Uma vida a servir o próximoLUIS RUIZ SUÁREZIeong Chi Chau
Luis Ruis SuárezUma vida a servir o próximoAutorIeong Chi ChauEditorInstituto Internacional de MacauColecção: “Missionários para o Século XXI”Volume XIProduçãoMacaulink Revisão/EdiçãoMaria João Janeiro, Fernando Correia, Sun Man WaiTraduçãoAlberto Botelho dos SantosDirecção GráficaFernando ChanFotografiaServiços Sociais da Casa Ricci, Young Lam, João Ng, Chan Iok Keung, Un Hak I, Ieong Chi ChauImpressãoTipografia WelfareTiragem500 exemplaresApoioFundação MacauMacau, Janeiro de 2020ISBN 978-99965-59-40-2
Uma vida a servir o próximoLUIS RUIZ SUÁREZIeong Chi Chau
Uma vida a servir o próximoLUIS RUIZ SUÁREZIeong Chi Chau
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo6MISSIONÁRIOS PARA O SÉCULO XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação de ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombrada pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantos figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial - “Missionários para o Século XXI”.Os editoresESTA COLECÇÃO
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau7PREFÁCIO E AGRADECIMENTOS .....................................................................................9INTRODUÇÃO .................................................................................................................13PRIMEIRA PARTE: BREVE DESCRIÇÃO DA VIDA DO PADRE LUIZ RUIZ SUÁREZ ......................................................................15Terra natal ..................................................................................................................15De Cuba à China .........................................................................................................17Da China a Macau ......................................................................................................18Evangelização, educação e início dos Serviços Sociais da Casa Ricci .......................19A fundação da Cáritas de Macau ..............................................................................23Os refugiados do Vietname .......................................................................................26Motivo do atraso do último voto ..............................................................................26Missões de ajuda a pobres e fracos na China em nome da Cáritas ........................27Comparticipação de méritos, delegação da Cáritas e novas tarefas ......................30Ultrapassar a última etapa extraordinária ...............................................................39Três cenas dos últimos tempos da vida do Padre .....................................................44Voltar à Casa do Pai ...................................................................................................45ÍNDICE
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo8SEGUNDA PARTE: OS FEITOS DO PE. RUIZ ..................................................................47As imagens marcantes do Padre ...............................................................................47Irregularidades para praticar o bem .........................................................................57O Padre enquanto testemunha de Cristo .................................................................61Relação entre a obtenção de recursos e a atitude dos serviços ..............................71Relatos de alguns casos específicos ...........................................................................76Assistência completa a toda a família .......................................................................................... 76Tinha confiança nas pessoas, nunca duvidava das suas intenções .............................................. 79Energias inesgotáveis ..................................................................................................................... 80Fazer como Jesus manda ............................................................................................................... 81Intrigas e equívocos ....................................................................................................................... 85Atencioso e meticuloso .................................................................................................................. 88Educação das novas gerações ....................................................................................91Máximas e ensinamentos ..........................................................................................98Máximas .......................................................................................................................................... 98Quatro ensinamentos .................................................................................................................... 99Dar continuidade ao legado do padre ...................................................................103O Padre Ruiz visto pelos seus colaboradores .........................................................107INSPIRAÇÕES ................................................................................................................111EPÍLOGO ............................................................................................................... 113FONTES DE REFERÊNCIA ..............................................................................................115O AUTOR .......................................................................................................................117
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau9O convite para escrever esta biografia foi um acontecimento realmente extraordinário pois, na verdade, nunca imaginei vir a aceitar esta missão e, por essa razão, assumi tal tarefa como algo de “fantástico”. Sem perder tempo em considerações, e porque tinha o tempo disponível para isso, aceitei de imediato esta missão. O Pe. Ruiz concedera-me muitos favores na minha infância, com ele joguei à bola e a escola que frequentei pertencia à sua congregação. Com base nestes factos, não consegui encontrar motivos de recusa. Embora assim seja, as minhas recordações e impressões sobre o Pe. Ruiz datavam apenas aos anos de 1960 e 1970. Desde 1975, quando concluíra o curso secundário, e até 2011, por ocasião do seu falecimento, tinha deixado de me interessar pela sua vida e, por essa razão e por apenas possuir esporádicas notícias, não possuía informação suficiente para aprofundar fosse o que fosse. Contudo, quando aceitei o convite do Instituto Internacional de Macau, fiquei ciente que não seria tarefa tão fácil como supunha, porque era escassa a informação escrita sobre o Pe. Ruiz e que esta limitava-se praticamente a um resumo da sua vida. Por outro lado, pesquisar dados concretos e fotografias constituía uma tarefa difícil, pois recordava-me de quando visitei a sua residência de ter persistido a impressão da sua simplicidade, razão pela qual o padre não teria possibilidade de possuir uma máquina fotográfica. Felizmente, os meus amigos que com ele tinham colaborado ou trabalhado, assim como os padres jesuítas, os colegas de escola e o Sr. Paul Pun, Secretário-Geral da Cáritas de Macau, prestaram-me uma grande ajuda. Foram estas colaborações essenciais para aumentar a minha confiança e, assim, conseguir dar início ao trabalho.PREFÁCIO E AGRADECIMENTOS
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo10Foram três as principais tarefas: a primeira, pesquisar e seleccionar informação nos meios electrónicos e publicações; a segunda, procurar as respectivas fotografias, tarefa para a qual contei com a colaboração dos Serviços Sociais da Casa Ricci e da Cáritas de Macau, que me colocaram à disposição gratuitamente fotografias do Pe. Ruiz, das quais fiz uma selecção para posterior ilustração do livro; por fim, a terceira tarefa, e a mais importante, consistiu em entrevistar as pessoas relacionadas com o Pe. Ruiz, incluindo as diversas entrevistas realizadas quer por telefone, quer por meio de WhatsApp, WeChat ou outras aplicações, as quais ocorreram por diversas ocasiões.O resultado foi uma compilação de textos escritos, de histórias orais e de ilustrações, com a qual se procura obter uma maior credibilidade e legibilidade. O presente livro procura registar as principais obras com que este missionário jesuíta contribuiu para a sociedade multicultural de Macau desde meados do século XX até princípios do século XXI, permitindo que as novas gerações venham a conhecer a vida e a obra deste sacerdote e a aprender as grandes virtudes dos seus antepassados.Assim que manifestei a minha intenção e face à obra relevante realizada pelo Pe. Ruiz, todas as pessoas entrevistadas deram-me com muito agrado o seu apoio, pelo que lhes estou imensamente grato.Não obstante os seus múltiplos afazeres, o Pe. Fernando Pablo Azpiroz Costa, S.J. falou comigo por diversas ocasiões, elucidando-me incansavelmente sobre todas as questões que lhe colocara e até solicitou o apoio dos Serviços Sociais da Casa Ricci para a preparação de material informativo sobre as actividades do Pe. Ruiz, tais como fotografias de eventos, diplomas de louvor e as fotografias do encontro do Pe. Ruiz com o Papa João Paulo II, para que pudessem ser reproduzidas. Por isso, apresento aqui os meus agradecimentos ao Pe. Fernando Costa, S.J. e aos funcionários da Casa Ricci.O Secretário-Geral da Cáritas de Macau, Paul Pun, meu amigo de longa data, herdou do Pe. Ruiz uma grande virtude: nunca rejeitar qualquer pedido. Além de diversas
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau11entrevistas concedidas, Paul Pun esclareceu muitas das minhas dúvidas, através de vários telefonemas e WhatsApp, e facilitou-me o acesso ao arquivo da Cáritas para a aquisição de muitas fotografias relacionadas com a vida do Pe. Ruiz. Contou-me, ainda, de forma minuciosa muitos factos relacionados com o Padre e, inclusivamente, até me emprestou para reprodução a licença e a matrícula da sua Vespa. Agradeço imenso esta ajuda do Sr. Paul Pun e dos seus colegas.João Ng e Young Lam partilharam comigo vivências e histórias com o Pe. Ruiz, como este os tinha escolhidos para participarem no coro e os ensinara a dirigir o mesmo. Além disso, ambos narraram outras histórias: João Ng contou a forma como o Padre o ajudara a arranjar o primeiro emprego e Young Lam o auxílio que prestara à sua família de seis pessoas. Estas histórias orais enriqueceram o conteúdo e deram legibilidade ao livro, pelo que agradeço imenso.O Pe. Koay Choon-Kheng Gregory, S.J. teve a gentileza de levar o autor, acompanhado dos senhores Lam Iu Sang e Yu Meng Sang, a um encontro com a irmã Mary Joyce Sebastian, que nos relatou os seus sentimentos do tempo em que trabalhou com o Pe. Ruiz. Foi ainda o Pe. Koay Choon-Kheng Gregory, S.J. que solicitou ao Pe. Luís Manuel Fernandes Sequeira, S.J. que verificasse a forma como decorrera o quarto voto do Pe. Ruiz. A Srª. Joana Lei ajudou-me a certificar os elementos oficiais relativos às condecorações que o Pe. Ruiz recebera. Por sua vez, o Sr. Choi Chun Heng partilhou comigo o seu ponto de vista sobre o Padre, o Sr. Chan Iok Keung e a Srª. Un Hak I colocaram à minha disposição fotografias bastante valiosas. Todas estas pessoas mencionadas neste parágrafo contribuíram muito para a realização deste livro.A Irmã Victoria Lau FMM, juntamente com a nonagenária Irmã Brigite Fan Kuai Fong, contou-me de forma pormenorizada a história da fundação da Escola Stella Matutina e do modo como o Padre procurou obter a colaboração de benfeitores, no sentido de serem fornecidas refeições às alunas indigentes. As irmãs Victoria Tse Kwai Ying e Margaret Wu Yee Ching descreveram detalhadamente a forma como o Pe. Ruiz obteve a cooperação da Escola de Santa Teresa do Menino Jesus para
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo12dar apoio na educação e catequese aos refugiados do Vietname. A estas quatro religiosas, que elogiaram a obra do padre no domínio da educação, dirijo os meus sinceros agradecimentos. Agradeço igualmente aos senhores Lam Iu Sang e Yu Meng Sang, que me acompanharam ao Convento das Irmãs do Precioso Sangue, sito em Fanling, em Hong Kong, onde nos deslocámos para a entrevista à irmã Margaret Wu Yee Ching.Finalmente, ao Sr. Eduardo Francisco Tavares, que me apresentou ao Instituto Internacional de Macau para eu poder escrever este livro, vão também os meus agradecimentos.Ieong Chi Chau 15 de Agosto de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau13Hoje em dia, a maior parte dos jovens que vive em Macau não imagina o que é passar fome, nem viver sem tecto ou não ter oportunidade de estudar. Contudo, os da velha geração, especialmente os que vieram para Macau por causa da segunda Guerra Mundial ou os que cá cresceram nessa época, conhecem muito bem essa realidade.Durante a maior parte do século XX Macau foi, sem dúvida, um centro de refugiados, cuja maioria vivia em condições de extrema pobreza, sem agasalhos ou alimentação, situação que só começou a melhorar a partir dos anos 70 do século passado. Felizmente, Macau recebeu nessa época muitos missionários católicos que se dedicaram a dar alívio e a atenuar as difíceis condições de vida de grande parte dessa população. Esses missionários ajudaram sem qualquer discriminação, resolvendo também muito dos problemas relacionados com a vida quotidiana, com a educação das novas gerações e contribuindo para o lançamento das bases no auxílio ao combate à pobreza.Entre esses missionários que vieram para Macau destaca-se um cuja vida foi dedicada ao amor de Deus misericordioso. Homem de poucas palavras, que não gostava de falar, mas de realizar, dedicou a maior parte da sua vida a Deus e aos chineses1, especialmente às gentes de Macau. Esse homem é o muito reverendo 1. Segundo Paul Pun, secretário-geral da Cáritas de Macau, as cartas de pedido de auxílios no estrangeiro foram sempre dirigidas em nome dos chinesesINTRODUÇÃO
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo14Pe. Luis Ruiz Suárez, que doravante e com excepção do título será designado simplesmente por “o Padre”.No Padre podemos encontrar carinho humano e testemunho vivo do mistério do amor de Deus. Na realidade, cada fragmento da sua vida é um reflexo desse amor. Foi para terras longínquas onde procurou ajudar os mais carenciados, os mais pobres e os doentes que ninguém queria cuidar. A todos eles estendeu sem temor as suas mãos carinhosas. O presente livro pretende ser uma homenagem a esse homem, o “Pai dos Pobres” e procura descrever a vida deste “Benfeitor de Todos”2, que viveu em Macau durante o século XX e até ao início do século XXI, esperando que as gerações vindouras possam conhecer tão venerando sacerdote e com ele aprender a via da iluminação e do saber.O livro encontra-se dividido em duas partes, sendo a primeira dedicada aos acontecimentos mais relevantes da vida do Padre. A segunda debruça-se sobre aspectos particulares, tais como as memórias dos seus amigos, partilhando com os leitores histórias, fragmentos e descrições ilustradas, dando assim a conhecer aos leitores o Padre que dedicou a sua vida a Macau e a obras filantrópicas na China.2. “Benfeitor de Todos” é a imagem transmitida pela irmã Victoria Lau
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau15PRIMEIRA PARTE: BREVE DESCRIÇÃO DA VIDA DO PADRE LUIZ RUIZ SUÁREZSão muitas as reportagens sobre a vida do Padre, encontrando-se o presente trabalho essencialmente fundamentado no que foi publicado pela Companhia de Jesus3 e num artigo sobre a vida do Padre elaborado pelo grupo liderado pelo Superior da Companhia de Jesus em Macau, Pe. Howard Lui, S.J., acrescentando-se as entrevistas de várias individualidades, conforme a ordem cronológica e o desenvolvimento dos acontecimentos.TERRA NATALLuiz Ruiz Suárez nasceu em Gijon, nas Astúrias, a 21 de Setembro de 1913. Nasceu pouco antes do início da 1ª Guerra Mundial e cresceu durante a guerra civil de Espanha (1936-39). Entrou para a Companhia de Jesus, em Salamanca, em 20 de Setembro de 1930, quando tinha 17 anos. Foi um período de grande agitação política durante o qual muitos missionários espanhóis encontravam-se em grande perigo. Segundo as estatísticas, só em 1935 e 1936, foram martirizados4 em Espanha 109 Claretianos, facto revelador da difícil situação da Igreja.3. Consultar a página electrónica da Província da China da Companhia de Jesus – Society of Jesus, Chineses Province (https://www.amdgchinese.org/en/)4. Chan Cheng I. Chama de amor não morre: história dos 109 mártires claretianos, Editora Claretiana, 2017
