos outros (notas p. 171). Quando se refere aos (78) O saudoso Cmte. Fontoura da Costa, a quem enviei algumas fotocópias da Suma Oriental para que pudesse comparar a caligrafia com a das cartas de Pires na Torre do Tombo, escreveu-mc dizendo que tinha con¬ sultado vários peritos c a primeira impressão era que a caligrafia da Suma «parece realmentc a de T. Pires». Mas investigações posteriores não deixam qualquer dúvida no meu espírito de que não é da mão de Tomé Pires.
Introdução 71 «Naires do Malabar», o MS de Paris (foi. 127v.) tem erradamente pequeno Douro, mas o MS de Lisboa tem correctamente pedaço douro (nota p. 178). Ao descrevei o «Reino de Cranganor» o copista do MS de Paris (foi. 128v.) saltou as palavras cõ a vimda dos portugueses he, que estão no MS de Lisboa (nota p. 187). Ao começo do Reino de Coniorim o MS de Paris (foi. 129r.) saltou as palavras O Reino de Coniorim cõfina, que estão no MS de Lisboa e semelhantemente em Ramusio; sob a mesma epígrafe parece que o copista do MS de Paris saltou toda uma linha — asy como nos chamamos a duques marquezes comdes & outros (nota p. 189). Na descrição do «Reino de Cochin- china» o MS de Paris (foi. 138v.) tem qoat0 Juncos, que é um engano por qoarenta, como está no MS de Lisboa e semelhante- mente em Ramusio (nota p. 250). Estas e outras divergências do mesmo género, algumas delas mencionadas nas notas, levam à mesma conclusão: o MS de Paris é uma cópia, que de modo algum se pode considerar feita pela mão de Tomé Pires. É possível que o códice mencionado por Barbosa Machado fosse o original. Infelizmente ele não diz onde se encontrava, mas talvez o tivesse visto na preciosa biblioteca real do Paço da Ribeira ou nos ainda mais preciosos arquivos da Casa da índia, que estavam no rés-do-chão do mesmo edifício, ambos destruídos pelo incêndio que se desencadeou quando Lisboa foi devastada pelo grande terramoto de 1755. Barbosa Machado publicou o Vol. ui da sua Bihliotheca Lusitana, onde se refere a Tomé Pires, em 1752. Não sabemos onde a presente cópia da Suma Oriental foi feita, ou como veio a ser encadernada juntamente com o Livro de Francisco Rodrigues. Contudo, quando em 1512 Rodrigues regressou da sua primeira visita às Molucas, Pires já estava em Malaca. Eles teriam gostos em comum, e talvez se tornassem amigos; poderiam ter-se encon¬ trado na índia antes de Pires partir para a China, e é muito possível que Rodrigues obtivesse uma cópia da Suma OrientaI — talvez para si feita especialmente. Mas mesmo que se não tenham encontrado na índia, certamente se encontraram em
72 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Cantão. Rodrigues era um dos capitães da armada de Simão de Andrade que em Agosto de 1519 chegou a Tamão, e Pires só em Janeiro de 1520 partiu para Pequim. É de crer que Pires, antes de partir de Cochim para a China, enviasse para Lisboa o original da Suma Orientai, de que certamente guardou uma cópia ou o primitivo rascunho. Quando os dois se encontraram de novo, Pires provavelmente mostrou a Suma Oriental a Rodri¬ gues, a qual este já teria visto na índia ou em Malaca, quando estava a ser escrita, ou Pires tê-la-ia mesmo entregue a Rodrigues, em vista das dificuldades e perigos que estaria antecipando. E se Rodrigues já não tinha uma cópia, então uma foi feita quando Pires ainda estava em Cantão ou pouco mais tarde. O facto é que o Livro de Rodrigues é da sua própria mão e a presente cópia da Suma Oriental está escrita na mesma qualidade de papel, o que fortemente sugere ter sido feita por ordem de Rodrigues e que esteve primeiro em seu poder. Pires introduz certa confusão na divisão da sua obra. Depois de dizer no «Proémio terceiro» que a «presente Suma será gizada de cinco rios principais — Nilo, Tigre, Eufrates, Indo e Ganges» — passa a afirmar que os cinco livros em que será dividido tratarão: o primeiro da Arábia a Cambaia, o segundo até Baticalá, o terceiro até Bengala, o quarto até a China, e o quinto será de todas as ilhas. Estas duas divisões não podem, claro está, ajustar-se uma na outra. Depois segue-se, sob a epígrafe «Divisão da presente Suma», uma nova divisão que não se ajusta em qualquer das anteriores. É também em cinco livros: primeiro — o começo da Ásia, da África até a Primeira índia; segundo — até o fim da índia Média; terceiro — da índia Alta até Odia; quarto — China, Léquios, Japão, Bornéu, Luções, e Macassars; quinto — todas as ilhas em pormenor, i.e. a Insulíndia. Parece que Pires seguiu aproximadamente esta ordem, mas o copista do MS de Paris, depois de começar a descrição do «Reino de Cambaia» (foi. 125r.) segue com os «Reinos na terra Canarim» (foi. 125v.), que pertence ao liv.° II e deve vir depois do «Reino de Goa»; o resto da descrição de
Introdução 73 Cambaia (fols. 130r.-131v.) vem depois da descrição do Malabar. Isto pode ser culpa do copista que escreveu ao cimo de foi. 125v. — «Aqui deixareis este e buscareis Cambaia que vai adiante», e também ao cimo de foi. 130r. — «Do Reino de Cambaia (é antes que os Reinos na terra canarim e após Cambaia os Canarins)». Parece menos provável que o engano partisse do próprio Pires; além disso, no MS de Lisboa e em Ramusio o texto segue-se na ordem devida. Sob a epígrafe «Patamares de Cambaia» (foi. 131r.) lê-se: «Atras na descricam do malabar achares que cousa sam». Mas o MS de Lisboa (foi. 62r.) diz: «Como adiante direy no malabar». Esta variante no MS de Paris será devida ao facto de o copista substituir adiante por atrás para ajustar a palavra ao arranjo da sua cópia. A mesma mão que escreveu Osorio na foi. 5r., também escreveu ao fundo de foi. 131 v.: «Aquj fenece o pr.° e atrás começa o seg° nos Canaris e baticala». Para ainda mais complicar, quando o MS de Paris foi reunido, as fols. 161r.-163v. (pp. 89-94 duma numeração anterior, talvez de quando o códice pertencia a Osório), con¬ tendo o resto do liv.° IV, que começa na foi. I39r. com o «Reino da China», foram colocadas depois do fim do liv.° V e o «Recon- tamento da Ilha de Ceilão», que conclui a foi. 160v. Também depois de terminar o liv.° V com o «Recontamento de todas as Ilhas», Pires escreveu sobre Ceilão (foi. 160), que não menciona em qualquer das divisões da Suma. Ele explica, porém, no começo do «Recontamento da Ilha de Ceilão»: «Por levar a costa da terra firme não curei de me entremeter na Ilha de Ceilão, e depois quase dela esquecido era, e não me pareceu coisa honesta deixar de falar nela, posto que seja em lugar entres- sachado fora de caminho, porém a míngua do papel mo fez e por não meter folha e quebrar a primeira ordenança». Isto mostra que ele tentou manter o seu plano original, pelo que a confusa disposição do texto no MS de Paris dificilmente se pode¬ ria considerar da sua responsabilidade. Por este motivo o «Recontamento da Ilha de Ceilão» vai no fim do liv.° II, na presente versão (inglesa), depois de «Reino de Comorim», o
74 Tomé Pires e Francisco Rodrigues mais meridional do Malabar e da índia. Os últimos quinze fols. do MS de Paris (164r.-178v.) contêm uma longa descrição histórica, geográfica e económica de Malaca, que dificilmente podia sei ajustada no esquema gizado por Pires, mesmo no liv.° III, embora depois de Pegu e antes de Sião inserisse uma nota, aliás nada clara, a qual poderia sugerir que noutro lugar se tratava de Malaca. De modo que esta é, não sem razão, dada como Iiv.° VI na presente versão (inglesa). A ordem de todo o texto foi pois ajustada na versão inglesa, mas o texto português é impresso exactamente na ordem em que se encon¬ tra no MS de Paris; como já se disse, a numeração dos fols., que se mantém no original e na versão inglesa, ajudará os lei¬ tores a encontrar os trechos correspondentes nas duas línguas. Em resumo, a presente versão da Suma Orienta! está geo¬ graficamente divida, nas linhas gerais, como segue: Liv.° I — Do Egipto a Cambaia, com o Mar Vermelho, Arábia, Ormuz e Pérsia; Liv.° II — De Cambaia a Ceilão, com Daquem (Deccan), Goa, Canará, Narsinga e Malabar; Liv.° III — De Bengala à Indochina, com Brema (Burma ou Birmânia) e Sião; Liv.° IV — China a Bornéu, com Lequeos (Liu Kiu), Japão e Filipinas; Liv.° V — Insulíndia; Liv.° VI — Malaca. ONDE E QUANDO FOI ESCRITA A SUMA ORIENTAL — Embora d maior parte da Suma Oriental fosse escrita em Malaca, é provável que tenha sido começada e concluída na índia. Durante os dois anos e sete meses que viveu em Malaca, Pires estava extre¬ mamente ocupado com as suas funções oficiais, como ele pró¬ prio diz no fim do Proémio terceiro: «não me apartarei de culpa de qualquer descuido que eu tiver em não falar assim distinto como convém, porque em coisas de fazenda de V. Alteza em
Introdução 75 que era encarregado me exercitava o principal tempo, e este desta obra era o de benesse». É improvável que ele estivesse tão ocupado quando na índia, antes de embarcar para Malaca, e durante os doze meses entre o seu regresso à índia e partida para a China. Durante os sete meses depois da sua chegada à índia ele deve ter coligido muita informação e começado a escrever a Suma; e pelo final do Proémio se vê que a concluiu na índia. Outras passagens há que levam à mesma conclusão. Na descrição de Malaca Pires refere-se várias vezes ao que será dito na descrição da China, Samatra, Java, Bengala, etc., o que mostra tê-la escrito antes de muito do que diz sobre Malaca; mas referindo-se aos «Portos do Reino de Sião» (foi. 137r.), escreve êle: «como já é dito no Reino e termo de Malaca». Depois, ao ocupar-se dos pesos e medidas de Malaca (foi. 176r), diz: «agora recontarei de como (Malaca) foi tomada e do que sucedeu até o tempo de minha partida para Cochim». Isto mostra que mais tarde, provavelmente quando em Cochim, ele acrescentou ao que já escrevera em Malaca. Embora parte do que escreveu sobre a China, Bengala, e Insulíndia deva ter sido escrito na índia, certamente escreveu a maior parte quando ainda em Malaca. Por exemplo, ao descrever a «Terra de Sura- baia» (foi. 154r.) Pires diz: «Este (Pate Bubat) escreveu já a esta fortaleza e a ele já lhe escreveram duas vezes». A maneira como Afonso de Albuquerque é mencionado no Proémio — que deve ter sido uma das últimas coisas escritas — mostra que Pires tinha concluído a Suma antes do falecimento do grande Governador (16 de Dezembro de 1515). Podemos concluir que a maior parte da Suma Oriental foi escrita em Malaca, e o resto em Cochim, durante os anos 1512-15. o valor da obra de tomé pires — A Suma Oriental cons¬ titui um relatório enviado a el-Rei D. Manuel, talvez em cumpri¬ mento dc recomendação feita a Tomé Pires antes de ele partir de Lisboa. O seu estilo está longe de claro, e sem dúvida se torna mais confuso devido aos enganos do copista, os quais por
76 Tomé Pires e Francisco Rodrigues vezes produzem palavras sem qualquer sentido, sobretudo ao referirem nomes ou expressões locais. Algumas passagens, como por exemplo no final da descrição de Java, são quase impossíveis de traduzir, pois o seu significado dificilmente se pode dedu¬ zir. Enganos semelhantes, cometidos por copistas descuidados ou pouco escrupulosos, aparecem noutros manuscritos contem¬ porâneos só conhecidos através de cópias em segunda mão, como no caso do Livro de Duarte Barbosa, e no do Livro de Marinharia. Mas a tradução do Livro de Duarte Barbosa é tarefa menos complicada, pois além da tradução de Ramusio, feita por uma cópia vista pelo próprio Barbosa em Sevilha, existe a impressão do manuscrito em 1821, tornada mais com¬ preensível graças à pontuação e revisão. O carácter da Suma Oriental, dedicada sobretudo a assuntos económicos, não oferece muitas oportunidades para brilho literário. Mas apesar da pobreza geral de estilo, Pires mostra certa cultura bem acima do que se poderia esperar dum homem da sua condição, e notam-se aqui e ali alguns lampejos ocasio¬ nais da sua pena. Isto nota-se especialmente no «Prólogo», onde ele mais se esforça, embora modestamente declare: «mas como eu seja lusitano, e baixo na gente plebeia cujo costume é dizer menos suas glórias do que são e o mal mais do que é, e por que o compor das sumas ou tratados é mais ofício de estran¬ geiros que de naturais, por saberem adoçar suas composições». Mas logo acrescenta: «como vemos falarem maravilhas nas cousas do mar Mediterrâneo, passagem de xv dias sempre à vista de terra, que fizeram se viram a famosa conquista do Oriente de todo o Mar Oceano, donde se contém cousas tão dignas de memória assim de honra àcerca dos homens como em mereci¬ mento acerca de Deus». Outras passagens há na Suma onde Pires se eleva acima da mera descrição: quando, por exemplo, escreve: «A cidade de Ormuz ... mui fresca ... de formosas mulheres alvas» (foi. 122r.); ou quando comenta o costume de em Bulambuam (Blanibangan) queimar vivas as viúvas, «aqui nesta vida perdendo os corpos e na outra ardendo as almas»
Introdução 77 (foi. 154v.). Nem lhe falta certo sentido de humor, como quando termina uma interessante referência à importância de Malaca dizendo que lá «achais o que quereis e às vezes mais do que catais». Ele nunca cessa de enaltecer Malaca, «fim de monções e começo de outras»; «não se sabe tão grossa escala como a de Malaca nem em que se tratem tão nobres e estimadas mercadorias. Aqui se acha da valia de todo o Levante; aqui se vende de toda valia de todo Ponente» (foi. 160r.). Sob a epígrafe «Razão da grandeza de Malaca», ele revela, a par do seu entusiasmo e talvez melhor que noutra qualquer passagem, a sua visão, espírito crítico e bom senso, terminando com pin¬ turescas e significativas sentenças: «e certo é que este mundo de cá é mais rico, mais estimado que o mundo das índias, por¬ que a menos mercadoria de cá é ouro que menos se estima e em Malaca têm por mercadoria. Quem for senhor de Malaca tem a mão na garganta a Veneza ... Quem isto entende favorecerá Malaca; não se ponha em esquecimento, por que mais prezam os alhos e cebolas em Malaca que almíscares, benjoins e outras coisas ricas» (foi. 178r.). Embora Pires termine a Suma dizendo que «capitão basta para reger e governar com governador con¬ forme as nações dos mercadores», não pôde deixar de escrever um pouco antes (foi. 177r.): «E para Malaca havia mister Salo¬ mão para a governar, e ela o merece». A nota de honestidade prevalece através de toda a Suma c sem dúvida muito aumenta o seu valor. Assim como, antes dele, Duarte Pacheco dissera que «a experiência, que é madre das coisas, nos desengana e de toda dúvida nos tira» (79), assim Tomé Pires diz no «Prólogo»: «nós cá tudo passamos, experi¬ mentamos e vemos». Ele não deixa de salientar os seus esforços para averiguar a verdade: «A grande Ilha de Java é acabada [i.e., o seu relato] da melhor maneira que dela pude inquirir e investigar, verificando-me com muitos, e o que me parecia concordarem bem concordado isto escrevi. E certo não vão (79) Esniertildo de Si tu Orbis, I, ii.
78 Tomé Pires e Francisco Rodrigues fora da ordem de que é» (foi. I54v.). Na descrição das «ilhas de Timor donde vêm os sandalos brancos», Pires afirma uma vez mais: «E eu perguntei e inquiri diligentemente se estas mer¬ cadorias havia em outra parte e todos dizem que não» (foi. 155v.). Quando não podia verificar por si próprio, ele diz francamente que escreve «de acordo com a informação que obtive». Refe¬ rindo-se às ilhas de Amboina e Banda e navegação entre elas, tem o cuidado de ressalvar: «se falando nestas Ilhas junto com Bandam for afastado dos pilotos eu não sou culpado, porque nisto me cometo a quem lá foi; isto tenho sabido por mouros, por suas cartas que muitas vezes vi. Se suas cartas foram ruma¬ das fora declaradamente; seja isto para ler e não para rotear» (foi. I56v.). Depois de mencionar a imaginária «cobra de bafo», acrescenta: «nunca vi homem que a visse» (foi. I28r.). Sobre a história dos «reis de Cambaia serem criados em peçonha». Pires acrescenta: «o que não creio, posto que o afirmam» (foi. 130v.). Sobre as mulheres da Ilha Nias que «emprenham do vento» ele nota: «esta opinião têm os destas partes ... Jaz esta fé no povo (como em) outros Amazonas e Sibila de Roma» (foi. 146r.). Dos Papuas, «homens das orelhas grandes, que se cobrem com elas», diz ele: «nunca vi quem visse outro que as visse. Jaz isto no pouco que é assim» (foi. 159r.). Os primeiros dois livros da Suma Orienta! têm apenas inte¬ resse limitado, embora tragam valiosa contribuição para o estudo dos países de que se ocupam; mas os outros quatro livros des¬ crevem o até então quase desconhecido mundo para além da índia, por alguém que viveu dois anos e meio no centro dos países do Extremo Oriente, alguns dos quais visitou. Deixando de lado as narrativas de viajantes europeus medievais, a Suma de Pires contém a primeira informação fidedigna sobre os países e ilhas entre Bengala e o Japão. A informação que dá sobre as terras que ele próprio visitou é, naturalmente, mais valiosa e vívida do que a obtida em segunda mão; mas mesmo esta é excepcionalmente valiosa para o tempo, devido ao local onde a coligiu e à sua posição oficial, que o punha em contacto directo
Introdução 79 com o mundo cosmopolita dos viajantes orientais, capitães de navios, pilotos e negociantes que frequentavam Malaca, não falando já das informações colhidas de muitos Portugueses. Não é preciso salientar o valor especial da grande riqueza de informação histórica, geográfica, etnográfica e económica sobre cada um e todos os países e povos com quem tratou — isso fácil e naturalmente ressaltará do próprio texto da Suma e, em muitos casos, das notas que o acompanham. Como exemplo, entre muitos pontos importantes, quatro se podem mencionar: encon¬ tra-se aqui, pela primeira vez, o nome Japão, que aparece sob a forma Jampon; a descrição que Pires faz de Samatra só uns dois séculos mais tarde foi ultrapassada em pormenor e exactidão; a informação sobre Java, derivada da viagem que fez à sua costa norte, é notabilíssima; o relato histórico de Malaca é também não só o mais antigo que se conhece, mas contém muita infor¬ mação que não se encontra em qualquer outra parte. Os descobrimentos portugueses, desde o primeiro quartel do século xv até o primeiro quartel do xvi, e a invenção da imprensa de tipo móvel cerca de 1450, foram os dois principais factoies que assinalaram o Renascimento — fundação da Civi¬ lização Ocidental. O período dos descobrimentos coincide com o século de ouro da história portuguesa. O espírito aventuroso dos Portugueses levou-os ao desenvolvimento da ciência náutica, que permitiu aos seus navios desvendar os mistérios dos grandes oceanos e buscar terras distantes, algumas das quais inteira¬ mente desconhecidas ou de que só havia vagas referências na Europa. Com os navegadores foram os guerreiros, os missio¬ nários, os comerciantes, e os homens de ciência e investigadores, como Duarte Pacheco, D. João de Castro, Garcia de Orta, Duarte Barbosa, Tomé Pires e muitos outros. Os seus escritos constituem monumentos imperecíveis (80). A agora felizmente (80) Só a Hakluyt Society já publicou uns 25 volumes com livros portugueses antigos de viagens e outros registos geográficos, e muitos mais que em parte se ocupam da nossa história marítima.
80 Tomé Pires e Francisco Rodrigues redescoberta Suma Orientai, cujo valor foi provavelmente ultra¬ passado pelos posteriores relatos, hoje infelizmente perdidos, que Pires sem dúvida escreveu na China, basta para lhe reservar um lugar importante entre os Portugueses que, estendendo e desenvolvendo o seu descobrimento do mundo, contribuíram assinaladamente para os conhecimentos e progresso da Huma¬ nidade (81). Acima de tudo, Tomé Pires foi o mais antigo Europeu que escreveu uma vasta, conscienciosa e fidedigna descrição do Oriente baseada na sua observação pessoal. Como aconteceu com muitos dos seus compatriotas, e muitos de outros países, ele pagou um preço elevado pelo privilégio de bem servir a sua pátria e a humanidade. (81) Marsden escreveu, mais de dois séculos e meio (1783) depois de Pires: «Sendo os Portugueses melhores guerreiros que filósofos, e mais empe¬ nhados em conquistar nações do que explorar os seus costumes e antiguidades, não surpreende que eles não tivessem podido dar ao mundo qualquer des¬ crição pormenorizada e justa de um país (Samatra) que devem ter visto com maus olhos». The History of Suma Ira. Preface. Claro está que Marsden não conhecia a Suma de Pires, e tão-pouco conhecia o Livro de Duarte Barbosa; ele mal menciona mesmo a descrição que Pinto fez das suas visitas a Sama¬ tra em 1539 (Peregrinação, xiii-xxxii). Contudo Marsden faz esta curiosa e honesta observação, hesitando entre a má reputação de Pinto e a sua exac- tidão e comprovada fidelidade: «Muitos acontecimentos do reino deste prín¬ cipe (cerca 1539 e 1541) são mencionados por Fernão Mendes Pinto; mas o que ele escreveu é demasiado duvidoso para permitir que os factos sejam registados sob a sua autoridade. Existe porém muito forte evidencia interna de que ele esteve mais intimamente relacionado com os países de que agora falamos, o carácter dos seus habitantes e os acontecimentos políticos desse período, do que qualquer dos seus contemporâneos; e afigura-se altamente provável que o que ele contou é substancialmente verdadeiro; mas há tam¬ bém motivo para crer que ele compôs a sua obra de memória, depois do seu regresso à Europa, e talvez não tenha sido muito escrupuloso ao completar com uma imaginação fértil as inevitáveis falhas dessa memória, ainda que ricamentc provida.» Ibid., 428-9.
Introdução 81 O PILOTO E CARTÓGRAFO FRANCISCO RODRIGUES Sabe-se tão pouco de Francisco Rodrigues que é impossível tentar mesmo um esboço biográfico. Além da informação que podemos colher do seu próprio Livro, ele é mencionado em duas cartas de Afonso de Albuquerque para el-Rei D. Manuel, escritas de Cochim em 1 de Abril e 20 de Agosto de 1512; nos Comen¬ tários, III, xxxvii; por Castanheda, III, Ixxv; por Barros, II, vi, 7 e III, vi, I; por Góis, IV, xxv. Mas todos estes apenas mencio¬ nam Rodrigues em relação com algum acontecimento em que ele participou, nada dizendo sobre a sua origem e resto da sua vida. A primeira referência a Rodrigues, de que tenho conheci¬ mento, consta de uma carta de Afonso de Albuquerque de 1 de Abril de 1512, em que menciona «um pedaço de padrão» que enviava a el-Rei D. Manuel, «que se tirou duma grande carta de um piloto de Java, a qual tinha o Cabo de Boa Esperança, Portugal e a terra do Brasil, o Mar Roxo e o Mar da Pérsia, as Ilhas do Cravo, a navegação dos Chins e Gores, com suas linhas e caminhos direitos por onde as naus iam, e o sertão, quais reinos confinavam uns com os outros: parece-me. Senhor, que foi a melhor coisa que eu nunca vi, e Vossa Alteza houvera de folgar muito de a ver; tinha os nomes por letra jaoa, e eu trazia jao que sabia ler e escrever; mando esse pedaço a Vossa Alteza, que Francisco Rodrigues emprantou sobre a outra, donde Vossa Alteza poderá ver verdadeiramente os chins donde vêm e os gores, e as vossas naus o caminho que hão-de fazer para as Ilhas do Cravo, e as minas do ouro onde são, e a Ilha de Jaoa (Java) e de Bandam (Banda), de noz moscada e maças, e a terra de el-rei de Sião, e assim o cabo da terra da navegação dos chins, e assim para onde volve, e como dali a diante não navegam. A carta principal se perdeu em Frol de la Mar. Com o piloto e com Pero de Alpoim pratiquei o sentir desta carta, para lá saberem dar razão a Vossa Alteza; tende este pedaço de padrão por coisa muito certa e muito sabida, porque é a
82 Tomé Pires e Francisco Rodrigues mesma navegação por onde eles vão e vêm. Mingua-lhe o arquipélago das ilhas que se chamam Celates, que jazem entre Java e Malaca» (82). Na outra carta, de 20 de Agosto de 1512, Albuquerque informa el-Rei de que tinha enviado uma frota às Molucas, sob o comando de António de Abreu, sendo um dos pilotos «Francisco Rodrigues, homem mancebo que cá andava, de mui bom saber, e sabe fazer padrões». Os Comen¬ tários, III, xxxvii, também referem esta viagem em que, como piloto da frota de Abreu, foi «Francisco Rodrigues, homem mancebo, que sempre andou na índia por piloto, e sabia mui bem fazer um padrão se cumprisse, e este era o fim por que o lá mandava.» Parte das cartas e todos os desenhos contidos no seu Livro foram feitos durante e em consequência da sua viagem a Banda. Francisco Rodrigues deve ter desenhado muitas cartas, mas infelizmente só até nós chegaram as que se contêm no códice de Paris, que me conste. A VIAGEM DE DESCOBRIMENTO DAS ILHAS DAS ESPECIARIAS — Depois de tomar Malaca em meados de Agosto de 1511 e regres¬ sar à índia em Dezembro do mesmo ano, Afonso de Albuquerque enviou navios com embaixadores a Pegu e a Sião, e uma frota de três velas descobrir as Ilhas das Especiarias. A frota era comandada por António de Abreu, na nau Santa Catarina, com Luís Botim como piloto; Francisco Serrão comandava a Sabaia, com Gonçalo de Oliveira como piloto; o terceiro navio era uma caravela comandada por Simão Afonso Bisagudo, com Francisco Rodrigues como piloto. Nesta frota iam 120 Por¬ tugueses, 60 escravos «para trabalhar as bombas» e dois pilotos (82) Ocupei-me dcscnvolvidamcntc destas cartas c de Francisco Rodri¬ gues como cartógrafo in Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos Séculos XV e XVI. li, 122-30 [e in Portugaliae Monumento Cartographica, I, 78-84, com reprodução de todas as cartas e desenhos, Ests. 34-6).
ESTAMPA VI / A Viagem de Descobrimento de Francisco Rodrigues das Ilhas das Especiarias em 1512
ESTAMPA VII Viagem de Descobrimento de Francisco Rodrigues no Mar Vermelho.
Introdução 83 indígenas (83). Embora os cronistas mencionem Rodrigues em terceiro lugar entre os pilotos, e Correia diga que Gonçalo de Oliveira era o piloto-mor (84), Francisco Rodrigues logo no começo do Livro se intitula «Piloto Mor da Primeira Armada que descobriu Banda e Maluco». Como a Sabaia, cujo piloto era Gonçalo de Oliveira, naufragou pouco depois de Java e o junco em que Serrão regressava, talvez com Oliveira como piloto, também naufragasse pouco depois de partir de Banda, é possível que Oliveira — que afinal parece ter sido ineficiente ou com pouca sorte — não regressasse com António de Abreu, e que Francisco Rodrigues de facto fosse o piloto-mor da viagem de Banda a Malaca. A pequena frota partiu de Malaca talvez em Novembro de 1511(85). Todos os cronistas se referem, mais ou menos pormenorizadamente, a esta viagem, mas apenas Galvão e Barros, sobretudo aquele, dão informações que nos permitem traçar o itinerário da frota. Barros diz que de Malaca Abreu foi a Grisee (Agacim), Amboina, Banda, e regressou a Malaca. Mas Galvão escreve: «No fim deste ano de 511 mandou Afonso de Albu¬ querque três navios às ilhas de Banda e Maluco, e por capitão- (83) O próprio Albuquerque, Comentários, e Correia (11, 265) men¬ cionam dois pilotos indígenas; Barros (III, v, 6) diz que iam «além de pilo¬ tos portugueses, alguns malaios e jaos, que andavam naquela navegação». (84) Quando Albuquerque refere os três pilotos portugueses, menciona Gonçalo de Oliveira em primeiro lugar e Francisco Rodrigues em último, embora este seja o único distinguido com a referência especial — «homem mancebo de mui bom saber, e sabe fazer padrões». (85) Albuquerque diz que a frota de Abreu partiu «no mês de Novem¬ bro, dois meses e meio antes que eu partisse» (carta de 20 de Agosto de 1512). Embora Correia informe que Albuquerque partiu de Malaca para a índia cm 1 de Dezembro de 1511 (II, 268), Galvão e Castanhcda (III, lxxv) dizem que ele partiu em Janeiro. Os Comentários e Correia confirmam que Abreu se fez à vela em Novembro; Castanheda diz fim de Dezembro, Femão Peres de Andrade c Jorge Botelho (Cartas. IV, 151 e 156), dizem apenas Dezembro.
84 Tomé Pires e Francisco Rodrigues -mor deles António de Abreu, com um Francisco Serrão. Iam neles 120 pessoas, e não foram mais velas nem homens ao des¬ cobrimento da Nova-Espanha com Cristóvão Colombo, nem com Vasco da Gama à índia, porque Maluco, depois destas, não é menos em riqueza, nem se deve ter em menos estima. Foram pelo estreito de Sabangue, ao longo da ilha de Samatra, e à vista doutras que ficam da mão esquerda contra o Levante, que chamam dos Saliies (Salayat), até as ilhas de Palimbão (Palembang), Lusuparão (Lucipara), donde atravessaram pela nobre ilha de laoa (Java), foram a Leste correndo sua costa, por entre ela e a ilha de Madeira (Madura)». Depois Galvão descreve a gente de Java, e continua: «Além desta ilha da Java, vai-se ao longo doutra que se chama Baile (Bali) e outra a seguir que se diz A/ijano (Lombok), Simbaba (Sumbawa), Flores e Solor, Adunare e o Galao (Kawula), Mauluoa (Malua ou Alor), Viiara (Wettar), Rosolanguim (Rozengain) e Arus (Aru) — donde vêm os pássaros mirrados, que são muito estimados para pena¬ chos, e outras que jazem nesta corda da parte do Sul, em sete ou oito graus de Altura, e tão juntas umas com as outras que parece toda uma terra. Haverá nesta derrota mais de quinhen¬ tas léguas, os cosmógrafos lhes chamaram as Iaoas, ainda que agora têm nomes diferentes, como aqui vedes. Avante destas ilhas dizem que há outras de gentes mais alvas, que andam ves¬ tidas de camisas, gibões e ceroulas como Portugueses, e têm moeda de prata.» ... Depois desta digressão Galvão volta à viagem de Abreu de Maduia em diante: «António de Abreu e os que com ele iam, tomaram sua derrota contra o norte duma ilheta que se chama o Gumuapé (Gunong Api), porque do mais alto dela corre sempre c de contínuo até o mar ribeiras de fogo, coisa muito para ver. Daqui foram à ilha de Burro (Buru). e Damboino (Amboina), costearam a costa daquela (ilha) que se chama de Muar Damboino (Ceram), surgiram em um porto, que se diz Guli Guli (Guie Guie), saltaram em terra, tomaram uma povoação que ali estava, e acharam nas casas homens mortos dependurados, porque comem carne humana. Aí queimaram
Introdução 85 a nau em que ia Francisco Serrão por ser já velha, e foram ter a Banda, que está em oito graus da parte do Sul, donde carregaiam de cravo, noz e maça em um junco que Francisco Serrão aqui comprara. ... No ano de 512 partiram de Banda para Malaca, e nos baixos de Lusopino (Turtle Islands) se perdeu Francisco Serrão com o seu junco, donde se tornou à ilha de Midanao (M.indanao?) com nove ou dez Portugueses que com ele iam, e os reis de Maluco mandaram por eles. Estes foram os pri¬ meiros Espanhóis (i.e. Portugueses) que viram as ilhas do Cravo, que jazem da Linha contra o Norte em um grau, onde estive¬ ram sete ou oito anos. António de Abreu fez seu caminho para Malaca, deixando descoberto todo aquele mar e terra nomeados.» (86) Além dos elementos fornecidos por Barros e por Galvão, alguma informação mais se pode colher doutros documentos, sobretudo das cartas e desenhos do próprio Rodrigues. Na carta em foi. 36 encontra-se a inscrição pude homde se perdeo a ssabaia, correspondendo a Sapudi Island, que fica perto da ponta mais oriental de Madura. Dois dos desenhos (fols. 94 e 95) mos¬ tram a ilha Sapudi, com a inscrição aqui se perdeo a sabaia // & esta Jlha se cliama pude na ponta sudeste da ilha, que é reconhe¬ cível pela pequena Jlha de Raz (Raas) completa com os três ilhéus junto à sua ponta leste (87). No depoimento que fez no «Processo das Molucas», Diogo Brandão diz que, depois da perda do navio de Serrão, o outro navio e a caravela «sendo em Banda, não a poderam tomar, que a escorreram, por não servir o tempo, e foram invernar a um porto xxv léguas de Banda que se chama Gullygully (Guie Guie): e, servindo-lhe o tempo, (86) Tratado, ff. 35-6. (87) Estas informações de Rodrigues nâo podem ser postas em dúvida, porque ele estava lá e o que diz é confirmado pelos depoimentos de Diogo Brandão, Jorge de Albuquerque e Andrade, embora, além da informação de Galvão, também Barros diga que o navio de Serrão se perdeu entre Amboina e Banda.
86 Tomé Pires e Francisco Rodrigues passados três meses se foram a Banda» (88). Rui de Brito Patalim declara no mesmo «Processo das Molucas» que depois da perda do navio de Serrão, «as duas restantes naus foram ter a Banda, por não servir o tempo para Maluco» (89). Mais alguma informação, embora indirecta, se pode obter dum roteiro de Malaca a Java e Banda, que data da primeira metade do século xvi, contido no Livro de Marinharia. Diz que quando um navio chega ao Caho das Frolles (Cape Flores) ele deve rumar para a lllia de Balutara (Batu Tara ou Komba), uma pequena ilha 25 milhas a norte de Lomblen, seguindo para nordeste, e depois de passar Gilimão (Lucipara) deve seguir a rota nor- -nordeste que o levará a Buro, donde iumará para sudeste e «ireis dar em Banda sem nenhuma dúvida» (p. 267). O próprio Pires escreveu: «Daí (de Batutara) se toma a rota batida para Bandam (Banda) e para Ambon (Amboina); e porque as outras ilhas que correm pela corda de Solor não fazem a bem de mer¬ cadoria por serem fora de mão» (foi. 155v.). Esta foi, sem dúvida, a rota seguida por Abreu, e assim Rodrigues a registou na sua carta (foi. 37). Esta carta — que abrange o Mar das Flores, o Mar de Banda e as Molucas — tem apenas treze nomes e inscrições, sete dos quais dizem respeito à rota referida: Cabo Flores — Batu Tara—Buru — Amboina—Ceram—Guie Guie — Banda. Com estes elementos, o itinerário da expedição de Abreu de Malaca para Banda pode ser assim traçado: passando pelo canal entre a ilha Kundur e Samatra, e através do estreito de Banka, chegaram a Grisee no nordeste de Java, onde desembar¬ caram pela primeira vez; continuando para leste, o navio de Serrão perdeu-se na ponta sudeste da ilha Sapudi; avistaram Batu Tara e depois Gunong Api, desembarcaram em Buru e Amboina, navegaram ao longo da costa sul de Ceram, ancora- (88) Canas. IV, 170. (89) Ibid.. p. 167.
Introdução 87 ram em Guie Guie, onde os dois restantes navios ficaram demo¬ rados pelo mau tempo, e finalmente fizeram-se à vela para Banda (90). Aj foi comprado um junco para Serrão e, depois de carre¬ garem, os três navios encetaram a viagem de regresso. Pouco depois de partirem de Banda foram assaltados por uma tem¬ pestade e o junco de Serrão separou-se dos outros navios indo naufragar nos baixos e ilhéus de Lucipara. Eventualmente Serrão, e nove Portugueses que com ele seguiam alcançai am as Molucas, onde continuou a viver até a sua morte, que prova¬ velmente ocorreu em 1521. A nau de Abreu e a caravela prosse¬ guiram a viagem, tendo avistado uma ilha que Rodrigues repre- (90) No seu ensaio Voeuvre giographique des Reinei et ta découverte des Moluques, Hamy ocupou-se da viagem de António de Abreu, analisando a carta de Rodrigues e a descrição de Galvão. Segundo Hamy, em vez de navegar directamentc para Batu Tara e Gunong Api, seguindo para norte direito a Buru — como realmente fez — Abreu teria continuado ao longo da correnteza de ilhas, que ficam para leste, até Aru (530 milhas a leste do meridiano de Gunong Api-Buru), donde teria voltado para oeste, des¬ coberto Banda, ido a Buru (mais de 200 milhas a oés-noroeste), voltado outra vez para leste, indo a Gule-Gule, e daí regressado directamentc a Malaca. Esta estranha interpretação é devida à versão errada duma palavra na narra¬ tiva de Galvão. Depois de se referir ao povo de Java, Galvão escreve: «Além desta ilha da Iaoa vam ao longo doutra que se chama Baile» (Bali), etc., referindo-se a «a gente desta ilha da Iaoa», que menciona no parágrafo ante¬ rior, não a Abreu e seus companheiros. Quando Galvão se refere a «Antonio de Abreu e os que com ele iam», sempre emprega o pretérito «foram», «toma¬ ram sua derrota», etc. Hakluyt cometeu o mesmo engano, quando tra¬ duziu vam por «they sailed» (eles navegaram), engano por que Bethune parece não ter dado na sua edição do Tratado de Galvão publicada pela Hakluyt Socicty (p. 116). Hamy adaptara toda a sua interpretação à tradução de vam, o que o levou a outros enganos (vide nota p. 329), e o meu artigo O Iti¬ nerário de António de Abreu, in Seara Nova, N.° 796, 14 de Novembro de 1942, Lisboa). [Incluido in Esparsos, I. Coimbra 1974.] Abreu regressou a Malaca em Dezembro de 1512 e partiu para a índia, com F. P. de Andrade, em Janeiro de 1513 (Castanheda, III, cii), e então embarcou para Portugal, mas morreu nos Açores antes de chegar à pátria, segundo o depoimento de Sequeira no «Processo das Molucas», e Barros, II, v, 6.
88 Tomé Pires e Francisco Rodrigues senta no primeiro dos seus desenhos panorâmicos, com a ins¬ crição Esta ffoi a primeira terra que vimos quamdo vínhamos de hamda pera Mellaqua. Embora outra inscrição no mesmo desenho diga Compeço da Jlha de Sollote (Começo da Ilha de Solor), deve corresponder à ilha Alor. Continuaram para oeste ao longo da costa norte da correnteza de ilhas, sendo os desenhos panorâmicos traçados por Rodrigues conforme elas eram vistas do mar. Os últimos dezassete dos sessenta e oito desenhos correspondem a Java, e destes o último, que deve ter sido dese¬ nhado ao largo de Cabo Krawang, a nordeste da moderna Batávia, tem a inscrição: E ate aqui descobrimos da Jlha de Jaoa. Con¬ tinuaram para noroeste e chegaram a Malaca em Dezembro de 1512, um ano depois de terem iniciado a sua viagem. (Vide Est. VI). Dos 120 Portugueses que haviam partido para o des¬ cobrimento das Ilhas das Especiarias, só 80 regressaram a Malaca; 10 ficaram lá e 30 morreram durante a viagem. a expedição ao mar vermelho — As notícias seguintes de Francisco Rodrigues são dadas por ele próprio quando no Livro descreve o «Camynho qe fiz com Joham Gomez captam da caravela p.a dalaca &./.» (foi. 5v.). Esta viagem teve lugar em Junho- -Julho de 1513, quando uma esquadra portuguesa sob o comando de Afonso de Albuquerque entrou no Mar Vermelho pela pri¬ meira vez. Não sabemos exactamente o que se passou com Rodrigues quando ele regressou a Malaca em 1512, mas não ficou lá muito tempo, tendo provavelmente partido para a índia com Fernão Peres de Andrade e António de Abreu em Janeiro de 1513. Nessa altura Albuquerque estava em Goa reunindo uma armada de vinte velas em que, com 1700 Portugueses e uns 1.000 nativos (91), foi ao Mar Vermelho. Na sua carta (91) Todos os cronistas concordam quanto ao número de Portugueses, mas divergem no que respeita aos Malabarcs e Canarins; também estão de acordo quanto ao número de velas, exccpto Correia, que diz 24, e Cas- tanheda 19.
Introdução 89 de 4 de Dezembro de 1513, escrita de Cananor a D. Manuel, descrevendo longamente a expedição ao Mar Vermelho, Albu¬ querque não diz em que data partiu de Goa, e os cronistas diver¬ gem muito. Corieia diz 28 de Janeiro, os Comentários 8 de Fevereiro, Barros e Góis 18 de Fevereiro, e só Castanheda diz «Março de 1513». O facto de em Dezembro de 1512 Rodri¬ gues estar em Malaca, donde partiu talvez em princípios de Janeiro de 1513, e ele ter chegado a Goa a tempo de partir com a armada de Albuquerque, mostra que a data indicada por Barros e Góis, ou mesmo a que Castanheda refere um tanto vagamente, devem estar mais perto da verdade. A armada dirigiu-se para o Cabo Guardafui, foi a Socotorá, e daí seguiu para Adém. Depois duma tentativa infrutífera de tomar a cidade (27 de Março), Albuquerque fez-se à vela para o Mar Vermelho, onde entrou em Abril. A sua ideia era ir a Suez e destruir a armada que o Sultão do Egipto estava pre¬ parando para atacar os Portugueses na índia; mas a monção estava quase a chegar ao fim. A armada passou além da ilha de Kamaran, até que chegou às ilhas Okban, Kotame e Entufash, onde fundeou durante vários dias, aguardando vento favorável que lhe permitisse prosseguir; mas como o vento de feição fal¬ tasse e a água potável começasse a escassear, Albuquerque voltou a Kamaran no começo de Junho. Foi então que decidiu enviar a caravela de João Gomes, a que Rodrigues se refere, explorar até Dalaca e Maçuá. Na sua carta de 4 de Dezembro para el-Rei D. Manuel, Albuquerque informa: «Volvido a Camaram a segunda vez, feito fundamento de aparelhar nossas naus para no mês de Agosto sairmos fora, determinei de mandar a caravela fora ao mar, ver se podia haver alguma jelba (92), para sabermos alguma nova da terra, porque o estreito todo ano se navega com estas jelbas pequenas ao temo e à vela, e levou por deter¬ minação minha ver se podia haver a ilha de Dalaca e Maçuá. (92) Pequena embarcação indígena usada nas margens do Mar Vermelho.
90 Tomé Pires e Francisco Rodrigues e lhe dei um robão (piloto) da mesma terra; e não fiz mais pro¬ pósito nem fundamento nisto que mandar João Gomes e a cara¬ vela assim gastar alguns dias, e descobrir terra por esse estreito onde pudesse; e ele se deu a tão bom recado, e o fez tão bem, que houve a ilha de Dalaca e algumas ilhas por aí de redor, onde pescam o aljôfar, e não pôde tomar nenhuma (jelba) por¬ que são navios sotis e ligeiros, e meteram por esses baixos e cabeços de areia em tal maneira, que não foi pelo caminho da veidadeira navegação. E chegou a Dalaca, surgiu no porto, de fora de uns baixos que o porto tem, foi o esquife da caravela em terra à fala com a gente; não curaram de perguntar quem eram, porque dias havia que por todo o estreito era sabida nossa entrada e avisado o lugar, em tal maneira que certifico a Vossa Alteza, que barco nem almadia nunca navegou o mar, nem as aves não pousavam no mar, tão assombrado foi o Mar Roxo com nossa entrada e tão ermo. Somente lhe perguntaram que queriam. Disse-lhes João Gomes que vinha ali por meu man¬ dado, se queriam comprar algumas mercadorias, que lhas ven¬ deriam. Responderam-lhe que na terra não havia mercadores, senão gente de guerra. E assim se despediu deles, e correu a ilha e descobriu-a mui bem. E por não levar certa determinação minha, não se chegou à terra firme do Preste João, que se chama Arquico, que estava assim à sua vista como Ribatejo de Lisboa; e Maçuá jaz lá mais longe, dentro em uma enseada ao longo da costa, caminho de um dia (93). Acabado de ter tudo visto e descoberto todas essas ilhas por aí derredor, se tornou pelo caminho largo e de grande fundo por onde as naus dos mer¬ cadores navegam. E mais não fez que o que dito tenho, porque não levava regimento nem determinação minha, somente des- (93) Esta parte da carta de Albuquerque não concorda inteiramente com o que Rodrigues diz: «fomos correndo a costa da Abissínia nove ou dez dias sem acharmos barco nem sapato nem vimos maneira de porto nem onde houvesse desembarcação» (foi. 6v). De facto a ilha de Maçuá fica quatro ou cinco milhas a nor-nordeste de Arquico.