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo16A Vespa – o principal elemento simbólico associado ao Padre
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau17DE CUBA À CHINAAntes de ser enviado para a China, em 1941, o Padre viveu durante alguns anos em Cuba. Segundo afirmou o Pe. Michael Kelly, S.J.5, tinha apenas 28 anos quando chegou à China:“Foi professor num colégio jesuíta, um trabalho que adorava. Ficou muito triste ao saber que seria transferido para Xangai para concluir teologia. Amava Cuba e os seus alunos, especialmente um deles que era o líder dos estudantes, presidente da Congregação Mariana, capitão da equipa de basebol, e comandante do exército estudantil: Fidel Castro. O Padre descobriu que Fidel era um jovem muito carismático, com cuja proeza ficou muito orgulhoso, porque derrubou o regime corrupto e irremediável do ditador Fulgencio Batista.Em breve, o Padre transformou-se completamente, tornou-se um filantropo e tomou a seu cargo o cuidado de gerações e gerações de esquecidos pela sociedade, os deficientes físicos e mentais, os atormentados por doenças crónicas, os leprosos separados da família e da sociedade e, mais recentemente, os doentes com SIDA.”Após o início da Segunda Guerra Mundial e da China ter sido invadida pelos japoneses, o Padre foi enviado de Cuba para Xujiahui, Xangai, para prosseguir os seus estudos teológicos. Posteriormente, foi ordenado sacerdote com 32 anos de idade no município de Xian, Hebei, a 7 de Junho de 1945, dois meses antes da rendição incondicional dos japoneses6. Durante este período em que a China foi cruelmente 5. “Um grande homem, o Padre Luiz Ruiz Suárez”, Pe. Michael Kelly, S.J., Semanário da Diocese de Hong Kong, 26 de Agosto de 2011 (Catholic Weekly Newspaper /Kung Kao Po)6. O Japão declarou a rendição incondicional a 15 de Agosto de 1945
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo18devastada pela guerra, o Padre percorreu diversos lugares na sua missão missionária e educativa, nomeadamente Xangai, a província de Hebei, e Anxing, na província de Anhui. Numa entrevista com Paul Pun, este menciona o facto do Padre ter leccionado na Escola Secundária Chongwen, em Anhui:“Em Agosto de 1992, eu (Paul Pun) e o Padre fomos à China para auxiliar os sinistrados das inundações então ocorridas na China Oriental, aproveitando a ocasião para visitarmos Anhui. O Padre apontou-me uma escola simples, dizendo que era a escola Chongwen onde ele fora professor e que esta praticamente não mudara, bem como a igreja adjacente”7.DA CHINA A MACAULogo após o final da Segunda Guerra Mundial, rebentou a guerra civil e, mesmo assim, o Padre continuou com a sua missão evangelizadora pela China conturbada por um novo conflito. Porém, só viria a ser o “Padre dos Refugiados” após a implantação da República Popular da China. Antes da sua chegada a Macau, em 1951, foi proibido de exercer qualquer actividade missionária e, posteriormente, foi expulso da China, tendo sido afectado pela febre tifóide durante esse período. Depois de chegar a Macau, a Companhia de Jesus pretendia que o Padre descansasse e recuperasse da doença, mas ele encontrou uma cidade sobrelotada de refugiados e, de imediato, começou a trabalhar no auxílio aos refugiados e aos pobres.Durante o conflito mundial, Portugal manteve-se um país neutro, razão pela qual Macau ficou como o único território neutro em toda a região do Extremo Oriente. De todo o lado chegavam a Macau refugiados, incluindo muitos europeus, que procuravam um abrigo seguro. Com a implantação da República Popular da China, a guerra da Coreia e a do Vietname, e as reacções ao sistema comunista chinês, Macau, então uma pequena cidade com o seu pequeno porto piscatório, tornou-se num centro 7. Excerto da entrevista com Paul Pun, em 20 de Abril de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau19de refugiados, abrigo de tanta gente vinda de tantos lados. Perante esta situação, o Padre lançou-se de imediato ao trabalho nos serviços sociais.EVANGELIZAÇÃO, EDUCAÇÃO E INÍCIO DOS SERVIÇOS SOCIAIS DA CASA RICCIComo recorda Paul Pun, “em 8 de Dezembro de 1951, o Padre iniciou aqui (no Largo de Santo Agostinho, nº 1-A) as suas actividades sociais. Abriu a porta e começou a distribuir géneros aos indigentes. Devido à falta de recursos materiais, muitas pessoas vieram e, por isso, todo o apoio foi enviado para aqui”. O Pe. Luis Ruiz Suárez (o segundo a contar da esquerda) iniciou a sua actividade de serviços sociais no Largo de Santo Agostinho, 1-A
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo20Sendo o Padre um sacerdote que tinha a missão evangelizadora, lembrava-se sempre do ensinamento bíblico como guia de orientação:“(...) porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e me acolhestes; estava nu, e vestiste-me; adoeci, e visitaste-me; estive na prisão, e foste ver-me (...) quando a um deste pequeninos não o fizeste, não o fizeste a mim (...)” (Mateus, 25: 35-45)A missa e a oração eram actos que praticava diariamente, como forma de corresponder à sua vida sacerdotal. Depois, dedicava-se a obter recursos para poder sustentar os seus trabalhos de assistência. A casa no nº 1-A do Largo de Santo Agostinho é a morada dos Serviços Sociais da Casa Ricci, pelo Padre fundada. Aí se via diariamente, entre os anos 50 e até ao início dos anos 70 do século passado, longas bichas de pessoas para obter diversos tipos géneros.Em simultâneo com esta actividade de assistência social, associou-se a outros jesuítas que vieram da China, como o Pe. German Alonso, o Pe. Luígi Minella, o Pe. Rafael Diez Escanciano, entre outros, para constituir o Colégio Mateus Ricci, em 19558. No entanto, o seu papel limitou-se ao fornecimento de recursos materiais, especialmente bens alimentares. Na breve história deste Colégio relata-se o seguinte:“Nos anos 50, a economia de Macau encontrava-se num estado ruinoso e a sua população a viver em grandes dificuldades. Os dois sacerdotes jesuítas, Pe. Ruiz e Pe. Minella, vendo o aumento constante de crianças desistentes de formação escolar, pensaram em constituir uma escola para os carenciados. Mercê do apoio dado pelo então bispo D. Policarpo, que cedeu um belo prédio sito na zona do Chunambeiro, o Colégio Mateus Ricci abriu as suas 8. Fundado pelo Bispo D. Policarpo, em 1955. Situado na Rua do Bom Parto, nº 21, no início apenas com ensino primário, mas veio a alargar os estudos ao ensino secundário e complementar em 1962. Em 1959 acrescentou-se o edifício da Rua do Chunambeiro e em 1962 o da Travessa do Colégio. In Cronologia da História de Macau, Volume III, pág. 323 (N. de R.)
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau21portas no Outono de 1955 e tinha por ideal o pensamento de Mateus Ricci conforme o espírito de caridade e de educação sem discriminação da Companhia de Jesus”9.9. Breve História do Colégio Mateus Ricci, edição electrónica (em chinês) - https://www.ricci.edu.mo/index.php/zh-TW/about/historyColégio Mateus Ricci
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo22A dedicação do Padre à causa da educação não se limitava à fundação deste colégio, aspecto que será analisado na segunda parte do livro. Depois dos trabalhos de apoio social desenvolvidos nas décadas de 50 e 60, as estruturas sociais então criadas possuíam já uma certa envergadura. Nos últimos anos da década de 60, o Padre tinha a seu cargo alguns centros sociais, nomeadamente:• Em 1968, o Asilo Betânia começou a prestar serviços de apoio residencial aos idosos sem cuidados familiares;• Em 1970, o Lar São Luís Gonzaga foi fundado para proporcionar abrigo a pessoas com deficiências10.10. Caritas Ligação, nº 94, Julho de 2011: Edição especial dedicada ao Padre Luis Ruiz Suárez (http://www.caritas.org.mo/uploads/wizpublicationdownload/201303/319_mcckz.pdf)Asilo Betânia
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau23A FUNDAÇÃO DA CÁRITAS DE MACAUApós a fundação de várias instituições de assistência social, começaram a surgir problemas relacionados com a administração, os recursos humanos e financeiros, entre outros. Em 1971, o Padre decidiu entregar à Diocese de Macau os Serviços Sociais da Casa Ricci e, ao mesmo tempo, solicitou a admissão na Caritas Internationalis, adoptando a designação de Cáritas de Macau. De realçar foi o apoio que recebeu do clero, sobretudo das religiosas. Para além deste aspecto, e o mais importante, foi a questão da formação de assistentes sociais qualificados. Com a ajuda da irmã Maria Goisis, FDCC (Filhas da Caridade Canossianas, Servas dos Pobres), e do Pe. Lancelote Rodrigues, estabeleceu o Instituto de Formação de Assistentes Sociais, o qual foi o primeiro e o único em Macau nessa época, e que serviu de base para a formação de recursos humanos da Cáritas de Macau.Os Serviços Sociais da Casa Ricci são uma instituição sob a égide da Companhia de Jesus, enquanto a Cáritas de Macau pertence à Diocese de Macau. Na década de 70 do século passado, Macau era um território sob administração portuguesa e a Diocese recebia subsídios do governo português estando, por conseguinte, sujeita à fiscalização do governo.Conforme explica Paul Pun, a origem dos recursos financeiros dos Serviços Sociais da Casa Ricci não provinha do governo, pelo que possuíam uma maior autonomia e flexibilidade financeira. Ao invés, a Cáritas de Macau tinha de justificar as suas despesas para cumprir as regras definidas pelo governo e pela Caritas Internationalis. Por outro lado, o Padre mantinha os seus métodos de obtenção de apoios financeiros para, através da Cáritas, auxiliar os indigentes.Durante o período compreendido entre os anos 70 a 90 do século passado, a Cáritas estabeleceu as seguintes instituições:• Em 1970, o Centro Residencial “Arco-Íris”, para pessoas deficientes;
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo24• Em 1974, o Asilo de Nossa Senhora do Carmo, para pessoas da terceira idade;• Em 1983, o Centro de Dia da Ilha Verde, destinado a actividades diárias dos idosos daquela zona; • Em 1984, The LifeHope Hotline e Centro para Idosos da Casa Ricci;• Em 1988, em representação da Cáritas tomou ao seu cargo o Asilo de São Francisco Xavier e o Centro de Santa Margarida, estabelecidos pelas Filhas Canossianas da Caridade;• Em 1989, o Centro para Mulheres da Cáritas;• Em 1993, entregou o Centro de Santa Lúcia às Franciscanas Missionárias de Maria;• Em 1994, procedeu à entrega da Creche da Cáritas às Missionárias de Nossa Senhora dos Anjos11.Portanto, a Cáritas de Macau, sob a direcção do Padre, cresceu tanto em quantidade como em qualidade. Os dados acima mencionados mostram como os serviços sociais da Cáritas se encontravam já no caminho da diversificação, beneficiando todas as camadas sociais de Macau. Olhando para aquela época, com a excepção das obras realizadas pela administração portuguesa, os trabalhos realizados então pela Cáritas devem ser devidamente apreciados e publicitados. 11. Caritas Ligação, nº 94, Julho de 2011: Edição especial dedicada ao Padre Luis Ruiz Suárez (http://www.caritas.org.mo/uploads/wizpublicationdownload/201303/319_mcckz.pdf)
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau25O Padre e um grupo de voluntários visitam os desalojados numa noite muito friaO Padre e um grupo de voluntários distribuem mantas aos desalojados numa noite de Inverno
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo26OS REFUGIADOS DO VIETNAMEDesde a década de 50 e até ao início dos anos 70 do século passado, as mudanças de regimes políticos em diversas regiões vizinhas vieram impor uma alteração nos objectivos dos serviços sociais, relacionando-se então com o apoio aos refugiados e aos boat people, sem discriminação de nacionalidade ou de etnia. Muito trabalhou o Padre para resolver os problemas dos refugiados que, desde o início da década de 50, chegavam a Macau, tais como os chineses expulsos do Sudeste da Ásia, os refugiados do Vietname ou mesmo os que chegavam por problemas financeiros. Após terminar esta tarefa, o Padre dedicou-se, de imediato, a apoiar a população local mais pobre e à sua evangelização, para os quais fundou vários estabelecimentos de serviços sociais, a fim de poder enfrentar as necessidades prementes de Macau de então. A Cáritas de Macau rapidamente cresceu, primeiro para servir as pessoas da terceira idade e, em seguida, para servir e apoiar crianças com deficiências físicas ou mentais, órfãos e mulheres necessitadas, relacionando-se o crescimento deste apoio com a resolução definitiva da questão dos refugiados.MOTIVO DO ATRASO DO ÚLTIMO VOTOO Padre entrou para a Companhia de Jesus, em Espanha, quando tinha 17 anos e foi ordenado sacerdote, na China, aos 32 anos de idade. Veio para Macau após o início da guerra civil na China, dedicando-se de imediato ao trabalho de apoio a refugiados, pobres e doentes. Perante as restrições então vividas em Macau, à sua dedicação e zelo nos trabalhos que realizava e ao amor a Macau e à China12, o Padre muito cedo fez os seus três votos: pobreza, castidade e obediência (Congregação), sem ter professado o seu quarto voto (obediência a todas as instruções do Papa)13, o qual só foi cumprido a 5 de Novembro de 1977, quando já tinha 64 anos de idade.12. Trata-se de uma suposição do autor13. Segundo o Pe. Luís Sequeira, S.J., muitos padres e frades só professam os primeiros três votos, enquanto que para a Companhia de Jesus o quarto voto reveste-se de maior importância e só é aprovado depois de cuidadoso exame. Este será o motivo do atraso do último voto
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau27MISSÕES DE AJUDA A POBRES E FRACOS NA CHINA EM NOME DA CÁRITASNos primeiros anos da década de 80, o Padre iniciou a tarefa de preparação dos seus sucessores na Cáritas de Macau e para que estes pudessem colaborar nos diversos trabalhos levou-os, tanto os voluntários como os novos colegas, para a China continental, onde passaram a exercer trabalhos de apoio às populações de forma a aliviar o estado de pobreza em que viviam. Por outro lado, a política de reforma e abertura praticada na China nos anos 80 proporcionou oportunidades de contactos com o clero da China continental. Deste modo, teve a possibilidade de ajudar um padre idoso da província de Guangdong, dando assistência a leprosos. Nessa altura, o Padre tomou consciência da sua limitada capacidade, aliada à idade avançada e, portanto, procurou o apoio de outros missionários e freiras para o ajudar nos seus trabalhos já iniciados, para além de continuar com a sua missão de angariar junto de benfeitores de todo o mundo, fundos necessários para as actividades sociais. Graças à sua missão evangelizadora, proporcionou não apenas equipamentos, como por exemplo a reconstrução e melhoramento de asilos, mas essencialmente procurou melhorar drasticamente as condições de vida dos leprosos, dando-lhes amor e dignidade humana.As causas justas têm sempre apoios e Deus dá força através do Espírito Santo às obras que glorificam o seu Santo Nome. Perto da ilha de Sanchoão, numa outra ilha chamada Daijin, ou a ilha dos leprosos, vivia um grupo de leprosos, isolados e em condições miseráveis, numa gafaria em ruínas. Depois dos esforços desenvolvidos pelo Padre e pelos seus colaboradores, o ambiente da gafaria obteve profundos melhoramentos e, por conseguinte, também o estado psicológico dos doentes foi nitidamente elevado e a leprosaria tornou-se numa unidade-modelo de cuidados para leprosos reconhecida pelas autoridades locais.
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo28Ajuda aos pobres em terras distantes na China
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau29Devido aos incidentes ocorridos na China em Junho de 1989 o Padre deparou-se com grandes obstáculos pelo seu envolvimento na libertação de activistas pró-democracia.Contudo, e apesar dos motivos invocados terem sido aceites, os seus colaboradores foram proibidos de continuar a sua missão de evangelização e ao Padre foi interdita a sua entrada na China por um período de três anos. Durante a sua ausência, o Pe. Gregory Koay Choon-Kheng ocupou temporariamente o seu lugar, tendo o Padre regressado a Macau onde retomou os seus trabalhos de angariação de fundos e, em particular, na reorganização da Cáritas de Macau e na formação dos seus sucessores. Por fim, com a intervenção dos serviços consulares de Espanha, foi novamente autorizado a entrar na China após três anos de interdição, onde prosseguiu as suas actividades sociais que foram crescendo de forma ainda mais acelerada.A Cáritas de Macau foi reestruturada na década de 90, com a constituição da Assembleia Geral, do Conselho dos Supervisores, do Comité Executivo, da Comissão dos Conselheiros e dos cargos de Secretário-Geral e de Administrador. Ao Padre foi atribuído o cargo de Administrador e de representante da pessoa jurídica e a Paul Pun o de Secretário-Geral. Mas na realidade este último ficou com toda a responsabilidade da Cáritas, porque o Padre dedicou-se inteiramente aos serviços sociais na China. Com o objectivo de ampliar a área de trabalhos, o Padre convidou, em 1985, a Congregação das Irmãs de Caridade de Santa Ana, de Espanha, para colaborarem na Cáritas de Macau, convite que foi aceite em 1987. Em Fevereiro desse ano o primeiro grupo de freiras chegou a Macau e, em 1997, chegou novo grupo de religiosas, habilitadas com o diploma de medicina, para apoiarem o Padre nas gafarias da Ilha de Dajin e em Yaxi, no distrito de Xinhui.
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo30COMPARTICIPAÇÃO DE MÉRITOS, DELEGAÇÃO DA CÁRITAS E NOVAS TAREFAS “Deus está atento às nossas acções”. Desde o início dos anos 50 e até aos finais dos anos 90, foram cerca de 50 anos de dedicação aos serviços sociais. Com mais de 80 anos de idade, o Padre manteve-se activo, continuando os seus trabalhos sociais e de evangelização, sobretudo no apoio aos leprosos e aos doentes com SIDA, mesmo em condições adversas como atravessar montanhas ou rios perigosos, enfrentar ventos ou tempestades. Os seus interesses centravam-se no bem-estar da sociedade, sem se preocupar com a sua própria pessoa. Mesmo sujeito a mal-entendidos14, o Padre encarava calmamente essas situações, porque acreditava que Deus estava atento às suas acções.14. Este assunto será abordado mais à frente, detalhadamenteJantar de homenagem aos que trabalharam mais de 50 anos na Caritas Macau
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau31Apesar de todos os mal-entendidos, a sua obra era do conhecimento de todos e, na década de 90, foi devidamente reconhecida pelo Governo de Espanha (a sua pátria), pelo Governo de Portugal (na altura Macau estava sob a Administração Portuguesa) e por Macau, com a atribuição de medalhas e títulos honoríficos.No dia 2 de Dezembro de 1994 recebeu das mãos do Cônsul-Geral do Reino de Espanha, em Hong Kong, a Medalha Honorífica, pelas suas contribuições prestadas a Macau.Sobre o acontecimento, temos a seguinte reportagem:“O Administrador da Cáritas de Macau, Pe. Luís Ruiz Suárez, S.J., de ascendência espanhola, de 81 anos de idade, dedicou-se aos serviços sociais em Macau ao longo de 50 anos, assumindo a missão de cuidar da população mais pobre. Foi homenageado pelos governos de Portugal e de Macau com a atribuição de medalhas de mérito pela sua contribuição para a sociedade. O Rei de Espanha distinguiu-o com a atribuição de outra medalha de mérito, cuja cerimónia teve lugar do dia 2 de Dezembro (de 1994), pelas 20 horas, no salão nobre do Paço Episcopal, presidida pelo Cônsul-Geral de Espanha acreditado em Hong Kong. Assistiram a esta cerimónia o Governador de Macau, General Rocha Vieira, o Bispo de Macau, D. Domingos Lam, vários secretários-adjuntos, directores de Serviços, missionários da Companhia de Jesus, clero e religiosas, os quais felicitaram o Pe. Ruiz, desejando-lhe muita saúde repleta de bênçãos celestiais”15. 15. Aurora nº 46, de 11 de Dezembro de 1994
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo32Em Abril de 1995, o Padre em representação da Cáritas de Macau recebeu das mãos do Presidente da República Portuguesa, Dr. Mário Soares, a medalha honorífica de mérito. Acompanhado pelo Bispo D. Domingos Lam, o Padre cumprimenta o Governador de Macau, General Rocha Vieira
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau33O Padre recebe das mãos do Governador de Macau, General Rocha Vieira, a medalha de méritoO Presidente da República Portuguesa, Dr. Mário Soares, entrega ao padre a medalha de mérito
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo34Em 1 de Junho de 1998, foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito, pela sua brilhante contribuição nos serviços sociais de Macau.Diploma de 1 de Junho de 1998 que confere ao Padre o grau de Comendador da Ordem de Mérito
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau35O Alvará de 1 de Junho de 1998Em 10 de Junho de 1998, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, no almoço oferecido pelo Governador de Macau a personalidades homenageadas1616. Fotografia cedida pela senhora Elisa Um Hak I, a primeira do lado direito
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo36Documento do Gabinete do Governador, datado de 25 de Novembro de 1998, relativo à entrega do diploma que confere ao Padre o grau de Comendador da Ordem de Mérito
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau37Reproduzimos aqui a reportagem: “No dia 10 de Junho do corrente ano (de 1998, 4.ª feira), Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, realizou-se a cerimónia de entrega das condecorações a diversas personalidades e entidades em reconhecimento das suas contribuições à sociedade de Macau. Comenda da Ordem do Mérito: O Administrador da Cáritas de Macau, Pe. Luis Ruiz Suárez, foi condecorado com a Comenda da Ordem do Mérito como forma de reconhecimento das suas prestigiosas obras realizadas nos empreendimentos sociais locais”17.Na década de 90, muitos pensavam que, devido à sua idade avançada, então com mais de 80 anos, o Padre deveria ir descansar na residência da Companhia. Contudo, tal não aconteceu porque, apesar de passar a Paul Pun o pesado encargo da Administração da Cáritas de Macau, o Padre prosseguiu a sua tarefa de cuidar dos leprosos na China, tendo até diversificado e ampliado as suas actividades. Só no ano de 2000 é que Paul Pun foi oficialmente nomeado administrador e representante legal, através de documento publicado no Boletim Oficial da RAEM. Segundo lembra o Sr. Pun, em meados da década de 90 e até antes do estabelecimento da RAEM, os trabalhos sociais desenvolvidos pelo Padre na China confundiam os nomes da “Cáritas de Macau” e dos “Serviços Sociais da Casa Ricci”. É certo que a designação “Serviços Sociais da Casa Ricci” já era utilizada antes do estabelecimento da RAEM no início dos trabalhos na China continental e que já tinha sido utilizada em 198718. Paul Pun alega, sorrindo, que tal confusão de nomes se deveu ao período de “Transição”.17. Aurora, nº22, de 14 de Junho de 199818. Informação fornecida pela Casa Ricci
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo38O Padre numa visita a crianças
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau39Outro acontecimento importante ocorreu também nos anos 90. Cerca de 1996, este octogenário deixou finalmente de utilizar a Vespa que, durante cerca de 40 anos, o acompanhou nas avenidas e ruas de Macau porque, tal como o Padre, este velocípede era já tão velho que não podia ser reparado.ULTRAPASSAR A ÚLTIMA ETAPA EXTRAORDINÁRIAAo entrar no novo século, o Padre, já quase com 90 anos, tinha chegado à etapa final da sua vida. Os diabetes e a doença cardíaca afligiam-no tanto que apenas podia caminhar com o apoio da bengala e, diariamente, tinha de injectar a sua dose de insulina. Para poder efectuar as suas visitas domiciliárias, o Padre tinha que ser transportado de automóvel e, em 2010, só podia andar de cadeira de rodas. Apesar da sua saúde piorar e de depender da ajuda de terceiros, o Padre insistia em continuar a trabalhar para cumprir a promessa de “nunca descansar”.Por outro lado, por causa dessa sua insistência, a Companhia de Jesus de Macau mandou vir da Argentina, em 2005, o Pe. Fernando Pablo Azpiroz Costa, S.J.19 para assistir aos trabalhos na China continental de modo a facilitar a sua posterior substituição. Nesse mesmo ano de 2005, os trabalhos de ajuda a leprosos desenvolvidos pelo Padre alargaram-se ao Vietname e à Birmânia, depois da sua expansão da província de Guangdong até às regiões de Hunan, Sichuan, Yunnan e Shanxi, territórios onde só se chegava depois de atravessar várias montanhas. Se no início os trabalhos se limitavam à prestação de serviços aos doentes, depois da diversificação os serviços passaram a abranger os familiares dos doentes e a educação dos filhos. Foi por essa altura que tiveram início os cuidados prestados aos doentes com SIDA e seus familiares. Em 2008, os serviços estenderam-se às servidoras do sexo e aos seus familiares.19. O Pe. Fernando Pablo Azpiroz Costa, S.J., argentino, veio para Macau após a sua ordenação em 9 Julho de 2005
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo40Visita às terras montanhosas
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau41Nesta última etapa da sua vida, o Padre continuava a estar ligado aos serviços sociais, tendo estabelecido, mesmo já em estado de saúde deteriorada, parcerias com as instituições da China continental para que as suas actividades pudessem ter melhor e mais rápido desenvolvimento. Conforme mostram os dados fornecidos pelo Pe. Fernando Costa, S.J.20:• Em 2004, Lar Carinhoso de Hunan, para tomar conta dos pacientes terminais com SIDA;20. As informações são prestadas em inglês pelo Pe. Fernando Costa, S.J., que se encarregou da rectificação da versão chinesa feita pelo autor
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo42• Em 2005, Lar Infantil de Alegria de Lufeng, Yunnan, para tomar conta dos filhos de doentes com lepra, para que possam ter oportunidade de educação;• Em 2005, em Yunnan, o Centro de Carinho para pacientes com SIDA, para que os mesmos e os seus filhos possam viver com mais dignidade;• Em 2006, equipas itinerantes de cuidados oftalmológicos para tratar cataratas e outros problemas oftalmológicos das populações de terras longínquas, através da prestação de serviços informativos, de atendimento e de ligação aos pacientes;• Em 2007, em cooperação com Yunnan e a cidade de Qujing, inauguração do primeiro centro de serviços para as trabalhadoras do sexo;• Entre 2007 e 2010, decorreu o plano de desenvolvimento social de três aldeias na região de Dehong e na cidade de Wenshan, incluindo caixas económicas e crédito de pequenas quantias;• Entre 2008 e 2011, procedeu-se à abertura de três lares infantis para doentes com SIDA, em cooperação com a AIDS Care China, para que as crianças habitem em conjunto com as religiosas que os tratam;• Em 19 de Maio de 2010, os Serviços Sociais da Casa Ricci em Macau passaram a ficar sob a égide da Companhia de Jesus;• Em 2011-201221, deu-se início aos serviços a pacientes com SIDA nos hospitais públicos da China continental, incluindo o Centro de Laço Vermelho da Universidade Sun Yat Sen, Guangdong, e o Lar Carinho An Ning, da cidade de Kunming, Yunnan.21. O Pe. Ruiz faleceu a 26 de Julho de 2011
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau43O Pe. Fernando Costa começou a colaborar nos trabalhos desenvolvidos pelo Padre na China continental, enquanto este manteve-se ligado a estabelecer contatos com o exterior para angariação de fundos. No que diz respeito à tomada de decisões, estas passaram para o Pe. Costa com o apoio e encorajamento do Padre.TRÊS CENAS DOS ÚLTIMOS TEMPOS DA VIDA DO PADREFazer uma visita ou uma viagem é uma acto simples e normal, mas não para uma pessoa nonagenária que necessite de percorrer longas distâncias, de avião ou de automóvel, deslocando-se em cadeira de rodas e sujeita a tratamentos médicos diários. Entre os 95 e os 97 anos de idade, o Padre (falecido aos 97 anos) realizou três importantes viagens. A primeira dessas viagens aconteceu quando da sua visita ao Lar Infantil de Alegria de Lufeng, em Yunnan, onde celebrou o seu 95º aniversário na companhia das crianças aí internadas. Imagine-se a cena comovente de um idoso, com grande dificuldade em andar, a festejar o seu aniversário com as crianças dos pais leprosos! A segunda ocorreu também aos 95 anos, quando o Padre foi visitar a sua primeira gafaria, por ele fundada na ilha de Dajin, leprosaria que, em 1986, possuía péssimas condições e que, em 2008, passou a ter um ambiente muito melhor e na qual a maioria dos seus primeiros internados já falecera. Os que sobreviveram abraçaram comovidos o Padre. A terceira aconteceu a 13 de Outubro de 2010, já o Padre tinha completado os seus 97 anos, quando foi visitar o Centro de Convalescência de Hanzhong, em Shaanxi, deslocando-se em cadeira de rodas e sujeito a tratamento diário de insulina.