Introdução 91 cobrir o caminho, com fundamento da nossa ida lá, se algum vento nos viesse para podermos navegar; porque se fora de todo desconfiado do tempo mandara este feito melhor provido, e homens que tinha já ordenado com regimento e cartas para mandar ao Preste João, os quais puseram na terra firme em poder de capitães seus, que os levaram (i.e. levassem). E eu creio que ele fizera tudo, como homem de bem que ele é. E trouxe-me Dalaca pintada (numa carta), ilhas e mar, o melhor que ele pôde. Lá a mando a Vossa Alteza essa amostra» (94). Barros também diz que «o tal negócio João Gomes fez trazendo as ilhas arrumadas (numa carta) como jaziam» (95). O piloto da caravela de João Gomes era um tal Domingos Fernandes (96), de modo que Rodrigues foi provavelmente enviado por Albu¬ querque com a incumbência de fazer o esboço cartográfico daquela parte do Mar Vermelho. Embora das referências de Albuquerque e Barros, sobretudo daquele, possa parecer que o próprio Gomes fizera a carta enviada a D. Manuel, podemos agora assumir com segurança que Rodrigues foi o seu autor (97). Contudo, é de certo modo estranho que Rodrigues não men¬ cione tal carta ou que ele não tenha sido incluído no seu Livro. (Vide Est. VII). Em fins de Agosto Albuquerque estava de regresso na índia. Depois da expedição ao Mar Vermelho nada mais se sabe de Francisco Rodrigues até 1519, quando ele foi à China com (94) Cortas. I, 220-1. (95) Década II. viii, 2. (96) Comentários, IV, ix. (97) João Gomes que, como Barros diz (II, vii, 5), era «de alcunha Cheira-dinhciro», é frequentemente mencionado pelos cronistas, mas nunca como cartógrafo. Foi em 1519 morto nas Maldivas, onde tinha ido com a expedição para construir uma fortaleza na ilha Mafacalou (possivelmente uma contracção de Malc e Farukalu), mas pelas depredações e roubos que lá praticou certamentc justificou a alcunha. Góis, IV, xxxii; Correia, II, 568-70.
92 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Simão Peres de Andrade, como já vimos. Barros diz que em Malaca se juntaram à nau de Andrade três juncos, um dos quais era comandado por Rodrigues, mas Góis refere três naus em vez de juncos. A fiota chegou ao Rio de Cantão em Agosto de 1519. Na nota biográfica sobre Tomé Pires já me ocupei largamente desta desastrosa expedição de Andrade. Aí Rodri¬ gues tornou a encontrar-se com Pires, que já havia conhecido pelos menos em Malaca, quando em Dezembro de 1512 regres¬ sou da expedição às Ilhas das Especiarias. Isto é tudo o que se sabe sobre Francisco Rodrigues. O Vis¬ conde de Santarém diz que ele era um piloto natural dos Açores, que em 1553 servia com os Ingleses quando Thomas Windham (chamado Tomas de Gidom, ou Gidne, em documentos por¬ tugueses contemporâneos) atacou a Madeira (98). O nome é vulgar, e já foi mostrado ser altamente improvável que os dois pilotos fossem uma e a mesma pessoa (99) — mesmo sem atender ao desfasamento cronológico. M uitos outros homónimos de Francisco Rodrigues aparecem nas crónicas e documentos referentes à pri¬ meira metade do século xvi. mas nada têm de comum com o piloto, cartógrafo e capitão que legou o seu valioso Livro à posteridade. O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES O Livro de Francisco Rodrigues ocupa a primeira parte do códice de Paris. A numeração original foi cortada quando da encadernação, e a actual numeração, feita provavelmente quando o códice foi encadernado, começa na segunda folha de guarda e segue até 116. Os números indicados na tábua de matérias original não correspondem à numeração actual, o que (98) Quadro Diplomático, II, pp. lxxv seqq.; J. Blake, F.uropeaus in West África, 1450-1560, p. 321. (99) Sousa Vitcrbo, Trabalhos Náuticos dos Portuguezes, II, 252-5; A. Coitesão; Cartografia, II, 129-30.
ESTAMPA VIII iL â Desenho panorâmico de Sukur Island ou Rusa Linguette, vista do sul (foi. 58). Corresponde em todos os menores a uma descrição moderna.
ESTAMPA IX Desenho panorâmico (foi. 54) de parte de uma ilha, talvez Adunare, por Francisco Rodrigues.
Introdução 93 causa muita confusão. Por exemplo, as fols. 12 e 14 da tábua de matérias original correspondem às actuais fols. 9 e 10, e fols. 20 e 22 às 14 e 15, o que poderia indicar que Rodrigues chamava «folhas» ao que de facto eram páginas e que algumas folhas faltam. Mas, além da anomalia de alguns números pares corresponderem aos rectos das folhas, acontece também que a foi. 17 da numeração original corresponde à 11 actual, 22 à 15, de 26 a 34 às 18 a 26, e de 36 a 38 às 27 a 29. As 87 folhas seguintes não estão incluídas na tábua das matérias. Fols. 2v., 3v., 4v., 7v., 8r., 9v., 14v. e 16v., os versos de fols. 17 a 36, 38 a 85, e 87 a 112, 113r., e os versos de fols. 114 a 116 da actual numeração, estão em branco. Toda a letra, no texto, cartas e dese¬ nhos, parece ser da mão de Francisco Rodrigues. A palavra Ernna- nuel muito ornamentada ao alto da primeira página, mostra que Rodrigues dedicou o Livro a el-Rei D. Manuel. (Est. XI). regimentos náuticos — Fols. 7v. - 16r. e 86 contêm regi¬ mentos náuticos e tábuas solares. Os primeiros regimentos, assinados duas vezes Framcisquo Rooiz ou Roiz, são pata deter¬ minar a latitude ao meio-dia, sendo conhecida a posição do observador para com o Sol, em relação ao equador; estas regras são ilustradas por uma curiosa figura colorida para a determinação gráfica da declinação solar (Est. XII). Segue-se uma tábua para a declinação solar num só ano bissexto. A seguir vem um «Regimento para saberes quanto multiplicas cada grau por légua», calculado a 17 1/2 léguas num caso e a 16 2/3 no outro. O primeiro caso é ilustrado com uma rosa-dos-ventos colorida para medir um grau em léguas (Est. XIV). Finalmente, Rodrigues apresenta um regimento para determinar a declinação do Sol, com alguns exemplos assaz confusos, e conclui discutindo o assunto num «Capítulo para dar a entender como haveis de navegar por as sombras». Estes regimentos náuticos devem ter sido copiados de livros de marinharia manuscritos que depois do fim do século xv pas¬ savam de mão em mão entre os pilotos portugueses. Algumas
94 Tomé Pires e Francisco Rodrigues destas regras ou instruções encontram-se no célebre Regimento de Munich, como é conhecido, cuja mais antiga edição impressa de que se sabe data de 1509 (?) embora deva ter sido impresso antes, talvez já em 1495 (?). Tal é o caso com a primeira figura para determinar a declinação solar e a tábua solar para um ano bissexto. Todo este assunto é tratado com algum desenvolvi¬ mento nas notas ao texto (100). roteiros — A viagem que Rodrigues fez de exploração c esboço cartográfico de Dalaca, que o levou à vista da costa da Abissínia, é o primeiro roteiro no Livro. Já atrás me ocupei desta viagem e dela me volto a ocupar nas notas ao texto. O outro roteiro, aliás bastante esquemático chama-se «Caminho da China», i.e. navegação de Malaca para o Rio de Cantão, e é dis¬ cutido numa nota ao texto (pp. 123-4). Ainda voltarei a refe- rir-ir.e a eles nesta Introdução. cartas — O Livro contém 26 cartas, cada uma ocupando o recto duma folha. Também há quatro folhas que se desti¬ navam a cartas que nunca chegaram a ser desenhadas: uma tem apenas um sistema de rosas-dos-ventos, duas têm uma rosa-dos- -ventos central e um tronco-de léguas, e a outra mostra apenas um tronco-de-léguas. O Visconde de Santarém mandou fazer fac-símiles das vinte e seis cartas e reproduziu-os no seu Atlas dc 1849(101). Estes (100) Estas notas foram esboçadas em 1937 pelo falecido Prof. Cmte. A. Fontoura da Costa, autoridade cm marinharia portuguesa antiga. Foram até certo ponto ampliadas pelo Cmte. D. Gcrncz, da Marinha Francesa, agora (1944) cm Londres. Aquele tinha-se proposto escrever mais pro- menorizadamente sobre os regimentos náuticos dc Rodrigues, o que forma¬ ria uma secção especial desta Introdução, mas infclizmcntc faleceu em 7 de Dezembro dc 1940 (n. 9 de Dezembro de 1869). (101) Embora este Atlas seja datado de 1849, compreende as cartas publicadas nas duas edições anteriores, de 1841 e 1842, c ainda as cartas gravadas, ou distribuídas, entre 1845 e 1855. Já noutro lugar me ocupei
Introdução 95 fac-símiles, sobretudo quando coloridos, são belamente exe¬ cutados, mas das cartas com troncos-de-léguas e escalas de lati¬ tudes, só o número 4, correspondente à foi. 18, etsá completo; aos outros falta a escala de latitudes (excepto o número 16, corres¬ pondente à foi. 30, que tem parte dela), e a alguns também o tronco-de-léguas. Esta supressão de partes não-essenciais das cartas foi feita, evidentemente, para economizar espaço. Mas também há descuidos do copista; por exemplo, a rosa-dos-ventos no número 7, correspondendo à foi. 21, está incompleta, e no número 20, correspondendo à foi. 37 falta a palavra atnborn. A ordem das reproduções no Atlas de Santarém, numeradas de 1 a 26, corresponde à seguinte ordem das folhs. do MS: 116, 115, 114, 18 a 35, 37, 36, 38 a 42. In Estudos de Cartographia Antiga (ii, 148-56) encontramos a descrição das cartas feita por Santarém, por vezes muito minuciosa, mas com demasiadas inexactidões (102). desenvolvidamente do Visconde de Santarém e da sua obra monumental. Cartografia, u, 365-404; [idem, H. C. P., i, 8-25]. Além da nota (cuja data precisa não conhecemos) publicada nos Estudos de Cartographia Antiga, a primeira referência de Santarém ao Livro de Rodrigues e suas cartas encon¬ tra-se numa nota enviada de Paris em 12 de Outubro de 1850 ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, que financiava a publicação dos Atlas, informando que acabava de descobrir «o portolano do piloto português Francisco Rodrigues, de 1529». Em 15 de Fevereiro de 1851 de novo escrevia sobre o andamento do seu trabalho, e em Novembro do mesmo ano infor¬ mava que quatro das cartas já estavam gravadas, c em 28 de Janeiro de 1853 comunicava que estava concluída a gravura das outras vinte e duas cartas de Rodrigues. Estes documentos foram em 1909 publicados por Jordão de Freitas, 0 2.° Visconde de Santarém e os seus Atlas Geographicos, pp. 114-23. Em 5 de Junho de 1854 Santarém enviou ao Ministério uma lista de 57 exem¬ plares do Atlas que ele havia oferecido antes de 9 de Abril de 1851 (novas folhas soltas foram enviadas mais tarde, ou supóe-se que o foram, con¬ forme iam sendo gravadas) a várias instituições e individualidades eruditas de vários países. (102) Por exemplo, a carta (foi. 22) com o traçado da costa brasileira é dada como «a parte ocidental da costa Sul da África». Muitos enganos, como este em especial, são possivelmente devidos a irresponsabilidade de 8
96 Tomé Pires e Francisco Rodrigues As cartas, seguindo a ordem que se encontram no Livro, podem ser divididas em seis grupos: (a) As primeiras nove cartas, da Europa à África Oriental, estão desenhadas na escala aproximada 1:13.000.000 e são mais ou menos copiadas de pro¬ tótipos portugueses já existentes; (b) as três do nordeste da África a Malaca estão desenhadas na mesma escala e contêm muita informação em primeira mão; (c) as seis de Samatra às Molucas. desenhadas em várias escalas, de 1: 4.500.000 a 1: 8.000.000, são inteiramente novas; (d) as cinco cartas desde Malaca ao norte da China, que são inteiramente novas, não passam de simples esboços; (e) as três cartas com o Mediterrâneo e o Mar Negro estão desenhadas na escala aproximada de 1: 6.000.000 e seguem protótipos já existentes. Com excepção das três últi¬ mas, todas as cartas têm norte, escrito em letra miúda, junto à extremidade da linha de rumo da rosa-de-ventos central que aponta para o Norte. Estas cartas, que aqui são pela primeira vez reproduzidas de fotografias, encontram-se descritas no Apêndice II. desenhos panorâmicos — Estes ocupam os rectos de 69 folhas — 43 a 85 e 87 a 112. Apenas o primeiro desenho é a cores; os últimos vinte e quatro só mostram os contornos de praias e quem fez a transcrição ou dificuldade em decifrar a letra de Santarém; mas outros devem-se indubitavelmente a este último. Dois exemplos: ao descrever o Golfo de Tonquim (foi. 38) ele escreveu: «Nos rumos dos ventos lê-se o vocábulo Varia, que parece indicar a variação da bússola nestas paragens, bem como o que se devia observar sobre as variações.» «Varia» é simplesmente uma leitura errada da palavra norte, que está escrita em 23 das 26 cartas, indicando o Norte. No esboço com o Rio de Cantão (foi. 40) Santarém escreveu: «No alto lê-se. cm caracteres chinezes, o nome d'uma cidade, e junto — Cidade da China.» Os «caracteres chinezes» são simplesmente uma letra A com floreados. Mas trata-sc de simples notas, publicadas postumamente, sem qualquer cuidado ou acerto; Santarém era demasiado escrupuloso e sério para as publicar sem prévia verificação. [Já Cristóvão Vieira se referia aos caracteres chineses dizendo que «são letras do diabo» (foi. 112v.)].
Introdução 97 montanhas, mas nos primeiros quarenta e cinco também figuram plantas, casas indígenas e os próprios indígenas. Todos estes desenhos foram feitos quando Rodrigues regres¬ sava de Banda a Malaca, conforme do mar via a terra, nave¬ gando ao longo da costa norte da correnteza de ilhas desde Alor até a Java ocidental. Os contornos de montanhas e costas marí¬ timas são contínuos em quase todos os desenhos, como se dese¬ nhos parcelares fossem cortados de um geral; isto constitui uma vista notavelmente exacta destas ilhas conforme iam sendo observadas do mar. A maioria das montanhas, baías e aldeias aqui mostradas podem ser facilmente identificadas se compa¬ rarmos os desenhos com, por exemplo, o Eastern Archipelago Pilot, Vol. ii. Por exemplo, o Pilot diz: «A ilha Sukur ou Rusa Linguette tem um topo conspícuo, 865 pés (263,7 m) de altura, no seu lado nordeste, provavelmente restos duma antiga cratera; o lado ocidental deste pico desce muito abruptamente para um lago de água doce. ... Na parte sudoeste a ilha é baixa e plana. Toda ela é arborizada, mas desabitada. Há uma praia de areia ao longo de toda a costa oeste, e a costa leste é rochosa. Uma rocha, com uma simples árvore em cima, fica entre os rochedos da costa, que se estende cerca de duas toesas da ponta sueste da extremidade da ilha.» (Vide Est. VIII). A nota de realismo dada a muitos dos primeiros 45 desenhos, com a figuração de vulcões em actividade, casas, plantas e indí¬ genas, é por vezes particularmente vívida, como na foi. 60. Esta sem dúvida representa a aldeia de Mausambi, na ilha Flores, que se vê no desenho mesmo a leste da Raja Island, e mostra um palácio ou templo indígena cercado por uma paliçada de estacas, casas, plantas e vários indígenas, um deles subindo a um coqueiro, o outro no topo dum monte disparando com um arco sobre estranha ave (talvez um nore, variedade de papagaio que Rodri¬ gues viu em Amboina, Ceram ou Banda) empoleirada numa alta montanha (provavelmente Olo Muku, 1.062 m.) de que apenas o topo é visível. Os desenhos são descritos no Apên¬ dice II.
98 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Um dos curiosos aspectos destes desenhos é a assaz artís¬ tica representação de plantas que ilustram muitos deles. Parece que Rodrigues desejou dar uma ideia da flora local, mas se assim foi a tentativa deixa muito a desejar, e os seus desenhos de pouco servem para identificar as plantas. O coqueiro (Cocus nucifera Linn.) é a única espécie que pode ser identificada com segurança; aparece em vários desenhos junto à costa. Uma erva que apa¬ rece em quase todos os desenhos é provavelmente a Imperata cylindrica Beauv., uma espécie com espigas prateadas, comum nas ilhas da Malásia e que provavelmente despertaria a atenção de alguém que desenhasse a flora local. Esta erva cresce abun¬ dantemente onde quer que o chão esteja desimpedido, e depressa se torna uma praga. Os Malaios chamam-lhe alang-alang. O seu desenho não é uniforme, mas parece que deve tratar-se desta espécie. Outra planta cuja identificação se pode consi¬ derar quase certa, é a Gynandropsis gynandra Briq., erva muito espalhada nos trópicos; esta vê-se desenhada na foi. 63. Uma planta com grandes folhas cordiformes, que se nota em alguns dos desenhos, parece ser a Alocasia macrorrhiza Schott, muito cultivada na Malásia. Além destas, não é possível fazer qual¬ quer sugestão com confiança (103). A DATA DO LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES — O Livro de Francisco Rodrigues, composto de várias partes distintas, foi escrito e desenhado durante um período de alguns anos. Quando o Visconde de Santarém reproduziu as cartas de Rodrigues no Alias de 1849 e as descreveu na referida nota in Estudos de Car- tographia Antiga, disse que elas foram desenhadas entre 1524 e 1530; mas não deu qualquer razão para o seu juízo. As pri- (103) Mr. J. E. Dandy, do British Museum (Natural History), a quem devo a informação acima dada sobre os aspectos botânicos dos desenhos, diz-me que Mr. I. H. Burkill, botânico com conhecimento directo da flora malaia, «julga que o autor dos desenhos, a avaliar pelo seu traço, era um tanto artista, e que jogava com as formas que via — de facto desenhando.»
Mausambi 7f)>s asttoce u reducta to cnt fourth C onjunto dc cinco desenhos panorâmicos (fob. 57-63) pot Francisco Rodrigues mostrando o moo da parte oriental da Ilha Flores (Samademga). com Palod ou Raja hland (Jtha de Nuça RaJa). A aldeia lofo a lote do Compe*. Da Jlha de nuca RaJa deve corroponder a Mausambi Na parte inferior do desenho encontra-se o contorno cor¬ respondente segundo uma carta moderna do Almirantado Britânico Raja I. (Uha de nuÇdRêjé)
Introdução 99 meiras nove cartas, das costas da Europa Ocidental, Brasil e África, e as últimas três, do Mediterrâneo e Mar Negro, são copiadas de protótipos hoje mais ou menos conhecidos e o seu interesse é limitado; mas as catorze cartas do Suez à China, sobretudo as do Extremo Oriente, que são inteiramente originais, assumem importância excepcional e a sua data tem muito inte¬ resse para a história da cartografia daquelas regiões; por isso merecem atenção especial. O problema de datar estas cartas das índias Orientais já foi estudado por C. H. Coote, E. T. Hamy, G. Collingridge, J. Denucé e E. C. Abendanon. Depois de na minha Cartografia me ter ocupado do assunto, cheguei à con¬ clusão «que se não pode dizer, como fazem alguns dos autoies citados, ser o Atlas (i.e. as cartas de Rodrigues da Insulíndia) de 1511-1513 ou ±1512, mas sim de pouco depois de 1512, não nos parecendo tarefa fácil determinar com precisão a sua data, a não aparecer qualquer documento que nos forneça elementos hoje ainda desconhecidos» (u, 129). Rodrigues desenhou ou completou as suas cartas em dife¬ rentes datas, como se pode verificar imediatamente pela parte que compreende os regimentos náuticos e as cartas até Malaca, referidos na tábua das matérias, e todos os outros componentes — roteiros, as últimas catorze cartas e os desenhos panorâmicos — nela não mencionados. A carta que mostra a parte oriental do Mar Vermelho (foi. 27) foi sem dúvida desenhada antes da expedição de Rodrigues a Dalaca e costa da Abissínia em 1513, senão teria nela representado as ilhas que viu, o que não faz. Por outro lado, a inscrição agoada de Joltani lopez dalluim / elle descobriu daqui ate Japara, na carta com o noroeste de Java (foi. 30), refere-se a uma viagem feita em Março de 1513 (vide p. 455). Isto mostra que a carta foi desenhada depois dessa data. Poder-se-ia argumentar que a inscrição foi acrescentada algum tempo depois da carta ter sido desenhada, mas tanto as inscrições como os topónimos que nela se vêem parece terem sido apostos na mesma ocasião. Não me é fácil encontrar nas outras cartas qualquer indicação que possa levar à determinação exacta da
100 Tomé Pires e Francisco Rodrigues sua data. A única conclusão a que posso chegar é que algu¬ mas dessas cartas, como as do Mar Vermelho e as da índia (fols. 27 e 28), ou pelo menos aquelas, foram feitas antes de Abril de 1513, data em que Albuquerque entrou no Mar Vermelho. Mas devem ter sido feitas no começo de 1511 ou pouco antes, porque não seria muito provável que Rodrigues, o «homem mancebo» referido por Albuquerque, tivesse oportunidade para as desenhar antes da tomada de Malaca em Agosto e da sua par¬ tida para o descobrimento das Ilhas das Especiarias em Dezembro do mesmo ano. As outras doze cartas orientais (entre fols. 29 e 42) teriam sido desenhadas em 1513 ou pouco depois, natu¬ ralmente com o auxílio de apontamentos e esboços feitos durante a viagem de 1512 e informações obtidas de pilotos orientais. Rodrigues certamente desenhou estas cartas antes da sua viagem ao Rio de Cantão em 1519. Podemos mesmo inferir que não foram desenhadas depois ou muito depois de 1513. O roteiro de Malaca ao Rio de Cantão, escrito no verso de foi. 37, em face da primeira das cartas relacionadas com o caminho da China, indica que foi acrescentado depois delas terem sido desenhadas. Este roteiro foi evidentemente baseado em infor¬ mações colhidas de algum piloto oriental, possivelmente chinês, antes de Rodrigues ter notícias directas dos primeiros Portugueses que foram à China em 1513 e regressaram a Malaca em meados de 1514 (vide n. p. 360), caso contrário não seria tão esquemático, e provavelmente as distâncias teriam sido dadas em léguas, não em jaos indígenas (nota pp. 123-4). Rodrigues estava na índia em fins de Agosto de 1512, de regresso do Mar Vermelho. Não sabemos se ele lá ficou ou voltou a Malaca, mas é de supor que ele colheu a informação solfre a viagem de Alvim a Java em Março de 1513 pouco antes ou quando estava desenhando as cartas da Insulíndia e do Extremo Oriente que se encontram no Livro. No regimento para determinar a declinação do Sol pelas sombras (foi. 86r.), Rodrigues dá um exemplo para o ano 1520, referido ao Almanaque Perpétuo de 1508, o que poderia sugeiir
Introdução 101 que esta parte do Livro foi escrita em 1520, depois de Rodrigues ter ido à China em 1519. Mas se assim fosse, mal se poderia explicar por que o Livro não contém um roteiro e cartas melhores registando a viagem de Malaca ao Rio de Cantão. O referido ano 1520 era, muito provavelmente, mero exemplo sem qual¬ quer ligação com o ano em que de facto foi escrito. Parece, de tudo isto, que o Livro de Rodrigues foi abrupta- mente enviado para Lisboa, talvez devido a algum urgente pedido oficial, pouco depois dele ter desenhado as cartas da Insulíndia e da China, ou seja c. 1514. De facto ele não teve tempo para completar algumas cartas para as quais as folhas foram prepa¬ radas mas nunca utilizadas, nem pôde concluir os desenhos panorâmicos de Java, apenas delineados mas que ele provavel¬ mente tencionava ornamentar como os outros. Embora escasseie a prova categórica e muita da dedução tenha de ser circunstancial, sou levado a concluir que o Livro de Francisco Rodrigues foi concluído o mais tardar em 1514 e que as cartas da Insulíndia e do Extremo Oriente, as mais importantes de todas, podem ser datadas c. 1513. VALOR DA OBRA DE FRANCISCO RODRIGUES — O Livro de Francisco Rodrigues é um documento importante para a história da geografia. Alguns dos seus componentes, como por exemplo os regimentos náuticos e parte das cartas, podem ser conside¬ rados como simples contribuições para o estudo dum assunto já bem documentado em fontes mais antigas; os estudiosos, porém, podem neles encontrar abundante matéria para espe¬ culação e discussão. Quanto ao roteiro da viagem a Dalaca e à rota de Malaca à China, as doze cartas da Insulíndia e costas do Golfo de Bengala à China, e os desenhos panorâmicos das ilhas meridionais da Insulíndia, trata-se de material inteiramente novo, e o seu valor e importância são capitais. Ambos os roteiros têm o interesse especial de serem os pri¬ meiros conhecidos, pelo menos numa língua europeia moderna, para qualquer viagem específica no Mar Vermelho e no Extremo
102 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Oriente. É deveras lamentável que os roteiros das viagens de Rodrigues às Ilhas das Especiarias em 1512 e à China em 1519, que ele provavelmente escreveu, não tenham chegado até nós. Custa a compreender por que ele não incluiu no Livro um roteiro da viagem a Banda. Talvez não pudesse acabá-lo a tempo, antes do seu trabalho ser repentinamente enviado para Lisboa. Quanto a uma carta do Mar Vermelho feita durante ou depois da expedição de 1513, pode admitir-se que ele a tenha dese¬ nhado e que ela foi enviada por Albuquerque a el-Rei D. Manuel, como atrás se disse. Com o gosto para escrever sobre as suas viagens e observações, e a habilidade que revelou na sua obra cartográfica, pode ter-se como certo que Rodrigues escreveu muito mais e traçou muito mais cartas, tudo isso agora infeliz¬ mente perdido. As seis cartas que representam a Insulíndia constituem a parte mais importante do Livro, porque são as primeira dessa parte do mundo jamais desenhadas por um Europeu como con¬ sequência da sua observação directa. A sequência de desenhos panorâmicos, embora relativamente menos importante, não parece que tenha rival e é interessantíssima com a sua notável fidelidade. O Livro de Francisco Rodrigues e a Suma Oriental de Tomé Pires, escritos na mesma altura, completam-se até certo ponto mutuamente. A sua inclusão no mesmo códice foi tão natural como a sua publicação conjunta na presente edição.
ESTAMPA XI Frontispício do Livro de Francisco Rodrigues.
O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES ENMANUEL Foi. 2r. Jhus Framçisquo Roiz Este liuro fez Frco Roiz Foi. 3r. PILLOTO MÕOR DA PIME1RA ARMADA QUE DESCOBRIO BaMDÃM & MaLLUQUO Framcisco Roiz [tábua de matérias] (1) [Coroa real encimada pela parte superior dum dragão coroado Foi. 4r. com as asas abestas.] Aas doze folhas achares os treze çirquolos que por eles podes ssaber/ quallqr decrinacam q vos fTor neçesairo//. r. As quatorze fTolhas Achares o Regimemto Da decinaçam//. r. A dozassete a decrinaçam/ r. Aas vimte Achares huma Agulha que vos dara A emtemder quamto vale cada grao/. & asy por ela podes tirar a decri¬ naçam com hum compasso/ r. Aas vimte duas Achares quamto vale cada grao r. Aas vimte & sejs ffolhas Achares a pimejra poma & nela Achares todo ponemte//. r. As vimte & sete Achares A Ilha da madeira & as caanarias & as Ilhas dos Açores./ r. As vimte oito fTolhas Achares o cabo Vde & as suas Ylhas/. (1) A numeração desta Tábua das Matérias não corresponde à actual numeração no Códice de Paris. Vide Introdução, p. 92.
104 Francisco Rodrigues t. As vimte noue ffolhas Achares A Ilha daçemçam/. r. As trimta ffolhas Achares o brasyle./ &c r. As trimta & huma Achares a Ilha de ssamtome ec//- r. As trimta & duas Achares o cabo de boa esperamça. t. As trimta & tres Achares As Ilhas de tistam da çunha r. As trimta & quatro Achares çofallaa & as ilhas pmeiras & Moçambiquei & asy a Jlha de sam louremço. t. As trimta & sejs Achares mais o cabo de goardafuy. & A boca do estreito de mequaa.//. t. As trimta & sete achares ormuz//. & toda a costa da Jmdia & de cambaia.// r. Mais as trymta & oito Achares o cabo de comorym & a Jlha De çeilam & a trauessia que ha de ceilam Ate gamjspollaa; & De gamjspola ate melaquaa/... [À EMTRADA DO MAR VERMELHO] Foi Sr. [Desenho à pena das Armas de Portugal com as quinas, mas um castelo apenas. Por baixo a assinatura Osorio.] (2). A duas legoas da pta do estreit0 esta hum castelo ècyma de hum monte qe se quer pareçer com palmeia (3) ahum a oeste (2) Esta palavra, escrita em letra posterior, é talvez a assinatura do célebre Bispo D. Jerónimo Osório (1506-80), provavelmente um prévio pos¬ suidor do Códice. Vide Introdução, p. 5, Estampa II. (3) Isto deve ser Turba, uma fortaleza ou castelo cujas ruínas ainda existem num promontório com 158 m de altura, em Huns Murad Point. que forma uma baía com boa profundidade, protegida de oeste. O Red Sea and Gulf of Aden Pilot (ed. 1932) diz: «7J amarras a nor-nordeste da ponta Warner fica Turba, um monte quadrado com 480 pés (146 m, 3) de altura, onde se encontram as ruínas de um forte (Lat. 12° 14' N„ Long. 43° 30' E.)». A correspondente Admiralty Chart mostra «Turba ruins» sobre a ponta «Huns Murad», e as sondagens mais cerca da baía vão de 7 a 17 braças. Esta baía fica exactamente a duas léguas (6,4 milhas) da parte ocidental da Ilha Perim, i.e. o começo do Grande Estreito. A cerca
0 ORIENTE DO MAR VERMELHO CONFORME FOI CONHECIDO DE FRANCISCO RODRIGUES UM ARRANJO DAS SUAS CARTAS SOBRE UM CONTORNO EM VERMELHO StatuteMiles 400 600 1000
O Livro 105 dele podes sorgir è dez braças è qualquer bamda q qizerdes sê nêho a Reçeo// ha muy bom pt° de ponête espremêtado chamasse narhãm he todo o fumdo lympo// ha neste port0 agoa esta hum tiro de bonbarda do mar//, t a ylha q esta a porta do estreit0 se chama a vera cruz (4) esta ê doze graos & dos terços tomados è tefta// no meo dela tê hum port° da bamda do sul a sua êmtrada seis sete & oit° braças// pode neste porto por hua nao de duzêtos tones por ê momte// esta norte & sul cõm zeyla// ha daly a bar- bora tnta legoas & de barbora a adê ha outros tnta de norte | E sul & de zejla a adê ha qõrenta legoas esta nordeste sudueste Foi. 5v. com aadê &. zejla esta ê omze graos largos// da ylha da vera Cruz a zejla de 1,6 milhas de Turba há um monte, Jabel Manhali, com 967 pés de altura. D. João de Castro diz, ao descrever a sua viagem de Socotorá a Adém: «A terra que vimos pela manhã, disseram os pilotos que parecia Dabiam, que é à ré de Adém 15 léguas». Roteiro do Mar Roxo. p. 27. Deve haver alguma relação entre Narhãm de Francisco Rodrigues e o presente Jebel Manhali ou o antigo Dabiam, embora quanto a este a distância de Turba a Adém seja muito superior a 15 léguas. Mas pareceria mais provável que Narhãm fosse uma corrupção de Huns Murad. Numa das cartas — Taboa das Portas do Estreito» — que ilustram o Roteiro do Mar Roxo, a ilha Perim e a costa até as proximidades de Adém estão representadas com notável fidelidade; na ponta correspondente a Huns Murad está desenhada a forta¬ leza ou castelo referido por Francisco Rodrigues. (4) A ilha de Vera Cru: foi primeiramente conhecida dos Portugueses pelo nome indígena, que ainda conserva, Melwm ou Miam, mas hoje é conhe¬ cida como Perim Island. Na sua longa carta de 4 de Dezembro de 1513 para el-Rci D. Manuel, na qual informa sobre a expedição ao Mar Vermelho, aqui referida por Rodrigues, Albuquerque diz: «Vindo o tempo da nossa partida de Camaram aos quinze dias de Julho [1513] saímos fora do porto, e caminhámos caminho da porta do estreito; passando a porta surgi logo detrás da ilha e as naus todas comigo ... descemos em terra c corremos grande parte da ilha ... pus uma cruz dum mastro grande na boca do estreito no morro que está sobre a entrada... e pusemos-lhe nome a Ilha da Vera Cruz». Cartas, I, 231-2, Na carta de Rodrigues em que se vê o Golfo de Adém e a parte oriental do Mar Vermelho, a Ilha Perim tem apenas a legenda — ilha que esta na boca do estreito de meca.
106 Francisco Rodrigues ha tnta legoas/ este porto desta ylha he muy bõm de todolos ventos estares ê sejs & sete braças & nõ veres por onde Entras¬ tes (5) tão bom he &//. [VIAGEM COM JOÃO GOMES. PARA DALACA] Camynho qe fiz com Joham Gomez captam da cara¬ vela p‘ dalaca &./. Foi 6r. Este he o camynho qe fizemos sayndo da ylha de çeybam (6) pa dalaqa // Fomos demandar çeybam aloeste// & de çeibam aloeste qnze legoas ou dezeseis fomos dar ê hQm baix0 qe ha nelle tres ou qtro legoas// ha nele de largo dous terços de legoa Jaz noroeste sueste/ ha no mãs alt° dele qatro braças & dy pa baix0 ate huma & mea// os baixos deste bamqo sã de pedra & darea & darea & o mays baix° he na põnta do sueste tomey o sol & achey q estava ê qymze graos vimos adiante tres ylhas aloes noroeste// ava cymqo legoas a ellas e jaze leste & oeste mt0 cerqa huuas das outras fomos a elas ê meo deste camynho topamos outro bamqo q he de compdo mea legoa/ & de larg° tera huu tyr° de berço/ ha no mays baixo dele sejs braças//. Esta ylha pmeira tê por marca hua mata darvores tamanha como huua nao & a par das arvores/ ha hua emsseada asy como a de camaram senã qe he muyt0 apareçellad0 fomos | Ao lomguo delias êm a dobramd0 pa o noroeste tem dous momtes de pedra// dissenos o Robã mouro qe levavamos qe era porto &.//. Dy fizemos nosso Camynho ao noroeste & a qarta daloeste por mandado do Robãm pylot° mour0/ ssurgimos aquela noute (5) Alguma desta informação é notavelmente correcta. A Ilha Perim está em 12° 14' N. e Zeila em 11° 15' N. As sondagens à entrada do porto de Perim dão 9 braças e dentro do porto 6 e 7. Entre Zeila e Bcrbcra há 32 léguas, e entre Zeila e Adém 37; mas de Berbera a Adém há apenas 43 léguas, c de Perim a Zeila só 25. (6) Ceyban ou Ceiban é Jcbcl Teir Island, que fica 45 milhas a oés- -noroeste de Kamaran. Embora Rodrigues comece de Ceibam a descrição da viagem, a caravela de facto partiu de Kamaran.
O Livro 107 è qymze braças por nos acalmar o vemt° Aoutro da pola menhãm/ achamonos cercados Dilhas de muytos baixos & Restimguas/ alevamtamonos por força por o vemto ser Rijo & gastamos todo o dia ê balRavemtear// ê sairmos dãtre aquelas ylhas nos ffFFez ds muyt* merceeê & Como ssaimos vimos a ylha de Dalaca q se nos Demoraua ao sul// aRibamos a ela por çyma dum pãrçcel de qatro & çimquo & seis braças como fomos tamt° avamte como a ponta da ylha achamos gramde fumdo & fomos ao lomguo da ylha q jaz leste & oeste ate hum ylhe0 & sempre acha¬ mos gramde fumdo de vinte ate tnta braças// Disse nosso Robãm mour° q aviamos de passar antre o ylheo & a teRa srya isto ao sol post0 semdo tant° avante como o ylheo// Fomos dar ê duas braças supt0// demos fumdo/ fomos somdar cõm o batell ate q achamos hum poço de sete braças/ ônde posemos a caravela ate q veo o dia// alevamtamonos com o ponènte nua volta & na outra & nõ pudemos ssayr daqle poço de sete braças torna¬ mos a surgir espamdo por vento larg0 cõm o qual ssaymos por hum canal de duas braças// deste ylheo ate o porto de delaq* ha duas llegoas// & ha sseys legoas a ponta por onde entramos a ylha de Dalaca/ Jaz leste & oeste ate o porto & do porto pa diante se vay lançando pa o nordeste (7). O fumdo qe ha na boca do port0 de dalaqua he duas braças Foi. 6v. & mea tres tres & ma/ & braça & mea tudo ssam mamchas de pedra & darea// ê meo do Canall a cymquo braças & çimquo & mea/ O canall he tãm Estreyt0 qe nõm poderá emtrar demtro nehflua nao nossa gramde salv0 com Rajeiros (?) porp° pa A sua amcora pstes demtro no p°rto ha tres braças ate Duas & ma & nõ ha hy nehuua segurãça salv0 abalRoamd0 huuas com os outros/ ha Demtro luguar pa tres navios amaRados a qtr° amaRas cõ estoutras tres naos Deçym08/ nom Ja per o porto nõ ser gramde mas he tudo apeçelad0 qe nõ ha hy hum Palmo dagoa De baixa maar// de prea mar avera huua braça poueo mais ou menos/ De fora do porto a húm tiro de bombarda ha qorenta braças (7) Devia ser noroeste.
108 Francisco Rodrigues çymqoenta braças he tudo pedra// foy o captão ê teRa ffallar com os mouros/ etc/. Pguntamos ao Roboam mouro se saby® algu port0 na teRa da abixya Respõmdeo q nõm ssaby® ssomte ouvira dizer qe ao noroeste avya hum port0 & qe punhã dous dias ê hir la Partimos dy & fomos coRemdo a costa da abixya nove ou dez Dias sê acharmos barco nê çapat0 nê vimos manejra De port0 nêm omde ouvesse desembarcação// Pguntamos ao Roboãm mouro pelo Camynho verdadejr0 qe as suas naos gramdes traziã de camarãm pa dallaqa qe nos levasse a ele pa o avermos de ssaber// por seu mãndado tornamos a v a ylha de dalaqa & dy fffizemos o camynho deleste ao lõngo Duua Restyngua qe nos fiquou Da bamda de bobord0 & viemos Demandar as ylhas cõm q topamos pmeir°// qe disse o Robam mour0 q este era o Camynho pomde as suas naos grãmdes vynhã// viemos asy ate noute qe nos acal- Fol. 7r. mou o vemt°/ ssurgimos ê fffumdo de doze | Braças ate o outro dia qe demos vella & vimos huua ylha a sotavemto de nos qe nos demorava ê lesueste// & disse o Robam mouro qe ao long° dela era nosso camynho da bãnda Do ssul/ & qamdo nos vimos Junto Dela/ começouse o mouro de fffffazer muyt0 espãntado qe nom era aqla a ylha por omde avyamos de vir & veo dar comnosco ê hum pareçel por omde viemos mais de tres legoas ate q viemos dar nas ylhas pmeiras pomde foramos daly pa dalaq3// aves Dir aloeste & a qarta do noroeste hires duas legoas ate qe chegues ao Canal & daly hires aloeste por qeste piloto mouro qiserase bem escusar damostrar este camynho se poderá & açaz trabalhou por ysso. A mym me parçeo qe o Camynho Verdadr0 se ade fazer com vemto feit0 asy pa naos grandes como pa peqenas/ porqe neste camynho achamos Dezesete ilhas afora grãm cantidade de Restimguas & çugidade & muytos parces// (8) (8) A rota seguida pela caravela foi muito provavelmente de Ceybam para os baixos quinze léguas a oeste, em Lat. 15° 20' N. As ilhas a oés- -noroeste seriam Mojeidi, Ancara e Dhu-l-leurash. Daí seguiram para
O Livro 109 [determinando a latitude] Neste capitollo abaxo esqto achares o Regimento destes Foi. 8v. trrezee cirquolos com o de ffora./. o quall p eles podes tirar a decrinacãm de quallqr dia quee vos ffor necessairo/ polos doze cirquolos questam de demtro podes sabr o affastamemto & ho achegamemto que o ssoll ffaz da linha quanociall &. Primeiramemte Aves. De sabe pera terdes Vdadeiro conhe- cimemto destes cirquolos que aquy estam per ffigura vos he neçesairo q tenhaes conhecimemto do mouymemto dos çeos/. porquee saberes que todo o ceeo he emMaginado por Respeito que em elle nam ha senam hum çirquollo poisado/, o quall se chama Zodiaquo/ o quall he posto lesueste & oesnoroeste A Res- peyto Do canoçiall q he leste oeste & p ele ssam emmagynados todos os outros çirquolos da espera. Este zodiaquo he Repar¬ tido em trezemtos & sassemta graos asy como aquy vedes p ffegura./. & tem de largura doze graos & m° de leste a huma lynha que se chama lynha eclyquytaa p ela Aamdaa o ssoll hum gaao & as vezes Menos Estes ditos çirquolos sam a verdadeira lynha ecliquytaa postos em corpo pano como aquy por ffigura vedes/. & asy mesmo No dyto zodiaquo vam postos os doze synos & cada hum destes synos tem trymta gaos em que o soll esta trymta dias por Respeito que amda cada dia hum gaao & desta manejra Acaba seu çirquollo em hum Annnõ E asy norcste e avistaram a parte nordeste da ilha de Dalaca, cuja ponta sudeste. Ras Shoke, dobraram, navegando ao longo da costa sul, que corre este-oeste e onde o mar tem mais fundo chegando a 85 braças. Avistaram o ilhéu Shuma, que fica a 7 */2 léguas de Ras Shoke e apenas 1 >/2 do porto Dahlak Kebir. Este porto é acessível apenas a pequenos barcos de fundo chato, e a sua entrada não tem mais de duas braças de profundidade. Depois nave¬ garam por noroeste procurando o porto que o piloto árabe dizia ficar nessa direcção; não conseguiram encontrá-lo, provavelmente porque tal porto era Maçuá que ficava mesmo a oeste. Continuaram ao longo da costa, cujo primeiro porto está perto de Surakin, mas voltaram a Dalaca e daí a Kamaran. Sobre toda a viagem, vide Introdução, pp. 88-91 e Est. VII. 9
110 Francisco Rodrigues mesmo neste zodiaquoo. hamdam as planetas/ & este zodiaquo ffaaz a deçrinaçã .s. quamdo o soll estaa em aqueles synos/ & deles tem pouca Decrinaçam & deles tem Muyta cada hum em sua cantydade Da decrinaçam he os graaos q vam da linha pa a Mao debax° & Atrauessa polo meo Dos cirquolos/. & se quyserdes tirar a Decrinaçam he vos Necessairo hum compasso & que vades a quem este ffez q volo emsynêe/. ou A outrem porque doutra manejra volo nam posso Daar A emtemdeer// & (9) Framcisquo/. Rooíz Foi. 9r. (Figura com círculos planetários e Zodíaco, com a inscrição: Domde ho ssoll procede Has claridades aos signos ee aos planetas asi aos superiores como aos ímferiores. La he allma do md.) [jesus] Foi. I0r. quamdo qr que qujseres tomar Altura do soll/ toma la es ao meo dia pumtualmemte & quamdo qr que A tomardes oulhares memtes De que parte he o ssoll./- se he da linha Canoçiall pa (9) Esta curiosa figura (foi. 9r.) é assaz semelhante à parte da figura impressa na penúltima página do Regimento do estrolabio Z do quadrante (cha¬ mado Regimento de Munique — Lisboa 1509? primeira edição 1495?), que contém a tradução da Sphera de Sacrobosco. A figura no Regimento, e as suas inscrições, foram em 1937 estudadas por Fontoura da Costa, A intri¬ gante penúltima página do «Regimento de Munique». A inscrição no topo é exactamentc a mesma no Regimento c na figura de Rodrigues, mas aquele tem outras inscrições e desenhos, embora não apresente o Zodíaco. A ins¬ crição no tôpo diz: Demde ho ssoll proçede has claridade aos signos et aos planetas asy aos superiores como aos ímferiores he a allma do mdo. Os seis circulos parecem representar Marte, Júpiter c Saturno (em cima), e a Lua, Mer¬ cúrio e Venús (em baixo), cada um dividido cm 36 partes (de 10 graus). A escala vertical na metade inferior do circulo zodiacal (que não aparece na figura do Regimento) está dividida em 23 'I2 partes, que correspondem aos 23 >/2 graus da obliquidade. Não é, porém, fácil ajustar a descrição de Rodrigues à figura. Ele próprio não estava muito seguro da sua explicação: não sabemos mesmo se compreendia o que tentava explicar. Talvez seja por isso que ele acaba por dizer ao leitor: «que vades a quem este ffez cj volo emsynée / ou A outrem porque doutra manejra volo nam posso daar A emtemdeer».
ESTAMPA XII Foi. 9r do Livro de Francisco Rodrigues. Figura para ilustrar o «Regi¬ mento para tirar a declinação»
ESTAMPA XIII jScmoeboiTollpjOíc fiemos ct aos píancrc f &e ' gn l etas combaosjnferiojee. bafclarioaoeaos aft-aosfupcrioies ^àbcalinaooiíiD £ftcbe:Sllfraganobo capoDf|conip:enoer j ws.lTooítcanuçue A penúltima página do Regimento de Munique
O Livro 111 a bamda Do ssull se pa a bamda do norte porque aves de ssabr que o ssoll Aamda .6. messes Da linha quanoçiall pa a bamda do norte .s. domzee De março ate quatorze De ssetembro. & de quatorze de De ssetembro. Ate omze de março Aamda da linha quanoçiall pa a bamda do ssull./. & assy cada vez que A tomardes/, oulhares memtes de que parte he o ssoll & asy ffares vossa comta./. (10) (10) Quando os Portugueses começaram a navegar pelo Oceano Atlântico, em busca quer das Ilhas quer do Cabo Bojador, deram-se conta da necessidade de conhecer a altura do polo acima do horizonte (a latitude) e tiveram de recorrer aos peritos do Infante. Nesse tempo já eram bem conhecidas as Regras dos Libros del Saber de Alfonso X, para em terra cal¬ cular essa altura pela altura meridiana do Sol. Estes Preceitos, assim como todos os que se lhes seguiram, requeriam o conhecimento, primeiro, da altura máxima do Sol, c segundo, da sua declinação. A altura do Sol era medida quer com o astrolábio quer com o quadrante; a declinação era determinada quer mecanicamente com o astrolábio, quer pelas Tábuas. Por conseguinte os técnicos do Infante tiveram de adaptar os Preceitos para uso no mar, e estes passaram a ser conhecidos como Regimento do astrolábio e do qua¬ drante e mais tarde como Regimento da declinação; tiveram também de adap¬ tar os instrumentos de observação (astrolábios e quadrantes) para serem utili¬ zados no mar, e além disso tiveram de simplificar as Tábuas de declinação para que pudessem ser utilizadas pelos marinheiros portugueses, gente simples e de pouca instrução. Assim como os Preceitos, a primeira regra refere-se à altura meridiana. Duarte Pacheco Pereira formulou, em linguagem mais polida, uma regra cm que toma em consideração as posições do Sol e do observa¬ dor cm relação ao equador. Esta é a primeira regra esboçada por Fran¬ cisco Rodrigues, e pode ser expressa pelas seguintes fórmulas: 1) Quando o Sol está entre o observador e o equador, estando o obser¬ vador a norte ou sul do equador: Latitude (N. ou S.) = (90° - Altura do Sol) + Declinação. 2) Quando o observador está entre o equador e o Sol, (a norte ou sul do equador): Latitude (N. ou S.) (Altura + Declinação) - 90°. 3) Quando o equador está entre o observador e o Sol, estando o observa¬ dor a norte ou sul do equador: Latitude (N. ou S.) 90° - (Altura+Declinação). 4) Altura = 90°; a) Declinação = 0o: Latitude = 0o. b) Declinação diferente de 0o: Latitude (N. ou S.) = Declinação (N. ou S.). 5) Altura + Declinação = 90°: Latitude = 0o. Deve notar-se que os resultados no terceiro caso não estão completos, ihitus.