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo44A Cáritas de Macau e os Serviços Sociais da Casa Ricci celebram em conjunto o 97º aniversário do PadreO Padre corta o bolo de aniversário com os colegas da Companhia de Jesus
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau45VOLTAR À CASA DO PAI O Padre foi forçado a parar de trabalhar devido à sua avançada idade tendo contribuído para a criação de 140 comunidades de reabilitação de leprosos22. Contudo, manteve-se activo e continuou a escrever a entidades benfeitoras de todo o mundo com o intuito de angariar fundos, pois acreditava que “a vida é sempre vida”. Enquanto ainda conseguia “mover-se e oferecer-se” continuou a “trabalhar e a servir” e todas as manhãs deslocava-se ao Lar de São Luís Gonzaga para celebrar a missa com os deficientes.Face ao estado de saúde que se deteriorava a Companhia de Jesus colocou aos dispor do Padre enfermeiros em três turnos diários. No dia 26 de Julho de 2011, cerca das 6 horas e meia da manhã, o enfermeiro filipino foi bater à porta do quarto do Pe. Gregory Koay Choon-Kheng avisando que o Padre estava em agonia. De imediato, o Pe. Gregory e o Pe. Yves Camus chamaram uma ambulância, depois de irem verificar a situação. Entretanto, o enfermeiro filipino chorava e implorava “não morra, Padre”, enquanto fazia a reanimação cardiopulmonar (RCP) infrutiferamente. Enquanto isso, devido a um incêndio que ocorria na zona do Porto Interior, a ambulância chegou um pouco atrasada, cerca das 6 horas e 45 minutos, para transportar o Padre para o Hospital Conde de São Januário, onde veio a falecer às 7 horas e meia23, com a idade de 97 anos, faltando dois meses para atingir os 98 anos.22. Consultar a página electrónica dos Serviços Sociais da Casa Ricci: A nossa história (http://casaricci.org/en/about/story/index.html)23. Conforme a entrevista telefónica com o Pe. Gregory Koay Choon-Kheng
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo46O Pe. Luiz Ruiz Suárez está sepultado no cemitério de São Miguel ArcanjoNo dia do funeral, pessoas prestam-lhe a última homenagem ajoelhando-se em frente da Sé Catedral
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau47AS IMAGENS MARCANTES DO PADREAntes de mais, comecemos por mencionar dois testemunhos. O primeiro vem do grupo liderado pelo Pe. Howard Lui, S.J. que relata o seguinte:“O Padre vivia modestamente e em humildade. Nunca tinha no seu armário uma roupa decente, as suas camisas eram muito velhas e só possuía dois pares de calças para poder trocar. Um dia, uma das calças foi para lavar sem que as outras tivessem sido encontradas. O Padre ficou então muito atrapalhado e pediu-me para o ajudar a encontrar as calças, pois sem elas não podia ir trabalhar. A propriedade mais preciosa do Padre era a sua Vespa, o seu meio de transporte no qual que percorria toda a cidade de Macau para visitar os pobres. A sua Vespa acompanhou-o muitos anos, até o Padre atingir os 80 anos de idade e a Vespa já não poder correr. A Vespa foi um símbolo marcante da imagem do Padre em Macau”24.O segundo relato vem do artigo “Um grande homem: Padre Ruiz” da autoria do Pe. Michael Kelly, S.J.: 24. O Pe. Howard Lui, S.J. era o reitor da Casa de Residência da Companhia de Jesus em Macau. O artigo foi publicado em Setembro de 2011SEGUNDA PARTE: OS FEITOS DO PE. RUIZ
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo48A Vespa, a imagem mais marcante do Padre
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau49“Foi um grande homem, não porque foi um intelectual como o teólogo, Karl Rahner, que ilumina os outros com os seus escritos, nem uma figura pública como Cisco Claver, da Revolução do Poder Popular das Filipinas. Foi um grande homem porque tinha um grande coração, um coração de ouro”25.Nos dois artigos agora referidos podemos encontrar três aspectos marcantes relativamente ao Padre: a Vespa, a modéstia e um grande coração. Antes de avançarmos para pormenores, tenciono apresentar as minhas impressões sobre o padre durante o período da minha infância até ao 1º ciclo. Quando andava a frequentar a escola primária, nos anos 60, e como a minha família era bastante pobre, acompanhava com frequência a minha mãe até à Casa Ricci, onde recebíamos produtos de apoio. Esta situação só terminou nos primeiros anos da década de 70 do século passado e, segundo a minha mãe, as roupas de toda a família vinham dessa ajuda. Enquanto esperávamos na bicha, via muitas vezes um estrangeiro num motociclo que seguia para a Casa Ricci e conversava com as pessoas que se encontravam na bicha. Eu sabia quem era. Contudo, a minha mãe contava-me que este estrangeiro era padre e que todos os artigos que nós recebíamos, tais como manteiga, bolos, bolachas, roupas, etc., eram distribuídos por esse padre. A escola que frequentava também oferecia bolachas que eram distribuídas pela Casa Ricci. Foi só quando comecei a frequentar o secundário que mantive um contacto mais próximo com o Padre, nomeadamente, na igreja de Santo Agostinho. Recordo-me de jogar futebol com ele na Vila Ricci, em Cheok Van, Coloane, e que ele jogava com habilidade. Recordo-me, igualmente, da forma como falava o chinês, um chinês muito esquisito, pois misturava o cantonês e o mandarim, mas ambos não estavam correctos, embora na altura eu não dominasse o mandarim. Mas isso pouco me interessava na altura, pois nunca tivemos uma relação de convívio e pouco me importava o que ele dizia. Na verdade, pensei sempre que os estrangeiros falavam dessa maneira, incluindo o director da escola e outros padres estrangeiros. Porém, as recordações que guardo na minha mente prendem-se com a sua Vespa e as dádivas recebidas.25. Kung Kao Po, da Diocese de Hong Kong, 26 de Agosto de 2011. Catholic Hong Kong Diocese Weekly Newspaper - http://kkp.org.hk/ (versão electrónica em chinês)
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo50Falando da Vespa, num artigo publicado no Boletim dos Serviços Sociais da Casa Ricci, encontra-se a seguinte passagem: “Julga-se que muitos tiveram esta experiência: um padre estrangeiro com óculos de armação preta, montando numa Vespa, acena com a mão, parecendo dizer ‘Bom dia’”26.26. “Deus concorda com a boa vontade do homem”, Boletim dos Serviços Sociais da Casa Ricci, Dezembro de 2017A mais antiga Vespa do Padre
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau51Chapa de matrícula e livrete do motociclo que o Pe. Luis Ruiz Suárez utilizou durante mais tempo
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo52A última Vespa do PadreA Vespa era um símbolo, uma imagem marcante e a mais representativa do Padre, tal como a designação que lhe foi atribuída por Paul Pun de “Anjo do Sorriso”.Quanto à capacidade de expressão do Padre, o conhecido calígrafo Choi Chun Heng tem o seguinte comentário:“Embora não possamos compreender o que ele diz no seu sermão, sentimos a sua sinceridade. Penso que o sentido da vida não é literal, mas sim a compreensão, a sensibilização e a prática”27.Apesar de ser difícil compreender e dialogar com o Padre devido à forma confusa como se exprimia, conseguia-se sentir “a luz e o calor” que ele transmitia. Este é outro aspecto marcante do Padre. Recordo-me, era eu então uma criança, de ele ser conhecido pela alcunha de “Padre Maluco”, porque o seu nome em chinês era Luk San Fu, alcunha 27. Entrevista com o professor Choi Chun Heng
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau53que lhe foi atribuída quer por adultos quer por crianças. Ora, maluco designa uma pessoa que não tem o juízo todo e é, de certo modo, um termo pejorativo. No entanto, isso não significava que pretendessem dizer mal dele, mas simplesmente referiam-se a ele por “Padre Maluco” porque era difícil compreender o que ele dizia. Por outro lado, o Padre ajudava as pessoas com relativa rapidez e facilidade e o facto de o mencionarem por essa alcunha não tinha maldade nenhuma. Portanto, outros dois aspectos que se encontram associados ao Padre relacionam-se com a forma como se exprimia, misturando os dois dialectos, e a facilidade rápida e pronta de ajudar os outros.Enquanto escrevo sobre a vida do Padre, retiro da Bíblia o seguinte:“(...) porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e me acolhestes; estava nu, e vestiste-me; adoeci, e visitaste-me; estive na prisão, e foste ver-me (...) quando a um deste pequeninos não o fizeste, não o fizeste a mim (...)” (Mateus, 25: 35-45).
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo54O Padre usou um outro trecho muito semelhante como guia da sua vida:“Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para connosco: em que Deus enviou seu Filho unigénito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos também amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e em nós é perfeito o seu amor” (João 1, 4: 7-12).Como “devemos também amar uns aos outros”, foi o “Amor” a bússola orientadora do modo de actuação do Padre: ajudar os outros sem constrangimento e estar disponível para ir a qualquer lugar, mesmo aqueles onde ninguém quer ir. Esta é outra característica marcante do Padre.Visita às crianças da zona montanhosa de Yunnan
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau55Já nos últimos dias da sua vida, o Padre afirmou o seguinte: “Não devemos pensar tanto, porque só pensar não será suficiente, mas devemos agir e, pouco a pouco, pôr mãos à obra. Deus cuida de tudo”. Embora peça para agirmos “pouco a pouco”, o Padre sempre esteve muito atento às necessidades dos outros, mas sempre discreto. Portanto, “ser discreto” e “estar atento” são também dois outros aspectos que marcam a personalidade do Padre.Resumindo, podemos enumerar as seguintes características associadas ao Padre:• “Vespa” – o elemento simbólico mais marcante do Padre, que nos primeiros anos conduzia sem capacete, mas face à nova legislação passou a usá-lo.• “Sorridente” – uma impressão que se foi acentuando ao longo dos anos, sendo frequente as ocasiões em que o Padre surge a sorrir.• “Modéstia” – o Padre cumpria o voto de pobreza e possuía muitos poucos bens, nomeadamente roupa para trocar. As “vespas” cinzentas que possuiu foram abatidas quando já não era possível repará-las e a última, a “Vespa” de cor vermelha, era da Cáritas, oferecida por benfeitores.• “Mistura de dialectos” – o seu chinês era uma mistura do cantonês e do mandarim e, por vezes, misturava-lhe o castelhano.• “Rapidez” – apesar de apelar à calma, o Padre actuava sempre com rapidez na ajuda aos necessitados.• “Amor” – como uma bússola orientadora do seu modo de actuação, profundamente demonstrado pelas imensas obras de caridade que deixou, pura e simplesmente devido ao “Amor” aos outros.
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo56• “Um enorme coração, um coração de ouro” – pois apesar de ter dito que era uma pessoa sem grandes projectos, na realidade demonstrou uma enorme capacidade para projectar obras de caridade.• “Discreto” – realizar o seu trabalho sem ostentação, pois ser discreto era uma das características específicas do Padre.Um retrato do Padre
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau57IRREGULARIDADES PARA PRATICAR O BEMNos artigos e informações analisadas referentes ao Padre surge com frequência a expressão “irregularidades”. Nas entrevistas com Paul Pun, Pe. Fernando Azpiroz, Pe. Koay Choon-Kheng, João Ng e Young Lam, todos concordam com a existência de certas irregularidades, mas segundo a perspectiva do Padre estas destinavam-se a praticar o bem, que todos compreendem e aceitam. “Deus está atento às nossas acções” e desde que estas sejam justas, todos nós as devemos fazer.Nos primeiros anos, os trabalhos realizados pelo Padre eram feitos em nome dos Serviços Sociais da Casa Ricci, mas a partir da criação da Cáritas de Macau (em 1971), passou a prosseguir as suas actividades sociais em nome dessa instituição. Esta mudança teve efeitos sobretudo a nível financeiro, pois enquanto na Casa Ricci era mais fácil obter os meios financeiros para as obras de caridade, na Cáritas, por ser uma instituição com apoio do Governo, as despesas tinham de ser justificadas, não estando disponíveis esses meios à vontade pessoal do Padre. No entanto, talvez por causa do hábito, continuava a ajudar os outros, desde que tivesse algum dinheiro no bolso. Segundo diz o Sr. Young Lam em “Eu e a Igreja de Santo Agostinho”28:“Recordo-me que, em Abril de 1971, o meu benfeitor Leong Tin San acompanhou a minha família de 6 pessoas a um encontro com o Padre que, após uma conversa, retirou do seu bolso 50 patacas e as deu à minha mãe.”Dizia o Padre que o arroz da Casa Ricci nunca acabaria, ou seja, em termos bíblicos estaria a referir-se ao milagre da multiplicação dos cinco pães e dois peixes. O Padre não pensava no futuro, dando a impressão que não fazia planos. Aliás, ele próprio reconhecia que não tinha projectos e procedia conforme as circunstâncias do 28. “Eu e a Igreja de Santo Agostinho” de Young Lam, Observatório de Macau de 26 de Julho de 2006
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo58momento29. Recorda a Irmã Margaret Wu as vezes que o Padre passava pela Escola de Santa Teresa do Menino Jesus a pedir dinheiro emprestado para situações urgentes e, quando tinha dinheiro, dava-o à freira para que ajudasse os pobres. Usando a definição do Pe. Lancelote Rodrigues que descrevia o Padre como uma pessoa muito generosa, o dinheiro era “easy come, easy go”, não para ele próprio, mas para os indigentes30.O Padre ere uma pessoa muito atarefada e, logo após a missa diária na Igreja de Santo Agostinho, montava na sua Vespa para iniciar os trabalhos. Porém, apesar dos seus muitos afazeres, nunca perdia a oração comum com os seus colegas jesuítas. Mesmo a celebrar a missa era desprovido de formalidades e muitas vezes pedia a Paul Pun para cantar e acolitar à missa.Por diversas vezes, no Inverno, quando o frio apertava, o Padre acompanhado por jovens voluntários ia de noite distribuir mantas e roupas aos desalojados.29. Serviços Sociais da Casa Ricci, Dezembro de 201730. Extracto da entrevista com a Irmã Margaret Wu, em 17 de Junho de 2018O Padre a fazer a distribuição de mantas
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau59Na época dos tufões, sobretudo após ter sido içado o sinal 8 e as ligações entre Macau, Taipa e Coloane ficarem suspensas, o Padre, por preocupação com os idosos e deficientes, insistia em atravessar com a sua Vespa a ponte. A polícia, que o conhecia, deixava-o passar e, por vezes, chegava mesmo a acompanhá-lo.O Padre era sempre o mesmo Padre. Os seus actos irregulares levam-nos a questionar se esses correspondiam à sua condição de sacerdote. No entanto, ninguém duvida que as suas irregularidades se destinavam a praticar o bem e correspondiam aos ensinamentos de Cristo e ao espírito do Evangelho. Os seus colegas da Companhia de Jesus compreendiam muito bem o seu carácter pessoal e as necessidades do momento.
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo60O Jovem Padre
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau61O PADRE ENQUANTO TESTEMUNHA DE CRISTO31Até agora apenas nos referimos às actividades sociais e caritativas do Padre. Porém, ele foi um sacerdote da Igreja Católica e é altura de destacarmos os seus esforços na evangelização. Seria injusto não dar o devido valor ao papel do Padre enquanto missionário.31. As informações que se seguem foram retiradas das entrevistas com os senhores João Ng, Young Lam e Paul Pun.Interior da Igreja de Santo Agostinho
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo62 Interior da Igreja de Santo Agostinho
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau63Fachada principal da Igreja de Santo Agostinho
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo64Fachada lateral da Igreja de Santo Agostinho
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau65Iniciamos pelo testemunho do músico João Ng32, um dos beneficiários do Padre e fundador do Coro Folkman e do Coro Perosi de Macau. João Ng é um católico praticante que, quando estudante, frequentava a Igreja de Santo Agostinho e participava no coro da igreja. Depois de concluir o curso secundário, em 1968, e como não conseguia qualquer emprego, com a ajuda do Padre foi trabalhar para a Igreja de Santo Agostinho, ficando alojado num quarto adjacente à torre sineira. Havia duas congregações marianas na igreja, uma dirigida pelo Padre destinada aos cristãos da mesma igreja, a outra dirigida pelo Pe. Henry Chao destinada aos neófitos do Colégio Mateus Ricci. Durante as missas, o Padre dirigia sempre o coro, até João Ng tomar o cargo de dirigente. Depois, João e parte dos elementos que compunham o coro formaram o Grupo Coral Folkman, que foi muito bem recebido pelo público. Este grupo manteve-se activo até 1981.32. Sobre João Ng (ou Ng Seng Hong) consultar a página do Coro Perosi (http://www.macauperosi.org.mo/en/member_player2.htm)O Grupo Coral Folkman. O João é o primeiro a contar da direita
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo66Por seu lado, Young Lam33, aluno de João Ng, lembra um acontecimento de 1978: foi o Padre que o ensinou a cantar o primeiro cântico religioso que é “Deus, Senhor do Universo”, o 81.º do livro de cânticos “Graças a Deus”. Como não havia ninguém disponível para cantar na missa das oito da manhã, aos domingos, Young Lam, juntamente com a irmã Maria Goisis, com Paul Pun e Chan Lai Ieng, constituiu um pequeno núcleo de cantores para suprir a lacuna da falta de coro nessa missa, facto que não acontecia noutras missas que dispunham de vários cantores. Young Lam, com um grupo de jovens que gostava de cantar, formou juntamente com João 33. Young Lam foi também um dos beneficiários do Padre, tendo participado no Coro de Santo Agostinho e ajudado o Padre nos trabalhos de assistência socialO Padre no meio de jovens
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau67Ng e Bosco Chau, o conhecido Coro Perosi34 que ainda hoje se mantém em plena actividade. Portanto, podemos assim dizer que por detrás dos dois referidos coros está o Pe. Ruiz, que permitiu que João Ng se tornasse num grande maestro. Por esta razão, João nunca esqueceu o cuidado que lhe dedicou o Padre.34. Sobre o Coro Perosi consultar: http://www.macauperosi.org.mo/uploadfiles/pdf/pt_1228723338.pdfhttp://www.macauperosi.org.mo/en/index.php?option=content&task=section&id=10&Itemid=56 (N. da R.) O Padre dirigindo o Coro
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo68Depois de uma actuação do Coro Perosi na Sé CatedralDepois da actuação do Coro Perosi na Sé Catedral
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau69Para além de celebrar missa na Igreja de Santo Agostinho, o Padre também o fazia em qualquer outro lugar desde que houvesse necessidade, sem atender ao número de participantes nem ao estatuto social. Conforme recorda Paul Pun, em certas ocasiões só ele e o Padre participavam na missa, ficando ele com a parte musical. Um outro hábito do Padre era ir todos os dias, às nove da manhã, celebrar a missa para os deficientes do Lar de S. Luís Gonzaga, organização fundada em 1970 com a denominação de Centro S. Luís. O Padre manteve este seu hábito até morrer em 2011, enquanto a saúde permitia. Esta foi a orientação do seu procedimento: “Amemo-nos uns aos outros”.Visita dos membros do Coro de Santo Agostinho, que actuou nos anos 60 a 80, realizada em 21 de Fevereiro de 2010
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo70Embora sempre atarefado, o Padre nunca deixou de prestar o sacramento da extrema-unção aos enfermos e agonizantes, pois não tinha receio de estar em contacto directo com leprosos ou doentes com SIDA e, sobre este aspecto, existem provas, nomeadamente fotografias e filmes, nas páginas electrónicas da Companhia de Jesus, dos Serviços Sociais da Casa Ricci e da Cáritas de Macau.Durante o período de auxílio aos refugiados do Vietname, nas décadas de 60 e 70 do século passado, o Padre procurou dar-lhes a conhecer Jesus Cristo e muitos converteram-se ao Cristianismo, cujos descendentes já vão na terceira geração. Segundo a irmã Victória Tsé, o Padre pediu a ajuda das religiosas da Escola de Santa Teresa do Menino Jesus para a resolução de problemas relacionados com a vida e adaptação dos refugiados, não esquecendo os aspectos respeitantes à vida espiritual. Assim, a directora da escola, a Irmã Margaret Wu, abriu aos sábados uma classe de
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau71catequese a 20 refugiados, dos quais três eram mulheres. Todos eles se converteram e todos mantiveram boas relações e constantes contactos quer com o Padre, quer com a Irmã Margaret, mesmo após terem emigrado para outros países.O Padre gostava de partilhar as suas experiências com outros missionários e missionárias, com professores, doentes e mesmo com as crianças, dos tempos em que trabalhava nos serviços sociais na China continental. Cada momento representava uma oportunidade de evangelização, mas fazia-o sem que notassem, embora todos reconheçam-no como a melhor testemunha de Jesus Cristo. Ou, como o Padre gostava de dizer: “Em Cristo sonhamos, sorrimos, amamos, servimos e esperamos”35.Por fim, já radicado em Macau, professou o seu último voto – obedecer ao Papa – aos 64 anos de idade e após tantos esforços, pois o seu principal objectivo foi a evangelização e, testemunhar Jesus Cristo, a sua melhor prova de ter sido um sacerdote.RELAÇÃO ENTRE A OBTENÇÃO DE RECURSOS E A ATITUDE DOS SERVIÇOSO Padre procurou sempre estabelecer contactos com entidades benfeitoras de todo o mundo, com o objectivo de angariar fundos para a promoção e melhoria dos serviços sociais. No entanto, a origem desses fundos de ajuda nem sempre foi consensual, originando muitos rumores, sobretudo devido à situação política internacional.Antes de mais, convém recordar duas datas importantes. A 25 de Outubro de 1971, a República Popular da China substitui o governo de Taiwan nas Nações Unidas como o único representante oficial do povo chinês36 e, em 1979, ocorre 35. Por favor consulte a página electrónica dos Serviços Sociais da Casa Ricci36. Resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas, aprovada a 25 de Outubro de 1971, que reconheceu oficialmente a República Popular da China como único representante legítimo da China perante as Nações Unidas e removeu os representantes de Taiwan dos cargos ocupados na organização (N. da R.)
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo72o estabelecimento de relações diplomáticas entre a China e Portugal37, com o consequente corte de relações com Taiwan. Estes dois acontecimentos passaram despercebidos para a maioria da população de Macau, mas foram na verdade causadores de profundas transformações no que se refere à origem dos apoios financeiros. Relativamente a esta situação, importa salientar uma outra figura intimamente ligada ao Padre: o Pe. Lancelote Miguel Rodrigues38. Diocesano e desempenhando várias funções, o Pe. Lancelote dedicou-se aos serviços sociais em Macau muito antes do Pe. Ruiz:• Em 1954, o Pe. Lancelote já é o representante em Macau da Catholic Relief Services39 dos Estados Unidos, uma organização de auxílio aos refugiados de todo o mundo;• De 1949 a 1965, foi capelão dos refugiados portugueses de Xangai, então já alojados na Ilha Verde40;37. A 8 de Fevereiro de 1979 são oficialmente estabelecidas relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China. As negociações duraram três anos de conversações informais e 13 meses de negociações formais. (N. da R.)38. Padre Lancelote Miguel Rodrigues (1923 - 2013) nasceu em Malaca, Malásia, a 21 de Dezembro de 1923, descendente de portugueses que se fixaram nesse antigo território (o pai português e a mãe descendente de malaios e holandeses). Veio para Macau em Novembro de 1935, ingressando no Seminário Diocesano de São José, onde fez os seus estudos preparatórios e eclesiásticos. In DITEMA – Dicionário Temático de Macau, Volume IV, Universidade de Macau, 2011 (N. da R.)39. A Catholic Relief Services, com sede nos Estados Unidos da América, é uma organização de bispos americanos voltada para o exterior e com representações em diversos países. (N. da R.)40. Refugiados que vieram para Macau “aquando das lutas entre nacionalistas e comunistas na China (...) e eram descendentes de portugueses, uns, religiosos (padres e madres), outros” e ficaram inicialmente alojados no campo do Canídromo e na Rua do Gamboa, e neste último campo quem lhes prestava assistência era o Padre Ruiz. Ver DITEMA – Dicionário Temático de Macau, Volume IV, p. 1311. (N. da R.)
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau73• Em 1962 foi nomeado vogal da Catholic Relief Services, cargo que exerceu até Maio de 1994, quando essa organização se retirou de Hong Kong e Macau. O montante avultado obtido através dessa organização foi inteiramente depositado nas obras de beneficência e assistência social a cargo da Diocese e de outras instituições;• A partir de 1963 e até Julho de 1991 desempenhou um papel importante na ajuda aos milhares de refugiados41 que passaram por Macau, com o apoio das autoridades locais, da Igreja e da ajuda monetária do governo e dos bispos americanos da Catholic Relief Services42.Em virtude do excelente relacionamento que o Pe. Lancelote soube cultivar, os apoios que chegavam a Macau graças aos seus esforços eram para ele encaminhados. Mas, existia uma relação complementar entre os dois sacerdotes e, enquanto ao Padre Lancelote cabia a responsabilidade dos contactos internacionais, o Pe. Ruiz era o responsável pela atribuição dos apoios aos indigentes que, através da sua equipa de trabalhos se encarregava do fornecimento de alimentos, do registo dos refugiados recém-chegados e da obtenção de documentos para os mesmos. Em 1973, deixaram de receber este tipo de apoio porque as condições de vida em Macau tinham melhorado e já não necessitavam dele.Conforme revela Paul Pun, os pedidos efectuados pelo Padre a entidades benfeitoras no estrangeiro foram feitos com a intenção de ajudar os chineses. Apesar de só ter chegado a Macau nos primeiros anos da década de 50 do século passado, o Padre regressou à China após a política de abertura, onde eram enormes as carências na área da assistência social e o trabalho que então deixou é bem conhecido. Para além disso, sendo Macau parte integrante da China, torna-41. Refugiados da China, Indonésia, Birmânia, Malásia, Laos, Camboja e sobretudo do Vietname. Deste último país, chegaram a estar em Macau cerca de quinze mil refugiados. (N. da R.)42. Seabra, Leonor Diaz. Padre Lancelote Rodrigues – Vida e Obra. Instituto Internacional de Macau, Colecção Missionários para o Séc. XXI, 2008, pág. 18-30