112 Francisco Rodrigues Quamdo qr que achardes o ssoll amtre vos & a linha fiares esta comta adiamte espta/. Aves de sabr que se o ssoll estiuer amtre vos & a linha aves de tirar a decrynaçam daltura p esta manejra/. ponho per emxem- pro que tomastes daltura do ssoll./ ssatemta gaos/ oulhares memtes quamtos vos ffaleçem pa novêta cres q vos ffaleceram vimte botares fora os ssatemta que tomastes daltura do soll & os vimte que vos ficam aJumtares com a decrynaçam daquelle di em que estiuerdes & isso estares afastado da linha quanociaall. Se vos achardes amtre A linha & o soll ffares esta comta adiamte esptaa/. Saberes se vos achardes amtre A linha & soll tomares vossa altura com quadramte ou estrelabeo & A altura que tomardes aJumtares com a decrynaçam daquele dya em que esteuerdes & os que ssobejarem de Nouemtaa esses estares affastado da linha quanociall. SE a linha quanoçiall fora amtre vos & o soll fares esta comta adiamte espta. Saberes se a linha quanociall ffor amtre vos & o soll tomares vossa altura ao meo dya pumtuallmemte./. & altura que tomardes aJumtares com a decrynaçam daquele dya em que esteuerdes & os que faleçerem pa novemta aqueles estares affastado da Foi. lOv. linha quanoçiall | E Se ffor coussa que tomardes Nouemta gaaos daltura Do ssoll & nam achardes decrynaçam Nenhuma naaquele dia em que esteuerdes/. ssaberes que vos & o ssoll Estais em a linhaa quanoçiall & se alguma Decrynaçam achardes essa estares affastado da linha quanoçiall & se ffor coussa que aJumtamdo vos A altura que tomastes com a decrynaçam daquele dya & achardes Nouemta gaaos que nam aja mais Nem menos/, saberes q estais ê a linha quanociall Francisquo/ Roiz. pois (Altura + Declinação) pode ser maior que 90°, facto que nâo é men¬ cionado por Rodrigues. (Nota do Comte. A. Fontoura da Costa).
O Livro 113 [TÁBUAS DA DECLINAÇÃO DO SOL] (11) Março Abriu. Foi. llr. Dias Lugar GRaos Do do da deçri- mee- mes soll. naçã nutos Dias LlugaR graos Do do da deçri- mcc- mes soll. naçam nutos 1 20 2 21 3 22 4 23 5 24 6 25 3 3 3 2 2 2 59 35 11 48 24 0 2 3 4 5 6 21 22 23 24 25 26 8 8 8 9 9 10 14 37 59 21 43 5 (11) De princípio deve ter havido uma Tábua Solar Unica, i.e. uma Tábua apenas para um só ano bissexto, que podia ser utilizada durante os três anos seguintes, porque as pequenas diferenças em minutos não tinham importância, dado o carácter aproximado das alturas medidas com os ins¬ trumentos de observação contemporâneos. Esta Tábua, de que não exis¬ tem vestígios, teria possivelmente sido calculada por ben Verga que em 1457 vivia em Lisboa, sendo a Tábua, naturalmente, para o ano bissexto de 1456. José Vizinho traduziu e resumiu a muito notável obra hebraica de Zacuto, chamada Ha-jibbur Ha-gadoI (A Maior Composição), e publicou-a em Leiria em 1496 sob o bem conhecido título de Almanach Perpeluum. Vizinho deve ter conhecido em Salamanca a obra de Zacuto. Ele utilizou-a para calcular a Tábua Solar Única do Regimento de Munique para o ano bissexto de Março de 1475 a Fevereiro de 1476. Para cada dia de cada mês a Tábua dá o lugar do Sol (i.e. a Ascensão recta) apenas em graus e a sua declinação em graus e minutos; mas o marinheiro precisava de saber apenas — como ainda hoje — a declinação. Esta Tábua foi utilizada durante muitos anos. Rodrigues transcreveu esta Tábua Solar simples (fls. llr-13v.); não obstante ele deve ter notado que, quando compôs o seu MS., já existiam as Tábuas de Decli¬ nação para quatro anos, calculadas por Zacuto para as Tábuas Solares do seu Almanach Perpeluum, para 1497-1500, destinadas à viagem de Vasco da Gama. Foram depois utilizadas na viagem de Cabral e em várias outras viagens do começo ao século xvt. Estas Tábuas de Zacuto são reproduzidas, sem os lugares do Sol, na Suma de Geografia de Fernandes Enciso, e alguns seus vestígios (as posições e declinações do Sol) existem no MS. de André Pires (Fonds. port. n.° 40, Bibliothèque Nationale de Paris). Na transcrição de Rodrigues faltam os minutos da declinação para Julho. (Nota pelo Comte A. Fontoura da Costa).
120 Francisco Rodrigues Foi. 14r. Foi. 15r. Regimento pa saberes quanto multipli¬ cas cada Crao por legoa Foi. 16 (Uma rosa-dos-vcntos para medir um grau em léguas, corres¬ pondendo ao Regimento no fólio seguinte.) K linha dereita de norte & sul vai cada grao 17. legoas & m.a H pela pmeira quart8 amdas por grao 19. legoas & mea f pela pmeira mea partida qe ssã duas quartas amdaras por grao .21. legoas & mea/ * pelas pmeiras tres quartas amdaras por grao .23. legoas & ma * fazemdo o camynho pelo Rumo de nordeste sudueste amdaras por grao 25. legoas ' fazemdo o camynh0 polas çymq° quartas amdaras por grao trymta & duas legoas & mea * fazemdo o camynho polas seys quartas amdaras por gra° qoremta & seis legoas & mea//. ' fazemdo o camynho polas sete quartas amdaras por gra" novemta legoas & mea//. r Sesemta meudos// ffazem hu grao// Capitollo de huu quãrto dagulha Pera Saberdes quamto vaall./ cada grao & per elle podes SabR todollos outros/ Navegamdo Norte & sull Respomde o grao dezasejsl leguoas & dous terços & em cada legoa se momtam. —. 16/| tres meudos & trymta & sejs segumdos//. Navegamdo ao norte & a quarta do nordeste Respomde o grao. Dezasete leguoas & em cada leguo. se momtam tres meudos & trymta & hum segumdo & —.17. quoremta & çirnq0 terços & çinq°emta & tres quartos//. Navegamdo ao nornordeste Respomde o grao dozoitol legoas & em cada legoa se momtã tres Meudos &! —.18. vimte segumdos Navegamdo Ao nordeste & A quarta do norte Res¬ pomde o grao vimte leguoas & em cada legoa se —.20. momta tres meudos// — Navegamdo Ao nordeste Respomde o graao vimte & quatro leguoas & em cada leguoa se momtam dous —.24. Meudos & Trymta segumdos/.
O Livro 121 Navegamdo Ao nordeste & A quarta de leste Respomde o grao trymta legoas & em cada leguoa se momtam dous meudos Navegamdo em lesnordeste Respomde o graao quoremta & huma legoa & ma em cada legoa se momtam vimte & sejs segumdos & quoremta & quatro terços//. Navegamdo em leste & a quarta De nordeste Respomde o graao/ oitemta & tres legoas & em cada leguoa se mõtam quoremta & tres segumdos & vimte & quatro terços & vimte & quatro quartos// E toda esta comta Achares, mais embre em huua Agulha que Atras vos fica/(12). —.30. —.41. —.83. (12) Rodrigues apresenta dois Regimentos para determinar a dis¬ tância (em léguas) navegada segundo cada quarta, sendo de um grau a dife¬ rença dc latitude. No primeiro caso, calculando um grau de latitude à razáo de 17 */> léguas e no segundo a 162/j, ele dá à distância AC, hipotenusa do triângulo rectângulo ABC. No outro Regimento o grau é calculado a 162/3 léguas e dadas as distâncias AB e também os valores da mudança de latitude (em minutos, segundos, terços e quartos) para uma légua percorrida ao longo de cada quarta; alguns dos números dados estão errados devido a engano no cálculo dc AC, e há um na sexta quarta: «em cada leguoa mon¬ tam vinte e seis segundos c quarenta e quatro terços>\ pois foi omitido 1'. Também 41 em vez de 41 >/2 está erradamente escrito na margem. Os números devem, de facto, ser calculados pela bem conhecida fórmula: .... d’ latitude distancia —- cos (rumo) No primeiro Regimento, os números dados estão todos errados e diferem dos que se encontram no Regimento ile Munique assim como noutras Tábuas conhecidas; possivelmente Rodrigues teria obtido estes números quer dalgum exemplar anterior, quer medindo grosseiramente as hipotenusas de triângulos traçados numa escala reduzida. A tabela seguinte dá os números de léguas a 17 >/2 por grau, como se encontram no MS., e a seguir os números correctos; números seme¬ lhantes para o grau de 16 2/3 léguas, e, finalmente as mudanças em latitude A
122 Francisco Rodrigues Foi. 17r. 9 Fois. 18-30. Fols. 3 Ir. e 32r. Fols.33-42. (Sistema de rosas-dos-ventos preparado para uma carta que nunca chegou a ser desenhada.) (O recto de cada uma destas folhas tem uma carta.) (Rosa-dos-ventos no centro e tronco-de-Iéguas à esquerda, para uma carta que nunca chegou a ser desenhada.) (O recto de cada uma destas folhas tem uma carta.) CAMYNHO DA CHYNA Foi. 37v. De malaqa a pulo param a cymqo Jaãs & daly a piçâo outros cymqo & de pulo piçam a carymam tres Jaãs & de caryman a syngapura çinqo & de singapura a pedra bramca çTnqo & de apulo tymge çinqo Jaãs/ ao nordeste & per este camynho outros çinqo Jaãos a vjoma & de pulo vioma a pulo condor qorenta & çinqo Jaãos polo norte & a quarta do nordeste & de pulo para cada légua percorrida, como se encontra no MS, e com os valores correctos. /“ = 17 */2 léguas 1° — 16 2/3 léguas Rolas Distâncias Distâncias mudança em lat. para cada légua percorrida MS Corri¬ gidas Corri¬ gidas MS Corrigidas Norte ou Sul 1. " quarta IIo 15' 2. » quarta 22° 30' 3. » quarta 33° 45' 4. a quarta 45" 5. * quarta 56° 15' 6. * quarta 67° 30' 7. * quarta 78° 45' 17i/2 19 »/2 21 'h 23
O Livro 123 comdor a terra de champara trra vermelha qimze Jaãos ao nor¬ deste & desta terra vmelha ao lomgo da costa ate a pomta da berela qatorze Jaãos ao nordeste & da berela a pulo cotõm doze Jaãos plõ dito camynho & de pulo cotom a aynarn vinte & çinqo Jaãos ao nordeste & daquy a pulo cotom vinte Jaãos ao nordeste & pera partires de pulo cotõm derejt0 a barraa de timom as dir ao nordeste & teras sempre leste porqe as coRemtes te nõ lançêm na emsseada de cauchy &// (13). (13) Ao que se sabe este é o mais antigo roteiro escrito, pelo menos numa lingua europeia, da navegação de Malaca para o Rio de Cantão. Está inserto no verso do fólio que contem a carta das Molucas e Timor, e os esboços nos cinco fólios seguintes propõem-se representar algumas das costas e ilhas entre Malaca e a China. O roteiro, escrito pelo próprio Rodrigues, foi provavelmente obtido de algum piloto chinês e inserto depois das cartas terem sido desenhadas. pulo param deve corresponder a Pulo Padang e Pulo Bangkalis, sepa¬ rados por um canal muito estreito e jazendo muito perto da costa leste da Samatra central. A ponta nordeste de Bangkalis, chamada Tanjong Parit, dista 42 milhas de Malaca e 46 de Pulo Pisang. pedra branca ainda é o nome dum ilhéu na entrada leste do Estreito de Singapura. terra de champara, terra vermelha. Terra de Champara (vide nota p. 247), deve ser a baía Phan Ri, na costa de Annam. «Entre Guio Point (Lat. I Io 3' N.) e Phan Ri (11° 10') a costa consiste cm barreiras aver¬ melhadas», diz o China Sea Piloi, I. Um pouco mais para sul, logo a oeste de Vinay Point, também há um lugar marcado «Red Sand Hills» (10° 57') na Carta do Almirantado. A Baia Phan Ray fica a 220 milhas de Pulo Condore e cerca de 160 de Cape Varclla, ao longo da costa. Pulo Cotom é Pulo Canton ou Kulao Rè (Rai), um ilhéu 15 milhas a leste de Cape Bantan (15° 23'). Há também um rochedo Canton mais para norte (16° 10'), à entrada da baía Tourane, que de algum modo deve estar relacionado com o segundo Pulo Cotom mencionado por Rodrigues muito confusamente. Isto é sugerido pelos 25 jãos de Pulo Canton a Hainan e 20 jãos «daqui (Hai- nan) a Pulo Canton», embora a diferença de 5 jãos não esteja em proporção; neste caso, porém, ele deveria ter dito sudoeste, não nordeste, timom é o ro
124 Francisco Rodrigues Fols. 43- (Os rectos destes fólios têm desenhos mostrando a parte norte -85. de Ilha de sollor, Sollolo, Ilha de Samademga e Ilha de symbaua como vista do mar.) [regra da declinação do sol] Foi. 86r. O graao que achardes sobre os graaos de quallqr dos synoos: Das quatro tauoas em tam teres o verdadeiro lugaar do soll Tumon de Pires, ou Lin Tin Island, à entrada do Rio Cantão. Vide nota pp. 362-3. cauchy — Golfo de Cauchy quer dizer Golfo de Cochinchina, i.e. o Gulf of Tong-King (ou Tonquim). JÃo — F. Mendes Pinto (xxxxi) por duas vezes menciona o jao como medida de distância. Referindo-se ao perímetro de «um grande lago, a que os naturais da terra chamam Cunebcté, e outros o nomeam por do Chiam- may» (Tonie Sap?) na Cochinchina, diz que «tem em roda sessenta jaos, de três léguas cada jao». Depois diz (xcv) que a Muralha da China é dis¬ tância de setenta jaos, que por nossa conta, a razào de quatro léguas e meia por jao, sâo ao todo trezentas e quinze léguas. No primeiro caso o jao é igual a 15.446 m., no segundo caso é igual a 23.170. Na lista de distâncias dada por Rodrigues, o comprimento de um jão parece variar consideravel¬ mente. O seu total de 144 jãos até Hainan. correspondendo a 1.402 milhas, dá 15.607 m, por jão, o que praticamente corresponde às 3 léguas indicadas por Pinto no primeiro caso. Jõuh em Malaio quer dizer distância; mas as referências de Rodrigues e de Pinto parecem indicar que a palavra é derivada do chinês. Na sua análise da obra geográfica compilada por Ma Huan no principio do século xv, G. Phillips diz que a latitude de lugares «é mostrada pela Estrela do Norte sendo calculada em tantos dígitos e tantos oitavos de altura. Estes sâo em chinês chamados chih e chio [escrito chião na p. 225], que num caso corresponde ao árabe Issaba ou Terfe, que significa um dedo, c noutro ao árabe Zani. O Issaba é igual a 1° 36', e o Zam a 12'.» The Seaports of índia and Ceylon, p. 218. Por outro lado diz-me o Prof. Moulle que na China as distâncias pela água eram expressas em chia, em cantonês Kau, que quer dizer «nove». Embora o chinês chio. chiu chião e kau, ou o árabe Zam, sendo igual a 12', seja mais longo do que os 15.607 m atrás calculados para o jão, atrcvo-mc a sugerir que possa existir alguma relação entre estas expressões.
O Livro 125 & por escusar trabalho & Reteficacam de huma tauoaa. A quall achares na tauoa Da decrynaçam a mãao Direjta Na quall se mostra aquylo que avemos Dacçreçemtaar em cada huma Das ditas Rovulações que Am de vir./. & poor q isto seja mais decra- rado/ A quem o leer/. quero por por ffegura este emxempro/ que sabermos o Vdadeyro lugar: Do soll .ss do amno Do naci- memto de nosso semnor Jhuus Xpo de .1.5.2.0. annnõs/ Aos .1.5. dias do mees De marco & tirares dos ditos .1.5.2.0. a Raiz das tauoas que sam .1.5.0.8. amnos de maneyra que fficam .12. amnos. Dos quaes tirares todolos quatro quamtos Achares & fficar uos ham Na maao quatro amnos o quall vos amostrara que Aves Demtrar Na quarta tauoaa/ Do ssoll/ & emtam depois q emtrardes Na quarta tauoaa Aquele dia propiamemte .ss. a .15. dias de março Achares que o soll esta em quatroo graaos & 53 meudos & .31. segumdos/. os quaes sam p tres Reuoluçoês do ssoll/ que ssam passados segumdo. ho veres Na tauoa em direjto das .3. Reuoluçoes/ & des quee ho Achardes dires Vda- deiramemte que o soll esta em 4 gaos & .5.3. meudos & .3.1. segumdos & teram da deçinacam .2. /. Dous graaos & .20. meudos/. Asde ssabr que por amor Da decraraçam te quero amostraar como Vdadeyramemte conheças Da parte domde o soll Aam- dãar quer sejam Nos synos Da parte do norte qr nos synos Da parte do sull/ oulharãs com huma agulhaa que seja Vdadeira/ omde qr q se Alevamtaar o soll/. em quallqr tempo que seja/ & se se o soll alevamtaar em leste sera emtam o soll na metadee Da linha quanoçiall/ & se o soll tomaar Da quarta do nordeste, saberes quee o ssoll esta no syno Da parte do norte/ & se o ssoll tomaar da quarta do ssueste/ sera o ssoll no syno da parte Do sull.//. (14) (14) Este Capítulo está relacionado com um Atmanach Perpetuuni de 1508 e propõe-se mostrar, com um exemplo para 1520, como se deve determinar a declinação solar. O autor, porém, engana-se por vezes sobre os números dados. (Nota do Comandante A. Fontoura da Costa).
126 Francisco Rodrigues CAPITOLLO PERA DAR AEMTEMDER/. COMO AUES DE NAUEGAR POR AS SOMBÃS/. (15) Aves de sabr se qujgerdes sabr em quallqr parte que esteuerdes asy no maar como Na tera quamto estais affastado do quaanoçiall da parte do norte ou da parte do sull/ ou asy se estais Debaxo dela polia altura do ssoll saberes q vos he Necessairo que tomes prmejro Altura do soll com estrelabeo ou quadramte Ao meo dia pumtualmente/ & quamdo o ssoll ffor empynado. & tomares .8. graaos ou mais ou Menos/ & depois daltura tomadaa oulhares quamto vos mymgam pa .90. emtam hyuos ate o que temdes Dee Deccrinaçam Do ssoll./ em direjto daquele Mes achares em que graao do syno esta o ssoll & quamto tem emtam De decrinaçam. emtam Ajumtares os graaos & meudõs quee q vos Foi. 86v. mymgoã .pa .90. & mais aJurntares o quee ouver Aquele dia decrinacam. & aqujlo estares affastado do equanoçiall por Res¬ peito q a ssombra vaay ao norte & asy mesmo o ssoll esta nos synos da parte do norte & se isto for desdos .11. de março ate os .14. de setembro, q em este tempo o ssoll estaa Nos .6. synos que estam do equanoçiall pa a bamda do norte/, emtam ffares A comta como Dito he por amor da ssombra q vaay Ao norte/ & se per vemtura vos acomteçer que Naueegardes Ao sull do (15) Rodrigues volla a discutir a Regra do Sol em função da sombra. Desta vez novamente descreve cm parte a Regra do Regimento de Munique conforme o hemisfério em que o observador se encontra, a posição do Sol e a direcçâo da sombra. Eis as fórmulas dadas pelo autor: 1) Observador e Sol no Norte, estando a sombra também no Norte: Latitude N = (90o —Altitude) + Declinação. 2) Observador e Sol no Sul, estando a sombra também a sul: Latitude S = (90° — Altitude) - Declinação. 3) Observador no Sul, o Sol no Norte, estando a sombra a sul: Latitude S = 90° — (Altitude + Declinação). (Nota do Comandante A. Fontoura da Costa).
MM ESTAMPA XIV Rosa-dos-ventos, no Livro de Francisco Rodrigues, para medir um grau em léguas, nos diferentes rumos
ESTAMPA XV Carla de Francisco Rodrigues (foi. 20) da Costa Ocidental da África, com o Arquipélago de Cabo Verde e a Ilha de Ascensão
O Livro 127 » equanociall: aves De sabr que quamdo o ssoll esteuer nos outros .6. synos Da parte do ssull & vos ffizer a sombra da parte do ssull fares da propiaa manejraa quee ffizestes nos outros synos do norte .ss. desnee .14. de ssetembro ate .11. de março que entam o soll estaa nos .6. synos da bamda do sull/ & por este Respeito tee ffaaz a ssombraa Ao ssull / & pa mais decraraçãm disto te ponho aquy este emxenipro/ & diguo nesta manejra que Aos xx dias do mes dagosto tomastes o soll em sassemtaa & .5. gaaos daltura/ & a ssombra emtam Vaay Ao norte/, emtam oulhares o que vos ffalecem pa Nouemtaa-/. os quaaès sam. xxb graaos/ emtam hyuos A tauoa-/. & oulhares memtes Naaqucle diaa quamtos graos & meudos tem a deccrinaçãm & aJunta los es com os xxb. graaos & ffeita muyto bem toda A comta. Aqujlo estares apartado Do equanociall. da bamda Do norte. & se casso for que em este dito diaa/ te ffizer a ssombra o ssull & tomares os ditos graaos/. emtam Accrecemtares os graaos & meudos Da deecrinaçam Daquele dia ssobre A altura que tomastes & a somaa ffeita & nam achamdo & nam achamdo a novemtã Aqueles que nam achegam a Nouemtaa estares apar¬ tado do equanoçiall-/. da parte do sull-/ por Respeito que emtam vos ffaaz a sombra Ao ssull ecte(16). (16) Os rcctos destes fólios têm desenhos que mostram as partes norte Fo,s- 87' de Lombok, Bali e Java, conforme vistas do mar. -112. Tem um tronco-de-légoas. Foi. 113v. Os rectos destes têm cartas do Mediterrâneo e Mar Negro. Fols. 1/4. •116.
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A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES Ao muy Serenisymo primcepe muy alio & muy poderoso Foi. U7r. Rey ELRRRey noso Sõr começa ho prologuo sobre a suma oriemtallH. Naturallmemte os homees desejam saber como o testefiqa o mestre da filosofya asy tem este desejo promto E mais feruemte cada huu segumdo lhe conuem/ nom sem mérito hee que maior o tenha vosa Reall magestade que nenhuu out° primçepe no mumdo poys seus senhorios sam maiores/ quem ynora serem do primcipyo dafriqa athee os chys em que se comtem toda afriq® & asya & parte da europa pola bamda do maar oçeano com Jmfinjdade dilhas muy gramdes Riquos & muy populosos em suas comfromtaçõees em os qeês snurlos se contem mujtas proujncias he gram suma De Reynõs multidam de Regiõoes de que tudo vosa Reall alteza he Sõr com fermosas e espunauês fortalezas com muyta gemte Artelharias e ixerçiçios de guerra na terra soju- gamdo Regnos nas gemas da mourama-/ as armadas q traz quem doujda serem as morees do mundo que continoada memte amdam abastadas huuas na arabia outras na primeira Jmdija outras na segumda & na terçsa em tamto que em todo seu Srlo nenguem nom he poderoso navegar sem sua licença & os mouros tam atemorizados amdam nos cabos como no meio cousa por certo dina de gramde glloria que tam gramdes Reis & Ses como sam os desta comqsta comuem a saber o soldam do cairo o Rey dadem o Rey durmuz o xequesmaell. ou sofy homem mem- tado no mundo os naitaques Resputes cambaia daquem a Jmdya do malabar A proujmçia de choromamdell. E quelíjs o Reino dorixa de bengala Racan Peguu Siãoo queda. malaqa pahaõo
130 Tomé Pires talimganor patane terrãoo odia cãboy* cauchi china a china com todallas Jlhas gemtes poderosas asy no maar como na terra / comtra todos estes traz vosa alteza guerra levamtamdo suas bamdeiras ê suas terras pollo nome de noso Sõr Jhuu xpo de todos estes os que sam vasallos viuem asosegada memte & os que sam Reuees amdam atemorizados atormemtados E curam mais de sse fazer fortes que de cometer forças com suas armadas tudo yso causa o gramde poder que vosa alteza qa traz eixer- citado & guerreado pollo muy manifiquo E Jngemte cavaleiro afonsso dalboquerqe seu capitam geeraall. anjmosso astuçioso providemte na guerra E no all vmano prudemtisymo que com- tinoada memte com tamto trabalho ora na Jndia alta ora na arabia & no meio nom çesa guerreamdo o nome de mafamede/ craro he que ha onypotemcia de ds fauorece Jsto que qujs aRei- guar a xpidade em uosos Reinos//. E que estas cousas se facam com Jmmêsas despesas quaèes nunqa teue Rey xpaao por serem comtinoada memte. tudo se deue dauer por bem gastado por ser cousa que tamto eixallça acrecemta & aumenta nosa samta fee. catolliqa & q tamto abatimemto perda E dapno traz a fallsa opiniom diaboliq® do nefamdo Jmnomjniosso fallsso mafamede cabeça de toda vãa Relegiam mourisqua do quall vosa alteza tem gramde fama & omrra no mundo acerqua dos primçepes E diamte do muy allto ds Jmfymdo mereçimemto que estas coussas tem magnifiqua memte comecadas meadas E quasy acabadas//. Prohemjo Polias quãees cousas que bem avemturada memte soçedem primeiro/, ocupado eu em carguos a que vijm aas Jmdijas E out°s que me qua forom dados de muyto trabalho desejaua q se me ofreçese tempo ociosso em que podese escreuer alguua cousa verdadeira q aproueitase pa o pasar do tempo em que se lleese detremjnei de poor em obra esta suma oriemtall. E comecar do maar Roxo ou arabico athee os chijs com todas as Jlhas & desviarme da parte dafriq8 por serem cousas mais notorias em a qall suma nom me emtremeto com temerarja ousadija porque terja menos modéstia mas pedimdo que nas cousas em que nom for achado
A Suma Oriental 131 despeso seja Releuado por que meu jmtemto foy moujdo a bõoa fee por vèer cousas tam gramdes he salua ha paz dallguus que escreuerom sse deujam víjr alimpar de seus tratados onesta cousa me pareceo poor em escpto alguua parte de tamta gloria/ quem fose tam bravo (?) que tiuese o Jmtemto greguo E a Iim- guoa Romãa. E o despejo betiquo pa | Falar em cousas tam Foi. I17v. simplez também auemturadas como sam as oriemtaeês/ mas como eu seja lusitano E baixo na gemte plebea cujo custume he dizer menos suas glias Do que sam & o mall mais do que he E por que o compor das sumas ou tratados he majs oficio des- tramgeiros que de naturaes por saberem adoçar suas composy- çõees como vemos falarem maraujlhas nas cousas do mãar mjditeranjo pasagem de xv dias sempre a vista de terra, que fizerom se virom a famosa comqista do oriemte de todo o mãar oçeano domde se comtem cousas tão Dynas de memória asy domrra acerqa dos homêes como em merecimemto Acerqa de Ds se esta suma nom for asij põderosa como conuem Remeta ê ser naturall em outra arte q pa o tempo apremdy de que poderia dar melhor comta porque a necesydade me foy niso mais potemte que nesta obra a Rezam/ Se dos trogloditas E gemtes que matarom o VisoRey(l) prohemjo tiuera a velocidade pa caminhar & ver como tiue a diligemcia segumdo. de emquerir o q nom vy nom fora maravilha, mais copiosa ser esta brebe suma asy que quererme meter na medida da terra, pola bamda do maar oçiãno quem quer se poderja Rijr de mjm por me meter è vijnha alhêa. & fora de mjnha comdicam mas eu vemdo que os homees falam nas cousas alheas sem serem Repremdidos menos culpa me pareçeo que emcurria falar nas mjnhas/ por que do q quero falar srio he de uosa alteza e eu seu naturall a Rezam despeuer eu a tenho se me aJudase o que (1) D. Francisco dc Almeida, primeiro Vicc-Rei da índia. Foi morto pelos nativos em Aguada de Saldanha, Cabo da Boa Esperança, em I de Março de 1510, com sessenta e quatro outros Portugueses, dos quais doze eram capitães.
132 Tomé Pires phemjo terceiro ua Repar- ticam Foi 118r. compre/ se nom falar destimtamte como comvem mjnha hc a culpa, poijs nom sey dar Rezam de mjnha casa. he nesta suma nom somemte falarej da Repartiçam Das ptes provyçias Regnõs Regiõees & de suas comfromtacoèes mas aJmda do tracto E comerçio que humas tem com outas o quall trato de mercadoria he tam neçesario que sem elle nom se sosteria o mundo este he o q nobrece os Regnos que faz gramdes as Jemtes & nobelita as çidades & o q faz a guerra & a paaz/ No mundo he abito o da mercadoria limpo Nom falo no meneo dela avido em estima q cousa pode ser melhor que a que tem por fumdamemto a Vrdade/ o papa Paullo segumdo/ mercador foy primeiro E nom se desprezaua do tempo que nela gastou & os sabedores datenas por maravilhosa cousa a louuarom & oJe em dia è toda a Redomdeza se custuma. he mayor memte nestas ptes he avida em preço estimada em tamto q hos gramdes nom custumã qa em outas cousas ptiqar senom nela hc gostosa necesaria conuenjemte senom teuese Reveses os quaees a fazem majs estimada// Começo segimdo o que se cada dia custuma que se acha em todo oficio que prymro medem as obras & despois as cortam a pressemte suma sera gizada De cimqo Rijos primçipaes/ o njllo/ o tigris eufratees Jmdus & o gamges os qees sam nesta parte Dasya. o njllo deujde africa dasija E a persija dos arabios athee. o tigris Do tigris atee o eufrates a provymçia dos persas naytaques/ Do eufrates athe o Jmdo os Resputes | Cambaia daquem guoa do Jmdo ao gamges a Jmdia do malabar & a proujm- cia da quelijs em que emtra o Reyno dorixa ho ganges faz duas bocas huma em canboJa E a outra em bemgala que comtem em sy muytos Reinos como se ao diamte Dira & despois de CamboJa athee a china tratarsea do nacimemto de cada Rijo E sera a presemte suma deujdida em cirnq0 liuros./. o primeiro sera das arabias egipto psya athee cambaia o ssegundo sera de cambaia athee batiqla o terceiro sera de batiqalla athee bem- galla. o quarto sera de bemgala athee os chljs o qujmto sera de todalas Jlhas e sera a suma acabada//
A Suma Orienta! 133 Comuenyemte me pareçeo a presemte obra segijr o estillo Deujsam macanico que quaallqr artifiçe vsa. em ssuas obras gizar emtam da pre- cortar deuidese a suma oriemtall. em quatro partes ou liuros (2) semle a primeira sera do pincipio dasya. apartamdose Dafrica athee a primeira Jmdija'/ o segumdo sera da Jmdia pmra a thoda (?) Jmdija meyaa (3) o terceiro sera da Jmdia alta alem do gamges que sse acaba em odija o quarto Sera do Reyno dos chijs & das proujmçias a elle sogeitas com a nobre ylha dos lequeos Janpon burnej & os Iuçõees macaceres o qimto sera de todalas Jlhas particular memte deujdimdo asya pllos Rijos primcipaees Damdo nacimemto & fym a cada huu. & se na tall deujsaõo parecer alguua cousa supérflua ou mjmgoada ou Discrepamte a cosmogija fradansellmo (4) E tolomeu E out°s nom pareça noujdade por que os taèes mais por nouas que por ptiqa o sen- tirom nos qa tudo pasamos espememtamos & vemos & se esta Rezam nom for aceptauell deuese comsyderar q ho xastre em pequeno campo mujtas vezes nom acerta os talhos quamto mais defecultosso sera em camynho tam estemdido/ nom me apar- tarey de culpa de quall qr descujdo que eu tiuer em nom falar (2) 'Quatro' em vez de cinco é erro evidente. Há desde o princípio ao fim uma grande confusão na divisão da Suma e os três planos propostos por Pires nâo coincidem. Além disso, ele juntou, fora de sítio, matéria nova que não se adapta a nenhum dos cinco livros. Para complicar as coisas ainda mais, o copista nào parece ter seguido a ordem pela qual Pires escreveu c, ao ser encadernado o MS., alguns folios ficaram deslocados. Recompus o texto inglês, como ficou explicado na Introdução, p. 74. (3) Mais adiante Pires identifica a segunda índia com índia Média. (4) Fradansellmo ou 'Frade Anselmo', um frade franciscano que visitou a Terra Santa cm 1507-8, c cm 1509 publicou um panfleto — Des- criptio Terrae Sanctae. Está incluido in: Joannes de Stobnicza — Intro- ductio in Plolomei cosmographiam. etc., ff. 33-44, Cracovia e Henricus Cani- sius— Thesaurus Monumento rum, etc., vol. 4, p. 776-794, Antuérpiae, 1725. Desconhece-se a nacionalidade de Frade Anselmo, mas possivelmente era polaco. Pires devia ter tido conhecimento, ou possuiu uma cópia, do panfleto de 1509, mas parece tê-lo usado apenas nesta citação.
134 Tomé Pires asy destimto como comuem por que em cousas de fazda de uosa altza em que era emcareguado me eixercitaua o primcipall tenpo he este desta obra era o de benese como se vera pilo Recem- ceam'° das contas que em malaq8 tomey E dos carguos da fei¬ toria tudo por mamdado do capitam geerall que a jsso me mam- dou por seruiço (5) de uosa altez® de que fiz mais estemdidas leituras//. (5) Deve notar-se que os deveres executados por ordem do capitão- -geral eram tarefas oficiais e não ocupação dos seus ócios.
SUMA ORIENTALL Foi. I/Sv. que trata do maar Roxo athee os chijs copilada por thome piz (6) LLIURO PRIMEIRO [DO EGIPTO A CAMBAIA] [Descrição das três Arábias — Egipto — Pérsia — Cambaia — Canarim — Narsinga — Malabar — retoma a descrição de Cambaia]. [descrição das três arábias] Asia apartase dafrica polia bamda do maar mjditeranjo por Repart- alexamdria he da pte do levamte pilo Rio njllo E do maar tiçam oceano pilo meio dia segumdo a tall Reparticam se aparta da dasya com ethiopia abixia por ela & arabia felix (7). africa.l. o njllo Rijo primeiro & mui primcipall traz seu nacimemto naámento do cabo de boaa esperamça. E vem por meio da abixia em do njllo Rijos nom gramdes no fim dabixia Jumto com arabia felix se faz navegauell. pasa com ligeiro curso a egipto vayse ao maãr mediteranjo deujdido por braçõs dos qees ho principall he damjata pasa casy mea leguoa da cidade do cairo em Julho E agosto creçe he Regua a terra & as gemtes q viuem ha beira do Rijo (6) No lado esquerdo, ao cimo desta página estão as palavras: “Livro primeiro da summa Oriental discripssâo das tres Arabias, felliz, Petrea dczerta. egipto, Pérsia, atte Cambaja & do grão Cairo e Soldão". Pela tinta e cali¬ grafia esta nota parece ter sido escrita pelo mesmo punho que a palavra ‘Osorio’ na foi. 5r. (Est. II). (7) Esta frase confusa aparece exactamente assim no MS. de Lisboa, mas foi reformulada na tradução de Ramusio.
136 Tomé Pires Abixia. Mercado¬ rias dabixia. Foi. 119r. Maar Roxo. vam aos altos com seu guaado & fazemdas & como lhe ha augua daa lugar que começa a sequar semeam de setembro p diante. Dizem os de epipto que este milagre proçede dos abixíjs gemtes xpãas pilo quall sam framcos em toda a terra do solidam & sam estimados Dabixia core o Rijo vijolemtamemte & nom he bom de naveguar pa comtra abixia./. comfina Abixia da bamda do mãar Roxo com aRabija felix. da bamda do maar oçiano des guardafuy athe tamto como çofala nom se chegua ao maar com sesemta leguoas da bamda dafriça com os desertos & com parte Da ethiopija. sam xstaãos tem gramde terra & Jemte guerreira mercamtivell dela-/ ha mamti- memtos ouro em sua trra nom tem portos no maar vem fazer seus tratos em zeila he barbora. E demtro no estreito no portos Darabija. sam estas Jemtes comemeradas amtre os ethiopes todos sam de cabello Reuollto ferrados na testa em lugãr de bautismo tem saçerdotes patriarcas & out°s Religiosos/ Vam a Jerusalem E a momte Synaa em Romarias cadano/ sam ávi¬ dos nestas partes por leãees Vedad°s fiees cavaleiros & muytas vezes estes semdo estpauos vem ser Reis primcipall memte em bemgalla// Dadem de xãr(8) de fartaq de dalaq3 he cuaquem tratam com estes abexíjs valem na abexia aguoa Rosada Rosas sequas matamimguo panos baixos de cambaia E alguus de sseda comtas de toda sorte cristalino panos bramqos tamaras è fardos amfijãoo/ ouro marfim cavallos espauos mamtimemtos &c. conuenjemte he que daqui se faça noso Recomtamemto athee os chíjs polia parte dasya pola bamda do noso maãr oçiano vaa toda medida & RecontaDa tem este maar tres nomees maar Roxo mar arabiq0 estreito De mequa/ maar Roxo porque dem¬ tro no cabo Junto com çuez sam as barreiras Vrmelhas maar arabiq0 porque jaz cerqado dos arabios estreito de mequa por (8) Xãri. chamada a maior parte das vezes Xaer ou Xael pelos por¬ tugueses do século xvi. A actual cidade de Sheher ou Esh-Shihr na costa de Hadhramaut.
A Suma Oriental 137 que demtro nele jaz mequa casa de Romaria Dos mouros donde foy naturall seu mafamede mas o majs propijo nome he arabiquo/. Da porta deste estreito pa demtro athee çuez he cerqado medida este mãar de quatro prouijçias da bamda do leuamte jaz arabia deste petrea da bamda dabixia jaz a felix chega atee tamto como as maar- ylhas de dalaq8 a petrea casy a meq8/ da meca ao toro comeca arabia deserta eesta vay caminho do maar mediteranjo he deujde a proujmcia De egipto da terra de Judea do toro & de dalaca he provimçía De egipto .s. toma a pomta ou casy terceira parte do estreito tera este estreito em Roda-//- todo ho estreito he cerq8do das terras ssusoditas E casy tudo he deserto he desabitado he trra escaluada ssem fruto todo aRedor em sij tem alguuas ylhas pouoadas pouq° asij como camaram dalaca acuaquem que demtro nele estam demtro neste estreito ha mujta pedra Restinguas he mãao de navegar nom navegam senom de dia. sempre podem ancorar Da boq8 do estreito athee camaram he a melhor navegacam/. Ja he pior de camaram a Judaa./ & mujto peor de Juda ao toro/ do toro a suez he pasagem De barcos aJmda de dia de m"a q todo he çujo & mãao'/- tem este estreito vemtos quemtes que quall quer cousa que morre asy homem como anjmall nom comsemte podridam mas secase & destas partes se leuam destes anjmaees a nosas partes por momja a quall nom he que a momja he a vmjdade que corre dos corpos despois que estam abalsamados cõ aloees (9) cecotrino E mjrra. asy que o licor que de nosa carne mana he destes materiaees se chama momja (10). (9) Watt diz que ‘o alocs indiano parece ter sido mencionado pela primeira vez por Garcia da Horta (1563, Coll. II) como preparado especialmente em Cambaia c Bengala'. The Commercial Products of índia, p. 59. Embora, ao tratar do comércio de Cambaia, Pires não mencione o aloés entre os produtos exportados ou importados, ele refere-se ao aloés de Cambaia na sua carta de 27 de Janeiro de 1516 (Apêndice 1). (10) Na mesma carta de 27 de Janeiro de 1516, Pires refere-se minucio¬ samente a esta repugnante mistela que antigamente se supunha ter proprie¬ dades mágicas e medicinais; mas teve o cuidado de manifestar a sua descrença. n
138 Tomé Pires [egipto] Foi I I9r. Proujmçia De egipto. homde esta o solidam. A terra de egipto comeca do maar mediteranjo he vem tomar pte do estreito De meqa de huua parte a diujde africa & da outra arabia deserta de Judea toda he terra que se semea com acrecemte Do njllo & isto majs do cairo pa noso maar mediteranjo que do cairo pa o estreito he terra desaproueitada mas caminhase com menos trabalho que lia deserta ha nesta provimçia a cidade de tebas em que se faz opio tebaiqo que qua chamam afiam cousa mujto vsada qa comerse he em nosa terra mata nesta terra de egito nom choue saluo dano em anno ou De dous em dous huu dia ou menos hee aguoa que choue quemte. E nam aproueita pa se aproveitarem da terra quamdo o njllo crece tomam auga em açeqos pa despois Regarem as ortas toda esta proujmçia he mjngoada dauga De toda esta terra a mais pimcipall cidade he o cairo esta nela comtinoadamemte o solidam tem mujtos espauos que o gardam mamaluquos q na limguoagem da terra quer dizer gemte comprada por dr° estes seram athee çimco mjll. E tem a guarda de sua pa sam ha moor parte deles aReneguados que forom xpaãos. tem gramde copia de molheres nunca saee de casa nem he visto dos da cidade tem gouernadores Da Justiça que poucas vezes a fazem estes mamaluquos como se agastam do soldam emlegem huu pa o carguo & matam outro hade ser aRenegado E dizem que ysto se fez porque os xpãaos aRenegasem pa pode¬ rem alcamçar a dinjdade o que pode ser/ nom herda f° nem paremte mas pola maneira dita socedem hade ser xstaoo aRene- guado E quamtas majs vezes vemdido tamto tem mais pte no Regno sam mujto pobres os soldaees do cairo & mor mtr aguora chamanse os do Regno nestas partes maçarijs//.. (II) (11) Do reino de Maçaram, provavelmente Mekran segundo Danvers, The Portuguese in India. I, 314.
A Suma OrientaI 139 este em toda sua proujmçia nom tem Rey somemte capitaees tem guerra com este o sofy mouro perseano que qa se chama o xequesmaell como se despois dira na descricam dúrmuz E vay perdemdo pte dela mas como os f°s nom ham de soceder nom trabalham polia liberdade de sua patria/. Da obidiemçia Deste he Judea osiria alguua parte cuJa cidade pimcipal he damasquo caldea he também deste palestina aydumea/(12) De todas estas partes nom he mujto obedecido amõor Remda que tinha, de que se mamtinha era a Romagem do samto sepulcro & a pasagem Da especiaria pollo cairo ja aguora da pasagè da especiaria tem mt° pouco E prazera a noso sõr que do samcto sepullcro tera menos As outas Regioões aleuam- tanse cada dia com o xequesmaell que com elle comfinam/. A çidade de Juda he em huu Rijo mea leguoa do mar he cidade qasy tamanha como adem nom tam forte, nom de taees muros dizem ser cousa fraca/ tera çimqo mjll vezinhos he do soldam do cairo | cadano tem capitãoo espauo do soldam com Remda nom tem nenhuu mamtimemto nem fruitos de seu naturall somemte tamaras mujtas carnes pescados triguo aRoz cevadas mjlho lhe vem de zeila & barbora & das ylhas de çuaquem tem mujtos mercadores he cidade de gramde trato ma leguoa dela ancoram as nãaos & aquela ma leguoa athee a cidade he de baixamar de huua braça & com maree chea de três tem gemte de guarnjcam gemte de cauallo tem o porto auga em avomdamça. toda a mercadaria da Jmdia vai descarregar a Judaa. sera dadem viagem de dez dias/. De Juda camjnhamdo huú dia pola terra firme he a casa de meqa omde naçeo mafamede & ssua geeracam he a casa de meqa gramde bem fabricada tera mjll vezinhos mercadores mujtos chamase o capitao delia xecbarqate (13) he do soldam do cairo esta (12) Talvez Aidin, insignificante sultanato turco junto de Esmirna no século xv. Hoje é um vilaiete. (13) Barakat n, que foi xerife de Meca de 1497 a 1525, era vassalo do sultão do Egipto. çidade de Judaa. Foi 120r. A casa de meq
140 Tomé Pires almjdina. homde se faz a armada do soldam. xsiaaos da çim- lura (15). terra nom tem augua vem dacarreto de huu lugar a que chamam arefet huua leguoa de meca(14) os mamtimètos vem de Judaa//. Almidina he quoatr0 leguoas damdadura de meca camjnho do cairo alguu tanto desujado no deserto darabija deserta, sera lugar de çem vizinhos è huua torre q esta neste lugar Jaz mafamede E sua filha jemrro & companheiros he de gramde Romagem tem boas tamaras E pouqa auga do cairo ha medina quoremta dias de medina a meqa quoatro de meca a Judaa huu de Juda adem dez com vemto/. Do cairo a suez vem em tres dias suez he o cabo do estreito nom he porto nem cousa pouoada alij dizem que se faz huua armada para qua he este camjnho despouoado destes três dias nom tem fortalez8 nem pouoacam somemte o mãr que he de pedras & baixos a madeira de que se ham de fornecer hede vijr ao menos de fora de seus Regnos porq em toda sua terra nem darredor do estreito nom ha senom Junqos marjnhos que tem fremosos abrolhos A Jemte desta proujmçia he guerreira tem mtos cavallos acobertados tem artelharias sam destros a cavallo de lamças em punho & o freio na huua maão & trazem esporas asij o sam os dos arabios tem Camellos de duas corcouas & desta Jemte mujto asoldada & q peleja por que a outra dela viue por seus ofiçios & deles amdam a furtar a terra he de pouca Justiça por causa da Jemte da gerra por que huu nom se tempera com ho outro/ Ha nesta proujmçia & asy nos arabios mujtos xstãos deles circucidados & deles nãao os circuncidados chamamse Jacobitos os out°s malaqujtos tem Duas cooresmas huua em natall. & outa (14) Há um lugar chamado Kahwat Arafal, com uma nascente cons- picuamente marcada na carta da Arábia S.W., 1: 253,440, do War Office, umas 30 milhas (9 léguas) a leste de Meca. Esta nascente ainda hoje fornece Meca por meio de uma conduta de água coberta. (15) Cintura ou cintura—Além de significar cinta, cintura, scintura, ou escintura (do nosso verbo cindir, scindir ou escindir, em latim scindere) significava antigamente também corte ou golpe. Assim, neste caso, signi¬ ficaria ‘circuncisão’.