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo74se irrelevante o facto dos fundos provenientes de vários países se destinarem a chineses, quer de Macau, quer da China continental.Quanto à questão de “irregularidades” praticadas pelo Padre, a ajuda que este dava aos necessitados acontecia em qualquer ocasião desde que tivesse disponibilidade financeira para o fazer. Era conhecido por “Padre refugiado” e não por “Padre dos refugiados”, pois fora expulso da China continental, juntamente com outros missionários, quando da implantação da República Popular da China. Ele e outros missionários vieram para Macau onde foram autorizados a permanecer e a continuar a sua missão de evangelização. Porém, esses missionários não pertenciam à Diocese de Macau, como também não pertenciam ao clero da Província Portuguesa da Companhia de Jesus e por isso tiveram necessidade de lutar pela própria subsistência. Durante esse período, foram os fundos, materiais e financeiros, angariados através das organizações do Pe. Lancelote, que permitiram o desenvolvimento das suas obras. De acordo com o testemunho de freiras que com ele colaboraram, quando se deslocava ao estrangeiro para falar da situação e das necessidades de que Macau necessitava, angariava fundos necessários que lhe permitiam manter uma situação financeira estável43.Os Serviços Sociais da Casa Ricci constituíram a primeira plataforma do seu trabalho, através dos recursos financeiros que lhe permitiam gerir livremente esses fundos, sendo-lhe possível “gastar sem necessidade de ponderar e registar, desde que tivesse dinheiro consigo”. Por outro lado, o Padre ajudava as pessoas sem qualquer distinção, contando-se entre os seus beneficiários chineses da China continental, refugiados do Vietname, os boat people, e muitos outros chineses e naturais de outros países do Sudeste da Ásia.Se no que diz respeito a recursos materiais e financeiros o Padre mantinha a situação estável, contudo o seu maior problema prendia-se com a falta de recursos humanos e os seus trabalhos não podiam avançar sem a ajuda de jovens voluntários.43. Entrevista com a Irmã Victoria Tsé em 14 de Junho de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau75Estes jovens voluntários foram recrutados durante o tempo em que o Padre foi capelão na Igreja de Santo Agostinho, permitindo-lhe resolver as dificuldades do coro da igreja, por um lado, e simultaneamente granjear recursos humanos tão necessários para os trabalhos de assistência. Os jovens prestavam diversos tipos de trabalhos, como por exemplo, o auxílio que davam ao Padre na distribuição de mantas aos desalojados nas noites frias de Inverno. Também as freiras tiveram um papel importante: sem elas os asilos para idosos, os lares para deficientes, os serviços prestados aos leprosos e aos doentes com SIDA nunca poderiam ter avançado. O que tornou esta ajuda ainda mais importante foi o facto de através da afeição das religiosas para com os seus beneficiários, estes eram consolados e tiveram, por conseguinte, oportunidade de conhecer Deus. Todas as vidas têm o seu fim. No entanto, por mais incrível que pareça o Padre já com os seus 80 ou mesmo 90 anos deslocava-se, em visitas a doentes e necessitados, a localidades montanhosas ou de difícil acesso, ora transportado por homens, ora em cima de bois. Um exemplo disso é relatado por um dos seus acompanhantes durante uma visita aos leprosos da ilha Dajin: “Uma vez acompanhei-o à ilha Dajin. Partimos de Zhuhai numa lancha quando se aproximava um tufão e fomos forçados a regressar passado cerca de meia hora. O Padre ficou bastante desiludido por não poder fazer essa visita”44. Não é de estranhar que todos os entrevistados sejam unanimes ao afirmarem: “Na verdade, era o Padre que necessitava de ser assistido por outros”.44. Informação fornecida pelo Sr. Sou Man Long
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo76RELATOS DE ALGUNS CASOS ESPECÍFICOSAs ajudas que prestava aos outros, o apoio aos deficientes, aos leprosos, a idosos, a crianças até mesmo a famílias, foram alguns dos desafios a que se dedicou, constituindo a sua faceta mais marcante e que manteve ao longo de toda a sua vida.Assistência completa a toda a famíliaFabrico de panchões, a indústria familiar mais importante em Macau dos anos 50 e 60 do século XX
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau77Sobre a assistência à família, um dos seus seguidores relata o seguinte:“Uma vez, o Padre encontrou uma família de oito pessoas a viverem num barco muito estragado, em estado miserável, na zona do Porto Exterior. Conseguiu arranjar uma casa onde os alojar temporariamente. Convidou um carpinteiro para construir uma casa de madeira, que contou com a minha ajuda e de outros jovens cristãos. Em menos de duas semanas, foi construída uma casa de madeira, de dois pisos, que passou a abrigar aquela família de oito pessoas”45. Uma história semelhante é relatada de seguida:“Aconteceu há 35 anos, isto é, em 1971, quando a minha família veio para Macau. Num dia de Abril desse ano o benfeitor da família, Leong Tin San, acompanhou-nos numa visita ao Padre que, então, tirou da algibeira 50 patacas e entregou-as à minha mãe, dizendo que nos arranjaria empregos e estudos. Os meus pais e os meus irmãos mais velhos conseguiram emprego, eu e o meu irmão mais novo fomos estudar para o Colégio Mateus Ricci, enquanto o meu pai foi porteiro da Casa Ricci”46.Uma das freiras que colaborou com o Padre recorda o seguinte:“Quando colaborava com o Padre no campo de refugiados do Vietname, na Ilha Verde, as crianças foram estudar para a Escola de Santa Teresa do Menino Jesus, enquanto os adultos aprendiam inglês, na mesma escola, à noite, a fim de se prepararem para viver no estrangeiro”47.45. Entrevista com o Sr. João Ng, em 20 de Abril de 201846. Young Lam. “Eu e a Igreja de Santo Agostinho”, Observatório de Macau de 23 de Julho de 200647. Entrevista telefónica com a Irmã Victoria Tsé, realizada a 14 de Junho de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo78A senhora Ng Siu Kam e a sua família também beneficiaram da ajuda do Padre: “Naquela época, a maior parte das pessoas não vivia bem, sem grandes condições de vida como era o caso da minha família, pois só o meu pai ganhava para alimentar seis pessoas. Então, o meu pai pensou em montar um pequeno negócio no sentido de melhorar as nossas vidas. Mas donde vinha o dinheiro? O meu pai pensou no Padre que o poderia ajudar a adquirir uma carrinha para vender canjas e massas. O Padre não sabia negar pedidos. Recordo-me muito bem do dia em que fomos à Casa Ricci e o Padre já lá tinha a carrinha. A partir de então, todos os dias antes do amanhecer, o pai preparava a canja e a mãe as massas. Eu e as minhas irmãs ficávamos na tenda para os ajudar até à hora da escola. A nossa vida melhorou bastante. Ao Padre não tenho outra palavra a dizer senão um “Muito Obrigado”48. Devido a esta particular faceta moral, foi conhecido por diversos nomes, entre os quais os que os habitantes da Ilha Verde lhe atribuíram, como o de “Papá” uns, outros de “Wong Tai Sin”, o deus chinês que atende a tudo e a todos, ou ainda por “Salvador”. Reconhecidos, inventaram a seguinte quadra dedicada ao Padre: Se quer estudar, procura o Pe. Ruiz, Se quer arroz, procura o Pe. Ruiz, Se quer casa, procura o Pe. Ruiz, Se quer trabalho, procura o Pe. Ruiz, Se quer roupas, procura o Pe. Ruiz.Estes depoimentos traduzem as impressões que as pessoas dele retinham.48. Entrevista com a Srª Ng Siu Kam
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau79Tinha confiança nas pessoas, nunca duvidava das suas intençõesNa verdade, nem todos os casos em que o Padre prestou auxílio destinaram-se a pessoas verdadeiramente necessitadas, pois também existiram situações desonestas. Quanto a estas situações, depoimentos de duas freiras revelam casos em que se verificaram de facto aldrabices que causaram bastantes incómodos. A irmã Mary Joyce Sebastian, vinda da Índia, contou uma experiência sua passada numa gafaria da China:“O Padre era uma pessoa muito generosa e, apesar de ter conhecimento de que alguém estava a enganá-lo, nunca procurava apurar as responsabilidades desses actos, face à sua índole de sempre perdoar. No entanto, se admitia ser enganado, já não aceitava que abusassem da sua generosidade aproveitando-se do dinheiro que era destinado aos leprosos. Certa vez, avisado que alguém andava a cometer fraudes numa gafaria, o Padre bastante irritado, repreendendo o indivíduo, defendeu que este devia pedir-lhe o dinheiro em vez de roubar o que se destinava à assistência aos leprosos”49.Outra freira passou por semelhante experiência afirmando que o Padre era constantemente enganado. A Irmã, então ainda uma jovem freira, não aceitava ver o padre a ser enganado e advertiu-o para esse facto, ao que o Padre retorquiu que deixasse passar, pois o indivíduo que o enganava podia estar a fazê-lo por necessidade50.A situação torna-se mais interessante perante o facto de, apesar das advertências que lhe faziam, o Padre continuava a ajudar, insistindo no seu princípio de prestar assistência aos necessitados, mesmo no caso de um jogador compulsivo que, de acordo com outra freira, deveria ser castigado pelos credores de forma a cortar com o vício51.49. Entrevista com a Irmã Mary Joyce Sebastian, em 6 de Abril de 201850. Entrevista por telefone com a Irmã Victoria Tse, em 14 de Junho de 201851. Entrevista com a Irmã Margaret Wu, em 17 de Junho de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo80O Padre partilhava com os seus colaboradores o ideal de “servir, confiar e servir primeiro”, pois sempre acreditou que as pessoas recorriam aos seus serviços por terem confiança nele e, por essa razão, nunca deveria duvidar delas. Talvez devido a este seu ideal, entre aqueles que recorreram à sua ajuda contam-se também pessoas ligadas a movimentos pró-democracia.Energias inesgotáveisEntre as missas e as visitas quotidianas, a programação de trabalhos ou as deslocações a diversos lugares para prestar auxílios urgentes, o Padre nunca deixou de servir diariamente as pessoas carenciadas. Conta a Irmã Victoria Tse que as deslocações que fazia entre a Ponte-Cais e a Ilha Verde52 para receber os refugiados do Vietname antes de estes serem apanhados pela polícia atingiu um recorde de cinco vezes essa deslocação53, enquanto a Irmã Margaret Wu registou um recorde de seis deslocações. Estas corridas justificavam-se pela necessidade de recolher os refugiados antes da chegada da polícia, evitando assim o seu reenvio para águas internacionais54.Na década de 70, nas noites frias de Inverno, o Padre percorria a cidade, acompanhado por um grupo de jovens voluntários, para oferecer mantas, roupas e comida aos desalojados e aos condutores de triciclo, sem que ninguém soubesse de onde vinha a sua energia. Ainda nesses anos 70, sofreu um grave acidente de viação no istmo de ligação da Taipa a Coloane que o obrigou a ficar hospitalizado. Logo que retomou os sentidos, terá afirmado: “Graças a Deus, que posso descansar um 52. Os refugiados do Vietname estiveram alojados em três campos: na Ilha Verde, na Casa de Beneficência e em Ká-Ho. A primeira leva de refugiados vietnamitas chegou a Macau em Novembro de 1977. DITEMA – Dicionário Temático de Macau, Volume IV, pág. 1312 (N. da R.)53. Entrevista por telefone com a Irmã Victoria Tse, em 14 de Junho de 201854. Entrevista com a Irmã Margaret Wu, em 17 de Junho de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau81pouco”55. Todos os entrevistados não pouparam os elogios dizendo que o Padre tinha uma energia inesgotável.Fazer como Jesus mandaDas diversas entrevistas a várias personalidades, retivemos uma opinião unânime relativamente aos feitos realizados pelo Padre, de que estes foram praticados em conformidade com os ensinamentos de Cristo: “Vamos para onde há maior dificuldade; ajudamos os mais carenciados; fazemos o que os outros não querem fazer; superamos e resolvemos o que se mostre mais difícil (...)”.55. Entrevistas com João Ng e Young Lam, em 5 de Abril de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo82Analisando os serviços que prestava – aos idosos, aos órfãos, a deficientes físicos e mentais, a desalojados, aos refugiados, aos leprosos e seus filhos, aos doentes com SIDA e seus filhos, etc. – observamos que estes serviços abrangiam diversas camadas sociais, para além do facto de serem totalmente gratuitos, em conformidade com o espírito cristão. O Padre distribui lai sis no Centro de Dia da Ilha Verde
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau83O Padre dá de comer a um idoso internado num asiloVisita a sinistrados na China continental
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo84Visita a sinistrados na China continentalVisita a crianças na China continental
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau85Intrigas e equívocosApesar de ter dedicado a sua vida a ajudar os outros, deparou-se com muitas dificuldades as quais, contra todas as expectativas, não foram de carácter monetário ou material, mas motivadas pelo ambiente social do tempo e do seu próprio estilo de vida.Visita a crianças na China continental
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo86Desde o início da década de 50 e até aos anos 70 do século XX, Macau encontrava-se profundamente dependente da evolução política da China, situação que se agravou com a questão dos refugiados e o empobrecimento da população. Por um lado, a origem dos apoios financeiros que chegavam dos Estados Unidos, por outro lado as relações entre a China e o Vaticano e a ligação da Igreja de Macau à de Taiwan, levaram que entidades e imprensa locais pró-China apelidassem o Padre como “agente secreto”. Na realidade, o Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas e os Serviços Diocesanos de Assistência Social eram as autoridades encarregadas de receber os financiamentos e géneros, enquanto ao Padre competia a organização do trabalho de distribuição desses bens. Porém, dado a atmosfera política da época, esse boato existiu.Um outro mal-entendido prendia-se com o seu modo de agir, actuando rapidamente sem ponderar as consequências dos seus actos. Mesmo sabendo-se enganado agia com a convicção de que o procuravam por necessidade. Ajudou activistas chineses, o que o colocou em situações embaraçosas, que só após muitas explicações foi aceite pelas autoridades chinesas. Mas, o que mais o preocupou foram as acusações de “fraude” e de “falta de humanidade”. Segundo uma reportagem da imprensa de então, a administração portuguesa em Macau estava perfeitamente ciente da definição de refugiados da Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados, recusando receber os refugiados que entrassem através de China continental. O Pe. Lancelote entregava um dólar por dia aos refugiados que vinham directamente do Vietname, encaminhando-os de seguida para o Alto Comissariado das Nações Unidas, de modo a que estes fossem recebidos por outros Estados. Aqueles que vinham da China continental não podiam ser subsidiados nem reencaminhados para o Alto Comissariado. Contudo, atendendo ao facto de Macau se situar numa região periodicamente afectada por tufões, e temendo que a sua expulsão para o alto mar pudesse resultar em desastres humanos, o governo autorizou-os a permanecerem na ponte-cais da Taipa, para saírem daquele local após a passagem dos tufões.