A Suma Orienta! 141 a nosa nom casam hos huus com os out°s & mujtos deles sam Jrmjtaees & de samta vida. & deles homees de fazemdas & sam muytos ha destes em Juda no toro e em meca sam amtre estas gemtes ávidos por boos homees// As mercadarias questes trazem as Jmdias sam de Jtalia Foi. I20v veneza vem aleixamdria he dos estamcos daly pollo Rijo vem trat0 aos feitores que estam no cairo & Do cairo vem em cafilas com destes na mujta gemte darmas vem ao toro mas nem he ysto mujtas vezes Jmdia por causa dos salteadores alarues & ham mester mujta gemte darmas pa guardar a mercadoria mas no tempo do Jubileu (16) que he cadano è mequa o primeiro Dia de feuereiro E vem mujta gemte com estes mamdam a meqa & Dhy vem a Judaa E de Juda vem aos estamcos que tem em adem & dadem se espalha por cambaya por guoa pollo malabar & bemgala peguu syaõo//. trazem panos de lãa de cores & sortes chapêoos xstalino de todas cores & sortes azernefe(17) vrmelhãao azougue cobre (16) Não é ceriamente o ano jubilar no começo do qual se efectuava a libertação de todos os escravos israelitas e a restituição de bens ancestrais. Pires refere-se talvez ao Haggi islâmico, ou grande peregrinação a Meca que é marcada para certos dias na primeira metade do mês de Dulheggia. Mas como a Hegira não tem data fixa correspondente no calendário gre- goriano, porque ela depende dos meses lunares que começam aproximada- mente com a lua nova, a Hegira ocorre cm qualquer período do ano. 1481 foi o ano mais próximo, em que o começo da Hegira caiu no 1." de Feve¬ reiro; em 1513, caiu a 7 de Fevereiro, em 1514 a 28 de Janeiro. Pode ser que a pronúncia de Dulheggia soasse a Pires como Jubileu. (17) Toda esta parte falta no MS. de Lisboa. A palavra azernefe repete-se mais adiante sob a epígrafe 'Mercadorias de Malaca para Sião', mas não foi empregada no MS. de Lisboa, ou porque o escriba não com¬ preendesse ou porque não conhecesse a palavra. Ramusio tradu-la em dois sítios como orpimâto, que significa orpimento, arsénico amarelo ou trisulfito de arsénico. A palavra azernefe não se encontra nos dicionários de português, mas numa carta para Afonso de Albuquerque, escrita de Malaca em 1510 por cativos portugueses, azernefe é mencionada como uma das mer¬ cadorias que seria útil trazer para ali. Cartas m, 12. Watt diz que orpi- tnent é um produto da índia e que também tem sido sempre importado da Birmânia e da China, o que está de acordo com a afirmação de
142 Tomé Pires merca¬ dorias que trazem a Jmdija. A rabia Felix. aço armas prata ouro amoedado amfiam almecegua toda sorte de comtas de vidro estoraque (18) liqujdo aguoa Rosada chama- lotes de mujtas corees & sortes fynos & doutros mujtas alcatifas E tapetes de boos lauores he fynos & de preço/ gramdes & peque¬ nos mujtos vidros despelhos// Arabia Felix se estemde Amte o mãar Roxo E abixia alguus dizem que chegua ha magadaxoo E corre athee tamto como as Jlhas de dalaqa E dizem que he toda aquella terra De gemte bramca. onde nom ha cabello Reuolto q he desta arabia. out°s querem que nom seja senom athee o cabo de guardafuy chamase felix porque nom he tam esterlij como as duas se athee maga- daxo se estemde. sabidos sam os portos dela se do cabo athee delaca. emtam tem Amte daboquar o estreito zeila & barbora & despois dabocado tem dalaqua & laçarj deste laçarij que he porto nom mujto pouoado em tres dias vam ao njllo e em dez embarquas ao cairo ysto poucas vezes pque os alarues nesta pasagem salteam & Roubam os camjnhamtes//. he a Jemte desta arabia limpa caualeirosa tem fortelezas he Jemte de cavallo tem guerra com abixia que he Junto a esta arabia. & fazem cavalgadas ê que tomam gramde cantidade dabixijs. & vemdennos aos asyanos. tem esta terra triguo & aguoa boa. De mujtas ptes vem tratar a estes portos De cambaia De toda arabia pmcipall.m*e da cidade dadem leuam panos baixos De mujtas sortes matamugos comtas outas de cambay* Dadem Pires. Parece que a palavra azernefe (possivelmente simples corrupção da palavra arsénico), significando orpimcnto, tenha desaparecido da linguagem portuguesa, como aconteceu com a palavra fruseleira, também usada por Pires, como adiante se verá. (18) O estoraque líquido, levado pelos árabes para a índia, é um bálsamo fragante fornecido pela Liquidambar orientalis Mill., da Ásia Menor. É um produto diferente do ‘estoraque verdadeiro', estoraque de benjoim ou goma de benjoim comercial, fornecido pela árvore de benjoim, Styrax benzoin Dryand., da península e arquipélago da Malaia. Na carta de 1516 (Apêndice I) Pires refere-se com pormenor ao estoraque líquido, que na sua opinião, não existia.
A
A Suma Oriental 143 leuam pasas dormuz tamaras Retornam ouro marfim espauos & fazem seu trato nos ditos portos de zeila & barbora. Doutras ptes tratã De qujlloa. melimde de braua de magadaxoo De mom- baça trazem p Retorno boõs cavãllos que ha nesta arabia. nom tem çidades nem Rey viuem em cabilas (19) he gemte de Rapina & mujto saluageni por estes dous portos Resfolegua toda abixia porque ao cairo vay pouca cousa A Rabia petrea a deujde da persya o estreito dormuz & Arabia do Rijo q vay a meqa (20) se deujde darabia deserta pollo porto petrea. de Judaa pola bamda da terra firm° medija Regiom populosa. E parte da palestina (21) chamouse esta arabia petrea porque he escaluada. esterilij de serranjas De pedra toda tem pouqa Aguoa. tem esta provimçia nas beiras do maãr alguuas cidades tem Judaa adem fartaque a maseira do cabo de Roscallhate pa demtro tem calahate mascate curiate: & out°s lugares pola bamda do mar do estreito De hormuz pasamdo a serra demtro na terra firme, tem boas çidades bem povoadas fermosa terra de mujta gemte. de todas estas cidades & lugares adem he a mais nobre Foi. 12lr. E cousa muyto forte chamamse as çidades da terra firme zebit taees beitall faquj camaram (22) cana çinam// (23) A gemte desta arabia he guerreira peleJam acauallo a nosa gujsa com esporas as Redeas em huuã maão & a lamça na outra. (19) Cabildas no MS. de Lisboa. Ambas as formas vêm do arábico kabã'it, plur. kabila, 'tribo' que alguns escritores árabes usam como sinónimo de berberes e que antigamente eram usadas pelos portugueses para designar as tribos mouras do norte de África. Depois foram por extensão aplicadas no Oriente a qualquer bando de mouros, quer pertencessem a uma ou mais famílias ou vivessem simplesmente juntos. (20) Wadi Fatima. (21) Pires confunde Arabia Petrea com Arabia Deserta. Os nomes estão devidamente colocados na carta desdobrável respectiva, aqui junta. (22) Este Camaram não pode ser a Ilha Kamaran, porque Pires se refere a “cidades da terra firme". A palavra pode ter sido mal copiada c estará em vez dos dois lugares Khramr e Arriram, ao norte de Sana, ou pos¬ sivelmente da cidade de Al-Makrana, que Varthema chama Atmacarana. (23) Çinam corresponderá a Jizam, que Varthema chamou Gezan.
144 Tomé Pires E tem gramde numero de homêes sam os cavallos desta arabia melhores que todos os out°s De todas estas partes tem grãde numero De camellos bois de que se seruè doutas alymarjas sam momteiros homes dados rnujt0 ao trabalho oufanos presuncuosos esta proujmcia tem Rey a que todos obedeçem Dizem que vasallo do soldam, este esta sempre na terra fyrme porque comtinoada memte tem guerra em sua terra, por que som alarues mujt0K E a terra he fraguosa. E nom querem estar em paz nem tem Remedeo senom furtar//. E porque desta Arabia somemte adem he a popullosa. E a chaue nem somemte Darabija mas de todo ho estreito asy pa os que emtram como Dos que saem Dela. Direy por.que ho all. tudo he enexo ou adem ou a hormuz E alguus viuem sobre sy Judaa E mequa sam da obidiemcia do soldam E dhy pa demtro/ nos portos do maãr he adem a chaue nom falamdo da seranja pa a terra fyrme//. Adem estaa ao pee de huua serra ella casy em chaão cidade pequen8 pero fortisyma asij de muros tores baluartes como de toda fabrica de casas de bombardeiras seteiras De mujtas artelharias & de rnujt8 gemte de peleja que comtinoada memte tem dela da terra dela asoldada afora que a quall qr Repique acode Jmfinjdade da da terra, tem demtro na cidade fermosa. fortalez8 tem capitam que nella estaa asy atabiado como compre porque de dez annos a este cabo sempre esta Receosa de nosas armadas & os mouros todos aJudam esta cidade que se nom tome temem como for tomada que cedo sera sua fym por que Ja agora lhe nom fiqua outra cousa, e esta ja ouue fremoso com¬ bate e emtrada se lhe acomtecera o desastre de quebrarem as escadas com o peso da gemte q sobia aos muros (24) E foy famosa cousa seu combate por que as taees cidades ham mister primeiro o camp0 tomado e esta esteue em comdicam de se perder dos mouros o quall feito dadem foy omrrado posto q se nom tomase (24) Assalto frustado de Afonso de Albuquerque a Adém, em Março de 1513.
ESTAMPA XVI Carla de Francisco Rodrigues (foi. 26) da Cosia Oriental de África, com Madagascar.
ESTAMPA XVII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 27) da Costa Nordeste da África.
A Suma Oriental 145 a cidade nom ficou mujto alegre & os seus caçizes(25) semtem sua destruiçãm que sera çedo//. tem esta cidade gram trãcto asy com hos do cairo como com quem com toda a Jmdia & os da Jmdia com ella. tem Demtro fermosos tractã. mercadores de gramdes fazemdas & mujtos estamtes dout°s Reinõs cidade he emcomtradiça de mercadores esta he das quoatr0 do mundo que tem gramde trato trata demtro no estreito com Juda homde emtregua as sumas das especiarias & drogarias & Recebe as sobreditas trata com dalaqa com panos Recebe aljôfar trata com Zeilla & barbora com panos baixos E em njnha- rias & Recebe ouro cavallos espauos marfim/ trata com cocotora. leua panos palha de meca aloes caeotrino & samgue de dragão trata com ormuz traz cavallos & das mercadorias do cairo Retorna ouro mamtim,os triguo & arroz se o acha, especiaria aljôfar almjzquer seda E quall qr outra drogaria, trata com cambaia traz das mercadorias do cairo & amfiam Retorna gramdes copias De panos com q trata nas arabias & Jlhas & sememtes mata- mimgos(26) comtas de cambaia muj181* alaqeqas De todas cores & o primcipall. as espiciarias & drogarias de malaq* crauo maças noz samdallo cubebas aljôfar & cousas semelhamtes &c; traz a cambaia gram suma de Rujva & pasas E também a Foi. 12lv. ormuz trata com ho Reino De guoa traz todas mercadorias {rato cauallos E das suas & do cairo he Retorna aRoz ferro açúcar beatilhas (27) ouro em camtidade trata com a Jmdia do malabar homde tinha o primcipall asemto em calecut caregaua de pimemta gingiure & das cousas de malaca com bemgala. Retornaua mujtas sortes de panos bramcos & das merca Darias de malaq* (25) Caçiz ou Kashis enlre os arábcs e os persas significa sacerdote cristão. Todavia Pires, como outros escritores portugueses do século xvt, usa¬ ram a palavra para designar qualquer sacerdote, especialmente muçulmano. (26) Maiamingos, ou matamiigos como no MS. de Lisboa. Palavra antiga que significa contas de vidro. O lexicógrafo António de Morais e Silva regista as duas formas. Diccionario da Língua Portuguesa, 1.» ed. 1789. (27) Beatilha é uma antiga palavra portuguesa que corresponde a musse¬ lina fina, ou a uma espécie de tecido muito fino feito de algodão ou linho.
146 Tomé Pires as merca¬ dorias dadem com peguu Retornaua lacar beiJoy almjzqr & pedraria aRoz também De bemgala aroz De siam E as mercadorias De china que vem polia bãda De odia Desta maneira se fez gramde pros¬ pera Riqua & soo dadem Recebe o Rey todas suas Remdas por que o all nom he nada nom he duuyda soo a Rujva Remder ao Rey cem mjll czllos/. As mercadarias propias dadem sam cauallos Rujva aguoa Rosada Rosas secas pasas duvas amfiam & com os do cairo faz copias de todas estas partes ssussoditas vem a seu porto e elles vam a todos cousa he pa veer famosa rriqua estimada posto que tenha aguoa pa beber de carreto Recolhe todalas mercadarias & as que sam pa seu trato necesarias E para se gastarem na terra guardamse/ os mercadores estamtes Recolhem as espiciarias a maão E mamdam ao cairo desta maneira/ ptem dadem a camaram a dalaca. De dalaca as Jlhas de çuaquem domde podem hir pa todo o estreito deste çuaquem vam a huu porto que chamam loçarj da bamda darabia felix e em tres dias ao njllo he em dez ao cairo cometem este camjnho por causa dos ladroêes comti- noado despois de serem na Jlha de çuaquem (28) vam a Juda naveguamdo de dia E mujtos se perdem por q ho estreito he vemtoso de toruoadas por causa das terrãs E os que vam a Juda descaregam despois de serem em Judaa no tempo do Jubileu vem a meqa gramdes cafilas E naquele tropell vam em companhia, satisfazemdo os pincipaes da jente. athe o cairo Camjnho de setemta dias alguua vez a leuam de Juda ao toro por mãar mas poucas vezes porque toro nom he o camjnho Reall para o cairo he sam Roubados sempe/ o Rey dadem esta sempre na cidade de çanaa que he na terra firme homde tem sete ou oito cidades (28) Pires refcre-sc indiscriminadamcmc às 'ilhas' ou 'ilha' de Suaquem. talvez de acordo com a fonte da sua informação. Embora a cidade de Sua¬ quem ocupasse a ilha principal, «nesta entrada jazem outras tres Ilhas», como D. João de Castro já tinha escrito no seu Roteiro do Mar Roxo, [Obras completas de D. João de Castro, vol. 2, p. 258. Edição critica por Armando Cortesão e Luís de Albuquerque. Coimbra, 1968, 1971).
A Suma Oriental 147 gramdes E de mujta gemte & a mais da mourama deles sam Rafadis (29) segujdores da lee E o Rey nom ousa ja de os matar com medo do xeqesmaell Rey dos persas segidor dale nesta terra de cana ha. mujta aguoa Rosada E Rosas secas que valem nabíxía & ha nesta cidade as maís fijnas alaquequas que as de cambaia. E nom som em tanta Camtidade//. os que dadem querem pasar ao cairo viandantes vam a Judaa & de Juda ao toro he do toro a suez he em tres dias ao cairo e em cimq0 mais verdadeira memte. a bem amdar a cauallo que he deserto// Do toro nem de suez nom he pa falar por que nom som Suez toro portos nem pouoaçoes suez he nomeado de tres ou qoatro annos Juda a este parte porque dizem que he lugar, homde se faz armada nom tem casa nem daly a vimte leguoas he cousa herma desa¬ brigada terra escaluada sem erua de suez vimdo ao toro nom podem senom de dia he em cousas sotis tem mujta pedra E tudo baixo/ o toro nom he de vijmte casas açima estas sam de xstãos dos que acima disse as pouoaçoes sam mujto metidas na terra dalarues ladrõees vimdo do toro a Juda he camjnho casy como ho outro desauemturado toda aquella terra he maldita sem dela ser aproveitada nenhuua cousa. Judaa he porto de meqa cousa pequena de baixos em todo o estreito nom tem outra cousa senom Judaa. he em terra escaluada agora dizem que sse faz forte com medo tem gemte de garnjcam de Juda pa adem he camjnho priguoso mas nom tamto/. Despois dadem he fartaque as Jlhas de curia muria E amaseíra tudo ysto sam alarues gemte de trato E boa gemte de peleja, de fartaque vam mt08 por fromteiros a cacotora E a zeila. E bar- bora estes viuem também de trato mas he cousa pouca, do cabo de Roshallhate pa demtro he do srl° do Reino dormuz sam os (29) Rafadi, Rafazi ou Rafizi significa herético. É o nome que os sunitas maometanos (ortodoxos e tradicionalistas) desdenhosamente dão aos xiitas (separatistas), seita rival que considera Ali c seus descendentes como os sucessores legitimos do Califado.
148 Tomé Pires Foi. I22r. arabia deserta'/. hormuz Fartaqujs de fremosas espadas E de todo out° genero darmas sam homees ousados///. esta terra darabia deserta pollo estreito de meqa comeca de Judaa. athee o toro & vay ao maar mediteranjo E deujde a terra de egipto de Judea. alguns afirmam que meca he nesta terra he nom na petrea. desta nam ha que dizer tem alarues ladroees nom tem aruors nem fruitos nem augoa geerall memte saluo em luga¬ res dos alarues sabidos sam ladroees nã tem outa vida. gemte mali- çiosa fora de rrezam em cabilas amdam salteamdo omde ho acham/ por hordem se nos Represemta a polida Jlha dormuz com todo seu Regno & com a copya das Jlhas em seu estreito o quall Reino alem de ser Riq° E nobre he a chaue das persas Comfina com arabija petrea da bamda [em branco] (30) em que tem de seu senhorio cidades E da bamda de cambaia, com hos naitaques & da terra firme com ha gramde provimçia persy sam debaixo do Reino dormuz as ylhas de baharem he todas as do estreito dormuz E o Rey mouro de carapuça vermelha segidor da seita dale nouamemte feito a gemte Durmuz he de peleja de boãs armãs De cavallos sam polidos homèes domésticos estemdese este Reyno do cabo de Roscalhate pa demtro polo estreito tem gemte mujta de casas bem obradãs// A cidade Durmuz esta em huua Jlha casij pegada aterra persija obra de huua leguoa he de muros casas çoteas torres baluartes em sij muy fresca e esta huua das quoatro desta bamda desija em toda gemtileza De fremosas molheres aluas em trato nom da a vamtagem a sseus vizinhos se nas cousas Do comer se praticar nom lhe chegam hos framemguos nem framçeses de frujtos ê abomdamça. como os nosos tem em sy a cidade gemtes de mujtas partidas grosos mercadores somemte careçe Dauga esta Jlha/ tem a cidade mujtas çisternas & poços mas aguora da que comtinoadamemte bebem vem da terra firme ê almadias emJarrada & vali as vezes cara segumdo ho temp° porem se a (30) Neste caso, como em muitos outros, o copista do MS. de Lisboa omitiu simplesmente a passagem obscura.
A Suma Orienta! 149 da terra firme nom acudise tem aguoa nom mt° boa nem pa tamto pouoo tem Jlhas & Jumto comsyguo que também tem fermosas aguoas/ por Rezam do porto se fumdou esta cidade// comtinoadamemte tem naãos de fora que a ella vem com mercadorias e ela trata com todos do quall o Rey durmuz he gramdememte Rico dos dereitos durmuz he antig° hormuz asy em armas como em trato nestas partes he avido em estima he cousa muy necesaria seu trato nestas partes/ he a cidade muj populosa honrrada Riqua. Amtre arabia petrea he terra de persija vay huu estreito estreito de mãar pouoado de cada bamda em que ha fermosas pouoaçoees durmuz que se chama o estreito durmuz nom he todo nauegauell & pola mõor parte quem esta no meio vee a terra de huua das partes e em cabo Danbas he mais demtro nauegauell/ Durmuz nave- gamdo qoatro dias cimq° de vemto ha mujtas Jlhas as primcipaees se chamam de baharem omde se pesca o melhor aljôfar destas partes & he gramde mercadoria è ormuz e em camtidade Jeerall memte he mais alluo E Redomdo que doutra parte/. trata hormuz com adem cambaia E com ho Reino de daquê trato E guoa he com os ptos do Reino de narsymgua. E no malabar durmuz a primcipall mercadoria que trãz sam cavallos arabios e parses aljôfar salitre emxofre seda tutia pedra vme que se chama ale¬ xandrina em nosas partes caparrosa aziche sall em camtidade seda brãqa mujtas tamgas(31) sam moedas de prata de valia de sesemta & cimq0 Rs ap & almjzqr as vezes ambra E mujta fruita seqa triguo cevada & cousas a estas semelhants de comer/ Retornam pimemta crauo canella gemgíure todo outro genero despeciariãs he drogarias que se gastam gramdememte na terra da persya & arabia he também alguua vay adem quamdo he mujta. porque Ja dormuz sae cara nom creio q daly pase ao cairo pa vir a Jtalia. Retornam Jso mesmo aRoz qmt.° (31) ^ tanga de Goa valia 60 reis, a de Ormuz entre 62 34/«3 a 69 33/43 reis, o que está de acordo com Pires. Hobson-Jobson. í.v. Vide nota p. 259.
150 Tomé Pires podem beatilhas panos bramcos ferro fynallmemte que todo seu Jntemto de seu Retorno he pla aRoz & ouro tem os cavallos Foi. I22v. no Reino de guoa & de daquem & narsingua grãde | vallia pollo quaall cadano hormuz acode a estes Reinos com elles/ haa cavallo q vali setecemtos serafijs moedas de iije xx,e res cada huua (32) como sam boos os melhores sam arabios segundos perseanos terceiros terceiros De cambaia estes valem pouq0 como Despois se dira.//. [pérsia] Persija porque hormuz he vizinho a persija e ela ser terra firme de que leua pmcipio noso Recomtamemto nom me pareceo onesto ficar por falar Delia. E se larguo falar Da persya ela ho merece ao menos por ser a mafamede contraíra/ A gramde prouimçia Da persija nom tem mais no mãar ociãno que ho Reino durmuz De sua comfromtacam da bamda de cambay1 a parte os naitaques da banda Darabia ho estreito durmuz pola terra firme polas serranjas de delij he por armenja casy por babilonja. E por cima de medea he vem dar na ydamca (33) he deuydida. esta proujmcia em mais de qoremta Reinos E Regiõoes desta terra dela habitada & muj boa E dela he momtuosa & desabitada/ chamasse esta provimcia asy toda Jumta na lingoagem delles /agenb/ E nos dizemos persya na linguoagem de qa todos os dagenb/ (34) dizem parses a que nos chamamos persas ou persyanos/ (32) Segundo Nunes (Lyvro dos Pesos da Ymdia, p. 32), em 1554 o serafim de Adém valia 360 reis, o de Ormuz 300 reis. Cada xerafim valia cinco tangas de prata. Mais adiante ao tratar do sistema monetário de Malaca. Pires refere-se a 'xerafins de Cambaia c de Ormuz’, que valiam três cruzados. (33) Embora esteja escrito ydamca no MS. de Paris, deverá ler-sc ‘índia’, como está no MS. de Lisboa e na tradução de Ramusio. (34) Agenb corresponde a Al-Adjam, expressão árabe, ^iic se refere a todo o povo da Pérsia. Agenb aparece como agens no MS. de Lisboa e como Azemini em Ramusio.
A Suma Oriental 151 As melhores proujmcias ou Regnos desta persija sam quoatro .s. coraçonj/ gujlanj taurjnj/ xitaçy/ E nestas quoatro proujmcias ha iiij0 cidades mujto primçipaees .s. /tauris/ xiras/ çamarcante-/ coracane na Regiam de coraconj/ sam os que chamam Rumes (35) E nos de gujlam sam deles turqimaêes guerreiros & de peleja gemtes amtrestas ptes estimados e estes dizem q trazem ho naci- memto De xpãaos/ os De tauris & xiras sam como em framça paris sam domésticos gemtijs homêes cortesaõs E sobre tudo se louuam as molheres De xiras De fermosas aluas Descretas atabiadas domde os mouros dizem que mafamede nunqa qujs hir a proujmcia de xiras porque gostamdo dele numqa fora ao paraiso despois de morto aJumtase também a estas qat° a prou¬ jmcia de media que qa chamam /mjdonj/ (36) que tem também huuã prínçypall cidade que se chama /ssusan/ que também he enexa a persya-/ aguora desta cidade (37) em ester/ se comtem (35) Barros, Décadas Lisboa, Livraria de Samcarlos, 1973, IV, iv, 16, p. 459 escreve que «os Mouros da índia, como nâo sabiam fazer divisão destas Províncias de Europa, a toda Tracia, Grécia, Esclavonia, e Ilhas cir- cumvizinhas do mar Mediterrâneo chamam Rum, e aos homens delias Rumii, sendo este nome proprio dos naturaes daquella parte da Tracia em que esta Constantinopla, que do nome que ela teve de nova Roma, tomou a Tracia o de Romania. E assi são differentes nações Rumes, e Turcos; porque estas tem a sua origem de Província Turchestan, e os Rumes da Grécia, e Tracia. e como taes se tem por mais honrados que os Turcos». Depois da tomada de Constantinopla o termo Rúm foi aplicado pelos árabes a outros povos do Oriente principalmcnte aos turcos do Império Otomano. Era esta a posição quando os portugueses chegaram à índia, como descreveram Tomé Pires e mais tarde Orta, Barros e Couto, embora não muito claramente. Orta chega a dizer que apenas os turcos de Constantinopla se chamavam Rumes e não os de Anatolia, embora esta fosse a pátria do Império Rúm. Mesmo hoje aos gregos que vivem em território otomano ainda se chama Rúmi. Os vários usos do termo através dos séculos torna-o bastante inde¬ finido c têm conduzido a considerável confusão que, mesmo em tempos recentes, não tem sido explicada satisfatoriamente. Não admira que Pires seja pouco claro. (36) O MS. de Lisboa tem mudini. Omitido em Ramusio. (37) No MS. de Lisboa esta passagem foi alterada: Ramusio suprimiu-a. Prouim- çias da persija & çidades 12
152 Tomé Pires crara memte sobre asuero & sua molher '/vasti-/ todas estas proujmcias asenhorea o xequesmaell. que la nas Regioèes detrás do vemto chamam Jguoalador/ ou çofij/ E porque se tratou na descricam Dormuz que o Rey tem a carapuça vermelha que he o sinall deste xeque bem he que delle se diga domde teue primcipio ele & sua ley/ E toda a bamda Da europa se chama qua gemtes detrás do vemto/ sam os persyanos homees de cauallo armados De todas armas de fremosas garnjções Despadas bem obradas sam homêes De nosa coor corpo & feiçam sem duujda os Das carapuças sam homès que mais parecem portugueses q doutas partidas as carapuças sam altas de doze verduguos no de cijma estreitas athee o emcaixamêto na cabeca & darredor touqas o xequesmaell esta a mõor parte Do tempo em taurjs que he durmuz cinq°enta dias damdura ê camellos a trra Da persya tem todo ho genero dalimarias mansas das que ha em nosa terra Ea terra de persija tem mujtas omças liões tigrers// Sam os persas mujto dados a toda deleitaçam em seus vestidos muj10 comcertados De mujtos porfumes vmtamse daloes dim- goemtos cheirosos de valor tem mujtas molheres Seruemse de capados & vem a ser gramdes Sres os capados que tem carguo das molheres sam homêes ciossos todollos mouros gerall memte E asij geerall memte os mouros sam putos homde meto os persya¬ nos E os Dormuz com toda sua gimtileza E nom ho am por alheo de sua comdiçãm nem sam poriso castigados he aJmda ha lugares públicos homde se exerçitam por dr° E os que deste negoçeo padecem no auto sam desbarbados vestidos a gujsa De molheres E asij amdam E Rijnsse os mouros De nos quando lhe acrimjnanios a torpeza deste pecado/ Foi. 123r. esta terra da persija he a mais amtiga E mais nobre de toda a asia houue nela sempre monarchas gramdes Srês esta soJuz- guou sempre mujtas proujmçias notorias sam os q obtiuerom este Jmperio de nabuca de nosor E seu filho çiro/ E dario asuero E os xersses E outs° nesta tera ouue o gramde alexamdre seus estendidos vimçimemtos/ nom he asij esterle E momtuosa como alguus estoriadores comtam mas avomdosa de todos deleites
A Suma Oriental 153 dhomeès domésticos em toda cortosija he vistido E no feito das armas magnanjmos E esfforcados de fremosos cavallos sam momteiros caçadores de todas aves E a terra de xiras he o ama- guo da persija tera avomdosa de triguo vinho carnes fruitos E nom careçe de nozes castanhas figuos pasados como nosa terra propija-//. Em o tempo de mafamede mouro arabío teue por Jemrro Naci- ale que era seu sobrinho he casado com sua ffilha fatema avia memto da na companhia de mafamede quoatro companheiros ahuu deziam sei,a du /otuman/ E outro /bulbucar/ E outro /hamar/ E out° hacabar (39) so^‘<;!81 estes forom aJudadores do alcoram /. depois de morto o mafa¬ mede emlegerõ por capitam a bulbucar por mais velho o ale nom sofreo de boa vomtade a tal emleiçã mostraua pertemcerlhe a sij por sobrinho como por jemrro (40) ficou de fora ha obi- diemcia do bulbucar E este morto E otuman foy primcipall E asij todos E despois ho alee estes todos quoatro forom xpãaos segumdo dizem E todos estam emterrados em almedina luguar em arabia distamte de meca por tres Jornadas em desertos//. destes quoatro que forom despois de mafamede sairom quoatro maneiras de mouros huus se chama xafij ,malad|- anafij. (38) Sofi ou Sophy foi durante muito tempo o nome dado pelos euro¬ peus ao Xá da Pérsia. Este 'Sofi' era Safi-ud-Din (que significa 'Pureza da Religião’) grande pilar da doutrina mística do Islão — o Sufismo. datando do segundo século da Hegira — de acordo com o qual pela meditação, êxtase e observância rigorosa da disciplina nos podemos erguer por nós próprios quase até à divindade e com ela identificados. O nome Sufi, ou Sophy, tirado do nome da doutrina foi dado a este antepassado, e o de Safavi à dinastia, que começou com Ismaíl em 1499 c durou até 1736. (39) No MS. de Lisboa os quatro nomes são dados como Tamão, Bulbacar, Hamaar e Acamar. Todo o capitulo sobre o Sophy é omitido em Ramusio. Os quatro primeiros califas que sucederam a Maomé foram Abu Bakr, Ornar, Othman e Ali, que morreram respcctivamente em 634, 644, 656 e 661, todos eles discípulos e companheiros do Profeta. Suponho que este Hacabar ou Acamar seja erro do copista. Não consigo encontrar nome algum que pudesse propriamente sugerir Hacabar. (40) Ali era primo e genro de Maomé, não sobrinho.
154 Tome Pires hambarj. (41) cada hum discripaua da propia temcam de mafamede como morreo E queria também atrebujr a sij esprito de pro¬ fecia falsa, como ho mafamede dõde oJe em dia ha nesta parte, athee o pressente estas quatro maneiras de mouros distantes em cousas dos huus aos out°s no modo do creer/ ho ale quamdo lhe veio a vez do gouernar Começou também a fazerse profeta he maior que os pasados E fez huu liuro em que dizia maall de seu sogro E dos companheiros afirmamdo asy melhor espirito de profeçia que aos out°s E apomtamdo cousas que desfazia (42) nelles he mamdou que dhij por diamte em sua oracam nomeasem ale E nam mafamede dizd0 que por sua lamca ganhara mujta terra E que os doze Signos do çêeo eram com elle he Jumtos em seu nacimemto o fezeram Cavaleiro E gramde profeta E que nom qeria q nenhuu mouro creese o que seu sogro disera que metera o soll na mamga. E cousas que desfazem autoridade de mafamede que os mouros sabem/ domde sairom loguo hos segujdores dalee que se chamam zei- dis (43) /E Rafadis sam mouros que gardam a opynjam Dale E dos Rafadijs he o xequesmaell/. depois de morto ho ale por ser forte em sua guouernamça alguus dos seus se mudarom ao pareçer de mafamede E out°s (41) Xafij, malaqi, anafij e hambarj aparecem como xafim, malaquj, anafy c ambari no MS. de Lisboa. Estas quatro escolas de leis dos Sunitas datam do século ix. O Islào está dividido em três seitas principais, cujas diferenças são essencialmente acerca do cargo do califa — Sunitas, Xiitas e Khawarij. Os Sunitas, que sustentam que o califado deve ser provido por eleição e que o Califa não é infalivel, constituem a maior parte dos muçul¬ manos — são actualmcnte cerca de 150 milhões dum total de 235 milhões. (42) Seniences of A!i, traduzidas por W. Yule, Edinburgo, 1832. Contém colccções de provérbios e versos, sob o nome de Ali. (43) Zeidis aparece como Zeylldes no MS. de Lisboa. Os Xiitas de Shi'a — 'o partido de Ali', são de importância secundária em relação aos Sunitas. Aqueles sustentam que Ali e seus descendentes são os califas legítimos e que o Califado não é um cargo de eleição, mas antes dado por Deus, sendo o Califa infalivel. Existem hoje cerca de doze milhões de Xiitas, principalmente na Pérsia.
A Suma Orienta! 155 teuerom o dalle. vierom a crecer tamto os de mafamede que pronunciarom leis que todo o que fose segujdor dale morresse dizemdo que nom fora profeta nem samto mas que fora bom cavaleiro em seu tempo domde se Recreçeo Daquelle tempo athee aguora mujtos mouros segidores Dale morresem por Jus¬ tiça nas terras dos mouros por Jreges de maneira que os seguj- dorès dale os ouuerom por fora da ley E nam vam a mequa E porem com quamto eram ponjdos por ale antre os mouros sempre ouue mujta gemte destes secreta athee o tempo Deste xeqesmaell ho xequesmaell he naturall persiano da Região de xiras fidalguo de naçam desse gramde xeas homes que desprezam ho mundo he viuem solitaria memte porque mamtem pobreza foy o pay deste xeqe homem amtre os mouros avido por homê de boa vida E que decemdia da casta dale he teue tres filhos o xequesmaell he o do meio/ (44) he todos sam viuos soia o pay do xe esmaell falar mujtas vezes com elRey de xiras he eram amigos mujtas vezes praticamdo de maneira que o Rey de xiras se escamdalizou do xe E o matou alguus dizem que ho xe amoes- tou a elRej de xiras que se emformase das cousas dale E que sseguise seu parecer out°s Dizem que ouuerom Desputa E que o Rey De xiras fauorecia mafamede & o xeque fauorecia alee de mana que o xe foy alij morto & o xeque morto/ Dizem que tinha estes fs° de huuã molher xstaa. armenja molher De boõs paremtes E que ha tijnha comuertida a opinjam Dale E despois De morto o pay do xe ismaell esteue o xe ismaell com sua may & com huu seu tijo xtãoo armenjo cinquo annos//. morto ho pay nom he duujda o filho estar em casa de sua may da ydade de dez annôs de q era quamdo matarom ho pay eesteue athee xb como o moço foy de xb segujo ha companhia dos xpãaos sseus paremtes com os quaes esteue seis annos os (44) Ismael era o mais novo dos três irmãos, não o do meio como diz Pires. Naci- memto do xr ismaell ou çofij/. Foi. I23v.
156 Tomé Pires xstaos lhe dauam de comer E o emssinavam tomou Delles o que lhe bem pareçeo he semp lhe foy obidiemte de maneira que foy o moco crecemdo em uomdade E discriçam que com com- selho dos paremtes xstaos mandou huua carta a elIRey De xiras que lhe dese de comer pois lhe matara seu pay foy Respomdido com huu caJado he huuas comtas por modo de zombaria que aquillo lhe pertemçia. pois era xeqe homê pobre/ ho moço Jmdi- nado com hos paremtes Jmsijnado em nosa fee foise a hum Rey Jumto com xiras que ho aJudase comtra elle pois o Rey era seu Jmiguo & q lhe emprestase alguu dr° E com outro que lhe dauã seus paremtes queria matar elIRey de xiras foy aJudado E por sua Jndustria ajumtou dous mjll homês E fazija saltos pola terra. Despois Roubau» Detremjnou comtra vomtade dos que trazija comsyguo huua sesta feira emtrãr De dia na çidade/ emtrou he dizem que matou sessemta mjll homêes E ouue a cidade a mãao & a Roubou (45) E que sse pos em trimta mjll De peleja com os qeês fez a guerra sete annos ou oyto que tem toda a proujmçia. Da persija com todollos Regnos p sy//. os Dous mjll ornes que aJuntou o xequesmaell iij° eram De cavallo Dos quaees Duzemtos eram xstaos armenjos paremtes da may Do xeque os cento eram paremtes Do pay a gemte De pee era destes/ o dr° que tinha era pa mamtim10 E nom teue mais gemte no primcipio De seu cometimento E agora nõ tem numero sua gemte/ quamdo emtrou na cidade De xiras tinha oitemta mjll combatemtes leuaua seis mjll De cavallo//. todas as cousas que faz he p comselho destes xstaõos segumdo dizem nom derriba casa de xstaos nem mata nèhuu xstão Dizem que trara comsiguo Dez mjll homês xpaãos armenjos & doutas naçõees com os quaes comete as cousas gramdes he todollos Rex se lhes dam & obedecem/ as Jgreias nosas Reforma. Des- (45) “Ismael atacou Tabriz, que se rendeu, e foi proclamado Xá". Sykes, A Hisiory of Pérsia, II, 159. Pires não é muito claro; parece por vezes confundir Shiraz com Tabriz.
A Suma Oriental 157 truj toDa casa De mouros que seguem a mafamede a nenhuu Judeu nom daa vida. honde ho acha tem guerra com ho soldam E com gemtes De turq'a vaise fazemdo gramde aos Reis mamda a carapuça vermelha, se a tomam sam amiguos senam ficam capitães Jmiguos// (46). este xeque sera homem de xxxla athee xxxij annõs esta dasemto a moõr parte em tauris he pequeno De corpo de fortes membros traz a carapuca (47) elle mesmo amtigam,e os mouros segujdores desta seita nom traziam carapuças este as mamda trazr alguus Dizem que secretamemte se emtemdem os doze debruus pollos xij apllos (48) mas o mais çerto que ele pubrica mujtas vezes que louua ale por profeta mayor q todos E que hos synos do ceeo ho serujam que poriso traz doze debruus he que haDe ser vermelha em synall que o que a nom quiser tomar Do propio samgue seu se lhe ha de fazer sua carapuça vermelha, dizem que he omê gracioso liberall he todo mouro De mafamede se sabe que bebe vinho mamda matar E aos Das carapuças lhe da licemca ê tamto q em toda a persya Ja nom ha homê q nom seja De sua seita, hos omrrados trazem carapucas os pobres se nom tem por homde nom ha trazem porem todos seguem alee/ (46) Quando Pires escreveu isto, a grande derrota infligida por Selim o Terrível, Sultão da Turquia, em 1514, ao Xeque Ismael, da qual este esca¬ pou com dificuldade depois de ser gravemente ferido e quase feito prisio¬ neiro. não tinha ainda ocorrido. (47) Mestre Afonso, que veio da índia para Portugal através da Pérsia, em 1565-6, refere-sc a esta carapuça como se segue «Todos os mais destes mouros.... exccpto os parentes de Mahomet que trazem os cabelos compridos entrançados com suas toucas nas cabeças, trazem carapuções, que são feitos de pano vermelho como barretes redondos grandes acolchoados dalgodão c do meio da cabeça para cima lhe sai um corno direito contínuo co barrete do mesmo pano, a que eles chamam carapuçâo de comprimento de dous palmos e grossura de um braço, repartido ao comprido em doze verdugos, em lembrança e veneração dos doze filhos de álly cuia seita guardam». Yti- nerario de Mestre Affonso, p. 192. (48) Estes doze Apóstolos eram os doze Imans, que descendiam de Ali, origem da importante seita dos Xiitas — os Dozes.
158 Tomé Pires dizem que he caualeiro de Sua pesoa. tem ja fs° tem mujtas molheres/ nas terras dos mouros .s. na Do soldam & do Rey Dadem se aleuamtam muytos nesta seita. E nom hos ousam a matar E cada dia se tornam pa a bamda dale muj,os dos de mafamede tem Ja mujta gemte Dos mouros da siria. comuertidos a seita dale he alevamtamse capitaees seus caDa Dia na opinjom Dalle pollo qual os mouros ho tem a maao synall/ ho xeqe he mouro çircunçidado segujdor dale posto q mujtos mouros Dizem que he xstão este mamda aos Rex mouros letrados seus Des- putar a seita dale comta a opinjam de mafamede. & os embai¬ xadores que este xeqe mamda. vem antorizados De mujtos de cauallo bem vestidos homees De feicam Dazemalas baixelas De pata E douro nos qees se vee a gramdeza do xeque a todolos Rex mouros mamda Dadivas presemtes letrados pa que syguam sua ley Diz que nom hade Repousar athee ê seu têpo nom fazer todollos mouros da bamda dale E despois sera o que ele sabe Deve ser esta a niourama com este novo xe E mujto mais agas- Fol. I24r. tada com o poder De uosa alteza/(49). ha nesta terra De persya gram suma De mercadores E a terra he em sy de gramde trato porque tem trato Desdo cauo (50) coremdo a terra athee os armenjos em que se comtem mujtas proujmçias muj nobres E Riquas/ E da turquja pola siria vem gramde trato a persija/ tem a terra De xiria (51) & outas/ mujta seda de que se fazem Ricos pannos E mujtas sortes De chamalotes de cores fijnos he muj10 boos/ tem tutia em gramde camtidade mujta pedra vme caparrosa E alcofoll que os mouro vsam/ tem mujtos cavallos (49) No MS. dc Lisboa cstc parágrafo termina de maneira completa- mente diferente: «e depois diz q sera o q ele sabe c q sera fazer-se cristão / como dizem q escõdido he//. (50) No MS. de Paris está nitidamente escrito cauo, que pode signi¬ ficar 'cabo'; mas no MS. de Lisboa lê-se cayro, e Cairo em Ramusio, embora neste a formulação do parágrafo fosse um tanto alterada. (51) No MS. de Lisboa Xiria foi erradamente copiada por Riq" (Riqueza).
A Suma Oriental 159 mujtos mamtimemtos tem mujtas torquesas que naçem em a trra de xiras tem mujta çera mell. mamteiga todas estas sam naturaes da terra/ pola bamda De delj por tras a serra pareçe vijr põr vya De siam de Reino em Reino almijzqr Rujbardo agujlla ou lenho aloees de botiqua camfora todas estas cousas E outas mais vem todas a hormuz tapetes gramdes alcatifas panos De laa mujtos de mujtas cores chapeos barretes ha sua guisa armarias sem numero bem garnjdas/ Retornam gram suma De espiciarias E draguorias primcipallmemte pimemta. que se gasta m,a na persija porque sam homèes De potagees mais q alemaêes que he amtreles gramde mercadoria que ha espalham por seus comarquãaos compram alIJofar aRoz panos brancos beatilhas beiJoy E cousas a estas semelhamtes Esta terra da pérsia com todas suas Regiõees estam antre dous Rijos .s. tigris he eufrates alguus afirmam que estes dous Rios nom vem ter ao mar oçeano mas que na pérsia fazem seus termos E que emtram no syno pérsico em huu maar ou laguo gramde Daguoa salgada nauegauell que ha na persya cercado todo De terra De fremosas abitaçõees na proujmcia De gujlam E que sera De traueca vimte leguoas em a qual ha tormemtas & mujto pescado que salgado se Reparte pola persija homde pode hir & o outro sequo/ out°s Dizem ser moor este mãr mas eu me certefiquey por mtos he me dixerom ser esta a medida, a quall me parece ser gramde ysto he aRedado mujto Dormuz por mais De dous meses Damdadura è camellos/ out°s Dizem que o tigris vem pola syria E vem acabar casij Jumto com ho mar Do estreito Durmuz obra De xij leguoas & que vem Ja pequeno porque se espalha enbraços core violemta memte E he estreito nom navegauell em lugares se pasa a pee. eem outs° em madeiros E barquas a sua guisa ha seta em parse chamase /tir E pola ligeireza do Rijo se chama tigris// (52). (52) Sobre a palavra persa tir. que significa sela, e a sua conexão com o nome do rio Tigre, vide Hobson-Jobson, s.v. Tiger, nota.
160 Tomé Pires Naitaques o eufrates tem o nacimemto na Armenja E dizem que vem sair ao mãar oçiãno E que deujde os naitaques dos Resputes E os de cambaia chamam a este Rijo frataa he que vem pollo estremo da pérsia E que por homde vem este nom he a terra mujto aproveitada he gramde Rijo nom vem tam ligeiro como o tigris este he demtro navegauell. de barças sotias q nauegam os destas partes por homde corre//. Deixada a pérsia caminhamdo pa a Jmdia polo mar ociano emtramos na tra dos naitaques/. Sam os naitaques (53) vizinhos de huua bamda com hos persas & da bamda de cambaia com os Resputes E da terra firme terra momtuosa. Da proujmcia de delij & da outa tem o mar ociano sam estes naitaques gemtios nom ha amtrelles mouros he mujta gemte he gramde terra estemdense pola terra demtro nom tem Rey vivem em cabilas nunca nèhuu destes Recebeo o nome De mafamede tem lingoagem sobresy nom tem çidades tem pouoacoes em serras momtes eeste Rijo (54) os faz mujto fortes porque alagua a terrã chaa/ he a terra em sij de mujtos mamtimtos triguo cevada fruitos estes a mor parte Delles sam cosairos trazem barças sotis sam frecheiros athee Duzemtos saem ao mãr E Roubam qmdo acham tempo E alguuas vezes chegam athee ormuz eemtrã Dentro no estreito a fazer salto & disto viuem/ os taees trazem arcos espadas lanças E nam som homes mujto Domésticos mujtas vezes com tempo vam ancorar ha foz deste Rijo he he emseada com Restimguas (53) Noutaques no MS. de Lisboa; Motages na tradução de Ramusio. Barbosa não se refere a este povo, mas Dames diz numa nota sobre Sheikh Ismail que os Noutaques, a que vários autores do século xvt se referem, são da tribo Nodhaki dos Balochcs, no que está de acordo com Barros. Esta região corresponde aproximadamente a uma parte da província persa de Kamir e ao Baluqucstão. (54) Pires não diz que rio c, mas deve referir-se ao Rio dos Noutaques, que aparece em várias cartas portuguesas do século xvt. É possivel que este rio melhor corresponda ao actual Rio Dasht, como parece indicado mais claramente, por R dos noutaces na carta de L. Homem de 1554.
A Suma OrientaI 161 E pedra os naitaques apanham qllqr naò q alij vem alguuas vezes & as mais vãao ao Reino De carnbay8 a seus portos E se acham furtam por homde podem nom teme nlguè nê tem acolheitas de rrios ê suas terras & sam mujtos nestas ptes/ sam conhecidos por homêes desta mana/ os que na terra estam semeamdo E lauramdo tem muj108 Foi. 124v. cavallos E mujtas eguoas em que amdam como alarues tembem furtamdo por homde acham tem estes paz E amizade com os Resputes E cousa de mouros nom lhe perdoã E de quall quer outra gemte/ tem mujta afynjdade lios naitaqes he Resputes he viuemdo antre mouros cercados De suas terras tamtos tempos nunq° hos poderom soJugar. sam valemtes homêes salteadores/ a terra dos naitaques he mor E mais gemte que os Resputes peroo os Resputes he gemte melhor como se dira adiamte ê seu lugar// hos Resputes (55) da bamda da persija sae os naitaques Resputes/ & da de carnbay8 a mesma cambaya. Da terra firme terra de dely E da outra o mar oceano som estes Resputes gemtios sem auer amtreelles mouros nom tem Rey tem sõr a q obedeçem tem a terra Destes fortalezas fortes E lugares fortes sam valemtes homees Caualeiros tem mujtos cavallos & pola moõr pte tem eguoas em que pelejam a terra destes he abastada. E mujto boa. De mujtos mamtimentos E aproueitada & forte ê sy E nom he mujta a terra porque lha tem tomada he melhor gemte esta de gueerra que seus vizinhos comtinoadamemte tem guerra com ellRey De cambaya mujtas vezes lhe fazem Dapno & o poem em desbarato porq sam estuciossos sabedores E com pouca gemte nam somemte se ssostem mas Ajmda dam comti¬ noadamemte fadig8 Aos cambaesses/ nom som posamtes pa em campo poderê em azees pelleJar com cambaia mas seu Emtemto he Rebates cavallgadas fazem presas catiuanse huus aos outros sam estes Resputes homees Destros na guerra Robus¬ tos gramDes frecheiros//. (55) Risbutos no MS. de Lisboa; Rebutes na tradução de Ramusio.
162 Tomé Pires tem estes tanbem saida ao mãar em que tem navios De Remo & fazem presash por homde acham asij como os naitaques mas seu poder todo he na terra. Alguus afirmam que destes Resputes & naitaqes eram os que tinham açeso as amazonas que de huua parte Da terra firme comfínam com estes & com cambaia como se dira na Descricam De cambaia (56) pola bamda de delij a terra Destes estemdese na terra firme por gramdes serranjas Ja esta Regiam teue Rey E pouco ha que o matarom he nom se fez Despois outro tem este Reino fermosas cidades De /ara/ crodi/ vamistra/ argengij/ (57) o capitam prim- cipall De todo este Reino chamase pimpall (58) varaa/ E huua Jrmãa deste que se chama bibi Rane (59) he casada com ho Rey De cambaya que lha deu o pai por partido amtes que mor- rese & dizem q he fremosa. * (60). (56) No MS. — p. 58v. de Lisboa: «allgús afirmão que estes Rjsbulos erão os que tinhão cò (vinacào) cõ as allmazonas que ha hua parte da terra firma cõfinão cõ cambaja». (57) ara é Herat, a cidade do Afganistâo ocidental. Aparece também como Hara, Harah. Eri, Heri ou Heriunilis em velhos relatos de viagens asiáticas. Cf. Cathay and lhe Way Thither, I, 190, 293; m, 22. crodi — Crode no MS. de Lisboa, Crodi em Ramusio. Talvez Kotri, cidade no distrito de Karachi. vamistra — Vamiste no MS. de Lisboa, Vamistaem Ramusio. Vamans- thali, antiga cidade e capital, junto de Girnar e a moderna Bilkha. em Kathiawar, Bombaim? !mp. Gaz. of índia. s.v. Girnar. argengij — Argemgij no MS. de Lisboa, Argengo cm Ramusio. A cidade de Arguda. da Geografia de Ptolomeu, ou Argandi, a sudoeste de Kabul? Cunningham, The Anrienl Geography of índia. p. 38. (58) Vara apenas, no MS. de Lisboa e Ramusio. (59) Bibi significa senhora cm persa c Rane ou Rani é ou a consorte dum rajá hindu, ou rana, uma rainha. Aparece como Biberade no MS. de Lisboa c em Ramusio. (60) No rodapé desta página estâo as palavras; ‘aquy acaba o pr° ly'. Esta nota, escrita pelo mesmo punho que a da Foi. Il8v. e depois riscada, está ao lado de um asterisco que parece corresponder a um aste¬ risco similar do fim do texto da página seguinte.
A Suma Oriental 163 [cambaia] O Nobre Reino de cambaia confina de huua banida Da parte da persíja com a Regiam dos Resputes E da banida da Jmdia segunda com ho gramde Reino De daquem Da terra firme com ho Reino de delij E da bamda do [em branco] como ho mar oceano (61) apartase este Reino com o de daquem amtre maymj E chaull. he o Reino em sij gramde mujto abastado De todo genero Do triguo çevadas mjlho legumes fruitos E de mujtos cavallos alifamtes aves De caca. E outsa mujtas em gayolas De diuersas feiçoèes E prezadas terra mujto abytada De fermosas çídades no maar E na terra firme E De gramdes pouoações sam cavaleiros tem mujta artelharia. E todo eixerçíçío De guerra, tem mujtos cavallos acubertados armas De suas p“ fremosas asy De lamjnas como de malha lamcas De fremosos ferros com¬ pridas espadas adarguãs bem guarnjdo tudo he gramde ho pouoo tem mujta Jemte Dalmãs (62) Jemte de guerra De fora tem maçarls aRabios turqujmaes Rumes persianos conuem saber gujlanes coraçones abixijs toda gemte limpa com que comti- noadamemte peleJa com os Reinos comarcãaos com que tem guerra amtrestas nações ha mujtos xstãaos aRenegados & As primcipãees cidades que tem no mãr he çurrate/ Ranei/ Dio/ cambaia tem outs™8 portos. De pouoacoees .s. maymj/ damanã/ patan guogua (63)/ diu. he guoga he mamj ou may (61) Segundo o MS. de Lisboa. (62) Embora esteja escrito Dalmãs no MS., deve ser 'de armas’, como no MS. de Lisboa c em Ramusio. (63) ranei — Reneri mais adiante. Rjnell no MS. de Lisboa, e Reiner e Reinari em Ramusio. Em Barbosa e nos cronistas portugueses encon¬ tra-se Reynel, ReineI ou Reiner. As cartas de Ribeiro de 1527 e 1529 apre¬ sentam Reine!, como em Barbosa. Isto explica-se pelo facto de Ribeiro e Centurione quando em Sevilha, onde as cartas foram desenhadas, traduzirem para o italiano o Livro de Duarte Barbosa. Corresponde à moderno Rander, na outra margem do Tapti River, quase em frente de Surat. maymj, Maymi or May — Aparece como Mejmym ou Majm no MS. de Lisboa. Corresponde a Mahim ou Kelve Mahim, actualmente um Foi. 12Sr. Regno de cambaia Içidades no mar E na terra./
164 Tomé Pires sam da guouernamça. De melequiaz (64) mouro persiano gujlanj de naçam//. Damana/ çurrate Ranei/ sam da Jurdicam de dasturcan (65) mouro naturall de cambai8 fidalguo na terra patan he da guouernamça. Do filho do Rey de cambai8 que sse./ chama soltan xaquendar (66) a cidade de cambaia he da Jurdiçam de sey debiaa p8 pmcipall mouro Da terra homem fidalguo De preço amtreeles/ as cidades primcipaes Da terra firme he champanell/ & medadaue/ varodrra/ baruez/ (67) tem estas cidades gramdes vazeris ou capitãees homees com quê se gouerna todo ho Regno/ este meliquiaz foy homem de pee pequeno porto a meio caminho entre Dahanu e Agashi. Não se deve con¬ fundir com o Maimbij que corresponde a Mahim ou Mahikavati na ilha de Bombaim. Veja nota da p. 195. patan — Paião no MS. de Lisboa, Paiam em Ramusio. Aparece como Patan, Patane e Pate em muitas cartas e crónicas portuguesas do século xvi. Deve corresponder ao moderno Veraval. guogua ou Cuogarj aparece como Goga ou Gogary no MS. de Lisboa e como Goga e Gogari em Ramusio. Está escrito como Porto de goga na carta de Rodrigues da parte ocidental da índia. É Gogha, porto do Distrito Ahmadabad na costa ocidental do Golfo de Cambaia. (64) Todos os cronistas portugueses, incluindo Albuquerque nas Cartas e outros autores do século xvi se referem com pormenor a Melique Az, ou Malik'Aiyaz, c suas relações com os Portugueses. Melique do árabe Malik, rei, significava também príncipe, governador e chefe, no Oriente. (65) Dastur Khan. (66) Sikandar Khan, o filho mais velho de Muzaffar n. que só em 1525 se tornou sultão. (67) champaner — Champanell no MS. de Lisboa, Campanel em Ramusio. ‘O nome corrccto é Champãnêr'. Damcs, i, 123. Cidade em ruinas vinte e cinco milhas a norte de Baroda, no sopé nordeste de Pavagarh, colina poderosamente fortificada. The Imp. Gaz. of índia, s.v. medadaue — Madadune no MS. de Lisboa, Madadune em Ramusio, Andava em Barbosa. Trata-se de Ahmadabad. varodrra — Barodria no MS. de Lisboa, Zarodria em Ramusio, isto é Baroda. baruez — O mesmo no MS. de Lisboa, Banues c Barmez em Ramusio. Corresponde a Bharoch ou Broach, o porto mais importante entre Cambaia e Surat.
A Suma Oriental 165 frecheiro foilhe dada ha gouernamca da bamda de dio por ser a menos cousa De cambaia (68). & casy matos ante do noso Descobrimemto das Jndias E porque os portos de daquê andauam sempre sopeados se fez dio gramde com nosa amizade aguora he cousa homrada homde se guarda mais a Justa que em outa parte do Reino tem ê sua estrebaria iijc cavallos q mamtem a custa das Remdas da terra & De dio a champanell ha amdadura de oito dias De cambaia a champanell amdaDura De dous Dias De currate & Renerj a champanell. Amdadura. De cimquo Dias por terra todo/. A melhor cidade do sertãao he champanell nom he gramde he pulida & bem obrada-/ E a cidade De mais mercadoria he a cidade De cambaya. estaa na emseada he de baixos ao menos huuã braça/ o mais quatro/ esta tem melhores mercadorias/ he casy todo o trato Desta De gemtios as outas cidades sam de bõos portos E fortelezas nelles/ o Reino de cambaya na terra firme he pequeno//. A moeda meuda desta terra he- de cobre mais grosa que cèitys tem moeda de prata que se chama mastamudes vali cada huua tres vijmtees tem também outra que se chama mada- forxas (69) De prata. Da mesma valia ho ouro corre E em barras por sseus toques he valias/- Distam- cia das cidades do mãar a cham¬ panell pimcipaes çidãdes Moeda (68) O copista do MS. de Lisboa (p. 59) acrescentou mais algumas informações: «este he meliquas o quall morreo ho ano de 522, foi homõ frecheiro e amtes de ser frecheiro foi capitão e mujtas vezes vemdido foi lhe dada a governação de dio por ser a menos cousa de cambaia.» (69) ceitil —Antiga moeda portuguesa, valendo apenas um sexto de um real. mastamudes — O mastamude de Pires corresponde à antiga moeda persa, de prata, mahmudi, chamada mamude pelos cronistas portugueses e no MS. de Lisboa, que circulava em Cambaia e no Gujarat. vintém — moeda portuguesa igual a 20 reis, ou 1 dinheiro (inglês) ao par. madaforxas — madrafaxuos no MS. de Lisboa, antiga moeda de prata ou ouro, que circulava em Cambaia e no Gujarat, designada pelos cronistas portugueses por madrafaxos, madrafaxas, madrafaxaos ou madra- faxões.
166 Tomé Pires Foi. I25v. Regnos na lerra canarjm Portos no mãar [canarim] Aqi deixares este & buscares cambaia que vay adiamte/* (70) Aguora sam no vitimo Reino Da primeira Jmdía que se chama a proujmcia dos canaríjs apartase de huua bamda pollo Reino De guoa p amgadiua E da outa pola Jmdia meaa/ ou Jmdia do malabar pola terra firme he ellRey de narsimgua que he cabeça desta terra a limguoagem da q he canarim he defe- remte da do Reino De daquem E do Reino De guoa tem nas beiras Do maãr Dous Rex E alguuas pequenas Regioèes sam todos gemtios obediemtes a ellRey De narsimgua sam homes polidos guereiros eixercitados nas armas asij no maar Como na terra Das terras que o Rey de narsimgua tinha nesta pma Jndia nom lhe fiquou somemte esta de que aguora hee o presemte Recomtamemto he terra ha proueitada De boãs pouoaçõees//- Na terra dos canaríjs comeca p amJediva athe mamgallor mjrgeu onor baticala baçalor baira vera bacanor vdipiram (72) (70) Estas palavras, ao cimo da página, são pelo mesmo punho que o MS. e foram obviamente acrescentadas depois do copista ter escrito o texto. Sobre a confusa articulação das folhas do MS. e a presente recomposição do texto, veja-se a Introdução. (71) Canaríjs ou Canarins são os habitantes de Kanara, mas, segundo Dalgado (s.v.) os portugueses designaram erradamente por este nome o povo de Goa. Dames diz, aliás sem muito fundamento, segundo creio, que o termo é aplicado à ciasse a que chamamos dos euroasiáticos e que o termo anglo-indiano Karãni é provavelmente derivado de Canarim. (72) No MS. de Lisboa estes nomes são como segue: 'mcrgeo batccala bacalor baira/ vera / bacanor vydeperão mãgalu.’ mjrgeu — a moderna Mirjan, na foz do Rio Gangawali, a norte de Honawar. Mergeo em Barbosa, nos cronistas portugueses e na carta de Reinei de c. 1517, Mergueo na carta de Reinei de c. 1518 e Mergeo em cartas posteriores. onor — Honavar ou Honawar. Omitido no MS. de Lisboa e em Ramusio. Honor em Barbosa e Onor nos cronistas e cartas portugueses. baticala — Bhatkal. Baticalla na carta de Rodrigues (foi. 28). baçalor — Corresponde a Basrur, aldeia em Coondapur. ou Kun-
A Suma OrientaI 167 mamgallor/ todos estes portos sam De trato/ Donor mjrgeu athe amgediua he delRey de garçopa. fromteiro De guoa. por el Rey De narsimgua. baticala com baçallor. E outas villas na terra firme tem Rey os out°s quoatro portos tem capitaees todos sam obediemtes ao Rey De narsymgua E lhe acodem com as Remdas/ ho Rey de garçopa he pesoa homrrada & de mujta gemte De cauallo athee tres mjl homès segumdo afirmam garçopa esta pollo Rijo Donor cimqo leguoas demtro he cyDade peqena fresca he timoJa (73) era sua abitaçam em onor por que tinha afini¬ dade cõ ellRey de garçopa este esta mujtas vezes na corte DellRey De narsimgua he seu vasallo obidiemte este Rijo Donor he de dapur, no Distrito meridional de Kanara, situada a sul de um grande estuário para o qual convergem três rios. Ainda aí se vêem as ruínas de um velho forte português. Braçalor em Barbosa, Barcelor e Bracelor nas crónicas e cartas portuguesas. baira vera —Como Pires indica todos estes nomes por ordem geo¬ gráfica, parece que Baira Vera deveria estar entre Baçalor (Basrur) e Bacanor (Barkur, no Rio Sitanadi). Mas entre o estuário do Coondapur e a foz do Rio Sitanadi não há nenhuma interrupção na linha da costa que pudesse ser chamada porto. Há o pequeno porto de Baindur, na foz do Rio Baindur, mas esse fica entre Bhatkal e Basrur. Bacanor corresponde à aldeia de Barkur, no lado norte de um estuário de vários rios, sendo o mais impor¬ tante o Sitanadi ao norte e o Swarnanadi ao sul. Cerca de uma milha para sul de Barkur, entre os dois rios, fica a aldeia de Brahmawar, e é possível que seja esta a Baira Vera de Pires, talvez a Barrauerrão situada por Casta- nheda (II. xvi) entre Bacanor e Baticala. bacanor — A antiga aldeia de Barkur, no Kanaresc, a capital tradicional de Taluva (Imp. Gaz. of índia, s.v.) corresponde a Malayalam Fakanur ou Vakkanur, a Bacanor de todos os cronistas e cartas portugueses. vdipiram — Udipi, a principal vila junto do rio, fica no interior, a cerca de duas milhas c meia do Malpe ou Mulpi, que está na foz do Udiya- vara Hole (rio Mulpc), cerca de trinta milhas para norte de Mangalore. Deve ser Vdebarrão, um «muito grande e bom porto» que Castanheda (II, xvi) situa perto de Mangalore. (73) Timoja era um pirata, mais tarde utilizado por Albuquerque que o nomeou aguazil de Goa em 1510. Mostrou-se desleal, tendo-se antes da sua morte em 1511 bandeado com Adil Khan. '3
Tomé Pires balicala 168 muj gramde pouoaçam he De naujos aquj fazija timoJa sua armada em que amdau» salteamdo Daquj athee ho cabo De guardafuy Domde fazija gramdes presas era temido este timoJa dos navegamtes E era ajudado Do Rey de guarçopaa/ EIlRey de baticala he Jemtio canarim maior Rey que o donor E garçopaa tem mt* terra ffirme em seu Reino batecala he porto Despois De guoa E chaull/ muy homrrado E de gramde neguoçeaçam he aguora Domde seo Reino De narsijmga serve & tem os cavallos tem a cidade mujtos mercadores asij gemtios como mouros he gramde escalla De mujtos mercadores he gramde porto ho Rey esta sempre na tra firme tem por guouer- nador Da nação dos Jemtios Damj chatim pa primçipall Em fazemda E gramde mercador he tem por gouernador Da nacam dos mouros /caizar/ mouro capado que foy criado De coJatar (74). ho Durmuz ha nesta cidade mouros De todas naçõees foy cousa mujto gramde amte da tomada de guoa pilo capitam Jeerall Ja aguora he demenuyda// De todos estes portos dos Regnos Dos canaríjs a mais homrrada cousa era baticala p Rezam Dos mujtos mercadores que tinha. E vinham mujtos cavallos De todas partes aquj Desembarcar E outras mercadorias mujtas estes cavallos se comprauam pa o Reino De narsimga. de que se pagauam gram¬ des dereitos Retornavam os mercadores Desta terra Dos canaríjs aRoz em mujta cantidade o melhor De todas estas partes .s. gyracall que he mais meudo & mais branq0 E de mais preço E mais estimado E depos este chambaçall. E depos ho cham- bacall he o pacharill De guoa. & do Reino De daquem (75) Retornauam asy mesmo ferro E mujto açúcar, qua ha nesta terra E mujtas comseruas dacuqr que se fazem em baticala ysso (74) Cojatar ou Co/e Alar—Khwa.ia Atar, vizir de Ormuz sob o xeque Ismael. (75) Muitos escritores portugueses antigos se referem a estas três espécies de arroz indiano. A descrição de Pires é deveras correcta. Dalgado (s.v. Arroz) trata pormenorizadamente das várias espécies de arroz da índia
A Suma Oriental 169 da terra E dos mercadores da bamda malabar athee malaca tinham mujtos que hy vinham têer. De maneira q era sua neguoceacam gramde esta he a cousa mais estimada q ho Rey De narsimgua tem nesta parte Do canarim//. qmto aos lugares de biara vera bacanor vdipiram mamgalor todos sam lugares portos de mercadores he de naaos que tratam com cambaya he com ho Regno De guoa & de daquem E hor- muz leuamdo das mercadorias Da terra trazemdo outas ha nestes portos capitãees homrrados com gente De guamjçam acodem com has Remdas ao Rey de narsijmgua tem ho | Rey nesta tera Foi. 126r dos canarljs asy nos portos do maar como na terra firme gramdes Rêdas E tem estas beiras do mar com fortalezas a sua guisa mas a mor fortaleza, sam as barras Dos Rijos he tudo terra muyto aproueitada grosa E boa de mujtos mantimêtos De muyta Jemte. asy de cauallo como de pee tem muyto betelle E areca tem a terra dos canarijs templlõs De suas oraçoees gramdes E omrrados tem mujtos bramenes De mujtas sortes E ordees delles castos delles nam como no Regno de guoa custumase queimarem as molheres polia maneira q he dito nos out°s gemtios// Estas terras proujmcias .s. dacanjs do Regno de daquê conconjs do Regno de goa Canaris Do Reino de narsijmga cada huu tem sua proujnemciaV-s. E porque estas terras sam do Rey de narsingua detremjney De tratar a
170 Tomé Pires de guoa & esta parte he canarjm cuJa çidade pmcipall he biza- naguar. homde o Rey esta. dasemto Da bamda De gamges na sayda Do ntar. comfina com alguuã parte do senhorio Do Reino de bemgala E com ho Reino Dorixa Da bamda da terra fijrme com as serranjas De delly Da bamda do maar ociano com as provimcias Do malabar & de choromãdell & benua qujlim// (77) Amtigamemte ho Regno De narsijmga era mujt0 maiõr do que ora he senhoreava qasy o Reino De daquem athee bem¬ gala e emtrando aquj orixa./ emtrando aquj todallas projncias marítimas aguora nom he tamanho que daqem (78) E guoa & o malabar E orixa tem Rex com tudo he gramde cousa, dei- xamdo ho Reino De dely esta he a moor proujmcia. destas partes segundo Dizem das Jndias peus, tais como Beejanugger, Bidjanagar, Bichenegher ou Bijanagher — nos séculos xvi e xvii a um grande reino ao sul da índia. Bisnagar ou Bisnaga é corrupção de Vijayanagara, nome de uma dinastia que reinou até cerca de 1487. A capital do reino era a cidade de Vijayanagar, fundada cm 1336, cujas ruínas existem ainda no distrito de Bellary, em Madras, con¬ servadas pelo Governo Britânico. Em 1487 a dinastia de Vijayanagar foi substituída por Narasinha, príncipe que reinou até 1508. Quando os Por¬ tugueses chegaram pela primeira vez à índia chamaram a essa parte do país o reino de Narsinga, nome derivado do então seu governante. (77) Choromandel era a designação geralmente dada pelos Portugueses à costa oriental da índia, desde Ceilão em direcção ao norte até ao rio Kistna na actual Madras Residency. Segundo Dalgado (i, 313; n, 484) a ortografia correcta é Choromandel, tal como escrevem Pires e Barbosa (embora este prefira Choramândel e Yule Coromandel), sendo o c/i pronun¬ ciado como em ‘church’. Pires não faz em qualquer parte da Suma uma des¬ crição especial de Choromandel. Mais adiante, ao tratar de Bengala men¬ ciona cinco portos, desde Cultarey (Nellore?) até Negapatam, ‘tudo ysto sam portos na bonua «Jlim terra De narsymgua’. Veja nota p. 223. Ao tratar do comércio de Malaca refere-se aos doze ‘portos da costa De choro- mandel' de caile (Old Kayal) até Paleacaie (Pulicat). Veja notas pp. 188 c 424-5. Contudo, na sua carta de 27 de Janeiro de 1516, Pires diz que 'Choro- mandell se estende desde os baixos (de Chilã) até Cunjmeyra (Pondicherry)'. (78) No MS. de Paris esta palavra lê-se que; mas no MS. de Lisboa está porque, e igualmentc em Ramusio. O copista do MS. de Paris deixou o por de porque, tornando a frase ininteligível.
A Suma OrientaI 171 ho Rey he Jemtio canarim de nação E doutra parte quelim è sua arte (79) amda a lingoagem trauada em sua arte amda a limgoagem trauada mas seu naturall he canarim he este Rey guerreiro amda mujtas vezes em campo com mais de qoremta mjll homês de cauallo gemte de pee gramde numero tera quj- nhemtos alifamtes Dos qees seram ijc de peleJa (80) tem sempre guerra ora com orixá ora com daquê ora na propia terra tem gramdes capitaèes tem mujta gemte a soldo quamdo Repousa he em biznagar cidade De vimte mjll vizinhos (81) Jaz amtre Duas serrãs as casas nam sam geerall memte mujto adornadas as casas ou pacos do Rey sam bem obradas gramdes E o Rey bem acompanhado De fidalguos gemtes de cauallo tem gramdes senores consiguo he mujto acatado amdam è sua corte mjll moças Jogrãees E omèes Do mesmo oficio quoatro cimqo mjll estes sam quelijs he nom canarijs porque os naturães Desta proujnçia De talimg°(82) sam mais autos nas graçaas E arre¬ medar q em outras partidas Daquij se espalham pa nestas tres Jndias mujta Jemte destes ho mais se dira na Descricam do out° seu senhorio// Acabada a primeira Jmdía por mangalor terra De canaris Jmdia ètrado sam na segda ymdia ou meya que se começa de mayciram meyãa primeiro porto da terra Do malabar E acabarsea no Rijo ganges polas comfromtacoees do Reino de bemgala E sera esta terra, de que he o presemte Recomtamento diujdida em duas ptes na primeira se dira da terra do malabar quam gramde he quamtos (79) O MS. de Paris tem arte. Mas no MS. de Lisboa está corte, e igualmentc em Ramusio. (80) O MS. de Lisboa diz 300.00 mil homens a cavalo c 800 elefantes. Ramusio está de acordo com o MS. de Paris. (81) O MS. de Lisboa diz 50.00 habitantes. Ramusio está de acordo com o MS. de Paris. (82) Talingo, Telinga, Tclingana ou Kalinga é um grupo de pessoas de laia télega de raça dravídica do Sul da índia. Segundo Yule (Hobson-Jobson) Kalinga é um nome muito antigo dado à costa de Telugu da Baía de Bengala, i.e., a costa que fica entre os rios Kistna e Mahanadi.
172 Tomé Pires Foi. I26v. Proujmcia do malabnr Serras que deujdem o Malabar de nar- synga portos tem em q ha naãos quamtos Rex tem com que custumes viuem quem he moõr nesta proujnçia E também se dira do trato deste/ malabar E de quamtas naãos tem Na segumda parte (83) se tratara do Rey de narsimgua & de sua terra com quem peleJa que gemte tem de cauallo E alguma cousa de seus costumes he tam bem Da camtidade do Reino falamdo alguu pouco do trato que também tem seus portos// E despois Dirsca do Reino dorixa ou odia (84) & sera nosa Jmdía segunda ou meya Explanada segumdo a posybilidade/. [malabar] A prouimcia do malabar começa De mayçerã porto Dell Rey de banignar q comfromta com mamgalor terra De canarijs Dell Rey De narsimgua E acaba no cabo de comorjm terra Dell Rey De coulão que comfromta com o dito rreino De narsym- gua na proujnçia De talímguo/ pola bamda da terra firme he cerqaDa toda esta terra De serranjas que a Diujdem Do dito Reino de narsingua sera toda esta terra polas beiras do maar De cemto & dez atee cemto & vimte leguoas E pola bamda da terra firme athee serra, a lugares sera cimquo leguoas & a lugares xb E desta maneira corre sem ser menos nem mais Sam estas terras tam altas que nom comsemtem os nor¬ destes he lestes pasar a costa da Jmdia. nem polo comtrairo os suduestes & oestes nom vemtam no rregno De narsijmgua -s- se vimdo De ceilam pa a costa da Jmdia com ventos frescos Dos sobreditos chegamdo çesam se da Jmdia pa choromandel partem com hos ponentes tamto que abocam o canal De ceilam nom vemtam Domde se segujo que ho malabar por careçer (83) Esta é uma das muitas confusões na divisão da Suma; na verdade Narsinga foi imediatamente descrita antes de Malabar. (84) Oriõa ou Orissa, correspondendo ao vernáculo Odisa. dai Odia. que neste caso não deve ser confundida com Ayuthia, que foi também escrita Odia por Pires e outros escritores portugueses do século xvi. Vide nota p. 237.
ESTAMPA XVIII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 21) da Costa Ocidental da África, entre 8 e 5° N.
\\\ ESTAMPA XIX Carta de Francisco Rodrigues (foi. 22) da Costa do Brasil
A Suma Oriental 173 De vemtos sequos he fresca E graciosa E a proujmçia De choro- mandell por careçer dos humedos he esterile sem aruore pequena, nem gramde como se mais larga memte Dira em sua Descriçam abaste quanto a isto/. Todo malabar cree a trimdade como nos padre filho espu samto tres pesoas huu soo ds (85) verdadeiro/ Desde cambaia athee bemgala todo gemtio tem ysto como se dira mais larga- memte na descriçam da terra Domde Jaz sam thomee apostollo//. Nom me deuia meter nas cosas Do malabar por ser tam notorio a vosa alteza em q tem tam fermosas tres fortalezas gramdes he homrradas ,s. a de calecut E a de cochim com muj gramde albacar feito tudo ysto de quaall De cascas de meygeas E a de cananor De fremosas cavas E bem asemtada/ mas por a ordem Do prometido hijr ao cabo faço de todo memçam nesta viagem A gemte do malabar he preta & delia baça parda, som todollos Rex Jemtios bramenes ou De casta De seus sacerdotes a limguoagem he toda huua. casy/ asy como em Jtalia Diferem em pouca cousa he toda a terra muyto pouoada avera neste malabar cemto & cimqoemta mjll naires (86) homees De peleJa Despada he adarg3 E frecheiros sam homèes que adoram o seu (85) Dames (I, 115; II. 37) diz que a 'Trindade' também descrita por Barbosa se relaciona com o Hindu Trimurtti ou o deus trino de Brama. Vixenu e Xiva. Ao descrever Cambaia, Castro [edição critica de Armando Cortesão e Luís de Albuquerque, vol. 2, p. 90] diz que é «habitada de uma gente que se chama gusarates... Entre eles há uns certos homens como filósofos e reli¬ giosos que se chamam Brâmenes, os quais crêm na santíssima trindade. Padre, Filho, Espírito Santo, c em outras muitas cousas de nossa sacratíssima lei.» Birros (I, iv, 9; II, v, 1) também se refere à «Trindade» brâmane, mas faz notar que é «muito diferente» da Trindade cristã e é também rejeitada pelos maometanos. (86) Os Naires eram aborígenes do sudoeste da índia, onde formavam a casta nobre e militar correspondente aos Cxatrias, a seguir aos Brâmanes em importância. Actualmcntc. «Nair ou Nayar é um título acrescido a quase todos os nomes da raça e é, como Mister ou Esquire, assumido como um direito de nascença por qualquer membro respeitável da raça que não enha outro». Balfour, The Cyclopaedia of índia, j.v. Cremça do malabar
174 Tomé Pires Rey E por casso o Rey morre em batalha sam obrigados a morrer E se o nom fazem Diferemse da terra. E ficam JmJuriados pa sempre/ sam os naires leães nom tredores/ primeiro que huu Rey do malabar peleJe com out° lho hade fazer saber primeiro q se preceba/ he asij seu costume todo naire nom pode amdar De sua casa fora como he pa tomar armas sem suas armas tamto que nom he licito ao naire amdar sem ellas aJmda que seja De çem annos. & quamdo esta pa morrer sempre tem Junto com- siguo a espada & adarg® tam perto q se lhe comprir que a posa tomar costumam todos fazer gramde Reuerêçia aos mles q hos emsinam em tamto q ho melhor dos naires se achar huu /maquaa/. (87) se alguã cousa lhe emsinou. se o emcomtra faz lhe a Reueremcia. emtam vayse lauar//. se o naire acha em huu camjnho outro naire mais velho adorao & dalhe ho camjnho se esteuerem Dous tres quatr° Jrmãos ho mais velho ha destar asemtado E os out°s em pee//. . 127r. E porque a Jemte primçipall do malabar sam os bramenes domde os Rex decemdem E sam mais fidallguos por causa de seu sacerdoçio se dira primeiro delles he Despois dos naires E das outsa geraçoêes/ Bramenes sam sacerdotes que trazem huua linha depem- durada do ombro ezquerdo p° De baixo Do braço dirto (88) he de vimte sete fios feitos em tres a melhor geracam destes sam chatrias E depois patadares E apos estes nambuderis & os mais somenos namburis (89) trazem estes bramenes o nacimemto (87) Um nome dc casta aplicado aos pescadores da costa do Malabar. do dravidico mukkuha, 'mergulhar’. Mukkuvan é o nome geralmcnte usado, mas Mucua (no plural Mucuar) encontra-se também frequentemente. (88) Este fio sagrado, chamado punul, c sempre usado pelos Brâmanes. (89) «Algumas das famílias principescas do Malabar reivindicam ser puros Cxatrias... Racialmcnte, sem dúvida, os Cxatrias eram originariamente Naiares». C.A. Inncs, Malabar Gazetler, p. 112, Madras, 1908. Os Cxa¬ trias estão imediatamente abaixo dos Brâmanes na hierarquia das castas. O nome genérico para os Brâmanes do Malabar é Nambúdiri. Além dos Nambúdiris — que na sua maioria sâo proprietários e se mancham com o
A Suma OrientaI 175 mujto amtitjsymo sam de samgue mais limpo que os naires/ tem estes carguo Destar no turuqois (90) rrezamdo sam emtem- didos nas cousas De sua creemça os mais homrrados Destes estam com ho Rex do malabar sam homees q nom comem nenhuua cousa que fose viua De samgue he por esta causa pro- nunçiarom os antiguos delles que nom fose nimguê poderoso no malabar comer vaq® sopenna De morte E de gramde peqado a Rezam seria p° comerem o leite as bramjnas pois emgeitarom a carne Domde procedeo tanto a estima nas vacas que em mujta parte de gentios adorã a vaq“ como cousa santa, estes bramenes tem poder Descomungar & absoluer nenhuu nom trãz armas nem vay a guerra nen se mata por nenhuu caso por que o mereça framcam,e amdam por homde qerem posto q seJa em guerra// Mujta Jemte do malabar asij naires como bramenes & suas molhêres & também na gemte baixa geerall memte a quarta ou qmta parte de todos tem as pnas mujto grosas & Jnchadas de gramde grosura E morrem diso he he cousa feea De Vr Dizem que procede Das augas por homde pasam por que a terra he apaulada chamamse perícaees na linguoagem Da terra E toda esta Jmchacam he Jgoallniemte Dos giolhos pa baixo E nom tem door nem se semtem da taall Jmfermidade/. (91) Na terra Do malabar no AJumtamemto seu tem por costume que a femea tem os olhos na cama E o macho no telhado E Jsto contacto de todas as outras castas abaixo deles e com a aproximação de todos os que forem inferiores aos Naiares — há duas outras classes do Br⬠manes, chamadas Pattars e Hmbrándiris. Nambudiri e namburi são formas malaias para Nambutiri. Os comentários dc Pires são assaz confusos, embora ele não esteja longe da verdade. (90) Turucol. Turicol ou Turco! — templo ou pagode do Malabar. segundo Dalgado, s.v. Mas Góis (I, lxxxix, exii) diz — «um Turco!, que são casas dc oração, onde vivem religiosos, como frades entre nós», sugerindo tratar-se de um mosteiro. (91) Perical ou Panicale —- Do malaio perikkal, «perna grande» — elefantíase; também vulgarmente chamada «perna dc Cochim» ou, na índia, «perna de S. Tomé».
176 Tomé Pires físicos do malabar/ JmJuria no malabar/ geerall memte amtre gramdes & pequenos E o all tem por estra¬ nho E alheo de suas comdicoees E alguns portugueses trosna- dos (92) (?) na terra nom lhe pareçe feeo/ Nas Jmfirmidades nom comem carne hos doemtes somemte pescado tem por dieta o primcipall Remedio he tamgerenlhe atabaquees & out°s sõos dous tres dias q dizem que tem Vrtude. se tem febres comem pescado & lauanse mujtas vezes se vomjtam lauanlhe a cabeça com augua fria E he bom vaise logo se tem fruxo gramde bebem aguoa De lanha, que he quoquo nouo estanq“ lloguo se querem purgar bebem folhas de figueira de Jnferno(93) pisadas ou o cumo ou a sememte E purgam mujto & com a purga se lauam se som feridos De gramdes feridas azeite De quoquo qemte escorrer huuã ora he Duas oras sobre a ferida cada dia Duas vezes & sam sãos/ os nosos homees com febres comem galinhas gordas E bebem v° & sam sãoos a mujtos acom- tece Jsto & os q se poem em a dieta gastamse// A cousa que se no malabar estima por pior he que a quem quero mall se lhe quebro huua panella noua a sua porta he gramde Jmfamja:/ ou pasamdo pola Rua se lha aRemesam & que quebre Jumto com a tall pa he pior / sam casos de morte (92) Se bem que no MS. de Paris esteja escrito trosnados (palavra sem sentido), o MS. de Lisboa tem custumados c Ramusio assim o traduziu. (93) Embora alguns dicionários de português-inglês refiram a figueira do inferno como Palma Christi ou planta do ricino, é incorrecto. Palma Christi ou planta do óleo de ricino é o Ricinus communis Linn., e a Figueira do Inferno é Dai ura Slramonium Linn. Ambas as plantas se encontram em Portugal assim como na índia, e embora pertençam a famílias distantes há alguma semelhança entre elas. A Datura, cujos efeitos foram pitoresca- mente descritos por Garcia da Orta (xx) cm 1563, é por vezes misturada na índia com intoxicantes tornando-sc deste modo «muito condenável e mesmo perigosa para a vida. Além disso sabc-se que as sementes entram na com¬ posição de certas bebidas alcoólicas, tornando os consumidores destas lite- ralmente loucos». Watt, p. 488. Pires refere-sc sem dúvida ao Ricinus communis, embora pareça um pouco estranho que ele tenha confundido uma planta com a outra.
A Suma Oriental 177 estes pa o que o comete E o que o pasa fica desomrrado pa sempe//. hos Rex do malabar todos sam bramenes Destes fios delles De geracam mais fydalguos delles menos porque ho costume do malabar he que o filho do Rey nom socede o Reino somemte o Jrmão ou sobrinho E porque estes sam bramenes he nom podem casar com naires por ser defesso catam dos mais hom- rados bramenes Daquella geeraçam pa fazerem casta nas Jrmãas pa o mais velho soceda he Desta mana os bramanes dormem com as Jrmãas do Rey & delles saêe os Rex do Malabar o Rey de cochini como seJa samgue mais apurado E nom aVr na terra com quem case se ha patamares bramenes de cambaya que sam amtiguos paremtes do rrey bramina q em outs° tempos foy naquelas partes samto destes escolhem pra geracam & qmdo nom tomam a da terra dos mais fidalguos bramenes neste costume estam Desde trimta mjl annos seg° comtam & Os Reis do malabar casam quamtas vezes querem & despois de terem as molhèrs as dam em casamemto a guisa da terra a pesoas homrradas os fs° dos Rex sam naires como os outs° nom herdam nada mujtos dos Rex casam por arras as vezes os tem sempre athe ssua morte / se quall quer Rey do malabar quer a molher Do mais homrrado samgue q tenhã caimaees vem de boam,e & os taees Caimãees ficam mujto homrrados (94) mujtas vezes os gramdes senhores dam Dr° aos patamares por que leuem a virgumdade a suas molheres e estam os patamares mas tamto me dares// todos os bramenes sam casados herdam seus fs° suas fazem- das sam as bramjnas molheres castas nom tem ajuntamento (94) Caimal ou Kaimal — Duarte Barbosa diz: «certos condes a quem chamam Caimal». Dames (li, 13) traduziu condes mais genericamente por 'nobres'. Segundo Dalgado (i, 172), às vezes é moda corrente de trato, empregue no Malabar pelas classes baixas, ao falarem a algum Naiar ou a indivíduo da casta militar. Mais à frente Pires refere-se outra vez a Caimaes com mais minúcia (p. 189). Foi. 127v. Costume dos Reis do malabar
178 Tomé Pires Inaires do malabar] somemte com seu marido E a bramjna sempre ho he E seus filhos nom se mesturam pode a bramjna dormir com naires qmdo qser(95) E o naire nom com bramjna//. hos naires nenhuu nom tem pay nem filho nom casam as nairas qmtos mais amiguos tem tamto sam mais homrradas Desta maneira huua molher naira tem huua fa duas ou tres escolhe huu naire pa cada huua ê tempo De sua virgimdade E casaa com elle pa a Romper fazem festa em q ho naire gasta segumdo hee esta quoatro dias com eila è synall De a Romper larnca lhe huu pequeno Douro ao pescoço De valia de xxx"* Rs chamase /quete/ (96) vaise este vem out°s naires comcer- tamse huu lhe da hua cousa outro outra quamtos mais tem tamto mais homrrada he também os naires tem suas Despesas espalhadas por out“s polia mor parte nom comem os naires em casas Delias & por ysto nunca naire teue pay nè f° porque cada huua tem dous athee dez os sabidos de que tem merecimento amtre elles também ha naires q vemdem azeite & peixe E mujtos sam ofyciaees macanjquos/ Se quallquer naira se fose fora de sua casa E lhe tocase huu homê da casta dos poleaas com ha maão ou com huuã pedra fica pa o matarem ou vemderè E se o tall lhe tocase Jmdo em companhia De naire nom fica empoliada ysto se fez por nom Jrem catar a gemte baxa se o que ha toca se toma morre (95) Os MSS. de Paris e de Lisboa estão de acordo nesta frase. Mas a tradução de Ramusio. que segui [na edição inglesa], parece mais correcta do que os dois textos portugueses. (96) De acordo com o MS. de Lisboa, que, tal como Ramusio, lhe chama também quete. Muitos escritores do século xvt descrevem esta ceri¬ mónia de casamento c este adorno, mas nenhum outro lhe chama quete. Alguns deles chamam-lhe tali ou tale. Dalgado regista quete como signi¬ ficando cm Ceilão uma mão-cheia ou uma pequena porção. Contudo, o Talikettu ou Tali-Kettu Kalyanam é o nome dado entre os Naiares e entre algumas outras castas malaias à cerimónia do casamento realizado com raparigas, muito na linha descrita por Pires. Iyer, The Cochin Tribes and Castes, li, 22-8; Thurston, Caste and Tribes of Southern índia, s.v.
A Suma Oriental 179 pollo tall crime/ nenhuuã virtude sabem as nairas do malabar nem eyxercicio De coser nem laurar somemte comer & folguar//. No malabar nom pode ser o filho mais homrrado q ho /Gera- pay De maneira q ha bramina seus fs° o sam & o naire sempre (õees Do o hee E todo oficiall mecanjquo ou Jograees camtores feiticeiros ma,abarl o filho segue o oficio Do pay De necesyDade & A mais baixa sam páreos q comem vaq88 sam letrados feiti- çeitos os poleas sam lauradores & os beituãas/ os mainates lauam- deiros os yravas pedr°s os ploeaas sam tangedores nos turu- coees o em festas/ os canjares sam balhadores nos templlos & paguodes os macuaas pescadores os canacos fazem sall Depos estes carpinteiros orivezes & todo out° oficio macanjq0 & depos estes hos Jrauaas homees q fazem os vinhõs (97) todos estes nom pasam polas estradas Dos naires E fogem delias sopena de morte he em caso de neçessidade hos naires & o Rey asy como na guerra e è doemcas e em esgrimas Joguos Despadas lam- ças se podem toquar com elles & lauamse & ficam limpos e em qualquer cousa que comprir ao naire desta gemte se neguoçea seu proveito nom tem pecado todas estas naçõees o filho herda a fazemda do pay E sam casados cada huu com huuã molher//. Acerqua das out^ meudezas desta proujmçiã que tem gram- des Jdolatrias E feitiçarias E fortes gemtilidades nom me amtre- meto por que Ja dela tera sabido todas suas comdiçoees E por nom ser materea tocante ao presente Recomtamemto/. (97) Barbosa menciona dezoito castas diferentes do Malabar, que Dames (n, 71) reúne numa tábua comparando os nomes dados por ele com os da tradução de Ramusio e os espanhóis, juntamente com as formas moder¬ nas. Os Yravas e os Canjares nào estão entre elas, a não ser que os últimos sejam ou os Chaliyans, tecelões, referidos por Barbosa como Caletis, ou os Kusavans, oleiros, referidos como Culavem. Sc bem que os Yravas ou trauaas sejam mencionados como pedreiios ou vinhateiros, Dalgado (í.v. Iravá) cita-os apenas sob a última profissão. Barbosa refere-se aos Poleas, Poleahs ou Pulayans apenas como agricultores de arroz, aos Betunes ou Vettuvans como fabricantes de sal, e aos Canaqnas ou Kaniyan como astrólogos.