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau87Numerosos barquinhos e refugiados aglomeravam-se junto à pequena ponte-cais da Taipa, sem alimentos nem água potável, facto que moveu a compaixão do Padre. Por iniciativa própria decidiu suportar os encargos com a alimentação desses “refugiados económicos”, retirando da Cáritas uma pequena quantia pecuniária com a qual adquiria arroz barato que entregava no Lar de São Luís de Gonzaga para aí prepararem as refeições para os “refugiados económicos”. Mas esta situação fez com que a Cáritas ficasse desfalcada e o Padre fosse criticado por alguma imprensa local de retirar o dinheiro da Cáritas para oferecer má alimentação a esses refugiados. Perante estas insinuações, de se ter apropriado do que pertencia à Cáritas, o Padre nada pôde fazer, mas insistiu em continuar a sua ajuda.Um outro equívoco também relacionado com os “refugiados económicos”: quando estes tiveram conhecimento que não eram reconhecidos como refugiados pelo Alto Comissariado e que por essa razão não seriam aceites por outras nações, começaram a juntar-se na ponte-cais da Taipa onde a situação sanitária piorava de dia para dia. Em pleno Verão, com o sol abrasador, muitos não resistiram e voltaram para a China. A imprensa criticou a Polícia Marítima e o Padre de desumanidade, por expulsarem os refugiados56.Podemos assim observar a influência negativa que estes equívocos e boatos tiveram sobre o trabalho desenvolvido pelo Padre. Contudo, este procurou manter-se calmo perante essas críticas e pediu aos seus colaboradores que se mantivessem também calmos, sem qualquer queixa. Esta atitude animou as freiras e todos os que com ele colaboravam, reconhecendo a sua generosidade e capacidade de encarar as críticas e os mal-entendidos.56. Jornal Va Ou de 29 de Julho de 2011
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo88Atencioso e meticulosoRápido a tomar decisões, mas um pouco desleixado terá sido uma imagem pouco verdadeira, mas que muitos lhe atribuíam. Porém, para os seus colaboradores o Padre sempre se mostrou muito atencioso para com todos. Não usava luvas nem máscaras ao visitar idosos, leprosos ou doentes com SIDA, pelo contrário, mostrava sempre atencioso, abraçando-os e apertando-lhes as mãos. Era comovente vê-lo, quando muitos temiam ser contaminados.O Padre apertando a mão de um leproso
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau89O Padre apertando a mão de um leprosoO Padre visitando um paciente com SIDA
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo90Um episódio revelador do carácter atencioso do Padre ocorreu, certa vez, numa viagem aos Estados Unidos na companhia de Paul Pun, onde tinham planeado uma visita a um professor de Pun, no estado de Michigan. Após muitas dificuldades em encontrar o endereço do professor, e quando já passava da uma hora da madrugada, quase a desistirem, o Padre decidiu continuar a procurar e, finalmente, por volta das três da madrugada chegaram a casa do professor, que ainda os aguardava. Porém, a visita apenas demorou um quarto de hora devido ao tempo perdido anteriormente. Deste acontecimento, podemos ver que o Padre era uma pessoa muito atenciosa e respeitadora57. Tinha por hábito agradecer as ofertas dos seus benfeitores, por carta ou pessoalmente quando tinha essa oportunidade. Uma vez, deslocando-se aos Estados Unidos fez questão de visitar uma pessoa idosa que periodicamente contribuía com cinco dólares58. Este acontecimento faz lembrar uma história da Bíblia: quem dá o pouco que tem, talvez seja o que tem mais mérito.“Jesus, levantando os olhos, viu os ricos lançarem suas ofertas no cofre. Viu também uma pobre viúva lançar ali duas moedas de pouco valor; e disse: em verdade vos digo que a pobre viúva deu mais do que todos; porque todos aqueles deram daquilo que lhes sobrava; mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha para o seu sustento.” (Lucas, 21:1-4)Durante a época em que trabalhava no Campo de Refugiados da Ilha Verde, pedia à auxiliar do Centro da Ilha Verde, a senhora Yao, para preparar canja de galinha para os refugiados recém-chegados. As religiosas não percebiam a razão pela qual o Padre só lhes fornecia a canja e não o arroz, ao que respondeu explicando que os refugiados tinham passado por um período longo de fome e que comer em demasia poderia causar-lhes mal-estar. Por isso, deveriam primeiro comer apenas uma ou duas canjas 57. Entrevista com o Sr. Paul Pun a 20 de Abril de 2018 58. Ibidem
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau91para que o estômago se adaptasse e só depois passariam às refeições normais.59 Esta explicação mereceu grande admiração por parte das religiosas.Quanto à questão financeira, era usual ouvir dizer que o Padre retirava o dinheiro da algibeira para dar aos outros. Mas na verdade, distinguida perfeitamente as fontes de financiamento e o que pertencia à Cáritas era sempre entregue à organização. O que ele próprio recebia era o que punha na sua algibeira60.Certa vez, em 1979, pediu emprestado os recintos do Colégio de Santa Rosa de Lima para a realização de um Bazar de Caridade. Após a realização do evento, ele próprio participou nos trabalhos de limpeza, receando que o Colégio não voltasse a emprestar-lhe o recinto se não o deixasse limpo61. Em suma, a sua atenção meticulosa merece-nos toda a consideração.EDUCAÇÃO DAS NOVAS GERAÇÕESDefendia que “a educação liberta o indivíduo da pobreza” e, nos longos anos que dedicou aos trabalhos de assistência social, deixou muitas provas desta sua opinião, destacando-se a sua participação, directa ou indirecta, na criação de seis escolas, no ensino de inglês para adultos, em escolas para os filhos dos refugiados, na assistência a jovens estudantes no estrangeiro, como ainda em escolas para os filhos dos leprosos e dos doentes com SIDA. Durante o processo de criação das escolas, teve de suportar as propinas, as refeições e até mesmo parte do sustento de muitas das famílias dos alunos.59. Entrevista por telefone com a Irmã Victoria Tse, em 14 de Junho de 201860. Entrevista com o Sr. Paul Pun a 20 de Abril de 2018 61. Entrevista com a Irmã Brigitte Fan, a 10 de Maio de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo92Dirigida pelas missionárias franciscanas, a Escola Stella Matutina foi fundada em 1954 e, posteriormente, em 1975, anexada à secção chinesa do Colégio de Santa Rosa de Lima. No princípio, tinha apenas 40 alunas e a directora da mesma, a Irmã Rosalia Ellerick, contactou o Padre para que este fornecesse as refeições. Estas incluíam arroz, pão, manteiga, compota, queijo, entre outros alimentos. No entanto, como muitas alunas confundiam o queijo com sabão, foi suspenso o fornecimento do queijo62. De acordo com a Srª Liu Mil Mei63: “O Pe. Ruiz, da Companhia de Jesus, suportava as refeições, fornecendo uma alimentação nutritiva. Os pais mandavam as filhas para a escola, não apenas para receberem educação, mas também alimentação”. Um outro aspecto importante da relação do Padre com a Escola Stella Matutina foi a apresentação da Irmã Ellerick ao filantropo de Macau, Dr. Pedro José Lobo64, que disponibilizou, de imediato, setecentas mil patacas para financiar a construção de novas instalações da escola na zona dos aterros do Porto Exterior. A obra teve início em 1957 e ficou concluída em Dezembro desse mesmo ano e foi inaugurada em Janeiro do ano seguinte65. A partir de então, as refeições, o número de refeições que fornecia atingiu 600 a 700, incluindo 100 para as alunas em regime de internato. Para além deste apoio, dava ajuda às alunas finalistas para que pudessem ir continuar os seus estudos no estrangeiro, nomeadamente em conseguir alojamento para as mesmas66. Foram imensos os apoios e assistência que o Padre prestou à Escola Stella Matutina.62. Entrevista com a Irmã Brigitte Fan, em 10 de Maio de 2018 63. Do livro “Luz Brilhante da Madrugada: Irmã Rosalia Ellerik, FMM”, Hong Kong, 201564. Pedro José Lobo (1892–1965) foi um importante empresário, político, filantropo, funcionário público, músico, dirigente associativo e dinamizador cultural, sendo considerado um destacado membro da elite macaense da altura. Foi presidente do Leal Senado de Macau (1959-1964) e vogal da Santa Casa da Misericórdia. in Wikipédia. (N. da R.)65. Do livro “Luz Brilhante da Madrugada: Irmã Rosalia Ellerik, FMM”, Hong Kong, 2015, páginas 62-6366. Entrevista com a Irmã Brigitte Fan, em 10 de Maio de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau93A outra escola com profunda ligação ao Padre foi, como já foi anteriormente referido, o Colégio Mateus Ricci, fundado um ano depois da Escola Stella Matutina. O colégio pertencente à Companhia de Jesus teve o Padre como um dos seus fundadores, conforme refere a história do mesmo: “Nos anos 50, a economia de Macau encontrava-se num estado ruinoso e a sua população a viver em grandes dificuldades. Os dois sacerdotes jesuítas, Pe. Ruiz e Pe. Luigi Minella, vendo o aumento constante de crianças desistentes de formação escolar, pensaram em constituir uma escola para os carenciados. Mercê do apoio dado pelo então bispo D. Policarpo, que cedeu um belo prédio sito na zona do Chunambeiro, o Colégio Mateus Ricci abriu as suas portas no Outono de 1955 e tinha por ideal o pensamento de Mateus Ricci conforme o espírito de caridade e de educação sem discriminação da Companhia de Jesus”67.Apesar de ter sido um dos fundadores, a sua participação no Colégio Mateus Ricci não foi tão relevante como na Escola Stella Matutina, pois limitou-se ao fornecimento de refeições. Porém, procurava ajudar os alunos carenciados através da isenção de propinas, formação no estrangeiro, mesmo aos alunos que não eram os melhores classificados, desde que provassem os baixos rendimentos das famílias. Os seus colaboradores, que vieram depois a participar no coro da Igreja de Santo Agostinho e no grupo de voluntários, foram na sua maioria alunos do colégio.A terceira instituição de ensino, a Escola de Santa Teresa do Menino Jesus da Diocese de Macau, foi fundada dois anos depois do Colégio Mateus Ricci, em 1957. Em 1963, a escola foi entregue às Irmãs do Precioso Sangue, SPB. Embora muitos afirmassem estar o Padre associado à fundação da escola, contudo o seu nome não aparece mencionado na história da escola. Porém, participou de igual forma na ajuda a muitos dos alunos e 67. Breve História do Colégio Mateus Ricci, edição electrónica, em chinês (https://www.ricci.edu.mo/index.php/zh-TW/about/history)
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo94prestou assistência material às famílias desses alunos. De salientar, ainda, o facto desta instituição ter servido de plataforma de ajuda aos refugiados do Vietname, quer como espaço de distribuição e armazenamento de géneros, fornecimento de alimentação aos refugiados, ensino para os filhos dos refugiados, aulas de inglês para adultos e, também, classes de catequese.O Padre na cerimónia de distribuição de prémios a uma aluna da Escola
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau95Da escola de técnico-profissional de S. João de Brito, hoje Escola de S. João de Brito, que foi fundada em Novembro de 198568, pode-se ler na sua história:“No início da fundação, adoptou-se o lema da acção social como método educativo e padrão de educação profissional para a formação de quadros técnicos. O ex-director da Cáritas de Macau, Pe. Ruiz, S.J., a Irmã Maria Goisis, FDCC, o Sr. Paul Pun, e o professor Che Va Choi, conscientes do agravamento de problemas relativos ao abandono escolar e à delinquência juvenil, decidiram fundar a Escola Profissional de S. João de Brito, da Cáritas de Macau, proporcionando assim cursos técnico-profissionais aos jovens. Foi a primeira escola em Macau a adoptar o ensino profissional”69.A introdução de ensino profissional não é uma inovação. Mas na década de 1980, dado o crescimento do absentismo escolar, a introdução do sistema de assistência social foi uma tentativa de apoio aos jovens de modo a que estes pudessem continuar os seus estudos até ao final do curso secundário e uma forma de menorizar o absentismo escolar.A quinta escola para cuja fundação o Padre contribuiu é o Instituto dos Serviços Sociais. Em 1973, para dar resposta ao apelo da Federação das Conferências Episcopais da Ásia (FABC) no sentido de formar quadros técnicos de serviços sociais iniciaram-se os trabalhos preparatórios, os quais incluíam a Asia Partnership for Human Development (APHD) e a Cáritas de Macau. Estiveram directamente envolvidos neste projecto o Pe. Lancelote dos Serviços Sociais da Diocese de Macau, o Pe. Ruiz da Cáritas e a Irmã Maria Goisis. O Pe. Lancelote ficou responsável pelo apoio logístico 68. Consultar página electrónica da Cáritas Macau: http://www.caritas.org.mo/en/service/education-service/escola-s-joao-de-brito69. Página electrónica da Escola de S. João de Brito - História da Escola (http://www.brito.edu.mo/)
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo96que obtivera através do Instituto Politécnico de Hong Kong (actual Hong Kong Polytechnic University), do qual viria a ser consultor e o Pe. Ruiz responsável pela parte financeira. O Instituto iniciou, em 1977, o curso de formação de assistente social com a duração de dois anos e a Irmã Goisis foi a sua primeira directora. O primeiro curso a ser leccionado só aceitou alunos do sexo feminino, mas o segundo curso passou a ser extensivo a alunos do sexo masculino.As habilitações deste Instituto como ensino superior foram oficialmente reconhecidas em 2006 com a publicação do despacho do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura no Boletim Oficial de Macau e o subsequente encerramento do Instituto uma vez cumprida a sua missão (tendo o Instituto Politécnico de Macau assegurado a continuidade com a inclusão da licenciatura em serviço social)70. O referido Instituto lançou uma base sólida na formação de assistentes sociais. Hoje, muitos desses assistentes sociais que trabalham na Cáritas de Macau são licenciados por esse Instituto, tal como o seu principal responsável, o Sr. Paul Pun, que foi o primeiro aluno do sexo masculino licenciado nesse Instituto.Por último, a sexta escola, a Escola Cáritas de Macau, que tem por objectivo a educação especial para alunos com necessidades específicas ou com deficiência intelectual. Começou a funcionar em 1985, nas instalações da Escola de S. João de Brito, recebendo apenas crianças deficientes do sexo masculino. Mas, no mesmo ano, abriu uma classe para crianças do sexo feminino no Asilo de Santa Maria, localizado na Travessa dos Santos. Em 1986, as Irmãs Canossianas da Caridade, FDCC cederam o prédio situado no nº 116 da Rua Francisco Xavier Pereira para a instalação da sede provisória da Escola Cáritas, que passou a receber crianças de ambos os sexos, ficando deste modo suprimida a lacuna existente na educação especial em Macau71.70. Informação verbal do Sr. Paul Pun71. Ibidem
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau97Não foi apenas a educação dos jovens que mereceu a atenção e cuidados do Padre, pois mostrou-se sempre atento às necessidades dos mais jovens. Comovente é a história que aconteceu, nos anos 80, à porta da Escola S. Paulo:“Desde pequeno que conhecia o Padre apenas de nome através de pessoas idosas e sabia por elas que gostava de ajudar os outros. Tenho pena de só ter tido uma oportunidade de encontrá-lo. Estava eu a ensinar na Escola S. Paulo quando um dia o vi chegar na sua Vespa, parar à porta da escola e perguntar-me: ‘É professor nesta escola?’. Sim, respondi. De imediato, tirou da algibeira trezentas patacas e pediu-me para fazer o favor de as entregar ao director, o Pe. Tiberi, para comprar brinquedos para as crianças. Dito isto, foi-se embora na sua Vespa. Este pequeno episódio fez-me admirar essa pessoa pela confiança nos outros e o seu espírito de amor”72.Contudo, não termina aqui a sua atenção para com os mais novos. Na década de 1980, quando começou os seus trabalhos de assistência aos leprosos, na China continental, notou que os filhos dos leprosos não tinham oportunidade de obter uma educação normal em virtude da discriminação a que estavam sujeitos. Procurou, então, dar-lhes condições para terem acesso a uma educação normal e com dignidade, permitindo-lhes mais tarde saírem desse estado de pobreza. Através da colaboração com organizações chinesas ou dos Serviços Sociais da Casa Ricci, criou centros educacionais para os filhos dos leprosos, pois para o Padre todos são filhos de Deus, incluindo os mais desgraçados.Ao mesmo tempo, procurou ajudar os alunos finalistas a prosseguirem os seus estudos no estrangeiro, pois nessa época Macau não dispunha de estabelecimentos de ensino superior. Muitos foram estudar para Taiwan, outros, que dominavam a língua inglesa, foram para os Estados Unidos ou para a Europa. É o caso do seu sucessor na Cáritas de Macau, que foi estudar para a América com a ajuda do Padre.72. Testemunho do Sr. Young Lam, enviado por correio electrónico em 5 de Abril de 2018
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo98Em resumo, as obras de carácter social foram os principais trabalhos da sua vida, mas também contribuiu muito para a esfera da educação, sobretudo dos jovens e dos mais carenciados, sendo imenso o seu contributo na formação de quadros locais.MÁXIMAS E ENSINAMENTOSAntes do aparecimento das novas tecnologias todos os documentos relativos às actividades desenvolvidas pelo Padre não eram devidamente registados. As fotografias foram oferecidas à Cáritas por outras pessoas ou entidades e, por essa razão, encontram-se actualmente preservadas. De igual modo, os Serviços Sociais da Casa Ricci informatizaram o espólio fotográfico relativo ao Padre e disponibilizaram-no na sua página electrónica. Aí pode aceder-se aos documentos relativos ao Padre, tais como, fotografias, filmes, etc. Na Edição Especial do 65º Aniversário da Cáritas encontram-se inseridas quatro máximas da autoria do Padre, sendo estas posteriormente publicadas no boletim informativo dos Serviços Sociais da Casa Ricci (CRSS Newsletter) pelo Pe. Fernando Azpiroz Costa.Máximas Y esto para las famílias es muy importante: Nada más feliz que hacer feliz a los demás. Sin grandes planes de mi parte, yo sólo iba tomando y aprendiendo de lo que la realidade me iba mostrando.Soñar, sonreír, amar, servir y esperar en el Señor. Nuestra vida no es solamente mía (“mi” vida). Nuestra vida es para ayudar a la gente a ser feliz.Estas quatro máximas podem resumir-se numa única palavra: “Amor”. São reveladores do espírito de “Amar os outros” e “servir os mais fracos”, ou seja, ajudar os outros a serem felizes é ajudar-se a si próprio a ser feliz também. Cada máxima poderia ser igualmente um guia da vida dos cristãos.