180 Tomé Pires Foi. 128r. Cobras xslaaos nesta proujmçia. Terra do malabar q tem Rijos Ha nesta proujmçia cobras de capello E de bafo (98) as de capello sam pequenas pretas de grosura de huu dedo poleguar tem de compimemto tres quoatro palmõs tem presas tem sobre ha cabeça o coiro froxo quamdo se emcrespa faz maneira de cobertur® a que chamam capello se estas mordem matam loguo as de bafo dizem que sam deste tamanho & de grosura do collo do braço sem capello E que soo do ãr matam nunqa vy ornem q ha vise as de capello trazem feiticeiros em panellas asy gemtios como mouros E com certo som as fazem no chãm amdar bulimdo tomannas com a maão sem medo com palauras q lhe Dizem & se as vezes hos mordem morrem se amdam brauas no mato estes feiticeiros as tomam e emcamtam/ ho naire & bramenes nom podem por ley matar as cobras Dizem que sam cousas samtas em suas ortas tem lugares apartados pa ellas// em q lhe dam aRoz cozido/- ha nesta proujmçia do malabar qinze mjll xstaõos do tempo de sam thome apostollo Dos quaees dous mjll seram homees homrrados cavaleiros mercadores gemte estimaDa & os out°s sam oficiaêes gemte pobre sam na terra privilegiados E tocamse com os naires abitacam destes xstaoos he de chetua atee coulam fora daquj nom ha xpaaos dos amtiguos nom fallo dos que som tornados em tempo de vosa altez® nem nos q se tornam cada dia q sam mujtos/. Nesta terra do malabar he huua parte que tem gramdes Rios em sy que a fazem forte em que pescam/ a lugares alto & baixo em que nauegam em gramdes tones .s. de panane athee coulãoo he esta terra a outra do malabar he enxuta & boa pa camjnhar por terra & esta entones catures/. (99) (98) Estas «cobras dc bafo» nâo puderam ser identificadas. Devem ser produto da imaginação dos nativos e Pires diz muito honestamente que nunca as viu. (99) Tone ou lona é um pequeno barco com uma vela e remos, usado no sul da índia. Catur é também um barco comprido e estreito, antigamente muito usado na índia. Parece provável que o moderno inglês ‘cutter’ derive
A Suma Orienta! 181 comecamdo de mamgalor pa comorím estes sam hos Rex na proujmçia. Do malabar/ elRey de bangar ellRey Dacata (100) elIRey de cananor ellRey De calecut elRey de tanor ellRey de cramganor ellRey De cochim ellRey de caya coulam ellRey de coulam ellRey de trauamcor ellRey De comorim tem esta terra gramdes caimães que delles sam mayores q mujtos Reis destes mas nom tem titollo De Rex Delles bramenes delles naires des¬ tes Reis o maior em terra he Jemte he o De coulam em fidallguja o de cochim em titollo o de calecut em gemte depos coulam Cananor E depos cananor o de caia coulam os melhores homees De peleJa sam os do Reyno de calecut/ hos portos do maar nesta proujmçia è que ha pouoaçõees E naãos sam os segujmtes/ mayçeram/ mayporam/ combula/ coty coulam/ njliporam/ hyeri/ balea patanam/ cananor/ tarma- patam/ marlarjanj/ combaa/ pudopatanam/ tiricorij/ bairacono/ coulam/ aquechamam/ pamdaranj/ capocar/ calecut/ chaliaa/ para purancorj/ panane/ bely/ ancoro/ chetua/ cramganor/ cochim/ caya coulam/ coulam bilínJão/ comorim/(101) de eaiur. Pires dá adiante mais pormenores acerca desta embarcação, usando sempre os dois nomes cm conjunto, aparentemente para representar uma única embarcação. (100) Bangar — Bangar no MS. de Lisboa. Provavelmente Ban- dadkar, no interior, entre Mangalor e Cananor. cota — Provavelmente Kottayam, o distrito oriental de Cananor. (101) No MS. de Lisboa estes nomes Icêm-se como segue: «maiçeram/ maiporam/ combula/ cotecoulã/ nilixorão/ eriballcaa/ patanam/ cananor/ tumapatam/ murlariom/ combaa/ pudy patanam/ tericori/ baicarom/ coulão a q chamão pamdarane capocar/ calequiu chalc/ parapurãocole/ tanor/ panane/ betiamcor/ chatuaa/ chamganor cochym caicoulão/ coulão/ bebur- gam & o comorym». Mayçeram — Provavelmente Manjeshvar ou Manjeshwaram, nove milhas a sudoeste de Mangalore: o Mangeiram situado por Barros (I, ix, I) entre Mangalore e Kumbla (Cumbata). Aparece como Mamgesirão e Magi- cera em várias cartas portuguesas do século xvi. mayporam — Nenhum local se pode encontrar agora entre Manjesh- *4 /'Reis no malabar/. Portos de maar nesta proujmçia
182 Tomé Pires Auera nesta proujmçia De malabar nos Regnos & portos Ja ditos quoatrocemtas naõs de cargua Delias gramdes Delias pequenas sam naãos ladas largas por baixo carreguam mujto waram e Kumbla a que se possa chamar porto, sendo a costa, ininterrupta c lisa, uma mata contínua de coqueiros. combula — Kumbla, a sete milhas e meia de Manjeshwaram; Cumbola em Barbosa, Cumbata cm Barros. coty coulam — Kattakulam, local moderno no sul do Kanara, segundo Dames, 11, 79. Coterolam em Barbosa, Cóta-Coulão em Barros. njliporam — Poderá ser «hoje representada pela aldeia de Nileshwar ou Nileshweram. a sul de Kasaragod», como foi sugerido por Cordier. Cathay and Way Thilher, tv, 74. Minaporam em Barbosa, Nilichilão em Barros. hyeri — Lugar que existiu na baia ao sul de Mount Dely, ou Jelly Paud. Corresponde a Eli de Marco Polo, nome que Yule diz sobreviver «no de Mount Dely, propriamente Monte d'Ely, o Yeli-mala». Marco Polo, III, xxiv. Na carta de c. 1510 aparece como ely. Na carta de Rodri¬ gues (foi. 28) está registado como monte dally; e o Livro de Marinharia (p. 224) diz que mõte dEly está a cinco léguas de Cananor. bali-a patanam — Baliapatam. Valarpattanam ou Azhikkal, pequena povoação c porto na margem sul do rio do mesmo nome, cinco milhas a norte de Cananor. Balaerpatam em Barbosa, Bolepatan em Barros e Balea- patão em algumas cartas portuguesas. Tarmapatam — Durmapatan ou Dharmapatna, sete milhas a sudoeste de Cananor. Tremapatam cm Barros c na carta de Rodrigues. marlarjanj — Talvez o Maraiiel de Barbosa c o Marabia de Barros. de Correia e das cartas portuguesas, que Dames (ii, 79) identifica com «o local conhecido por Madayid (também chamado Pazhayangadi)». Combaa — Chombakulu, pequeno porto duas milhas e meia a sudeste de Mahé, a antigo colónia francesa na foz do rio do mesmo nome. pudopatanam — Puthupanam ou Puthupattanam, no Kotta River. Pedirpatam em Barbosa, Puripatan em Barros. tiricorij — Tricodi. Tircore em Barbosa. bairacono — Lugar desaparecido, talvez na pequena baía entre Kada- lur Point e Vcllarakkad, outeiro cerca de 2 milhas para oeste. coulam — pamdaranj — Coulam é o pequeno porto Kollam, a cerca de três milhas de Kadalur Point, e Pamdaranj é Pandaláyini, local junto de Kollam. Pandanare em Barbosa, Pandarane nas crónicas. Talvez seja o paudacar na carta de c. 1510. Aparece como ilheos de pamdarane na
A Suma Oriental 183 & demamdam menos fumdo(102) que as de qujlha ysto se fez porq geerall memte o malabar naueg3 na provimcia De talímguo em que sam as Regiõees De comorim athe paleacate E porque ceilam faz canall com esta trfa E no meio he de baixa mar De braça & mea que se chamam os baixos chilam (103) foy necesario carta dc Rodrigues. No Livro de Marinharia diz-sc que Pamderanne está a cinco léguas de Tramapatão. Pandarani está já registado nas cartas dc Reinei de c. 1517 e c. 1518. capocar — Deve corresponde ao pequeno porto dc Kappatta, entre Kollam e Calecute. Capucate em Barbosa, Capocate nas crónicas. chaliaa — Chaliyam, local à entrada do rio Chalium ou Chaliyar, onde os Portugueses tinham um forte a quatro milhas e meia para su-sueste de Calicut Creek ou Kallayi River. Chiliate em Barbosa Chála em Barros. para purancorj — Parappanangadi, o pequeno porto a oito milhas e meia para sul. Propriamguary cm Barbosa, Parangaie nas crónicas. tanor — Tanore, Tanur ou Tánniyúrnagaram, a quatro milhas e meia mais para sul. bely ancoro — Veleankode ou Velijangod à entrada do Kannira- mukker River, quatro milhas a sudeste de Ponnani. Baleancor em Barros. chetua — Chetwayi, cidade moderna numa ilha dentro da foz do rio do mesmo nome. Chatua em Barbosa c nas crónicas. cramganor — Cranganor, Cranganur ou Kranganur. caya coulam — Kayankulam, a cerca de cinquenta milhas para su-sueste de Cochim. Cale Collam em Barbosa. Caecoulam, Cale Coulão e Caicoidão nas crónicas e nas cartas. bilinjão — Vilinjam, a cerca de quarenta milhas a sudeste de Kayan¬ kulam. Berinjam em Barros, Brimgão, Brijào e Brimgiam nalgumas cartas. (102) Lada palavra antiga portuguesa para designar a margem de um rio ou «caminhos d'agoa, por onde os navios, ou quaisquer outras embar¬ cações (que então indiferentemente se chamavão navios) podião navegar». Cf. Viterbo, Elucidário, s.v. Lada. As naos ladas dc Pires talvez signifiquem neste caso naus de pouco calado. (103) Baixos de Chilam ou Chilão era o nome dado pelos Portugueses aos bancos dc areia movediços com canais intricados, agora conhecidos por Adam’s Bridge, entre a ilha Mannari, ao largo da costa ocidental dc Ceilão, e a ilha Pamban, ao largo da costa da índia. Ao referir-se aos baixos de Chilão, o Livro de Marinharia (p. 231) menciona «a pomta de Chilão darea»
184 Tomé Pires /aRo: domde vemI Foi. I28v. Repar¬ tição dos portos aos Reinos EIIIRey da cota fazerêmse ladas/ esta he a causa nom nauegam estes em golfão/ saluo com gramde medo/ Dout°s navios pequenos a que chamã pagueres (104) que carreguam tamto como carauellas tem mais dout°s tamtos & toda esta proujmcia do malabar careçe daRoz E de seu natural nom tem casy nada Da bamda de tanor athee maiçeram se forneçe de guoa he narsing» Da bamda dos canaris/ este aRoz he frio E vali atee tanor De tanor athe coulam vem Da proujmcia de talinguo por choromandell este aRoz he quemte & gastase atee tanor/ domde he de saber que homde tem valor o a arroz De choromandell nom vali o de guoa & canarjs asy polo com- trairo homde vali o de canarijs nom vali o out° a terca & ma parte menos//. ho porto de mayceram E mayporam sam dellRey de bãm- gar aquj se começa ho malabar he este Rey vizinho dos canarjs he terra abastada Darroz pescados a gemte deste Reino posto que seJa pouca he guerreira sam gramdes frecheiros as setas De ferros compridos larguos Defemdem sua terra E as vezes tem guerra com hos canarijs he Reino pequeno estes dous ptos De maar tem alguuas naãos E pouoacoees tratam com os desta provjnçia/ Ho Rey de cota nom tem no mãar porto seu poder he na terra firme he Reino como ho de cima tem guerra com cananor faz este moeda comtra vomtade Dos Rex do malabar sem temer que fica a oes-sudoeste, vindo do norte; isto corresponde à ponta Chultram, na extremidade oriental da ilha de Pamban, agora término do South Indian Railway. A passagem através dos baixos de Chitão era perto desta ponta onde a água não é tão baixa. Há contudo, na costa ocidental de Ceilão, embora um pouco mais para sul a pronunciada ponta c porto de Chilaw, que os portugueses primeiramente designaram por Celabão ou Ceiauam e mais tarde por Chilam ou Chitão obviamente ligados ao nome dos baixos. Barros (III, ii, I) e Couto (V, i. 7) dizem, aliás erradamente, que dos baixos de Chitão vem o nome de Ceilão para a ilha. (Veja nota sobre Ceilão, p. 356-7). (104) Antigos cargueiros do sul da fndia, muitas vezes mencionados pelos cronistas. Dalgado, s.v. Paguei.
A Suma Oriental 185 nenhuu delles sam gramdes Jmiguos E este he o Rey de cananor he a Jemte forte Deste he a terra E daqi sam os fanoes(105) Da cota//. Ho porto De combulaa/ coti coulam njliporam hieri balca Regno de patamam Cananor tarmapatam mailariavij sam Dell Rey De cananõr cananor. todos estes portos sam cousa pouca, ssomemte ho porto De cananor que he gramde nobre homrrado De grande cidade & trato he este Reyno De cananor gramde De mujta gemte a terra he boa tem boos ares E boas auguas tem mujtos mouros a cidade de cananor tem mercadores caudellosos/ se o poder de .v. a. nom fora sobre este Reyno Ja fora de mouros por que huu mamalle mercar (106) se fazija Ja poderosso ha nesta terra mujtos espimgardeiros frecheiros naires Despada & adargua ho Rey he bramene De barba mujto comprida sinall mais mourisco que De sacerdote gètio malabar/ ho porto De combaa/ pudupatanam/ tírícorj pamdarane Regno de capocar calecut chalia pariporãary sam Do Reino De calecut calecut sam portos pequenos todos estes tem naaos E mercadores E boas pouoaçooes chamase o Rey De Calicut çamorim quer Dizer Sõr de todos os malabares comfyna este Reino com cana (105) Cota fanões significa 'fanões dc Kottayam’. O fanão era unia pequena moeda usada antigamente no sul da índia, valendo entre vinte e quarenta reis e dc peso médio equivalente a seis grãos de ouro. (106) Mamalle ou Mamale é uma contracção de Maonté Ali. Cf. David Lopes, Historia dos Portugueses no Malabar .... p. 69 n. Mercar é o Mercaire que Pyrard de Lavai diz significar «lugar-tenente ou vice-rei». Voyage I, 350. Segundo Dalgado (i.v.) Mercar ou Marcar, do malaio marakkãn, significa piloto ou homem do leme, ou, em sentido figurado, chefe ou comandante. Muitos documentos c cronistas contemporâneos, entre 1501 e 1525, referem-sc extensamente a este ambicioso e aventureiro Mamale, importante mercador mouro do Malabar, e à sua hostilidade contra os Portugueses. Por fim, as mãos foram-lhe decepadas e ele foi enforcado na muralha do forte português de Cananorc, cm Janeiro de 1525. Correia, II, 862-3; Castanheda, VI, lxxx, Ixxxi. Barros (III, ix, 3) diz que o mouro enforcado foi Bala Hacem, mas em face da descrição circunstanciada de Correia parece que isto deve ser engano.
186 Tomé Pires Regno de tanor. nor De huua bamda E da outra com tanor Digo com estes Reinos o porto De calicut nom he boom por ser emcosta De maar a cidade he gramde De mujta gemte & mujto trato De mujtos mercadores asy malabares como quellijs chetíjs E estramgeiros De todas partidas asy mouros como gemtios he mujto nomeado porto he a melhor cousa De todo ho malabar aquj tinham gram- des cassas De feitorias mujtas nações cada huu trazja aquj suas mercadorias E aquj se fazia gramde comerçio troca escambo he lugar gramde memtado, he em toda esta bamda Dasya por cousa homrrada enterra he este Reino menos que no De cananor tem melhor Jemte De guerra he terra bem asombrada fazem aqui mujtos panos de seda E comseruas/ Este Rey posto que tenha ho nome gramde nom lhe obedeçem mais q em seu Regno E as vezes mall E porque nom comto estorias nom faço fumdam10 Deste títollo somemte Dizem os malabares q ouue neste malabar huu Rey De toda a terra malabar E que embutido por mouros se foy camjnho de meqa fezse mouro este morreo em o Reino De tufar (107) amte Dabocar ho estreito (108) Ja partijo do malabar fora de seu syso Repartijo toda a terra E despois de a ter dada cheguou huu paremte seu a pedirlhe Deulhe a terra da cidade de calecut que era cousa pouca he ho titollo ficou atheeora chamarse asy por Rezam da neguoceacã se fez ho Reino De calecut cousa homrrada/. tanor tem mujtas naãos nom tem outro porto de mãar he Rey homrrado de boa terra nom tamanho como qualicut /• tem mujta Jemte he Rey paremte dos Reis de cochim tem mujtos moradores ê sua terra, he Rey bramene homrrado/. hos portos de panane/ beli/ amcoro/ chetuaa. com as terras que cada huus tem sam portos De naãos E mercadores & de boas pouoações sam de senhores bramenes E caimaees pas homr- (107) Dofar, Diufar ou Dhofar, na costa sul da Arábia. (108) Trata-sc do rei Chcruman Perumal, cuja história é relatada com variantes por Barbosa e outros cronistas portugueses. O próprio Camões o cita nos Lusíadas (vit, 32), ao descrever o Malabar.
A Suma Oriental 187 radas as vezes se emcostam com quemq uerem as vezes nam Amtigua memte mais segujam ho bamdo de calecut aguora cada huu por sy ou como lhe vem a vomtade sam cada huu destes gramdes como algus Rex do malabar & do pouo De cada huu sam chamadõs Rex mas nam dos out°s Reis & senhores//- Ho Regno de cãganor De huua parte se aJunta a terra de chatua & da outa ao Reino De cochim cramganor foy amtiga mente homrrado he bom porto tem mta gemte & boa terra a cidade De cramganor he homrrada De trato gramde ante De se fazer cochim (109) nobre este Rey ora se emcosta a cochim por que tem cochim deste Reyno parte nas Remdas ora a calecut as vezes a nenguê he paremte DelRey De cochim nom he Reino mujto gramde//. o Reino De cochim he cousa mujto pequena E muy10 gramde ho Reino nom he mais q ha Jlha de vaipl (110) E a de cochim que ambas teram sejs mjll homèes naires tem senhores Junto com estes Reino tamanho & mayores que ho Reyno todos estes aguora sam vasallos dellRey De cochim pollo poder que tem De vosa alteza he he aguora mor que todos E cabeça De toda a terra Do malabar E mais homrrado q todos E mais estimado tem boa cidade he bom porto he mujtas naãos trata gramde- memte he a melhor cousa que ha nestas partes he o Rey bra- mene amtre todos maior he sumo pomtifiquo Desta terra traz (109) O copista do MS. de Paris saltou algumas palavras que aparecem no MS. de Lisboa. (110) Encontrei esta Ilha de Vypin, Vypeen ou Vaipim mencionada pela primeira vez num documento datado de 22 de Fevereiro de 1509, como Vaypy, lugar onde os portugueses do forte de Cochim iam buscar madeira para reparar e construir os navios. Cartas, II, 430-8. Contudo, os cronistas relatam como, em 1503, o rei de Cochim, depois de ser derrotado pelo Samo- rim de Calicute se retirou para a ilha de Vypin com os portugueses que esta¬ vam na feitoria de Cochim «E porque esta ilha de Vaipim dizem que foi a primeira terra que o mar descobriu que ficou como senhora de todas as outras que se depois descobriram». Correia, I, 361-3. Castanheda, I, liii; Barros I. vii, t; Pyrard de Lavai, I, 435. / Regno de cram¬ ganor! Foi. I29r. Regno de cochim!
188 Tomé Pires Reino De cay couiam Regno de coulão Regno de Iravamcor Regno De comorím comsyguo sempre muytos caimaèes pesoas mujto homrradas E mujtos bramenes// ho Reino De caya couiam De huua parte comfyna com terras dos senhorêos do Reino de cochim E da outra com ho Regno De couiam he Rey gramde de terra como calecut E maior tem alguu trato em sua terra E alguuas naãos E mercadores nom mujtos he Rey homrrado De mujta Jemte he pa estimada he Riq« E gramde sôr tem mais naãos que coulão//. o Reino De coulão de huuã bamda comfyna com ho Regno de caya coulão & da outa com ho Reino De travamcor tem alem do porto de couiam o porto de bilinJao este Rey he maior Do malabar em terra E gemte tem este a cidade de couiam he gramde escalla De naãos De mujtos mercadores De diuersas partes tratam gramdemente neste Reino he gramde sõr tinha este por vasallo ellRey De çeilam ho primçipall se lhe pagaua em cada huu anno De pareas he trebuto quoremta alefamtes os qees nõ Recebe Ja aguora despois Do poder De vosa alteza ser na Jmdia he gramde o trafig0 De Regno. De couiam tem mujtas naãos//. o Rey de trauanqor De huua parte he com qoulam & da outa comfynam com o cabo De comorim nom tem no mar somemte poucas casas na terra firme he grande sõr & pesoa homrrada. De boa terra De gemte guerreira compra este mujtos cavallos & deste Reino vam pa o Reino De narsimgua tem mujta gemte he boa nas beiras Do maar tem pouoacoes de maquas q da noua na terra da chegada das naaos E seruem no Desembarcar dos cauallos// De huuã parte com travanqor (111) & da outra atee qaíle (112) (111) Segundo o MS. de Lisboa e Ramusio. (112) Qaile mais tarde escreve-se Caile c aparece como Calle na carta de 1516 e como Cale no MS. de Lisboa. Este lugar era muitas vezes men¬ cionado pela sua pescaria de pérolas. Outrora porto famoso no extremo sul da fndia, frente a Ceilão, é hoje «representado pela localidade deserta, agora conhecida como Palayakayal ou Old Kayal», entre as lagunas do delta do Tambraparni Rivcr. Dames, it, 122-3; Yule, Marco Polo. ii, 371-4.
A Suma Oriental 189 que he seu ho pmcepe de comorim he Rey De coulao p morte Do Rey De coulam tiramdo a terra do Reino de travamcor esta terra De comorim Ja nom he boa como as outas nom tem palmeiras saluo cousa pouqa/ Todos os Reis q viuem no malabar huus com out°s tem comtínoadamle guerra na terra por que o naire nom pode comer no mar porque lhe he defeso por sua creença. salluo com licemça de seu maior bramene em casso De mujta necesidade os bramjnes mujto menos entrã no maãr// ha nesta terra do malabar tones catures bateês de Remo compridos cerados por cima quamto huu ornem pode emtrar Dilhargua voga cada huu de dez ate xxte Remos sam ligeiros & ha gramde soma Destes è que amdam frecheiros sam De maquas arees(113) sam estes arees maquas p^ De gemte Riqos E a mujtos nesta costa E se acham naão em calmarias a Remo a leuam homde querem comtra võtade Dos da naão porque sam gramdes frecheiros/ he a Jemte baixa do malabar mujto pobre E sam gramdes ladroees/ mais gemte ha no malabar De naires he bramjnes q das outas naçooes//. Em todo o malabar nom pode nenguè cobrir casa De telha, saluo se for turicoll ou mezqujta ou casa Dalguu gramde caimall por mercee/ & isto por se nom fazerê fortes na terra E isto gar- dam os Rex Do malabar gramdememte/ chamanse Caimaees Senhores De terras E vasallos (114) ha no malabar caimall De dez mjll naires E outs° De cemto & Duzemtos Naires/ A terra Do malabar tem Jmfynjdade De palmeiras are- queiras ao longuo Do mar E nom se estemde pa a terra firme somente a leguoa & ma & o mais athee Duas o fruito da pal¬ meiras chamam quoquos & nos nuçes Jmdie & o fruito Das arequeiras chamam areqas he nos avelana. Jmdie tem Destes (113) Arees, plural de arei, chefe dos pescadores, piloto ou capitão do porto, no Malabar. Do malaio arayal. (114) Talvez o copista do MS. de Paris tivesse saltado uma linha, por¬ que no MS. de Lisboa c em Ramusio está como aqui se transcreve. Trato de merca¬ doria no malabar
190 Tomé Pires Foi. 129v. merca¬ dorias do malabar Jmfinjdade tem mujto betelle tratam os mercadores deste mala- bar Da bamda da persya athee cambaya & Resputes/ Da bamda de choromamdell athe paleacate e em ceilam E nas Jlhas de diva (115) neste malabar todollos mercadores q tratã no maar sam mouros he estes tem o trato em peso sam gramdes merca¬ dores | E boos comtadores tem estes mercadores naires a solido que os acompanham he destes naires alguns sam seus espuaães E sam melhores comtadores que os mourõs// alguus dos mala- bares se tornauam mouros a primeira Ja aguora nom//. copra que sam coquos sequos sem casca coquos maduros aReqa betelle açuqr de pallmeiras a que chamam Jagra azeite De coquo cairo pimemta gingiure tamarimdos mirabulanõs a pimemta avera no malabar atee vimte mjll bahares(lló) E naçe de chatua athee o Reino De caya coulam E alguuã pouca por coulam por cramganor E cochim he a escala Desta pimemta a mais perto E omde mais ganham a levam aJmda que seja com trabalho cramganor nem cochy nom tem pimemta em suas terras mas os Sres q viuem Jumto com estes dous Reinos a Recolhem & vendem a q nacee no senhorio Do Reino De cochim e melhor// Gíngivre avera nestas partes De malabar cada huu anno De dous mjll qintaês pa cima naçe De calecut athee cananor (115) Pires é o único escritor português que usou a forma Diva ou Diua (veja nota p. 211) para as Ilhas Maldivas. Barbosa chama-lhes Ilhas do Maldio e todos os cronistas Maldivas. Contudo, a forma Diva era usual entre os escritores antigos, pelo menos a partir do século iv inclusivé. Desde o século xvi até aos dias de hoje vários escritores têm tentado explicar a eti¬ mologia de Maldivas ou Maldives. Por certo diva significa ilha e é derivada do sânscrito dvlpa; mas para mal ou mate, as opiniões sào muito divergentes. A mais provável de todas as explicações é que deriva do sânscrito mãlõ, significando «uma grinalda ou colar», o que parece bastante apropriado à configuração cartográfica do Arquipélago das Maldivas. (116) Bahar é um peso antigo usado em transaeções comerciais na índia e no Arquipélago Indonésio. O seu valor variava muito com a loca¬ lidade, mas era geralmente calculado como igual a quatro quintais ou 400 libras avoirdupois, segundo Yule (Hobson-Jobson). Vide pp. 431-2.
A Suma Oriental 191 a da terra De calecut he moõr & melhor E sem fios o De cananor he somenos a força deste he de calecut & o menos De cananor// Mirabulanos cetrinos Jndios qublicos beleriqos (117) ha nesta proujncia hos matos cheos geerall memte por toda & tam¬ bém ha alguus tamarjndos//. quoquos As palmeiras he a força do Regno De cananor athee birinJao no Regno De coulam De birinJao pa diamte athee choromamdell he cousa q se poderá comtar por ser cousa muj pouca E cassij nada/. Caregamsse destes quoquos sequos muj*°* pa fora he boa mercadoria todallas naãos os levam fazem Delles azeite & tam¬ bém comemse Areca he mjt0 gramde mercadaria de que todos carregam geerall memte pa cabaia porque pa choromandell a moõr parte vay de ceiam como se dira ê ceilam ha mujta neste malabar leuase seqa em camtidade a força dela nestas partes nace De cochim atee cananor E disto carregam polia maior parte & dos quoquos// Ho quaíro também he da terra chamamos qa quairo ao esparto q dizemos/ somemte o cairo he da lanugem ou cobertura das nozes Jndicas sobre a casca maçada he fiada a sua guisa a obra deste cairo he boa sostem todo trabalho E nom se dana se nom com ser molhada dauga doçee com ella apodrece qua nõ se vsam outas emxarçeas nem amarras saluo de cairo he boa mercadoria nestas partes/ Das Jlhas de diva vem mujto como se dira è seu luguar// (117) Na sua carta dc 1516 (Apêndice i), diz Pires que «os mirabu¬ lanos sào de cinco espécies». Na Suma nomeia apenas quatro das cinco espécies que menciona na carta. A quinta é o mirabulano êmblico ou Phyl- lanthus Emblica Linn. O citrino ou mirabulano amarelo é Terminalia citrina Roxb.; o indio ou mirabulano negro é Phyllanthus disticus Muell.; o mira¬ bulano qublico ou quibuly é Terminalia Chebula Retz.; o mirabulano beieriqo é Terminalia belerica Roxb. Orta (xxxvn) trata desenvolvidamente das cinco espécies.
192 Tomé Pires De maneira que os malabares mouros navegamtes & tra- tamtes da bamda de Diu trazem suas mercadorias E da bamda de choromamdell ceilam & diua E tem bom trato em o malabar primcipall memte ê calecut acodem as mais mercadarias//. [retoma a descrição de cambaia] Foi. I30r. Do Rejno de cam- baya (he antes que os Reinos na terra canarjm e apos cam- bay° hos cana- rts) (120) chamase o Rey De cambaya coltam madaforxaa (118) a seu pay chamauã coltam mafamud(119) tem este Rey guerra com ellRey De mandao E com ellRey Jmdo & com os Resputes he alguua com delij portamto falarey nestes huu pouq0// Este Rey de dely Jaz na terra firme Antígamemte era a terra deste a moõr que qa avija era De ssua Jurdicam os Resputes cambay" he parte do Regno De daquê ellRey de mãdao ellRey dimdo vay a terra Deste cimgemdo toda a provimcia de narsymga he vay fazer comtinoada memte guerra aos bemgallas & aos Reis do sertaõo que comfinam com orixa E com orixa era gemtijo de cemto & cimqoemta annos sam os Reis de delij mouros ê todos estes Regnõs tinha capitaees cada huu se alevamtou & se fez Rey asij ho fez o de cambay4/ metense amtre cambaia & delij grãdes serranjas (121) De maneira que nom pode vijr sobre cambaya somemte metese huu paso na terra que ho tem huu Jogue guzarate que nom comsemte emtrar ha gemte De delij em cambay* E quamdo esteRey espeue ao Rey de cambay" chamalhe ao meu vazir ou capitam este Rey de delij tem gramde (118) Mudhaffar ou Muzaffar Shah II, chamado Soltão Madrajaxa no MS. dc Lisboa c Soltam Moordafaa por Barbosa. (119) Mahmud Shah I, chamado Soltão Mafamede no MS. de Lisboa e Soltam Malta mude por Barbosa. (120) As palavras aqui postas entre parênteses foram acrescentadas pelo mesmo punho do manuscrito original, mas com tinta e pena diferentes. (121) O Planalto de Malwa, limitado ao sul pela Cordilheira de Vindhya e a noroeste pela Cordilheira de Aravalli.
A Suma Oriental 193 terra mujto môtuosa. estas serranjas que pasam por sua terra he ho momte / caucaso De que falam os cosmoguafos tem a terra Deste mamtimemtos sem comto Jemte cavallos alifamtes tem Jmfinydade de gemtios sem numero è seus Reynos estem- dese seu Regno pola terra demtro mujto este se chama Rey das Jmdias tem este Rey continoadamemte Demtro na terra sua abitacam & Na frallda desta serranja (123) comfinamdo com as terras De cambay“ he o Reino De mandao este he o Regno omde amti- guamemte peleJauam as molheres que nos Dizemos amazonas aguora nom vsam da meliçia/ ficoulhe aJmda ho caçar acavallo com esporas he bursegijs a sua guissa dize q tera este Rey aJmda molheres que cavallgam com elle (124) atee duas mjll tem este Rey mujta gemte he a terra sua fraguosa & forte/ também com- fyna mamdao com os Resputes he obidiemte a ellRey De delij este Rey de mamdao/ he este Rey mouro ha pouco tempo// O Regno dimdo he Ja comuertido ao Reino de cambay* sam Ja todos mouros he cousa pequena, he terra momtuosa Rey de mam- dão (122) Regno dim¬ do (\25) (122) Mãdou no MS. de Lisboa, Mandou ou Mandó nos cronistas portugueses, corresponde a Mandu ou Mandogarth, agora cidade arruinada no Estado de Dhar da índia Central, «no cume de uma colina achatada na Vindhyan range». Irnp. Gaz. of índia. s.v. (123) Cordilheira de Vindhya. (124) Na sua carta de 27 de Jan. 1516, Pires refere-se outra vez a estas amazonas do Mandau, «mulheres belicosas que hoje em dia pelejam a cavalo». Apêndice I. (125) A origem dos nomes Indus, índia. Hindus e outros do mesmo grupo etimológico é o sânscrito Sindhu. ‘o mar'. Em muitas línguas asiᬠticas a palavra Sindh indica realmente o mar ou um rio importante, daí o Rio Sindh. Plínio fez referência a «O Indus, chamado Sindus pelos habi¬ tantes.» McCrindle, Ancient índia as descrihed by Megasthenês and Arrian, T- 143. Os maometanos antigos distinguiam Sind e Hind como partes dife- entes de toda a regiào que nós chamamos índia, sendo este nome aplicado í região para lá do Indo. Parece que o Reino de Indo de Pires, que ele diz ser «cousa pequena», fica na actual Rajputana, algures entre o Punjab e Cambaia. Hobson-Jobson, s.v. índia e Sind.
194 Tomé Pires Portos de cambaya Atee daquè dizem q daquj vem ho anjll & que nace neste alguu lacar pouco/ & dos Resputes mamdao & delij vem mujtas mercadorias das que se acham em cambay® e espalha por estes também suas mer¬ cadorias por que os out°s sam firmes este De cambaya tem ho mar digo por delij mamdao Jmdo & out°s//. Este Regno Jmdo foy amtigamemte mujto nomeado esta na terra firme he Deste Regno corre huu Rijo q vem sair ao maar que se chama çimdy outs0 lhe chamam Jmdy E os do Regno Jmdios/ este aparta os Resputes De cambaia foy este reino cabeça De cambay8 Daquj se comecam as Jndias E por causa Deste Reino se chamou elIRey De cambay8 Rey da primeira Jmdia he Rijo gramde na saida q faz no maãr tem gramde pouoacam de mujtas naaos mercadores gentios mouros he guouernador dela huu Jemtio Jmdo/ /Jmdi/ Carapatanj/ patan/ Diu/ manna/ tata telaya/ guem- darj/ guogarj/ cãbaya/ baruez/ çurrate/ Reneri/ Dionj/ agagy/ baxa/ maimbij//(126) (126) No MS. de Lisboa estes nomes lêm-se como se segue: «Imde/ barapatão/ patão/ dio/ manuaa/ tatelaya/ guãdari/ gogary/ cambaia/ baruez/ Rejnell/ çurrate/ diuny/ agazy/ baxaa/ maimby/.» imdi — Nas cartas de P. Reinei de c. 1517 e c. 1512 — as mais próximas da data em que Pires escrevia — lê-se daulcinde junto de um rio que parece corresponder ao moderno Porali River, mas deve ser a foz mais a ocidente do Indo. A carta de c. 1540 tem diull e diu(l)çimde. Este rio das cartas de Reine! aparece em cartas posteriores, dos meados do século xvi, como R. dos guzarates e R. simde, algumas delas apresentando diul ou diuli (L. Homem, 1554) na margem direita, junto da foz. É o Diul ou Diulsinde de Barbosa e de outros autores e cartógrafos portugueses antigos. Barros refere-se a «Diul situado na primeira foz do Indo, da parte do Poncnte», I, ix, i. Diul é a forma portuguesa de Dcwal ou Daibul, que segundo Yule foi «outrora uma cidade c porto de mar célebre de Sinde, mencionados por todos os geógrafos árabes e que se supõe terem existido no local, ou junto, da moderna Kãrachi». Hobson-Jobson, í.v. Diul-Sind. DiuI-Sind pode também ser o porto Sonmiani, na foz do Porali River, importante locali¬ dade antes de Karachi nascer, através da qual muito do comércio da Ásia Central passava via Kalat. Imp. Gaz. of índia, s.v. Sonmiani. Se bem que não seja fácil explicar porque Pires escreveu Indi por «Diul-Sind», parece
A Suma Oriental 19í> Avera trezemtos annos que o Reino de cambaya he tomado dos Jemtios mas aJmda ha em cambaia, mujtos gemtios cassy a terça parte do Regno he majs/ homees que tem por fee nom matarem cousa viva nem comerem cousa q teuese samgue haa Jmfinijdade destes/ chamamse os Jemtios de cambaya vaneanes Delles sam sacerdotes de fremosos templlos a moõr pte | sam bramenes homèes dados a Relegíam E outs° sam patamares (127) que queria significar este último visto não haver nenhum outro porto impor¬ tante antes de Kharepatan. carapatani—Kharepatan. The Imp. Gaz. of índia (n, 33, 1908 ed.) refere-sc a «chapas de Khãrcpàtan contendo o registo do Silãhãra prfncipe Rattarãja do ano 1008 A.D.» Na foz do Hab River havia um porto cha¬ mado Kharak, com considerável comércio. A entrada para o porto de Kharak ficou bloqueada de areia e os seus habitantes migraram para um local chamado Kalachi Kun, no outro lado do rio, junto de Karachi, de recente formação. Cf. Imp. Gaz. of índia, s.v. Karãchi City. Pauan significa «um porto» em língua hindi, que combinado com Kharak parece ter dado Kharepatan ou o Carapatani de Pires. manna — Deve ser Manar, no Manali River, entre Telaja e Gogha. tata telaya — Telaja. guendarj — A velha cidade de Gandhar, na foz do rio Dhadar, no golfo de Cambaia, que aparece como gandar ou r. de gandar em várias cartas portuguesas do século xvi. É o Guindarim de Barbosa. diony — É a moderna Dahanu, que fica a trinta e duas milhas a su-sudoeste de Damão. Dinuy em Barbosa, Danu nas crónicas e em várias cartas. No Livro de Marinharia (p. 223) Danu está situada a oito léguas de Damão. Existe ainda uma velha capela portuguesa em Dahanu. agagy — Agacim ou Agaçaim nas crónicas portuguesas, corresponde a Agashi, que dá o nome à actual Agashi Bay, a vinte e oito milhas de Dahanu, onde desagua o Waitarna River. baxa — Corresponde à moderna Bassein. Baxay em Barbosa. Baçaim e a sudoeste Basaim nas crónicas e cartas portuguesas. maimbij — Majmby no MS. de Lisboa; também chamada Mayambu ou Mombaym pelos portugueses. Isto é Mahim ou Mahikavati, a primeira cidade construída na ilha de Bombaim, talvez nos fins do século xm. O nome ainda sobrevive em «Mahim Bay», no extremo norte da ilha. Castro refere-se à «Ilha de Bomhai ou Maiyam. que é o mesmo». Roteiro de Goa a Dio (1538-9), p. 81. (127) Sc bem que Pires escrevesse patamares, ele quer dizer os patares. /.Gemtios de cambaya/ Foi. 130v.
196 Tomé Pires Rey de cambaia & Reino bramenes mais homrrados outs0 sam mercadores como se dira despois sam os Jemtios de cãbaya gramdes Jdolatras gemtes molles fracas sogeitos ha amtre estes/ homèes em sua Relegiam De boa vida castos verdadeiros homees De mujta austinêçía creem em nosa Sra(128) E na trimdade nom he Duujda em outro tempo serem xstaõos & foise pdemdo a fee por Rezam dos mouros estes gemtios espuem Dereito a nosa gisa quamdo estes morrem as molheres se queymam as que sam homrradas ou estymam suas omrras na cambay® ha Destes gemtios aJmda gramdes Sres homees q mamdam ho Regno amtres os qaes he huu mjlagobím (129) bramjne pa m10 estimado em syso & em dr° mais avamtaJado que todos hos homees deste oriente he homem mujto nomeado & de gramde credito sam estes gemtios todos de cabellos compridos ha geraçoees amtre estes De barbas compridas que as nom podem fazer outs0 de cabellos compridos tem diuersas seitas & creemças sam sogeitos aos mouros & O Regno De cambaia tera de costa de maãr setemta ou oitemta leguoas he De demtro nom he mujto gramde como nobre E abastado & pulido de gramDes cidades bem muradas uma classe de brâmanes. Mais adiante, ao tratar dos brâmanes do Malabar, escreve a palavra como paladares (foi. 127r). Referindo-se aos patares de Cambaia, Pires diz que «estes são os que passam as cartas se vem de correos por q são seguros dos ladrões» (foi. 131 r). Há aqui possivelmente uma curiosa confusão através de certa associação de ideias. Segundo Dalgado (í.v.). Paladar ou Patamar é uma palavra luso-indiana proveniente do con- canim patiemar (um correio), que significa um estafeta, um correio, ou um barco ligeiro, veloz. (128) Esta crença de que os hindus foram outrora cristãos e vene¬ ravam Nossa Senhora parece ter sido corrente entre os portugueses da índia daquele tempo. Barbosa (I, 115) também o menciona. Sobre a Trindade vide nota 85, p. 173, foi. 126v. (129) Mencionado também mais tarde como mjiaguobim e mjligobim. Ao descrever Surat, Barbosa (I, 149) diz que «Até agora mandava e gover¬ nava nela um gentio por nome Milocochim, que el-rei de Cambaia mandou matar por má informação que dele teve, o qual era muito amigo dos por¬ tugueses.»
A Suma Orienta! 197 & torrejadas fortes os Sres mouros viuem omradamemte tem mujtos cavallos ha Sõr em cambaya que tem qujnhemtos seis cemtos cavallos E o mais sam eguoas casas paçoos gramdes & bem obrados o Rey nom he bem obedecido por causa do pouo estramgeiro Jeerall mente he o pouoo De cambaya pobre & os gramdes Ricos o Rey sera homè de qorêta annos chamado çoltam madaforxaa./ Dizem & afirmam os Rex De cambaia serem criados è peçonha por serem mujto luxuriosos em tamto q se mosqua se chegua a elle morre/ suas molheres se criam no mesmo manJar se cospe he peçonhemto se outrem veste seus panos dizem q morre supitam"* (130) o q eu nom creio/ posto q ho afirmam/ he este Rey dado a toda maneira de viços em comer & luxuria, no all Dizem q he sesudo à moor pte estaa atordado Damfiam Recolhido com suas molheres/ Ho Regno de cambaia tera trimta mjll homees de cauallo tera trezemtos alifants dos quaees seram cemto de peleJa nas beiras do maar a melhor cidade de edifiçios E de Jemte de guar- njcam hee diu/ E que tem mais estramgeiros das cidades do sertão he champanell homde he comtinoada memte o asemto dos Reis de cambay3 tem fremossos paços champanell de mujta Jemte limpa os primcipaes Sres depos o Rey he/ mjlaguobim gemtio Despois he/ chamalc malec/ E outro/ asturmalec/ E o quarto codaudam (131). estes quoatro com ho Rey gouernam tudo he cada huu Destes De mujtos de cauallo quamdo vay ao (130) Barbosa referc-sc com grande pormenor ao Xá Mudhaffar que foi criado no veneno. Varthcma menciona a mesma coisa. Parece que a história era corrente nos princípios do século xvi. Cf. Dames, 1,121-2. Na Miscellanea de Garcia de Resende, publicada pela primeira vez em 1554, há a seguinte estância sobre Samatra: «Há Reis que sâo costumados / peçonha sempre comerem, / de meninos ensinados, / em muy pequenos bocados / te se nela converterem; / e se lhe dão a comer / não lhe pode empecer, e se alguém bebe seu vinho, / ou mosca come seu cuspinho, / morre sem poder viver.» (Est. 91). (131) Estes nomes aparecem no MS. de Lisboa como «milagoly, camlemalle, asturmallee, cadãodão».
198 Tomé Pires /traio de camba/’/ Foi. I31r. pata¬ mares de cambaia paaço E sam mujto acompanhados sam Senhores naturaes do Regno e em que se Reuolue a Justiça & gouernamça Do Reyno E fazemda do Rey e estes sam eleitores do Regno quando morre o Rey sam estes todos Sres de titollo/ tem o Rey molheres & mamçebas athee mjll chamase o Rey Rey da primcipall Jmdia E porque este Regno nom he nobre senom por Rezam do trato necesaria cousa me pareçe fallar delle//. chegado som a falar no trato de cambaya estes sam Jtalianos em saber & tratar ha mercadoria. (132) toda a mercadoria de cambaia he em maão dos Jemtios chamanse guzarates/ o nome gerall/ despois se deujdem em Jeracoes vaneanes bramines pata¬ mares/ certo sem duujda estes tem o traoto em sumo sam homês sabidos na mercadoria tem ho sõo & armonja dela como compre/ em tamto q diz o guzarate que toda a JmJuria sobre mercadaria he de pdoar ha estants guzarates por todas as partidas fazem huus por out°s & outs0 por out°s sam homees diligemtes soltos em trato comtam por algarismo como nos com as nosas propias letras/ sam homees q nom vos dam do seu nem qerem nada de cada huus/ pollo quall sam athee o presemte estimados ê cambay8 De ssua gemtilidade vsamdo porque nõbrecem mujto o Reyno pollo dito trato | haa também em cambaya mercadores do cairo estamtes E dadem dormuz mujtos coraçones E gujlanes que todos fazem mercadaria gramdememte nas cidades Do mãar em cambay8 mas todos estes em comparacam dos gemtios nom vem a comto E moormemte do saber alij deujam dapremder nosas Jemtes que querem ser espuaes E feitores porque ho oficio de fazemda ciemcia he sobre sy que nom Jmpede todo outro nobre eixerçíçío mas aJuda mujto// sam os patamares de cambaia bramenes mais homrrados Amtigamemte decemdem Dos Reis de cambaia porque no tempo pasado eram os Reis bramenes como o som oJe no malabar estes pasam as mercadorias polia terra & os mercadores sam (132) No MS. de Lisboa lc-se: «me parecem mais q italianos no saber e toda a mercadoria.» Ramusio omitiu a referência aos italianos.
A Suma Oriental 199 mujt0 estimados aJnda q pasem por terra de ladrõees como os mercadores vam com huu destes nom nos Roubam e esta priminemcia tem nestas partes E se os Roubam matanse ou feremse com adaguas & os out°s bramjnes com o seu samgue vmtam as Jmagees E arrastãmas athee lhe fazerem Justiça E fazem lha & tornanlhe o seu/ os bramjnes he Jemte mujto esti¬ mada amtre os gemtios/ e estes sam os mais homrados nom comem cousa que fose viua. estes sam os que pasam as cartas se vem de correos (133) por q sam seguros dos ladroêes/ atras (134) na descricam do malabar achares que cousa sam// Asij que os guzarates com os estamtes que estam em cambaya feita cabeça de mjligobím nauegam mujtas naos pa todas as partes adem a ormuz ao Reino de daquê guoa baticalla a todo ho malabar ceilam bemgala peguu syam pedir paçee malaqua onde leuam mujtas mercadorias E Retornam outsa de maneira que fazem cambaya Riqa homrrada primcipall memte cambaia lamca dous braços com ho dereito aferra adem E com o out° malaqua como navegações mais primcipaes E aos outs0 lugares como a menos principaes// hos mercadores do cairo trazem as mercadarias q vem ditalía Como & de greçia de damasqo a adem como he ouro prata azougue trata vermelham cobre auga Rosada chamallotes grãas pannos De geerallmu laa de cores cristalinos vidros armas he cousas semelhantes// lcair°l Adem traz as sobreditas E mais Rujva pasas afiam aguo com ae]e,n. Rosada prata ouro em camtidade & cavallos que adem tem de zeila & barbora & das Jlhas De çuaquem que estam no estreito & dos darabia & vem fazer seu trato ha cambay" Retornam todalas cousas de malaq® crauo noz maças samdallos brasijll panos de seda alJofar almjzqr porcelanas & o mais se pode ver nas mercadarias De malaqa/ & das da terra aRoz triguo sabam (133) Vide nota 127 (pp. 195-6). (134) O copista talvez tenha substituído atras por adiante, como está no MS. de Lisboa a fim de ajustar a palavra ao arranjo da sua cópia. Vide Introdução p. 73.
200 Tomé Pires anjll mamteiguas (135) azeites alaqequas maiegua(136) de sortes baixa como sevilhana todos panos pa trato De zeila barbora cacotra qujloa melimde magadaxoo & lugares outs0 Darabia E este trato he neguociado por naos dadem & por naos de cam¬ baia mujtas De huuas & mujtas De outras/. E com todas as outras partidas ditas trata trocamdo huuas mercadorias po outsa Emtamto que huuas sem as outras se nom podem sosteer quem melhor quiser veer em cada terra as mer¬ cadorias sabera o que Retornam E nom ho exprimo aq1 porq em cada terra se veera a mercadoria que cada huu tem Merca- tem todos os pannos de seda que ha nestas partes todollos darias de dalguodam q serã vimte sortes de panos todos De mujta valia tem cambay aiaqUeqUas anjll pouqa lacar naturall da terra pucho cacho (137) (135) Pires usa a palavra manteigas, que pode significar simplesmente manteiga ou manteiga e banha. (136) Malegua, como aparece no MS. é uma palavra portuguesa que antigamente também se escrevia malega (como no MS. de Lisboa). Hoje escreve-se malga e significa usualmente uma taça ou prato para sopa. Neste caso significará «louça». (137) As duas palavras pucho e cacho usadas por Pires, correspondem a pachak e catcchu. Por vezes os copistas juntam as duas palavras, como por exemplo na edição portuguesa do Livro de Duarte Barbosa (p. 289), onde estas duas drogas aparecem numa simples palavra cacliopucho. Isto levou Dames a crer, depois de ter discutido o assunto com pormenor (i, 155; ii, 173, 234) que era cajeput, «óleo de essência fragrante produzido espe¬ cialmente em Celebes e na ilha vizinha de Bouro» IHobsom-Jobson, s.v.). O nome caieput é derivado do malaio Kayu-putch, que significa «madeira branca»; o produto vem principalmcntc de Melaleuca leucadendron Linn. «grande arbusto ou árvore, havendo muitas variedades, encontra-se desde Tenassarim até às Molucas», também chamada árvore de casca para papel, a madeira da qual é muito procurada na Malásia. Cf. Burkill, A Dictionary of lhe Economic Products of tlie Malay Península, pp. 1431-3. Não se encontra nenhuma referência ao cajeput em qualquer obra antiga portuguesa. Cachopu- cho é referido por Barbosa como um produto vindo de Cambaia para Malaca e China, dizendo mais adiante diz: «cacho e pucho (que são drogas de Cam¬ baia)». Watt não menciona cajeput. Orta trata extensamente de pucho (xvn) e de cacho (xxxi). Pachak é costus, a raiz de Saussurea lappa C. B. Clarke. Catechu ou cutch é uma goma amarelo-claro da Acacia catechu Wild.
A Suma Oriental 201 afiam mujto & bom erva lombrigra(138) tincall alguodam sabam em mujta camtidade pelles cortidas solas mell cera/ De mamti- memtos triguo ceuada mjlho (139) azeite de gergelim aRoz mam- teigua carnes cousas a estas semelhamtes/ malegua baixa de sortes todo de seu naturall E quem vem por demtro da terra firme dos Reinos vizinhos// Hos durmuz trazem a cambaia Cauallos prata ouro seda pedra vme aziche(140) capaRosa alJofar Retornam Das mer- cadarias da terra & das q tem de malaqua p que todo ho trato De malaqua Das suas mercadorias se vinham buscar A cambay1* Retornam hos dormuz aRoz mamtimemtos por primcipal e especiaria trazem Dormuz tamaras moles emfardeladas E outas em Jarros & outas sequas de tres quatro sortes// trata com ho Reino De daquem & guoa & com ho malabar temdo feitores em todalas partes q viuem e estam dasemto como ho fazem os genoeses em nosas partes/ asy em bemgala/ peguu/ Foi. 131 v. trata com hormuz com daquem & guoa com ho mala¬ bar & com out°s (138) Há várias espécies de vermífugos ou erva lombrigueira de Pires. Uma que se encontra em Portugal é a Artemísia variabilis Ten. Coutinho A Flora de Portugal, p. 636. Dames (I, 154), como também vários dicio¬ nários de português-inglês, identificam a erva lombrigeira com o abrótano ou Artemísia abrotanum. Diz, contudo, que o abrótano a que se aludia era «provavelmente a Artemísia indica ou lombrigueira indiana». Watt (p. 93-4) refere-se a várias espécies do género Artemísia encontrado na índia, mas nunca à A. variabilis ou à /I. indica. (139) A palavra milho usada por Pires corresponde hoje em Portugal a maís ou milho indiano, Zea Mays Linn. Certamente não é deste que se trata, pois o nosso milho vulgar teria ido da América para a índia tra¬ zido dali directamente pelos portugueses. Cf. Watt, p. 1132. Há também em Portugal o «milho zaburro» — Andropogum Sorghunt Linn., «milho meudo» — Panicum miliaceum Linn., c «milho painço» — Selaria italica Linn. Coutinho, pp. 65, 67. Pires queria dizer, em vez de milho, o sorgo — painço ou milhetc graúdo, jowaur ou juar e Pennisetum typhoideum Rich. — Junco, ou milhetc espigado, largamentc cultivado em Cambaia e noutras partes da índia. (140) O aziche (vitriolo) do MS. de Paris aparece como azinhaura (aloés) no MS. de Lisboa.
202 Tomé Pires Itrato com malaca/ trato com Jaãoa syam/ pedir/ paçee/ quedaa/ Retornado De huuas mercadarias a suas terras trazemdo a cada huuã as da valia delia emtanto q nom ha lugar De trato omde nom seJam vistos guzarates mer¬ cadores a estes Reinos vam em cada huu anno naõs Do guzarate a cada lugãr uaão Rota batida tinham em calecut os guzarates gramdes feytorias// Em malaca fazem mercadores de cambaia mais fumda- memto q em outra nemhuuã parte amtigamemte avíja ê malaqa mjll mercadores guzarates E doutrs0 guzarates homees Do maar que hiam & vinham quoatro cinq0 mjll homees nom pode viuer malaca sem cambay8 nem cambay8 sem malaqa pa serem mujto Riquas E mujto prosperas/ toda a Roupa & cousas do guzarate sam Da valia De malaca & dos Reynos que com ella tratam pois as cousas De malaqa nom somemte Deste mundo sam estimadas mas do outro quê Duujda serem desejados/ mais larga memte se falara na descricam de malaqa Das suas merca¬ darias se se tolher a cambay8 o trato com mallaq8 nõ viuera por q nom tem omde desabafe suas mercadorias// Hos guzarates forom melhores homees do mãr & que mais navegarom que outas nacoees nestas partes E asij sam em naãos mais avamtaJadas de grandez8 he em Jemte Do maar tem gram¬ des pilotos & sam dados mujto ao navegar hos Jemtios De cam¬ bai8 E amtigamemte os guzarates tinham q nom am De matar nemguem nem em sua companhia nom avia damdar homê Darmas/ se os tomauam & os queriam matar a todos nom Reses- tiam esta he a ley do guzarate nos Jemtios aguora trazem suas naaos mujta Jemte Darmas mouros pa defemsam das naaos estes tratauam amte Do descobrimemto Do canall De malaq8 com a Jaõa pola bamda do sull da Jlha De camotora emtrauam antre çumda & a pomta da Ilha de çomotora E navegauam agracj domde traziam as cousas De maluq° & de timor he do ouro (141) E Retornauam mujto Riquos nom ha çem aníios (141) No MS. de Paris está escrito do ouro. mas o MS. de Lisboa tem bamda e Ramusio Bandam.
A Suma Oriental 203 q deixarom esta nauegaçam em agracij estam as qujlhas amcoras & cousas das naõs guzaratas/ q mostram & dizem que ficarom do tempo dos guzarates//. Porque este Regno de cambaia tinha este trato com rnalaq® vinham estas nações De mercadores tomar suas companhias com os guzarates em suas naãos pa laa E Delas mamdauam suas mercadorias ficamdo estamtes na terra & delles hiam em pesoa .s. maçaris & Jemtes do cairo mujtos arabios dadem prim- cipallmente he com estes abixljs ormuzanos de qujloa melimde magadaxo mombaça persianos .s. Rumes turqmaees armenjos gujlanes coraçones De xiras destes ha mujtos em malaqa E do Reino de daquem mujtos tomauam sua companhia em cambaya/ he gramde trato o de cambaya leuamdo panos de mujtas sortes he boos em cããos (?) (142) & Roupas baixas sememtes .s. alipiuri comjnhos ameos allforua Raizes como de Rvy pomtiz a que chamam puçha & terra como lacar a q chamam cacho (143) (142) Depois de he boos, o MS. de Paris tem as palavras em cããos, cujo significado não consigo encontrar. As duas palavras foram omitidas no MS. de Lisboa c em Ramusio. (143) nigela — A palavra alipiuri usada por Pires é o velho nome português alipivri para as sementes de nigela, pequeno funcho ou cominhos negros — Nigella saliva Linn. Watt (p. 811) diz que esta planta «originária do sul da Europa», usada pelos nativos como remédio ou condimento, é «largamente cultivada na Índia por causa das sementes.» Burkill (p. 1556), contudo, faz o comentário: «Watt afirma que a cultura é larga em algumas partes da índia, mas isto é pouco correcto, sendo raro encontrá-la fora do extremo noroeste do país». Isto inclui totalmente Cambaia. cominho — Cominhos de Pires é o verdadeiro cominhos — Cumicum Cyminum Linn., planta mais ou menos cultivada na maior parte das pro¬ víncias da índia. ameos — Orta (xi) refere-se aos ameos (ânuos ou amis em português moderno) chamando-lhe cominhos rusticus. Isto deve corresponder à erva de bispo a umbelifera Ammi majus, que, como o cominho, pertence à tribo Amminea. Ficalho (Coloquios, I, 148) sugere que Orta «podia dar este nome (ameos) a alguma das Umbelliferae de sementes aromáticas, que são fre¬ quentes na índia.» A palavra foi omitida no MS. de Lisboa e cm Ramusio. fenacho ou fenugraec, a allforua ou alforva de Pires é a Trigonella Os mer¬ cadores que vem a fazer suas compa¬ nhias aquj P a malaca
204 Tomé Pires estoraq* liqido & outsa bofanjnhas Retornauam carreguados de todallas mercadarias Riquas De maluqo bandan china & tra¬ ziam mt0 ouro hos guzarates sam as Jemtes a que mais pesou ser malaqa de vosa alteza & os que hordenaram a treicam q foy feita a Dioguo Iopez de seqra(144) E oje se camta em malaq“ nas praças dapagua que ouue malaqa pollo q fezerom hos malayos por comselho dos guzarates//. (145) foenum graecum Linn. «Unia robusta planta medicinal, anual, expontânea em Kashmir, no Panjáb e na planície do Alto Ganges (Upper Gangetic Plain); cultivada em muitas partes, cspecialmente nas regiões mais altas». Watt, p. 1081. Orta XIII. É também uma planta indígena de Portugal. rampion, Rvy pomtiz ou ruiponliz de Pires (que em português se chama também ruiponto, rapúncio, rapôncio ou raponço), é a Canipanula Rapim- culus Linn., planta de raiz tuberosa comestível. «Ruipòn/o — Farmacologia. ‘Raiz do ponto’, que se parece com o ruibarbo, vem da Ásia», diz Morais, Dicionário da Lingna Portugueza, s.v. (Lisboa, 1789). Isto explica porque Pires diz que pachal; (pucho, que o copista aqui escreveu puçha) é «raizes como rapôncio». catechu — Houve tempo em que se supôs que o cacho ou catcchu era uma terra natural c quando chegou à Europa via Japão, no século xvn recebeu mesmo o nome de Terra Japonica. Vide nota sobre catechu p. 200 (nota 137), foi. 131r. O copista do MS. de Lisboa talvez não conseguisse compreender este trecho da escrita de Pires e simplesmente suprimiu o que não compreendeu. (144) Vide nota p. 388, foi. 165v. (145) No rodapé desta página, pelo mesmo punho tardio das notas prévias, está escrito «aquy fenesse o pr° Io e atras compeça o segio nos Canaris e baticala. Debaixo da última palavra está um asterisco*.
A Suma Orienta! 205 [LIVRO SEGUNDO [DE CAMBAIA A GOA] [Decào — Goa] [dhcão] No gramde E beliçosso Regno de daquem sera noso Recorn- tamemto apartase Do Reyno de cambay® por Junto com maymj ou may(I46) & do Regno de guoa por cara patanam pola terra firme com EIlRey De narsimgua E com ho Reino dorixa por huuã pomta estreita & da bamda de cambaya por cima com as serranjas q estam antre a India & delij he este Reino abastado De mamtimemtos terra mujto aproueitada moor Regno que ho De cambaia De melhor Jemte de gueerra naturall da trra he a gemte desta terra Dacanarjm cavaleiros De ssuas pesoas E a pijonaJem gemte q sofre bem ho trabalho tem este Reino muyta Jemte bramq* avera duzemtos & cimquoemta annos que este Reino he gamçado aos Jemtios De Rumes he turqos & parses como o Regno de cambaia/ tem muJtas cidades na terra firme he mujtos portos no maar// Nauegamdo De maym para ho Regno De guoa sam os portos Do Reino De daquem hos segujntes /chaull/ damda/ matalenj/ dabull/ sangizara/ carapatanam/(147) < 146) Kelvc Mahim. (147) MS. de Lisboa estes nomes lêem-sc como se segue: «chaull dãda matai ine/ dabull/ samgisarra/ carepatão/.» CAULL — Chaul ou Cheul é um lugar antiquíssimo, outrora um dos portos de mar mais importantes na índia Ocidental; chamado ainda Port Chaul nas Admiralty Charts. Como Pires diz adiante, o porto de Chaul já estava em declínio no seu tempo. Está situado no lado norte do largo Foi. 132r. Reino De daquem portos no maõr
206 Tomé Pires cidades primci- paees na terra firme As cidades do Reino de daquem seram vinte Das quãees porto formado pelo estuário do Kondulika Rivcr ou Roha Crcck. Regis¬ tado na carta de Rodrigues como chanll. danda — Há um lugar chamado Dandc no lado norte de Rajpuri Creek, na parte leste do porto de Janjira que deve corresponder ao Danda de Pires. Na carta publicada por J. S. King na sua History of the Bahmani Dynasty (The Indian Antiquary, vol. 28, Bombav, 1899) o lugar aparece como Danda, mas situado no lado sul da angra. Mais para norte na costa, entre Roha Creek e Rajpuri Creek, há um outro local chamado Dande. O nome sobrevive também na aldeia Revadanda, onde existe ainda o forte cons¬ truído pelos portugueses. Chaul e Revadanda têm-sc estendido agora tanto, um cm direcção do outro, que são chamados com frequência Chaul de Cima c Chaul de Baixo. Castro diz que «este Rio de Danda é um dos maiores c mais afamados desta costa ... apartasc 4 léguas de Chaul c de Goa 57», Roteiro de Coa a Dio, p. 48. Nas cartas de Reinei de c. 1517 e c. 1518 Danda aparece ao sul de Dabhol, mas em todas as outras cartas antigas está localizada imediatamente a sul de Chaul. Cifardam na carta de L. Homem de 1554. matalf.ni — Este nome não aparece em nenhuma crónica ou carta portuguesas. Castro (p. 39-48) refere-se a três rios entre Dabhol e Danda, do sul para o norte, o Quelecim, o Beiçoim e o Cifardam. Cifardam corres¬ ponde a Srivardham ou baía de Shrivardham, que Castro acertadamentc situa cinco léguas a sul de Danda. Quelecim é o Bhária, que ele localiza sete léguas a norte de Dabhol e cerca de uma a sul de Beiçoim, dizendo que fica precisamente a dezoito graus de latitude (a lat. exacta é 17° 56' N.) Beiçoim é o Savitri River, o mais importante dos três, do qual ele dá uma carta rigorosa, onde agora fica Port Bánkot. Isto corresponde com certeza à Mataleni de Pires, talvez o rio Mandaba, situado por Barbosa entre Danda e Dabhol c identificado por Dames (I, 164) com o Savitri Rivcr. Mandaba não aparece em nenhuma crónica ou carta. sangizara — A Cinguiçar de Barbosa c Zamgizara de Castro é San- gamcshwar ou Shastri Joygad Rivcr. carapatanam — Castro (p. 23-31) faz uma descrição minuciosa e uma carta fiel do Rio de Carapatão que corresponde exactamente à entrada do porto de Vijaydurg ou Vijayadurg, à entrada do Vághotan River. Ele diz que «é o mais nobre rio c bem assombrado de todos os que correm nesta costa da índia; c é tamanha a sua bondade, que nenhuma suficiência abasta para se acabar de louvar». Segundo o West Coast of India Pilot, Vijaydurg é hoje um porto de pouca importância. Deve estar relacionado com o Arapatam referido por Barbosa. Dames (I, 169) tomou os nomes Arapatam e Muruary como significando duas espécies de legumes que ele tenta relacionar
ESTAMPA XX A Costa Ocidental da índia de acordo com Tomé Pires.
ESTAMPA XXI Carta de Francisco Rodrigues (foi. 28) representando a Costa Oriental da Arábia, parte oriental do Golfo Pérsico, Costa Ocidental da índia. Ceilão e as Ilhas Lacdivas.
A Suma Oriental 207 estas sam as mais pinçipaees em Jemte/ bider/ visapor/ çidapor/ solapor Rachull/ çagar/ quellberga queher/ bayn/(148) chamase o Rey coltan mahamud xaa Depos ho Rey Jdalhan Nome do njza malmulc/ cupall mullc/ hodauan/ mjliquj dastur(l49 estes Rey & dos senores com dois nomes de plantas indianas, arburrah e mohri on mahasúri. Dalgado P‘"ç'P°es (II, 455, 507) também diz que Arapatão é o arburrah ou ervilha vulgar. Pisam salivam Linn., e que Muruary é mulayari. palavra malaia para «talo de bambu, que é usado cm várias partes como género alimentício». Embora a pontuação defeituosa da edição portuguesa de 1821 (p. 293) possa justificar esta con¬ fusão, parece mais provável que Barbosa atribua as palavras Arapatan e Muruary a «outros pequenos lugares que são também portos de mar» c não «legumes». O nome sobrevive ainda na aldeia de Kharcpatan, na margem esquerda do rio, a vinte milhas da foz. (148) No MS. de Lisboa estes nomes lêem-se como se segue: «badir vesapor çidapor solapor Rachull eugar/ quell/ berguaqueiher bain». BiDtR — Bidar, no Estado de Hyderabad. Tanto Barbosa como Barros mencionam Bider. visapor — Bijapur. Bisapor em Barros, Visapor cm Castanheda. solapor — Sholapur, na Bombay Provincc. rachull — Raichur, em Hyderabad. çagar — Sagar, em Gulbarga District, Hyde¬ rabad. Calbergá, em Barros. queher — Koyer ou Kohir, no Bidar Dis¬ trict, Hyderabad. Querhij, em Barros. bayn — Bhaja, pequena cidade antiga em Poona District, Bombaim? Ou Badami, uma outra cidade antiga no Bajapur District, Bombaim? Vay. em Barros. (149) mahamud xaa — Mahmud Shah, Bahmani, Rei do Deccan. idalham ou Idalcam— Adil Khan, significando «O Senhor justo». A forma usual entre os cronistas portugueses era Idalcão, Adilchan, Hidalcão c Hidal- chan; mas Orta (X) chama-lhe Adelham, o que se assemelha mais ao Idalham de Pires. Este título foi estendido pelos portugueses a todos os reis da dinas¬ tia maometana dc Bijapur. niza malmulc — Nizam-ul-Mulk, «O Regu¬ lador do Estado». Barros (II, v, 2) dá os nomes dos principais «capitães» dc Mahmud Shah. que detinham o poder no Deccan quando os Portugueses chegaram à índia, entre eles os quatro mencionados por Pires. Este foi chamado Nizamaluco por Barros assim como pelos outros cronistas, cupall mullc —Kutb-ul-Mulk, «A Estrela Polar do Estado»; chamado Coianaluco por Barros e Cotalmaluco por Orta. hodanan ou Hodan an han. Talvez Kwaja Mukaddan, o Coje Mocadam de Barros e o Mohadum Coja de Orta. miliqui dastur ou Milic Dastur—Malik Dastur ou Malik Dinar Dastur-i Mamalik, o Abexi capado de Barros, mais tarde referido por Pires como um «escravo abexim do rei». No MS. de Lisboa estes nomes apare-
208 Tomé Pires quoatro senhores mamdam ho Regno & os q em seus titos soçe- dem este Jdalhan de naçao he turqo de torquja seu pay foy espauo do pay deste Rey he pollo achar homem de preco ho fez çabay0/ este nome de cabaio he nome do siao asy como capitam da guarda do Rey com ha guouemamça Da metade do Regno o que tem tall carg° chamase cabay°(150) he da esemçia Do Reino oficiall cabayo he mujto gramde sõr o que tem esta dinjdade e este menjstra o Rey de tudo o que hã mester/ neste carguo viueo o pay deste que ora hee// foy o cabaio pasado caualeiro muj‘° estimado E dizem que ouue quoremta batalhas campaees E que nas trimta foy desbaratado & as dez vemçeo morto este ha pouco tempo o filho chamouse Jdallcam que qr Dizer capitam Jeerall em todo o Regno E lamçou maão do Rey E apousemta o homde o Jdal- cam ao coltam mahamud xaa/ algum tamto lhe faz cortessia teue este atrevimemto ho ydalham comtra vomtade dos quat" & do Rey por ter de sua Jurdicam toda a Jemte branqa Do Reino pola mor parte por ser estramgeiro & turqo & teer taall ofiçio chegaronse os asolldadados a elle Eicerto/ bider/ todas as cidades Do Regno pola moõr parte sam Da Jurdição do Jdallcan/ emquanto este era cabaio eram estoutros senhores tam validos E omrrados como elle Despoijs que se chamou Jadlcan ficarom todos debaixo & por estes estarem escamdalizados tem comti- noadamemte guerra como se dira adiamte/ os portos do maar Deste Regno sam todos do cabaio eiçepto chaull & damda// o sõr de chamase o sõr de chaull & damda njza mall mulec seu pay chaull & deste era turq° de nacam seu espauo Do pai do Rey de daquem damda cem bastante misturados: «mamedxa/ idalham niga/ mall malet/ odanam/ melique destur/». (150) Çabaio. Tem havido bastante especulação acerca da origem e do significado deste titulo Çabaio ou, como mais frequentemente escrito pelos cronistas portugueses, Sabaio. Barros (II, v, I) diz que quando os Portugueses chegaram à «índia, era Senhor desta cidade Goa um Mouro por nome Soay Capitão de EIRei do Dccan, a que comumente chamamos Sabayo». Dames (I, 172-4) já tratou extensivamente desta questão.
A Suma Orienta! 209 E fiquou gramde sõr & tem mujtos lugares na terra firme tem este mjll homees bramcos da persija de peleja mjll de cauallo/ Este cupall mulec he gramde sõr outros lhe chamam cutell mamaluq0 he naturall do Reyno De daquem nom foy catiuo he homem De mujto preço mujto estimado na terra Dizem que tem este Domeês bramcos de cavallo perto De mjll & qnhemtos & Este he natural do Reino como o de cima E de tamta Jemte he terras Eeste mjlic dastur he abixij escpauo DelIRcy tam homrrado casy como cada huu destes he fromteiro com narsingua esta em quelbergua tem Jemte de guarnjçam esta cidade ho cabayo lha tomou E ora estam de guerra hos quatro senhores de cima Juntos em acordo tem de cavallo asy dhomeês bramcos como Da terra perto de doze athe qujnze mjll homeês estes sam Juntos comtra ho cabayo ho cabayo que ora he Jdalcan tem outa tanta Jente E tem comtinoadamemte guerra huus com outros sam os soldos desta terra mores q nenhuus destas | partes aas vezes sam mall paguos/ Tem este Regno aJmda mujtos Jemtíos naturaees da terra E mujtos bramenes estimados todo o Jemtio deste Regno qmdo morre he costume se tem molher queimarse por hir dar companhija a seu marido homde estiuer se o nom faz fica desomrrada nom somemte ella mas seus paremtes todos E as vezes nom tem ellas mujta vom- tade & os paremtes & os bramjnes as mouè a se quejmarê por tall q seu costume nom se quebre// O Regno De daquem he cavaleiroso tera de cavallo trimta mjll de pionaJem sem comto Jeerall memte neste Reino & no de guoa vinham estas Jemtes bramcas a q chamamos Rumes ganhar soldo E omrra. este Rey daua nomes como mjliqes (151) .s. fuão mjlic E o de mais homrra he han ou can (152) E vinham (151) Mjlique ou Mjlic — Ma/ik, que de facto significava rei, mas era usado como significando governador ou senhor. (152) Han ou Can-Khan, que significa príncipe. /cupall mulec/ /hodau an han/ mjlic dastur. Foi 132v.
210 Tomé Pires Mantimen¬ tos Trato do Regno de daqem ganhar estes t°s sam os cãns aquy m*° prezados & homrrados digo caees de can nom por anjmaes de çaça he a Jemte deste Regno soberba presumtuosa/ ho Rcj he dado ao amfiam & as molheres njsto pasa seu tpo E o seu Jdalcan nom he menos sera elRey de qoremta annos & o Jdalcan de trimta. homêes ambos guordos & bem gordos que se dam a todo viçio avera no Regno De daquè De turquos & Rumes & arabios atee Duzemtos de persijanos avera Dez ou doze rnjll homêes De peleJa quem neste Reino mais Jemte bramca tem mais poderoso he tera cimcoenta alifamtes este Regno/ tem os cavallos arabios & persyanos gramde valia/ q se nom poderá creer// Tem ho Regno de daqem aRoz em gramde auomdanca alguu triguo Carnes tem mujta arequa & mujto betelle//. Amtiguamemte teue gramde trato primcipall memte dabull era escalla Riqua nobre E homrrada bom porto de mujtas naõos E vosa alteza tratou tam mall a estes portos q ficarom destrujdos E diu se fez de matos gramde com fauor de uosa alteza// tem aJmda gramdes mercadores he faz trato nom a decima parte Do que soya eram estes portos escala dadem athee elles & delles athee malaq3 tratauam todas mercadorias ê grosas naãos De mujtos mercadores estauam estes no meio bõos portos terras fartas/ de mta agoa desembarcauam aqui a moõr parte dos cavallos que Recolhia ho Regno De daquê eram estes portos Ricos & dos dritos delles era o Rey de daquê & o seu cabayo & o nazimall mulec De gramde drt° & isto lhe fazija/ daar gram¬ des solldos mas aguora que o capitam Jerall (153) tem mudada esta neguoçeaçam ao polido Regno De guoa o Reino De daquem nom pode mujto durar è sua homrra ho Camjnho estaa aberto pa se perder sem Remedio ou guoa pa ser a moor cousa Do mumdo(154) todas estas cousas mostra ho tempo amdamdo a (153) Afonso de Albuquerque. (154) O tempo provou de facto que Pires tinha razão na sua profecia — no que respeitava ao Oriente.
A Suma Oriental 211 Rezam De asy ser vista crara esta sem comtradicam/ a q se faziam em dabull gramdes tratos E mujto Riquos/ memtado na parte Dassija foy o porto de chaull & dabull. Dabull nom foy tamto por Rezam da aguoa que tem solobra// soprados amdam os seguidores De mafamede vaise gastamdo o Redicall a estes q tanto prosperarom//- Tem este Reino De daquem as mercadorias segujntes/ Merca- beirames pannos bramcos & de cores Jmfinjdade beatilhas De dorias que Jerall memte os mouros & quelijs fazem touquas gram suma que abasta ho munido Destas duas sortes fazem também neste Reino matamunguo preto que vali pa diua(155) & pa abixia/ a força do betelle que se chama folio Jmdo(156) vay da
212 Tomé Pires Foi. 133r. Regno de guoa Iportos de Imaãrl [goa] Aguora se nos faz ho camjnho pilo soberbo Regno de guõa. chaue das Jmdias pma & seg"a Diujdese Do rregno De daquem por çarapatanam no maar Rijo majs pincipaall Da Jmdia E da bamda Donor por cimtacora/ pola terra firme com ho Regno de daquè E com ho Regno De narsijmgua a limgoaJem que se fala neste Regno he conconjm ffoy o Regno De guoa sempre mujto estimado polia melhor cousa q ellRey de narsyng3 tinha asij honrrada como proueitosa os Do Regno de daquê lhe ganharom pte Deste Reyno E despois o cabaio velho pay do que oJe viue o acabou de ganhar dos Jentios avera quoremta & cimq0 annos este Reino he do cabay0 & tamto que se aJuntou ao Regno De daquê foy guoa cabeça de todo o Regno de daquè E guoa/ a limgoaJem Deste Regno De guoa nom he como a de daquem nem como a de narsimgua he sobre sy he a Jemte Deste Regno esforçada avisada E que sofre gramdemente o trabalho asy homees Do maãr como Da terra//. tem ho Regno de guoa no mãar Jumto com çarapatanam/ damdriuar/ bamda guoa velha/ E noua/ aliga/ ancoll/ vpale Rijo de sall a ponta darrama cimtacora amJadiua/ (157) amtre (157) No MS. dc Lisboa estes nomes lêm-sc como se segue: «damda/ mujbamda/ guoa a velha/ & a nova alimga/ amola/ paçc/ o Rio do Sall/ apomta da Rama/ çimtaçora/ amgediua/.» damdriuar — Devgad ou porto Devgarh. Três léguas ao sul de Carapaião. Castro (p. 33) situa o Rio dc Tamaraa. com «huma bahia muito fcrmosa casy em forma çircular», que corresponde ao porto Devgarh ou Damdriuar de Pires. Cerca de dez milhas para o interior, na margem direita do rio que desagua cm Devgarh, há uma aldeia chamada Tamhara. A carta de c. 1510 tem dendbasya entre dabull e goa. Um dos portos mencionados por Castro pode ser o Muruary de Barbosa (Vide nota pp. 206-7), talvez o Damdriuar de Pires. banda — Para o sul o único porto importante antes de Goa é Vcn-
A Suma Orienta! 213 estes portos ha rrios E naãos amtigamemte E aguora navegam guria, dezasseis milhas a és-sueste da qual fica a cidade interior de Banda. Banda é também referida por Barbosa e Barros como um porto de mar, aparecendo como banida nalgumas cartas portuguesas, sempre a sul de Goa. guoa velha — Velha Goa. noua guoa — Nova Goa ou Pangim. Já cm 1433-4 Ibn Batuta escrevera: «Há na ilha (de Sãndabúr, ou Goa) duas cidades, uma antiga, construída pelos pagãos; a segunda construída pelos muçulmanos quando conquistaram a ilha pela primeira vez». Cf. Hobson-Jobson, s.v. Sindábur. aliga — Este deve ser o Kalinadi ou Liga River, chamado por Barros «rio Aliga de Cintacora» (I, ix, 1); mas, vindo imediatamente depois de Goa, parece estar mal colocado. ancoll — Sugere a cidade de Ankola, numa angra treze milhas a sudeste da foz do Liga ou Kalinadi River. Ankola é a Ancôla que Casta- nheda (III, xxxiii) diz ficar a quatro léguas de Anjediva, e que é mencionada por outros cronistas. Ancola aparece entre cintacala e mergeo no atlas de D. Homem de 1558. Mas há também, depois de Goa, na costa sudeste da península de Mormugâo, um local chamado Colla ou Culua, na foz de um pequeno rio em Colla Bay, a que os portugueses chamam Mar de Colla. Talvez que a Ancoll de Pires corresponda à «tanadaria de Colator», porto de mar no Distrito de Goa, mencionado por Barros (II, v, 2). vpale—Há um pequeno local chamado Pale, Palee ou Paula no lado leste de Colla Bay. Como todos estes portos são indicados sucessivamente, de norte para sul. parece que Ancoll, de facto, corresponde a Colla, embora possa haver alguma confusão com Ankola e a má colocação de Aliga. rijo de sall —Sal River, a dezasseis milhas para sudeste de Pale. Aparece em algumas cartas antigas portuguesas. ponta darrama — Cabo de Rama ou Cape Ramas, quatro milhas e meia a sudoeste de Sal River. Aparece também em várias cartas antigas portuguesas. cimtacora — Castanheda diz que «uma légua dali na entrada de um rio de água doce que se metia no mar estava uma grande fortaleza chamada cintacora» (II, xiii). Quase todos os cronistas se referem a Cintacora como um local fortificado ou como um rio, muito próximo da ilha Anjediva. Barros (I, viii, 10) chama a este rio Aliga de Cintacora c refere-se à origem da fortaleza. O rio é o Kalinadi, antigamente Liga River. «No lado norte do rio, precisamente dentro da entrada, no cimo de uma colina de 66,4 m estão os restos de um velho forte e numa colina a cerca de um quarto
214 Tomé Pires E porque estas cousas sam do Regno de guoa somemte se dira de guõa Da bamda da terra firme tinha cidads E villas mujtas tenadarias (158) de gramdes Remdas E de terras muy aprouei- tadas que Jmda estam em poder de mouros mas pois a gram çidade de guoa que he chaue de tudo he em poder & seruiço do muy alto ds o all nom tardara mujto//. Asij como as portas sam defensam das casas asy os portos das proujmcias & Rcgnõs sam pa emparo susidio primcipall guarda os quaêes tomados soJuzgados em gramde agonja sam postos os taèes & com quall qr Discordija que em sij tenham ou com seus vizinhos lloguo se perdem por nom serem socorridos quanto mais q estos Regnos nom tinhã outa saluacam se nom a çidade he porto de guoa como cousa mais primcipall/ coua de ladroees turquos Rumes E Jemte q morre comtra nosa fee era guõa aparelhauase guoa pa gramde perda pa os xstaõos E o Juizo de ds mudou a perda a elles que plía tomada De guoa nom he duujda a mourama dar gemjdos guoa era lugar des- posto pa se fazerem ligeira memte as armadas è huu anno dos mouros que em suez nõ se faram em vimte// dc milha para leste estão as ruínas de um outro forte. A cidade de Sadas- hivagarh (Sadashivgad) fica situada pouco a norte destas colinas.» West Coast of Índia Pilol. Toda esta localidade ainda se chama Chitakuli ou Chitakul, o que corresponde à Ciniacora dos portugueses. Esta deve ser a Cinlabor do atlas marítimo Mediei (1351) ou a Chinlabor da carta catalã (1375-81), que tanto intrigou Yule (Calhay. tv, 65, etc.)c Damcs (i, 171-2, 182). Já aparece como Rio de cimlacolla. ao sid das ilhas de gao, na carta dc Rodri¬ gues da costa ocidental da índia, como Cymtaquola na carta de P. Reinei de c. 1517 e Cimtacola noutras cartas antigas. amjadiua — Ilha de Anjcdiva. aJadiua na carta de Rodrigues (foi. 28). (158) Tanadaria. O posto do lanadar, significando na realidade «chefe da policia local», no Industâo. A palavra foi adoptada pelos por¬ tugueses na índia que a usaram num sentido mais lato, para a autoridade militar de uma cidade pequena, ou recebedor de impostos e direitos alfan¬ degários. Tanadar ou Thanadar está ainda cm uso na índia britânica no sentido civil.
A Suma Oriental 215 quem duujda que a Jemte no desbarato do Regno de guõaa se tomarom naõs que os mouros tinham pa comnosquo pele¬ jarem que despois forom a bamdan carreguar de maças pa nos/ a Juizo De noso sõr he Jncomprensyuell E cada huu atemta- memte Julge que mor perda Receberom os mouros por guoa do que pode ser quamdo perderem adem guoa nom somemte sopea o Reino de daquem/ mas aJmda ho de cambaya tem afo- guado/ maoo vizinho tem os mouros em guoa. os mouros pola maneira que forõ guanhamdo os Regnos hos vam perdemdo o Regno sem portos casa he sem portas noso sõr he o que qr ho perdimemto de mafamede E Joane(159) o espíuão o faz trigoso Ja he tempo/ Ja nas bamdas das Jmdias nom faça nen- guê fundamèto de mouros somemte Dos que andarem a laurar nas serranjas tem ho Regno de guoa as Jmdias adrjto aJmda que nom queiram he pulido de famosos vergeiís aguoas cousa mais fresca das Jmdias E mais abastada esta de mamtimemtos domde se costumou amtre os Rumes E Jemtes brancas prati¬ carem vamos ao Regno de guoa gostar das sombras E aruoredos E tomar o sabor do doçe betelle/ nom he Duujda o Regno de guoa ter betelle mjlhor q em outra parte ssuaue gostoso mujto estimado E de guoa Jerall memte se carregua delle pa adem ormuz & canbaya areça ou avelana Jmdia(lóO) tem mais & melhor que out° luguar/ aRoz ai) se carregua & da terra firme de Regnos mujto alomgados emtrauam em guoa grãdes cafilas De bois carregados De mercadarias se estas cousas forom no tempo pasado qmta mais Rezam sera dai) por diamte/ sem duujda q se fara gramde escalla moor Do que nunca foy E os mercadores folgaram com nosa Justiça mãis que com a q lhe fazem os mouros// Ho Regno de guoa numqua Deu a vamtaJem a chaull tratava Foi. gramdememte tijnha mujtos mercadores De todas nacoees (159) São João, autor do Apocalipse? (160) A noz da Areca catechu Linn., a noz de areca ou a noz de betlc era chamada pelos portugueses «avelã da índia» ou avelana Indiae.
216 Tomé Pires trato. Jemtes de gramdes cabedaèes era gramde o trato delia sempre tinha mujtas naaõs tem bom porto & nam somemte ysto mas na neguoceção das armadas que se nelle faziam era luguar des- posto por Rezam da madeira & dos ofiçíaees & por ser mujto abastado mujto forte sempe mujto acompanhado de Jemte bramqa chêa de soberba E nom sem causa por que ho Regno de guoa Jaz no amaguo de todas as Jmdias aquj se celebrauã gramdes festas ao profano mafamede que sam mudadas ao nome de Jhuu xpo hee a cidade De guoa tam forte como Rodes tem quatro fortalezas outas muj Riqa memte obradas pollos lugares necesarios em dano do nome de mafamede//. De todos os Regnos Darabija petrea dormuz da persya do Regno de cambay3 traziam cavallos a guoa E daquj se espa- lhauam pa o Regno De daquê & de narsijmgua amtigamemte/ Despois de guoa ser tomada dos mouros avja narsymgua cavallos por baticala E asy Recolhia guoa todallas mercadarias Destas partes Retornauam beirames biatilhas aRoz arequa betelle he m,os pardaos & orãos porque aquj valem os cavallos mujto ha cauallo q vali oitocemtos pardaõos moedas De trezemtos trinta cimq° Rs (161) cada huuã// Recolhia mujtas especiarias & mercadorias destas outas bamdas em camtidade// Tinha o Regno De guoa mujtas Naãos q Nauegavam pa mujtas partes he as naõs De guoa eram estimadas fauorecidas em todas as partes por q ha mourama tinha toda sua fortaleza nestas partes em ho Reino de guoa a gemte q navegava he naturall da terra os Do maar porque ho Regno de guoa tem boa Jemte de maãr que sostem o trabalho asy que nauegamdo os de guoa (161) pardaos — Nome popular entre os portugueses para moedas de ouro ou prata da índia Ocidental com o valor de 360 reis e 300 reis rcspec- tivamente. Os 335 reis indicados por Pires como o valor do pardao do seu tempo corresponderiam hoje [1943] a cerca de treze xelins, com quatro ou cinco vezes o seu poder de compra, oraos — Moedas também chamadas horaos ou oras pelos portugueses, equivalentes a pagodes (Hobson-Jobson, s.v. Pagoda c) ou pardatt de ouro (Dalgado, s.v. Orá).
A Suma OrientaI 217 em outs0 lugares E os das outsa partes em guoa era seu trato gramde domde se Recolhiam gramdes Remdas dos drrtos Das mercadorias das amqoraJes & dos drrtos da terra das tenadarias eu ouuj mujtas vezes dizer q guoa com seu termo asy, dos drrtos de tudo o que vem a ella como de seu naturall Remdia cada huu anno quoat° cemtos mjll pardaoõs E segumdo suas cousas parece ser asy//. Neste Regno de guoa ha mujtos Jemtios mais q no Regno jemtios De daquem delles muj homrrados & de gramdes fazemdas E na deste mão destes Jazem todo o Regno casy/ porque sam naturaêes Regno E tem as terras & acodem com as Remdas sam Delles homees fidallguos de gramdes Jemtes & terras suas p®8 mujto estimados viuem em suas posiçoes cousas mujto alegres & viçosos Riqos hos Jemtios Do Regno De guoa sam mais validos q hos do Regno de cambay3 tem fermosos templlos seus neste Regno tem sacerdotes ou bramjnes de muj(as maneiras ha amtre estes bramjnes geraçooes mujto homrrados delles nõ comem cousa q tiuese samgue nem cousa feita por maão doutrê sam estes bramjnes em toda a terra acatados moor memte amtre Jemtios servem De levar mercadorias E cartas segura memte pola terra como os De Cambaya os pobres que os Riquos tem primjnencia de gramdes sres sam agudos avisados letrados em sua creemça nom se fara huu bramjne mouro que ho facam Rey// As Jemtes do Regno de guoa por nenhuu tormemto com- fesam cousa q façam sofrem gramdememte so em ser atormem- tados de diuersos tormemtos amte morrem que comfesarem o que Detremjnam de calar E as gemtis molheres de guõa sam geitosas no vestir/ as q dançam & volteam o fazem com melhor maneira que todas as destas partes//. custumase gramdememte neste Regno de guõa, toda molher Foi. I34r. de Jemtio queimarse por morte de seu marido amtre sy tem todos ysto em preço & os paremtes delia fiquã desomrrados quamdo se nom querem queimar & elles com amoestacoes as fazem queimar nas q de maa memte Recebem o sacrefiçio E as q de todo pomto se nom queimam fiquã pubricas fornjcarias
218 Tomé Pires E ganham pa as despesas & fabricas dos templlos Domde sam freigesses he nisto morrem estes gemtios tem cada huu huuã molher por hordenanca mujtos bramenes prometem Castidade & sostenna sempre// Nos out°s portos do Regno De guòa se carrega mujt0 aRoz sall betelle areqa em que tratã cada huu Destes Rios tem povoa- çoêes aRedadas daguoa com temor/ os q Destes sam seguros nauegam os que nam perdemse. estam Da maõo do cabay0 com capitaees q Recolhem as Remdas da terra & delles com Jemte De guarnjcam de cavalo por que tem comtinoadamemte guerra com as terras da província de narsymgua//.
A Suma Oriental 219 [LIVRO TERCEIRO] [DE BENGALA À INDO-CHINA] [Bengala — Aracâo — Fcgu — Sião Birmânia — Camboja — Champal — Cochim-China] [bengala] hos bemgalas sam mercadores de gramdes fazemdas honièes que nauegam em Jumcos viuem em bamgala gramde numero De parses Rumes turqos arabios mercadores de chaull E dabull he de guoa a terra he mujto abastada de mujtos mamtimemtos De carnes pescados arrozes triguo barato ho Rey dela he mouro homem de peleJa tem gramde nome antre hos mouros/ ha Jète que tem a gouVrnamça do Reyno sam abixíjs estes sam ávidos por cavaleiros sam mujt0 estimados os Rex seruense em suãs Camaras Delles sam estes pincipaêes capados estees taees vem a ser Reis E gramdes Sres no Regno os que nom sam capados sam homees da guerra a esta nacam hobedeçe o Regno por medo despois do Rey em bemgala se custumã os capados mais que em outra parte do mundo he gramde parte Delles capados/ os bemgalas pola maior parte sam homees pretos nedeos Jemtis homêes agudos mais que todas as nações sabidas & ha aguora setemta E quoatro annos que em bemgalla se vsa ho costume de paçêe que quem quer que mata o Rey fica Rey tem E creem que nenhuu nam pode matar o Rey sem con- semtimemto de ds E aquelle fica por Rey E desta maneira Duram hos Reis muj10 pouco. Reynam sempre Deste tempo athèora. abixijs hos que sam gramdes pryvados do Rey asij se faz ysto que o Reyno nom Recebe aluoroço hos mercadores viuem asose- guada mamte he Ja custume/ Damtes nom se fazija asy mãs era de pay a filho tomarom este Custume de paçee & sosteno gramdememte//. bemgalas sam gramdes merca¬ dores E mujto soltos emsinados na merca¬ doria sam homees domésticos os merca¬ dores sam fallsos todos/l. H Manei¬ ra do soçedi- memto Do Regno! i.
220 Tomé Pires Estado do Rey. Reis tribu¬ tários ao Rey de bemgala. Ho Rey de bemgala he poderoso (162) tem muj,a Jemte De cauallo/ tera em seu Regno cem mjll homês de cauallo peleJa com Reis gemtios gramdes senhores E moores que elle mas ho Rey de bemgalla por caussa de ser mais chegado Ao maãr tem mais eixerçiçio De guerra he pervalece sobre elles he mujto dado aas armas he mujto Mouro De vomtade ha trezemtos annos que os Reis deste Regno se tornarom mouros he terra mujto Riqua // Comfijna EU Rey Dorixa com bemgalla Da bamda De choro- mamdell. he gramde rrey este he he seu trebutario Este tem mujtos alifamtes he he Rey primcipall he Riq° desta terra sam os boos Diamamtes//. Comfyna Da bamda de peguu com bemgalla Raçam(163) este tem muj,os cavãllos he he guerreiro e esta sempre com elle em guerra E este he também trebutarjo ao dito Rey De bemgalla// ElIRRey de coos(164) he Jemtío Dizem que tera setemta mjll homèes De cavallo & também he trebutario a elle/ Este Regno De cõus tem mujta pimemta & mujta seda he amfiam// EIlRey De típura(165) também he Jemtio no sertão E tre- (162) No tempo de Pires o soberano maometano de Bengala era Alauddin ou Ala-ud-Din II, que reinou de 1499 (?) a 1511. (163) Este é o Arcattgil de Barbosa e Arraçam, Aracani, Arracão. Aracão ou Racão dos cronistas e das cartas portugueses. (164) Coos ou Cõus. Caus no MS. de Lisboa. Na sua descrição de Bengala, Barros (IV, ix, 1), depois de se referir ao Reino de Arracam, men¬ ciona o Reino de Cou. É provável que Coos corresponda ao Cou de Barros. Ele escreve «dizem os Bengalas que. fizeram-se cm liga os Tiporitas com os do Reino de Cou, também inimigo de Bengala, com que lhe levantaram a obediência; e segundo este Reino de Cou é grande, e tem mais gente de Cavalo que nenhum de seus vizinhos e é áspero por as muitas serranias que tem, pudera por si só conquistar Bengala, quanto mais ajudado dos Tiporitas que é gente mui belicosa». (165) O estado de Tripura, em Bengala, que aparece como Reino de Tipora na carta de Bengala de Lavanha, por ele, em 1615, acrescentada à sua primeira edição da Década IV de Barros. Bocarro chama-lhe Tipara. ch. xeix.
ESTAMPA XXII Carla de Francisco Rodrigues (foi. 24) mostrando Ceilão, Ilhas Nicobar e o Estreito de Malaca.
ESTAMPA XXIII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 33) do Golfo de Bengala, com parte de Ceilão c as Ilhas Andamani e Nicobar.
A Suma Oriental 221 butario seu este he de muj,os alifãtes E sôr De todos estes quatro /este Reis sam gramdes Srês seus vasallos nos Regnos destes se fazem tipura as cousas Ricas que ha em bemgala E porque nom podem viuer ,em[ sem ho maãr obedeçenlhe por causa De dar saída a suas mer- m“''° algodaml cadorías aguora avera tres annos q sam aleuamtados comtra jmfjmí/0i bemgala tem gramde guerra E nom lhe obedeçem//. tem guerra ElIRRey de bemgala sempre com o Rey de dely Foi. 134v. E peleJam os capitãees & Jemte De huu E Doutro sempre o Rey De dely hc mujto mor senhor que ho Rey De bemgalla mas esta afastado De bemgalla por Jornada De quinze dias E o camjnho nom tem muy,a aguoa E por esta causa nam he obidiemte o dito Rey De bemgalla ao dito xaqedarxa (166) Rey De delij Este Rey he Jemtio gramde Sõr E mujto temjdo De gramdisymo numero De cauallos alifamtes & de Jemte// Ho primcipall porto he o da cidade de bemgalla (167) Domde portos De bemgalla (166) Sikandar Lodi, que reinou até 1517. (167) «A cidade de Bengal» era a antiga capital de Bengala, a grande cidade histórica de Gaur ou Gour. As suas ruinas, estendendo-se sobre uma imensa área. ainda existem a algumas milhas para sul do Bazar Inglês, na margem oriental do velho canal do Gangcs. Quando Pires escreveu esta informação, Gour estava em pleno esplendor; tinha sido. embora com altos e baixos, um grande centro durante alguns séculos. A identificação da chamada «Cidade de Bengala», a que Varthcma c Duarte Barbosa tam¬ bém se referiram tem levantado muita controvérsia. As opiniões têm-se dividido principalmente entre Gaur, Chittagong c Satgaon além de vários outros locais. Estudando c discutindo novos dados, extraídos principal¬ mente da Suma de Pires, das crónicas portuguesas e cartas antigas, tratei deste assunto interessantíssimo, pormenorizadamente, cm conjunto com o de Satgaon (Sadegam), cm dois artigos — The 'City of Bengal' in carly reports c A ‘Cidade de Bengala no século XVI, publicados respectivamentc no Journal of the Royat Asiatic Society of Bengal e no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa. Cheguei às seguintes conclusões: (I) A ‘Cidade de Bengala' dos escritores dos princípios do século xvt era Gaur. Há muitas razões a favor desta identificação, mas o argumento decisivo é o facto de Tomé Pires mencionar a ‘Cidade de Bengala’ e Satgaon como locais dife¬ rentes e dizer que aquela grande cidade de 40.000 fogos, fica a dois dias
222 Tomé Pires ho Regiio tem ho nome vam ê dous Dias Da foz pollo Rijo a çidade E dizem que no mais baixo De maree vazija tem tres braças a cidade sera de coremta mjll vezinhos o Rey tem seu asemto nesta cydade sam casas Dola todas somemte ha do Rey he De adobes bem obrada este Rijo he o ganJes Dizem os bem- gallas q vem do çeõ/ Ho outro porto he sadegam(168) comtra orixa he bom porto tem boa foz he boa cidade Riqua homde ha mujtos mer¬ cadores sera de dez mjll vizinhõs estas sam as primçipaêes cidades De bemgalla De mercadores na terra firme ha outas mas he cousa pequcnã he muj10 forte E de Jemte De guerra E do scrtaõo com- tinoadamemte tem guerra// orixa que he no Regno Doríxa he porto da cidade doríxa esta Junto com ho maãr cultarey arjamom/ paleacate/ naãor/ nagapatam do gramde E nomeado turucoll De narsijmgua/ tudo ysto sam portos na bonua qlim terra De narsymgua// (169) de viagem rio acima, o que exclui Chittagong. (2) Mais tarde, contudo, quando os Portugueses se fixaram em Bengala, a designação de ‘Cidade de Bengala' correspondia a Chittagong como se prova com vários cronis¬ tas portugueses e cartógrafos do século xvt. (3) Tanto quanto é do meu conhecimento a designação ‘Cidade de Bengala' nunca foi aplicada pelos Portugueses a qualquer outra cidade ou porto de Bengala. (168) Satgaon é hoje uma cidade arruinada a noroeste da cidade moderna de Hugli, a vinte e três milhas para norte de Calcutá. Foi a capital mercantil de Bengala desde os dias do governo hindu até à fundação de Hugli pelos Portugueses em 1579. Os Portugueses dizem O Goli ou O Golim, exacta- mente como dizem O Porto. Deste resultou Oporto; do mesmo modo aquele deu Hooghly ou Hugli. (169) No MS de Lisboa estes nomes lêm-sc: «callcari/ ariamão palea¬ cate na ornaga/ patamto/ turo coll/.» porto e cidade de orixa — Tal como Gour corresponde à Cidade de Bengala, assim também Cuttack, a capital histórica de Orissa, deve corres¬ ponder à cidade doríxa. Cuttack, a principal cidade de Orissa fica na mar¬ gem direita do Mahamadi River a cinquenta e cinco milhas da sua foz, no vértice do delta. Deve ter sido um bom porto antigamente, mas os leitos
A Suma Oriental 223 Vem De benigalla a malaca cadano huu Junco E dous as vezes vali cada huu oitenta nouemta mjll czdos trazem Roupa dos rios deltaicos têm sido desde há muito assoreados e as suas saídas obstruídas por baixios e bancos de areia. Barros (I, ix, 1) diz que a costa do reino de «Orixá, devido à sua rudez, tem poucos portos, apenas Panacoie, Calingam, Bazapátan. Vixáopatan, Vituilipatan, Caliithápaum, Naciquepatan, Puluro. Panagate e Cabo Segógora». Muitas cartas antigas mostram apro- ximadamente na latitude de Cuttack (20° 29' N), um porto chamado Calecota ou Casecota; por vezes um outro nome, Casegate, aparece logo a norte de Calecota. cultarey — Este deve corresponder a Caleture, mencionado por Barros como um dos sete lugares importantes na costa entre S. Thonté de Meliapor e Guadavaij (Godávari). Aparece com nomes semelhantes nas cartas antigas a cerca de 14° 30' N, correspondendo talvez a Nellore (14° 27') no Penncr River, ou a Allur na sua foz. Contudo, o principal e mais seguro porto natural na costa do Choromandel a norte de Madras é Cocanada, em 16“ 57' N. arjamom — Aremogam em Barros e semelhante em várias cartas antigas. Corresponde a Armagon Shoal, 13° 55' N: o porto de Blackwood fica entre o Armagon Shoal e a costa. paleacate — é assim que está escrito em todas as crónicas e cartas antigas portuguesas. Corresponde a Pulicat, 13“ 25' N. naãor — Aahor em Barros. Corresponde a Nagore, porto a três milhas a noroeste de Negapatam. nagapatam — Negapatam. «O grande e famoso turucol» não pode ser localizado na própria cidade, onde o mais antigo templo data de 1777. «A única outra cidade considerável (em Negapatam Taluk) é Tiruvalur, notᬠvel pelo seu templo e carro ídolo». Imp. Gaz. of Índia, s.v. Negapatam Taluk. «Há (em Tiruvalur) um templo muito rico, que é frequentado por peregrinos». Idem, s.v. Tiruvalur. Deve ser este o turucol ou templo a que Pires se refere. O idolo no carro era anualmente levado em procissão através de certas partes da cidade de Negapatam, dando lugar a cenas de auto-imolação semelhantes às do famoso festival Juggurnaut de Puri, em Orissa. bonuaqlim ou Bonuaquelim, e também com a grafia Benuaquelim—Bonua, corresponde ao malaio banuwa, que significa terra, país. Qlim, ou quelim, do malaio Keling ou Kling, era o nome dado pelos Portugueses aos nativos que vinham de algures da costa do Choromandel para negociar ou viver em Malaca. Bonuaquelim significa, pois, «Terra dos Klings». Vide p. 170.
224 Tomé Pires Naue- gam estes em malaq" he em paçêe quatro cimqo naaos & Juncos cadano he aguora aJmda gramde- memte/ Retorno de malaca Va hemgala. branca fyna synabafos de sete sortes chautares De tres sortes beatilhas beiJramês (170) panos outs0 Ricos trarã atee vimte sortes Delles trazem aço Riquysymos çeòs De camas Dantre- talhos Dc todas cores E mujt0 fermosos paredes De casas como panos Darmar E asy mesmo comservas Dacuqr de diuersas maneiras Em mujta abastamça todos os mjrabulanõs em com- serua gengíures laranjas pepinos cenoyras Rabõos limõecs azam- boãs figuos aboboras combalengas E outsa mujtas fruitas & destas também em vinagre trazem mujta copia De vasos De barro pardo mujto cheirosos q se estimam mujto nestas ptes & valem baratõs//. A Roupa de bengala vali mujto em malaca por q he da valia de todo leuamte pagam em malaca sejs por çemto sam pesoas q sabem mujto na mercadoria E Daquj Dc malaqa empregam todo seu dr° E outro q tomam em Retorno pa bengala em que fazem mujto proueito o que em pacee nom podem fazer somemte pimemta E seda// A primçípall mercadaria q leuani pa bemgala he camfora de burney & pym,a Destas duas gramde copia crauo maças noz mozcada samdallos seda alJofar gramde soma porçelanas bramcas mujtas cobre estanho chubo azougue porcelanas gramdès Vrdes dos leíjos amfiam dadem he alguu pouco De bemgala Damas- quos bramcos & Vrdes em Rolados (171) da chyna barretes Dc grãa alcatifas valem crises & espadas Da Jaõa//. (170) sinabafo — Pano fino dc algodão branco feito cm Bengala. chautar — Grande peça de tecido, manto ou xaile, branco ou cor. beirame — Tecido de algodão fino dc várias cores. (171) Enrolado. Esta palavra é muito frequente nas crónicas e alguns dicionários portugueses registam-na como significando «uma espécie de antigo tecido indiano» ou uma «espécie de tecido de lã». Dalgado (s.v.) não conse¬ guiu determinar o que era este tecido ou a razão do nome. Resende men¬ ciona «enrrollados que são finos como hofetas» (uma espécie dc tecido zefir). Livro do Estado da Ilidia, foi. 321 r.
A Suma OrientaI 225 Todo mercador q vay a bemgala ha De paguar De oito três he este drrto asy Desordenado acham que he bom por causa que estas mercadorias valem tanto na terra E o Retorno he em cousas De tamta valija E de tam pouquo balume q afirmam com huu se ganham Dous & meio & três vemdida a mercadoria a saluamt0/ partem daqij na emtrada dagõsto he em trimta dias sam em bemgalla estam 11a fazemdo mercadoria partem de laa ao pmeiro de feuer™ E poem outro tanto ate malaq8// quamdo querem Desomrrar huu homê chamamlhe bemgalla sam gramdes tredores sam mujto agudos em malaq8 ha gramde numero De bemgallas homees E molherês sam homêes pescadores & oficiães alfaiates os mais Delles he alguus trabalhadores mujto maõos De trabalho//: Em bemgala vali mais ho ouro a sejsta parte que em malaq8 E a prata he mais barata em bengala que em malaqa a qujmta parte E as vezes a quarta parte a moeda da prata chamase tanqat pesa meio taell que sam casy seis oytavas vali esta moeda em malaq8 vymte calaijs vali em bemgala sete cahon cada cahon vali dezaseis pon cada pon vali oitemta buzèos De maneira q cada cahon vali mjll ije & oitemta buzèos E vali cada tancat oito mjll E nouecemtos & setemta buzèos sae ao calaim quoa- trocemtos & coremta & oyto q he preço por que dam huuã g8 boa E por isto se poderá sabr o que poderã compar p° ellse chamanse os buzèos em bemgala cury//. (172) Drrtos que se paguani em bem¬ galla. Foi. I35r. Tempo Da mon¬ ção & IMoecla de bem¬ gala por homde/ se faz a merca¬ doria/ (172) tanqat — A palavra tucka ou táká é ainda usada em Bengala para rupia. Do sânscrito tankaka, «dinheiro de prata cunhado». calaim — Calay, significando estanho no Oriente. Embora geral¬ mente utilizado neste sentido, foi também usado como significando moeda estanhada. Referindo-se à tomada de Malaca por Albuquerque em 1511, Barros (II, vi, vi) afirma que «não houvesse outra moeda lavrada senão de estanho». Ao descrever o dinheiro corrente no Rio Cuama, Fr. João dos Santos escreve: «Também é moeda corrente estanho, a que chamam calaim, feito em pães, cada pão de meio arraiei, e chamam a estes pães pondos e •7
226 Tomé Pires Homde Hos buzeos correm por moeda em oríxa e em todo o Regno valem de bemgalla he em Raqã he em martamane (173) porto do Regno & correm j)e pegQu hos buzeos De bemgala sam maiores com huuã beta estes buzeos _ p° moeda/ cada um pondo destes vale duas langas, que são seis vinténs». Ethiopia Oriental, I, ii, viii. Pires disse postcriormcnte, ao tratar da moeda de Pegu, que «o calaim vale onze reais e quatro cetis»: e ao tratar da moeda de Sunda fala de «tresentos calaims, que são nove cruzados», fazendo o calaim igual a doze reais ou reis; confirma isto ao tratar da moeda de Malaca. cahon — As tábuas de Cowry, datadas de cerca de 1778 c 1854, mostram os seguintes valores — «4 kauris = 1 ganda; 20 gandas = I pan; 4 pan = I ãna; 4 ãnas = 1 kãhan.» Hobson-Jobson, s.v. Cowry. Esta tábua de valores concorda exactamcnte com os dados de Pires. pon ou pone—Pan, a antiga designação Bengali para oitenta cowries, do sânscrito pana, «trocar géneros», daí o panam malaio e tâmil, panam 'dinheiro', e, segundo Hobson-Jobson (s.v. Fanám) e Dalgado (í.v.v. Fanão e Pone), o fanam ou fanão, uma antiga moeda de ouro e prata usada na índia pelo menos até o século passado. Nunes (p. 37) diz que os Cauryns «são correntes em Bengala, 80 cauryns fazem um pone: 40 a 50 pones são dados por uma tangua larym.» Tratando dos «Pesos da China», Pires afirma que o picoll contém um cento de cates, o cate dezasseis taeis, o tael dez mazes e o maz dez pons. buzeo ou cury — Cowry ou Kauri. Castanhcda (IV, xxxv) diz: «Há nestas ilhas (Maldivas)... búzios brancos pequenos a que chamam cauris que servem de moeda miúda em Bengala, porque sam mais limpos que o cobre de que a haviam de fazer, que dizem que lhe suja as mãos». Os copistas dos MSS. de Paris c de Lisboa, assim como também Ramusio, cometem todos, um pouco por falta de cuidado, o mesmo erro, ao dizerem que o tankat vale 8970 buzeos. Ramusio faz um outro erro ao dizer que o calaim vale 458 buzeos. (173) Martanianc mais adiante: Martahane no MS. de Lisboa e em Ramusio. Aparece como martabane na carta chamada de Cantino, como Martauão em várias cartas portuguesas dos meados do século xvr, e como cidade de martabam na carta de L. Homem de 1554. Embora a forma usual nas crónicas do século xvi fosse Martabam, Giovanni da Empoli, contem¬ porâneo de Pires, numa carta de 1514 escreveu também Martaman. Archivio Storico Italiano, III, Appendice, p. 54. Firenze, 1846. «Este é o nome convencional de um porto a leste do Delta Irawadi e do estuário Sitang, antigamente de grande comércio, mas agora em relativa decadência», na Birmânia. Hobson-Jobson, s.v. Martaban.
ESTAMPA XXIV Carla dc Francisco Rodrigues (fl. 34) da Península Malaia e parte norte de Samatra.
ESTAMPA XXV Carta dc Francisco Rodrigues (fl. 30) da Costa Nordeste de Samatra, Ilhas Linga e Banka, e Costa Noroeste dc Java.
A Suma Orienta! 227 amarela pollo meio estes valem em todo bemgalla E tomanos em grãDe camtidade de mercadorias asy como ouro e em orixa nom valem estes em outa parte E sam mujto prezados nestes dous lugares/ Dos de peguu E Racain se dira qndo se dos lugares falar vem estes estolhidos Das Jlhas de díua em muyta cãtídade/ Ho pesso De bemgalla chamase dalaa(174) he braço de /Maneira pão sem comçhas & nas pomtas atam a mercadoria E asy se Do peso! faz E com hos mercadores se leuaes peso lamcam lhe a comta E fazes preço por elle E fazes vosa mercadoria Dizem q dez ou doze p“-s leuam hos drrlos cada huu o seu que sam ofiçiaees Díso E que ao Dizimar fazem agrauo aos mercadores E tiranjas gramdes // Dizem os mercadores bemgalas q este Rey De bemgalla que se chama çoltam vçem xaa(175) que nom he benjuollo aos mercadores E que sse ssaem mujtos pa outsa partes/ tem este Rey De suas mamcebas vjmte & quoatro fs° machos he muj138 fas//- [aracXo] Ho Regno Derracam he amtre bemgala he peguu he Rey Reyno de Jemtio muj'° poderoso no sertão tem no maar huu porto bom Racão (174) Dila no MS. dc Lisboa; daiia em Ramusio. O sânsciito dãi significa «dividir». «Dáli [Hindi]. Um tabuleiro ou par de tabuleiros, unidos por umas fitas a cada uma das extremidades de uma vara, levada aos ombros». G. C. Whitworth, An Anglo-htdian Dictionary. Segundo o Dicionário de D'Rozario paiiá é balança em Bcngali. (175) Sollão bamxar no MS. de Lisboa; Soltam vamxoa em Ramusio. Neste caso, como cm muitos outros, mal se pode imaginar o que Pires escreveu originariamente, ou o que ouviu c como o escreveu: Este Vçem Xaa pode ser um dos «gentios mui poderosos, cuja geração sào estes que agora cha¬ mam Venezaras» (Orta, X), identificada por Ficalho (I, 129-30) e Yule (Hobson-Jobson s.v. Brinjarry) como Banjaras, Vanjaras ou Brir.jarries, gente que, habitualmente, se deslocava dc um lado para o outro, levando os seus rebanhos c mercadorias para diferentes mercados. O rei ou sultão de Ben¬ gala era também conhecido por Alauddin Husain Shah no tempo dc Pires.
228 Tomé Pires Domde vem ho almjzqr & Rubis fijnos/l Foi. 135v. homde tratam hos peguus & bemgalas E quelijs nom de mujto trato chamase o porto mayaJerij (176) Jumto com este porto tem o Rey huuã fortaleza De adobes forte amtre ellês// Na terra De Raquam ha mujla Jemte De cauallo & mujt0B alifamtes ha alguuã prata, ha tres ou quoatro sortes de panfios Dalguodam De que vestem os comarquaaos sam panõs De suas guisas E traJos E alij os ha mais q em outas ptes & vem alij p° ellês// Comfyna o Regno De rraquã no sertam lomje com a serra gramde q se chama capelamguam (177) homde ha mujtas pouoa- çoes de gemte nom mujto domestiqa estes trazem os almjzqueres he Rubijs a gramde cidade Dava (178) q he a pimcipall cousa do Regno De Racam & daly vem teêr a peguu & de peguu se espalham j pa bemgalla Narsijmgua E pa paçêe he malaqa Deste capelamguã he a mjna Dos Ditos Rubijs os melhores que ha nestas partes ho almjzqr he dalymarias como cabras esfolam as E a carne pisada com ho samgue fazem Do coiro hos bisalhõs a que chamamos papos (179) e esta he a Vrdade Do almjzqr he nom Da postemas E se os olhardes bem mujtos achares ajmda com hos osos// (176) Malagery (?) no MS. dc Lisboa; Maiarani em Ramusio. Isto deve ser Myohaung, no Distrito Akyab da divisão Arakan de Burma. «Myo- haitng Village (‘cidade Velha'), antigamente a capital do antigo reino de Arakan. As ruínas do forte existem ainda». Imp. Coz. Índia. s. v. (177) Capelamgam no MS. dc Lisboa; Capelangam em Ramusio. «Este é o nome dado por vários viajantes do século xvi, que foram até a montanha da Birmânia, donde, conforme se dizia, vinham os rubis vendidos cm Pcgu. Hobson-Jobson, s.v. Capelan. Capeiam cm Barbosa. Yulc rcferc-sc a «Capclang, a região dos rubis ao norte de Ava, nome con¬ servado até data muito mais tardia, mas agora não detectável». Cathay, I, 177. (178) Ava. «O nome da cidade que durante vários séculos foi a capital do Império Birmanês». Hobson-Jobson. s.v. Ava. (179) A expressão «papos de almíscar» era corrente na índia e encon¬ tra-se mencionada no Roteiro de Vasco da Gama (1498), p. 112.
A Suma Oriental 229 A moeda Desta terra he cãça q qr dizer fruseleíra (180) /corre em pedaços asy como se dira Delia em peeguu qmdo se Delle neste falar E também buzeos bramcos como os De peguu he Regno Regno muj10 abastado De carnes aRozes E cousas de seu comer//: buz,os^ [pegu] Peeguu he Regno De Jemtios he terra mais farta que todas /pegOul as q temos vistas he sabidas/ he mais farta que syão casy tamto como a Jaõa tem no mãr tres Portos com tres guouernadores que na limguoaJem Da terra se chama Guouernador toledam ho porto mais chegado a terra he Racam he copymy este tem ho trato Da bamda de bemgalla he bonua qlím ho outro he (180) Ao descrever a moeda de Pegu, Pires diz que a fresuleira ou cança de cobre e estanho é melhor do que a de cobre, estanho e chumbo, e a pior é a de cobre e chumbo. Ao tratar da China, a palavra é escrita fusaleira. Nunes escreve (p. 38): «Neste Reyno de peguu não ha dinheiro amoedado, e o de que se usa e pratica he de bategas, bacios e outra cousas de serviço, que são de huum metal como frosyleyra, quebradas, que se chama gamça». «Neste reino (em Pegu) não se lavra moeda, & correm por ela umas bacias velhas que se serviram e são de fusilelra». Castanheda, v, xi, p. 19. Um documento datado de Cochim, 8 de Setembro de 1511 men¬ ciona vasos e um castiçal de fusaleira da terra. Cartas, III, 26. 30. Nos Comentários (III, xviii), frusseria é mencionada como mercadoria trazida para Malaca. A cãça de Pires e a gamça de Nunes derivam do malaio gansa, do sânscrito kansa, «metal de sinos». Vários escritores antigos têm-se refe¬ rido a esta substância como uma mistura de cobre e chumbo, cobre e estanho ou cobre, estanho e chumbo. Os sinos também podem ser feitos de latão ou de uma mistura de cobre e chumbo, principalmente no caso de sinos pequenos. Mais adiante Pires menciona os «sinos de cobre e de fuseleira» de Java (p. 303), foi. 150v. Parece que fruseleíra, frosileira, freseleira, fuse¬ leira, fusileira ou frusseria è hoje palavra portuguesa esquecida, nem sequer registada nos dicionários portugueses. Contudo, os bons dicionários de espanhol registam ainda a antiga palavra fruslera (do latim frustillum, peça pequena), que significa um «ingote feito de aparas de latão». A grafia cor- recta em português deveria ser fruseleíra.
230 Tomé Pires dogÕ(181) este he porto gramde De gramde çidade & de mujtos mercadores he o toledã Dele he mayor que hos out°s neste porto se fazem hos Jumcos por caso Da madeira mujta & boa que tem/ ho outro porto he apartado De martamane homde vame hos De malaq® & os de paçee e também he boa cidade gramde (181) Copymy — Copeny no MS. dc Lisboa; Copini em Ramusio. Pires escreveu Coximin, como aparece mais adiante, c o copista trocou o x por um p, sendo as duas letras bastante semelhantes. Deve tratar-se de Cosmim, cidade, porto e rio mencionados por vários escritores antigos. Cas- tanheda e Pinto referem-se a Cosmim várias vezes. Numa relação antiga onde se diz que «Estes são os Rios com as alturas que estão de Bengala para Malaca» (Livro de Marinharia, p. 238), o rio Pesmim fica situado a 16° 30'. Este é pois o Bassein River. Pesmim sugere Palhein, o nome nativo para Bassein. Em 1586 o viajante inglês Ralph Fitch «entrou pelo Bassein River (braço ocidental do Irawadi) e seguiu pelo rio acima durante três dias até Cosmin... Parece que correspondia à moderna cidade de Passein». Dames, u, 156. Yule menciona «Cosmin, o porto que representa o moderno Bas¬ sein até ao princípio do século passado, mas o local exacto hoje é des¬ conhecido». «Calhay i, 177. «Bassein tem sido durante séculos um centro comercial de alguma importância; e se não se pode identificar com o antigo porto de Cosmin, referido por Cesare de Fcderici e Gaspar Balbi, é possível que Cosmin estivesse dentro dos limites do actual Distrito», diz o Imp. Gaz. Ind., s.v. Bassein Town (Palhein). Pires estava certo ao descrever Copyny, ou Cosmin, como «o porto (dc Pegu) mais chegado a terra de Rakan». Algu¬ mas cartas antigas portuguesas representam o que deve ser tomado por Bassein River como ramificação dc um amplo delta correspondente aos actuais rios Irawadi, Rangoon, Pegu e Sitang, todo o conjunto sob o nome de Cosmim ou Rio Cosmim, como aparece mais claramcnte na carta de Eredia da Baía de Bengala (foi. 73). Esta é a razão por que Castanheda, num outro local diz que «...à boca do rio onde está Pegú, noventa léguas por ele acima à borda de água: e a dezoito está uma cidade chamada Cosmi que é o porto de Pegú» (IV, v). É óbvio que ele confunde Cosmim com a antiga Dagon ou Rangoon. Correia (li, 474) faz a mesma confusão. Pinto (cxc) men¬ ciona na mesma frase a cidade dc Cosmim e o rio dc Digum (Dagon) como totalmente distintos. A carta de Fra Mauro regista Chesmi. A mais antiga carta portuguesa em que encontrei Cosmj é a anónima de c. 1540. Dogõ— Dagon, o nome original de Rangoon. No MS. de Lisboa escreve-se Degoni. Aparece como Digum na Peregrinação de Pinto. cxc.
A Suma Oriental 231 de mercadores a Jemte baixa Deste Regno he em sua terra trauesa fora sam mamsos bõos trabalhadores Jemte symprez// Ho prímcipall he aRoz vimram cadano a estes dous lugares he a peedir qnze Dezaseis Jumcos vimte trimta pamgaJauas (182) De cargua como navijos trazem mujto lacar E beyJoym almjzqr pedras Rubijs prata manteyguas azeytes sall çebollas alhõs mostarda (183) (?) & cousas a estas semelhantes De comer par¬ tem em feuerro vem em março na fym & p todo abrill sam homêes q vemdem sua mercadaria mansa memte a guisa da terra apcçã sete oyto mercadores a mercadoria por yso estam & vemdenna// Todo mamtimemto nom pagua nenhuu Drrto em malaqa nem em paçêe som,e presemte a sua cortesya segumdo a terra estaa em costume Do all pagam Seis por çemto he gramde ho ganho De peguu a malaq8 no aRoz & no laqa E em tudo ho all// He a primcipall cousa porcelanas baixas de sortêes E de lauores Vmelhos/ azouge muyto/ cobre/ vermelhão Damascos emRolados escuros De frores que vem logo de china pa elles po que pa outrem nom seruem estanho Jmfimdo fruseleíra em pedaços qebrados E saãos ysto sobretudo que he moeda he porcelanas De sortes levam Jmfimdas aljôfar pouquo ouro// empegam todo seu Dr° E mais se o teuesem nisto/ crauo pouquo noz moscada maças pouqa cousa partem Daq ao primeiro De Julho & vam a paçee carreguar De p,a e em agto vam a marta- mane// Hos Drftos que pagam cm peguu hos ditos mercadores sam doze por cemto he Disto nom qujtam nada se aves De falar com ho guouernador aves de leuar psemte E asy he o costume De ma!aqa segumdo a causa asy aves de peitar, ho porto De martamane he priguoso tem pilotos da barra que se obrigam metervos dentso a saluamemto pagamdolhes seg° costume da Merca¬ dorias q vem de peguu a malaq11 E a paaçe/l Hos Drrtõs q paguam em malaq*/ Retorno De malaq’ pa peguuI Drrtos q paguam em peguu/ (182) Pangajana, ou pangajava, do malaio pe'njajap. Era um antigo barco de guerra, comprido e de pouco calado. (183) Esta palavra mostarda (?) difícil de ler no MS. de Paris, foi suprimida no MS. de Lisboa e cm Ramusio.
232 Tomé Pires Foi. 136r. Moeda de pegãu I Valia da viça de camçaj terra nam entrã nas agoas creçidas nem mortas tomanlhe meyo temp° pa seguramca//. A moeda de peguu pò homde se faz a mercadoria he frese- leira que se chama cança desta fruselra huua he melhor E outra somenõs a fruseleira De cobre e estanho he melhõr a de cobre estanho E chumbo a peor/ De cobre he chumbo a cança De martamane he a melhor esta pasa por toda ha terra a dez calaíjs tres aRates he cimquo homças a viça que he cate & m° Da Romãa gramde de malaq3 Estes sam Do peso nouo E a outa vali menõs vali ho calaím homze Rs E quatro ceitijs a Rezam De çem caljas por tres cz1108//(184) Vali a Viça da dita camça dez calajs emtam Dizes qmtas Viças de tall mercadorja me Dares pola viça da cança ou qmtas viças De camça queres pola vica de tall mercadoria E cada vica destas tem çem tiquas(185) estas çem tiquas valem tamto como huua viça// (184) Arrates—O arrátel (pl. arráteis) é um antigo peso português equivalente, primeiro a 14 e depois a 16 onças. Vide nota p. 430. Viça — Peso usado no sul da índia e na Birmânia, cujo valor é dado desde 40 onças (Nunes, Castanheda, Bocarro, etc.) até 53 onças. Yule (Hohson-Jobson, s.v. Viss) diz que «na Birmânia o viss = 100 likals = 3 Ibs. 5 5 */j, que é aproximadamente o valor dado por Pires. Cate — O caie ou catty é um peso variável introduzido da China em Malaca e agora fixado em 625 gramas, ou 22.9 onças. Os portugueses consi¬ deravam-no igual a 20 ou 28 onças, mas alguns autores descem-no mesmo até 4 onças, ou sobem-no até 30 ‘/2 onças. O cate aqui indicado por Pires seria igual a 35,34 onças; mas mais adiante, sob a epígrafe «Moeda, peso e medida de Pcgú» e «Moedas e peso cm Passe», foi. 141 v. diz que 5 cales são iguais a 12 arráteis, o que faz o caie igual a 38,4 onças. Ao tratar dos pesos e medi¬ das de Malaca Pires diz que «o caie da mercadoria pesa 32 3/< onças e 25 grãos». Cruzado — Antiga moeda portuguesa de ouro (mais tarde de prata) que no tempo de Pires valia 390 reais. Contudo, de acordo com o relato de Pires parece ser igual a 375 reais. O cruzado do tempo de Pires devia valer hoje cerca de 285 escudos. Cf. Azevedo, Épocas de Portugal Económico, p. 488. (185) Tiqua — «O peso quase-standard da prata corrente (nã cunhada)» na Birmânia. Um pouco mais do que três oitavos de uma onça. Hohson-Jobson e Dalgado .?.v. Tical.
A Suma Oriental 233 A prata he em aRuellas marquadas Da marqa de syam porpue Dela vem toda chama se o pedaço na aRuelia caturna (186) ho peso Delia he huu taell E meio que sam duas onças E huua oytaua E huu quarto vali em peguu quoatro ma E aqem malaq® vali huu taell De tijmas (187) que sam sesemta E quoatrocalijs (188) ho ouro tem a valija em peguu q vali em malaq“ levase gramde cam- tidade De prata a bemgãlla De peguu la vali mais alguua cousa//. A moeda pequena De peguu sam buzeõs pequenos bram- quos Jeerall memte valem em martamane qinze mjll huuã viça que sam Dez calajs/ quamdo sam baratõs dezaseis mjll quamdo sam mujto carõs quatorzemjll he geerall qinze mjll vali ho calaim mjll E qujnhemtõs/ por quoatrocemtos & ^inhemtõs Dam huuã galynha he por este preço as cousas semelhamtes a estas/ se em peguu nom correm os ditos buziõs senam em martamane E por esta maneira correm em Racam vem os buzêos das Jlhas de diva Domde fazem as toalhas em gramde copija & asy vem das Jlhas de bagangã (189) & de burney E trazenos a malaca E daquj vam a peguu// Ho dachim(190) De martamane Do bahãr he menos q ho (186) Esta frase não se encontra no MS. de Lisboa nem em Ramusio. (187) Mais adiante, ao tratar da moeda de Malaca, Pires diz que limas significa estanho. (188) Oitenta e quatro no MS. de Lisboa e em Ramusio. (189) Bamgamjam no MS. de Lisboa: Bandam em Ramusio. Talvez uma das pequenas ilhas Balambangan ou Banguey, ou a cidade de Bongon ou o porto de Jabongon na costa norte de Borneu. Vide p. 456. (190) Parece que dachim, dalcliin ou dachem era uma balança romana ou balança de braço, mas era também tomado como significando um peso (100 cates cm javanês). Segundo Nunes (p. 39), cm Malaca «o haar do Dachem grande tem 200 cates; cada catee tem 2 arrateis, 4 onças, 5 oitavas, 15 grãos, 3 dezavos.... O baar do Dachem pequeno tem 200 cales; cada cate pesa 2 arrateis». Marsdcn diz que cm Achin, para os pagamentos de ouro em pó «se está provido de pequenas balanças de braço, chamadas daching». Hislory of Sumaira. p. 401. Mais adiante, ao tratar dos pesos e das medidas de Malaca, Pires diz que verificou o dachim c que ele «justa- mente pesava três qintaes & tres arrobas & vimte seis arrateis», pp. 430-1. Moeda douro & de prata Moeda meuda peso & medida de peguuI
234 Tomé Pires Naãos guia- ralas a pegão Rey & pesoas princi- pãeesl de malaq® vijmte catês ho de martamane tem cemto & vimte viças que sam cemto E oitemta cates E o de malaqa tem duzemtos E estes cates sam Da Romaa gramde// Ho aRoz he por toõs tem cada tom Dez guamtas(191) Das De malaca afiladas Da terra/: Vem cadano huua naao das naoos do guzarate ao porto de martamane & de doguõ trazem Destas mercadarias cobre Vrmelham azougue anfiam panõs E leuam grãde camtidade De lacar/. que vali barato na terra aas vezes a quoatro viças o bahar as vezes a cimq° E seis & a sete E leuam beijoim pta pedras & tornanse & as vezes se pdem na barra//. Ho Rey estaa sempre dasemto na çidade de peeguu que he o sertãao da cidade ao porto De dagam he amdadura de huu dia E huuã noite E a martamane quoatro dias E a coximjm oito Dias/ Depos o Rey em valija he o braJa (192) que he seu capita & g*101, do Reyno E despois ho toledam de dogom E depois ho (191) Toõs — O mercai ou mercar, medida de grão em uso na Madras Presidency, também conhecida por loom. Hobson-Jobson, s.v. Mercáll. Nunes (p. 36, 59) refere-se ao mercar como medida de arroz no Negapatão, de capacidade variável, mas que «hum mercar de manteiga e azeite tem 2>/2 canadas». Ganta — A giianla, gama ou gamou é uma medida de capacidade da Malaia. Vários escritores portugueses do século xvi dão o seu valor como igual à canado portuguesa (1.4 litros), mas Nunes diz que era uma medida de arroz equivalente a cinco quartilhos (1.75 litros, sendo o quartilho um quarto de uma canada) em Malaca. Ibid. p. 39, 40. Mais adiante, ao tratar de pesos c medidas de Malaca, Pires diz que descobriu que o arroz contido numa gama «pesava três arráteis c dez onças do peso novo». Vide notas p. 304 c 430. Como o toom de Pcgu mencionado por Pires continha dez gamas de Malaca, era cerca de três vezes maior do que o toom ou mercar de Ncga- patam. O gamon ou gantong ainda hoje é uma medida de capacidade na Malaia, equivalente ao galão (4,543 litros). N.B. Dcnnys, A Descriptive Dictionary of British Malaya, p. 419. (192) Cobrajem no MS. de Lisboa: Cobrai em Ramúsio.
A Suma Orienta! 235 de martamane & loguo ho de xoij (193) tem gramde copea Dali- famtès tera sejs ou sete mjll no rregno todo/ todo peeguu fidallguo E outra Jemte segumdo he Riq° ySso dos trazem em sua natur3 casquavees os Sres trazem atee noue Douro S"' & ouf De fremosos toõs De tipres & contras tenores Do tamanho Jem,e Dameixeas (194) alvares De nosa terra E asy os q nõ | podem Foi. I36v. Douro E de prata por pobres trazem de chumbo & de fruseleíra. E os douro he pta soam mujto mais q estoutros de chumbo & fruseleira//(195). (193) Pesim no MS. de Lisboa; Pizim cm Ramusio. Talvez Pires escrevesse ou pensasse cm escrever Cosmim. (194) Uma variedade porluguesa de Prunus domestica Linn. (195) Barbosa refere-se a esta prática extraordinária com mais por¬ menores, terminando, contudo, com estas palavras: «E não digo mais deste costume pela desonestidade», n, 154. Galvão também o menciona: «presam-se de trazer cascáveis em suas naturas, a eIRei e religiosos é vedado». Ed. Livraria Civilização, p. 166. Na Miscellaitea de Garcia de Resende há esta estância (88): «Há também costumes tais em Pegu, q homês copctem, a qual delles terá mais em seus membros genitais cascavéis, onde os metem, ha sua carne cortando; e por tempo se soldando ficam dentro entremetidos: dizem q sani mais queridos das femeas assi usando.» O próprio Camões alude em Os Lusíadas a este costume de Pegu: «Aqui soante arame no instrumento Da geração costumam, o que usaram Por manha da Rainha que, inventando Tal uso, deitou fora o erro nefando». Canto x, est. 122. Pigafctta faz também uma curiosa descrição desta prática, com os por¬ menores mais extraordinários, mas refere-se a Java, local a que ele nunca foi, confundindo-o, evidentemente, com Pegu. Edição de Robertson, ti, 169. Parece que a prática — se alguma vez existiu e não foi «uma mera
236 Tomé Pires A Manei¬ ra dos corpos he vistidos dos pe- gàus & de suas molhers As molhe- res sam mais brancasI Hos peguus sam homees De meaaos corpos sam sobre ho groso parrados & boos trabalhadõres De gramde forca amdam sempre trosqujados darredor solapados ha mea cabeça e emcima mais creçidos hos cabellos Do betelle trazem sempre os demtes negrõs trazem sobre as coxas gramde copea De pano bramquo E na cabeca panos bramcos a feiçam De mjtra casy// As molheres sam mais bramcas q elles sam asy mesmo Dos corpos delies sam fremosas mais Desemuoltas trazem o cabello a guisa da chijna como se dira na descricam dachijna as nosas malayas folguam mujto com a vimda dos peguus a tra E sam mujto afeiçoadas a elles a causa disto sera sua Doçe armonjã/ certo delas sam muj10 estimados E nom sem causa/ he esta Jemte mansa De boa vemtura aquj em malaca em sua terra Dizem q he soberba.//. invenção imaginativa» — nunca foi registada por qualquer outro escritor moderno. [Contudo, já no século xv o florentino Paggio Braciolini, des¬ crevendo a viagem do veneziano Nicolò dei Conti à índia, no começo desse século, faz um relato ainda mais pormenorizado e pitoresco da tão estranha prática: «Em esta çidadc (Ava, cidade principal de Arakan) soo as molheres vendem cascauees pequenos, assi como as muj pequenas aucllaãs de ouro e prata e arame, aas quaes molheres vaã os homes que querem casar. Ca de outra maneira seriam engeytados em ho casamento, e assi mercam dos ditos cascavees. e deixamse abrir a pclle em a sua vergonha de huu cabo e outro das ditas molheres. e chantamlhes dentro hua dozea daquelles cas¬ cavees ou mais cm diuersos lugares do dito membro, e despois aquella pelle bem coseita. dally a poucos dias som saãos. E esto fazem pera comprir a vooatade das molheres. porque segundo dizem, que ellas leuam grande gosto no membro assi hinchado e chco daquelles noos. E muytos delies andando se dam de gjolho e fazem soar aquelles cascauees. assi que os podem ouuir. Da qual cousa este Nicolau daquellas molheres muytas vezes foy requerido de ho assi fazer, e faziam escarnho delle porque ho tinha tam pequeno, porem elle nom quis que a sua door fosse prazer de outrem,» foi. 83r. O Livro de Marco Paulo — O Livro de Nicolao Venelo... é a versão portuguesa da edição latina de 1492, publicada por Valentim Fernandes em 1502. Reim- presão da Biblioteca Nacional, com Introdução por Francisco Maria Esteves Pereira, Lisboa 1922. Vide A. Cortesão, História da Cartografia Portu¬ guesa, l, 287-90. Coimbra 1969.]
A Suma Oriental 237 pois himdo pa malaca seg° a ordem deste liuro se atrauesa syam no camjnho Rezã hee q delle se digua posto que da bamda da china aJmda outa vez o emcomtremos no Rijo Dodiaa//(196). [sião] No Regno de siam Da bamda de peguu tem tres portõs E da bamda de paão & champãa ten mujtos todos sam do dito Regno E da obidiemçia Do Rey De syam a terra De siam he gramde E mujto farta De mujta Jemte he cidades De mujtos Sres he de mujtos mercadores EstramJeiros E a mor parte Dcs- tramJeiros sam chijs porque o trato De syam he gramde na chyna/ a terra De malaca se chama terra De syam E toda a de Siam champã E hy se chama da chyna// He o Regno de sijam Jemtío a Jemte he casy a limguoaJem tem semelhamça da de peeguu he avida por Jemte avisada E de boom comselho os mercadores sam mujto èsynados na merca- * daria sam homêes gramdes baços Da trosquja De peeguu ho Regno se Rege em Justiça o Rey estaa sempe Dasemto na cidade Dodiaa he caçador aos estramJeiros faz gramde estado aos naturaes he mais comuersauell tem mujtas moheres De qujnhem- tas pa cima elle tem Rey por morte a pa Do samgue pincipalm1® sobrinho f° De Jrmãa se he pa iso E se nom p vezes hacordos & Juntamemtos de quê sera melhor/ guardase gramdememte amtre elle ho secreto sam no que lhe conpre homees Calados (196) Odia ou Ayuthia, antiga capital do Sião, foi destruída pelos birmaneses em 1767, depois de um cerco de dois anos. Barros escreve Odia e Hudiá. Couto (VI, vii, 9) faz uma descrição interessante da «cidade de Odia. Principal do Reino de Sião, que é esta sobre que o Bramá está, fica pelo rio acima quarenta léguas» (Mcn