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau99Quatro ensinamentosOs seguintes ensinamentos foram escritos em inglês pelo Pe. Fernando Aspiroz Costa dos Serviços Sociais da Casa Ricci e traduzidos pela mesma organização. Posteriormente, a Cáritas fez a sua tradução73 resumida com a devida autorização.O carisma de alguém não só pode influenciar uma pessoa, mas toda uma comunidade onde essa pessoa se encontra inserida. Os quatro seguintes ensinamentos são reveladores da capacidade do Padre de influenciar os outros:A FéO primeiro ensinamento: estabelecer a confiança com base na humildade. Temos que servir os outros com humildade, mas também temos de ter a confiança na vida. Acreditamos nos ensinamentos do Senhor, apesar de sermos fracos e de termos de encarar muitas dificuldades. O amor do Senhor é imenso e transmite-nos confiança para que possamos seguir descansados o caminho junto dos desamparados.A EsperançaO segundo ensinamento: acreditar que todos têm um amor universal e trazem a esperança para os outros. Deus deu-nos um coração cheio de amor e capacidade de oferecimento, e mesmos os mais pobres podem contribuir para os mais necessitados. O amor, com a ajuda de Deus e em comunhão com os outros, pode vencer todas as dificuldades.A CaridadeO terceiro ensinamento: cuidar dos outros e caminhar junto com os desgraçados e marginalizados. Para compreender o sofrimento dos outros, 73. Boletim informativo dos Serviços Sociais da Casa Ricci / CRSS Newsletter, November 2011 (http://casaricci.org/en/whatnew/newsletter/files/CRSS-11w-ENG-v2-e.pdf)
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo100há que compreender e atender pessoalmente as dificuldades por que passam, para que possam sentir o apoio e, conjuntamente, ultrapassar as dificuldades.A Fé, a Esperança e a Caridade O quarto ensinamento: viver com os fracos e marginalizados para mostrar a força da união. Através da amizade, constitui-se uma unidade solidária num ambiente familiar, em que todos aprendem em conjunto, tomam cuidado um dos outros e cada um dá o seu contributo. Prestar cuidados aos que sofrem, estender as mãos aos que mais necessitam, estabelecer grupos de auxílio mútuo, depositar em Deus a Fé, a Esperança e a Caridade, são os ensinamentos do Padre que muito nos beneficiam. Somos todos modestos como Jesus quando nasceu numa manjedoura em Belém. Contudo, por causa do amor de Deus, temos a coragem de partilhar com outros a nossa contribuição do íntimo do nosso coração74. As máximas e os ensinamentos exprimem a mesma ideia, que no essencial é a seguinte: “Somos todos modestos como Jesus quando nasceu numa manjedoura em Belém. Contudo por causa do amor de Deus, temos a coragem de partilhar com outros a nossa contribuição do íntimo do nosso coração”. O que mais merece a nossa consideração é: “Este é o significado da minha vida: enquanto posso mover-me e servir os outros, continuo a trabalhar. Nunca penso na aposentação”. Na realidade, o evangelizar, o servir os outros e glorificar a Deus são deveres da nossa vida.74. Edição Especial Comemorativa do 65º Aniversário da Cáritas de Macau. Dezembro de 2016, p. 13. http://www.caritas.org.mo/uploads/wizpublicationdownload/201711/2370_4vzje.pdf (em chinês)
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau101Dar continuidade ao legado do padreLargo de Santo Agostinho, N.º 1-A
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo102Toda a obra do Padre está ligada a duas organizações: os Serviços Sociais da Casa Ricci e a Cáritas de Macau, ambas criadas pelo Padre, sendo a primeira mais antiga. A sucessão do Padre nestas duas instituições ocorreu primeiro na Cáritas, ainda na década de 1990, quando Paul Pun foi indicado para o cargo de director desta instituição, tendo a sua nomeação sido publicada no Boletim Oficial de Macau no início do século XXI. Muitas outras pessoas, que se formaram no estrangeiro, seguiram as pisadas do Padre nos serviços sociais, mas por razões diversas desistiram.Desde a sua graduação no Instituto de Serviço Social que Paul Pun abraçou esta área, sempre ao lado do Padre. Quando em 1987 se deslocou a Roma com o Padre para este ser recebido pelo Papa João Paulo II, no avião o Padre retirou vários documentos para assinar, acentuando que mais tarde seria o Paul Pun a assinar, já como seu sucessor75.75. Entrevista por telefone com o Sr. Paul PunOs Serviços Sociais da Casa Ricci localizam-se actualmente no lado esquerdo do 2º piso e o escritório da Caritas Macau fica no lado direito
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau103Paul Pun passou a acompanhar o Padre tanto nos seus trabalhos em Macau como na China continental. Por um lado, por causa sua idade avançada e de carecer do apoio de terceiros, por outro, para Paul Pun tomar conhecimento dos caminhos que deveria percorrer no futuro. Após a reestruturação da Cáritas, no início dos anos 90, o Padre ficou com o cargo de Administrador e representante legal e Paul Pun como Secretário-Geral. Esta reestruturação veio dar ênfase ao lugar de Paul Pun como sucessor do Padre, que passou a ter mais tempo disponível para os seus trabalhos sociais na China continental.Audiência com o Santo Papa João Paulo II
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo104Nos anos 90 do século passado os Serviços Sociais da Casa Ricci deram os primeiros passos na China continental. Talvez ainda não tivesse ponderado na questão da sua sucessão, mas tendo já atingido os oitenta anos de idade, a sua saúde a deteriorava-se de dia para dia devido aos diabetes e à hipertensão. Em Julho de 2005, a Companhia de Jesus tendo em atenção a sua idade e o seu estado de saúde, mandou vir um sacerdote que recentemente recebera as ordens sacras, o Pe. Fernando Pablo Aspiroz Costa, para o acompanhar e aprender o trabalho social que estava a ser desenvolvido na China continental. O Pe. Aspiroz teve logo consciência da enorme pressão e do desafio da sua nova missão ao ir para terras montanhosas trabalhar e ajudar leprosos e doentes com SIDA. Mais do que apoio material, o que essas pessoas precisavam era de consolação espiritual e de apoio médico. E também de oportunidade de educação Paul Pun recebe o certificado de dedicação das mãos do Padre
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau105para as suas futuras gerações. Tudo isto exigia um grande esforço para preparar as pessoas – freiras e voluntários – que iriam viver junto dessas comunidades. Porém, o Pe. Aspiroz aceitou este desafio e de imediato iniciou a sua colaboração com o Padre, que lhe deu grande espaço de manobra, exigindo que tomasse decisões em muitos assuntos. De início, o Pe. Aspiroz pedia-lhe sempre conselhos antes de tomar qualquer decisão, mas pouco tempo depois chegaram a um consenso e, enquanto o Padre continuava o seu trabalho junto dos benfeitores, o Pe. Aspiroz ficou responsável pelo trabalho social na China continental.Quando o Padre faleceu, ou ainda antes, já o Pe. Aspiroz lhe sucedera na Casa Ricci. Esta é uma instituição diferente da Cáritas, por não ser uma instituição legalmente constituída e não ter necessidade de representante legal. Mas ambas são semelhantes nos seus objetivos, ambas são instituições de caridade que nunca esqueceram a intenção do Padre: todas as obras são para propagar o espírito do amor de Cristo. Ambas procuram ajudar os mais fracos e marginalizados, praticando actos que outros desdenham fazer.O Pe. Fernando Azpiroz oficia a missa do 7º aniversário da morte do Pe. Luis Ruiz Suárez
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo106A tabuleta e a porta renovada dos Serviços Sociais da Casa RicciA nova tabuleta da Casa Ricci. A antiga foi destruída pelo tufão Hato, em 23 de Agosto de 2017
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau107O PADRE RUIZ VISTO PELOS SEUS COLABORADORESTodos aqueles que colaboraram e trabalharam com o Padre fazem uma boa apreciação do seu carácter considerando, por exemplo, que foi um “bom director espiritual”, enquanto desempenhou funções de regente do coro da Igreja de Santo Agostinho e no seu relacionamento com os jovens. A Irmã Mary Joyce Sebastian, que com ele colaborou nos cuidados aos leprosos, considera-o um bom professor com quem aprendeu muito.“Trabalhar para Deus” é o reconhecimento que todos os sacerdotes e freiras fazem da sua pessoa. Os dois sucessores do Padre, o Pe. Aspiroz, nos Serviços Sociais da Casa Ricci, e o Sr. Paul Pun, na Cáritas, declaram que viam nele “Jesus vivo”, quando o viam trabalhar tão altruisticamente.Para a Irmã Margaret Wu, SPB, antiga directora da Escola de Santa Teresa do Menino Jesus, e para a já mencionada Irmã Mary Joyce Sebastian, que coadjuvou o Padre nos cuidados dos leprosos na China continental, era um “Santo” não apenas pelo facto de ter apoiado e resolvido problemas de doentes e marginalizados, mas sobretudo pelo respeito humano, apoio espiritual e educação de novas gerações. Todo o seu trabalho constava no seu plano de actividades e com resultados conhecidos. Elogiando-o, a Irmã Margaret Wu considerava-o generoso e sempre disponível para ajudar, enquanto outra freira, a Irmã Victoria Lau, descrevia-o como o “Pai da Misericórdia”.O fundador do Coro Perosi, João Ng, escreveu em memória do maior benfeitor da sua vida uma música intitulada “Graças e bondade” como forma de agradecimento e manifestação do seu respeito por esse grande homem, testemunha de Cristo.
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo108Capa da música “Graças e Bondade”
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau109A música de “Graças e Bondade”
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo110A música “Graças e Bondade”
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau111A obra realizada por este “Pai da Misericórdia” é motivo de inspiração e de reflexão e, atendendo aos objectivos desta publicação, espera-se que dê a conhecer a vida de tão respeitoso sacerdote e, por conseguinte, lhe seja prestada a devida homenagem.Por esta razão, o signatário em colaboração com Paul Pun, partilha com os leitores as seguintes inspirações, desejando que as futuras gerações possam aprender com estes pensamentos do “benfeitor da todos”. Paul Pun apontou ainda que estas inspirações possam servir de textos na educação moral dos jovens: “Fazer o bem sem olhar a quem”, “Fazer o bem pelo bem e não pela recompensa”, “Antecipar-se às preocupações alheias” e “Cumprir a missão diária”, e eu acrescento ainda “Satisfação e agradecimento”.“Fazer o bem sem olhar a quem”: o Padre chegou a Macau como refugiado e, como tal, centrou o objectivo do seu trabalho nos refugiados de todas as regiões, sem distinção de raça, de credo ou da situação económica em que se encontravam. Sendo Macau uma cidade multicultural, torna-se ainda mais relevante que a educação das novas gerações não se baseie em ensinamentos injustos e discriminatórios.“Fazer o bem pelo bem e não pela recompensa”: Em toda a sua vida, o Padre procurou ajudar as pessoas, sem que nada ficasse registado. A alegria dos outros era também a sua alegria, a força motriz para continuar o seu trabalho. Será pertinente fazer ver aos jovens que o trabalho voluntário não pode ser encarado de uma forma interesseira, como forma de alcançar outros objectivos. As instituições de assistência social devem, por essa razão, procurar atrair os jovens para o trabalho voluntário através INSPIRAÇÕES
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo112da compreensão do valor intrínseco no auxílio mútuo, e nunca através de interesses pessoais. Os feitos do Padre são bons exemplos para temas de educação moral e cívica.“Antecipar-se às preocupações alheias”: Esta frase foi dita por Fan Zhongyan, na Dinastia Song. Apesar das muitas preocupações que o seu trabalho acarretava, o Padre mostrava-se sempre sorridente. Prometer ajudar era uma das suas principais características e pensar ir mais longe o seu melhor feito, isto é, obter mais valor acrescentado. O sentido destes actos encontra-se na prática quotidiana e não em palavras vãs. A leitura pode exercer uma influência imperceptível, mas a prática e o testemunho da vida quotidiana podem criar a grandeza moral de uma pessoa.“Compromisso na vida quotidiana”: A vida a que o Padre se dedicou foi uma vida diferente da de qualquer outro indivíduo. Para além das suas tarefas diárias, e sempre que dispunha de tempo livre, pegava na sua lambreta e percorria as ruelas e travessas da cidade para se inteirar das necessidades de ajuda por parte da população local. Este sentido do compromisso permite destacar o valor da sua existência. Nesta medida, a vida percorrida pelo Padre valorizando o sentido do compromisso na formação moral dos indivíduos, é igualmente um tema de educação.“Satisfação e agradecimento”: Os que viveram na mesma época do Padre, passaram por tempos difíceis e por privações. Mas, apesar dessas situações difíceis, foram felizes e foram muitos os que receberam benefícios do Padre, tornando-se depois seus colaboradores activos. Como forma de agradecimento e retribuição, participaram em trabalhos voluntários e contribuíram de diversas formas para as suas obras. De igual modo, muitos dos refugiados vietnamitas continuaram, após a sua partida para o estrangeiro, a manterem-se em contacto com o Padre e com as religiosas que os apoiaram, enviando ajuda monetária para as suas obras de caridade. Todos estes factos merecem ser divulgados junto dos jovens de hoje, porque não passaram por privações nem por situações difíceis. A vida deste padre serve de inspiração para uma melhor educação das novas gerações, ajudando-os a ultrapassar adversidades e a alcançar metas de vida, através da faculdade de conhecer a importância de saber agradecer e viver satisfeitos.
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau113Este livro não pretende ser nenhuma grande obra, mas uma compilação de documentos não oficiais e entrevistas com conhecidos e colaboradores do Pe. Ruiz. Terminá-lo fez-me sentir aliviado e satisfeito. O que mais me regozijou foi ter contado com a ajuda amiga do Pe. Aspiroz, dos Serviços Sociais da Casa Ricci, do Sr. Paul Pun, da Cáritas de Macau, e dos senhores Yu Meng Sang, Young Lam e João Ng. A todos eles endereço as minhas desculpas pelas maçadas que lhes dei, como por exemplo, as respostas às questões que lhes formulei, as informações e documentos que me facultaram (fotografias, chapas e verbetes da Vespa, informações sobre as condecorações obtidas, entre outros documentos). A todos eles agradeço muito, pois são realmente os sucessores do Pe. Ruiz, que nunca se escusava de ajudar.Depois de ler o rascunho, o Pe. Aspiroz aproveitou a comemoração do 7º aniversário do falecimento do Pe. Ruiz para me dar a oportunidade de apresentar o livro e pedir indicações e correcções aos senhores Ao Chi Keong, João Ng, Chan Iok Keung e Un Hak I. Mais tarde, também o Sr. Paul Pun contribuiu com as suas opiniões. A todos um agradecimento muito sincero.Por fim, a intenção deste livro prendeu-se, sobretudo, com a necessidade de realçar o papel deste missionário espanhol do século XX na evangelização e nos imensos benefícios da sua obra social e caritativa em Macau e na China Continental. Deixou-nos muitas histórias comoventes que devem ser recordadas e transmitidas às gerações mais novas.EPÍLOGO
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo114Ao mesmo tempo, faço aqui um apelo aos leitores jovens: caso tiverem o ensejo de ler este livro, conto que o mesmo lhes possa despertar interesse e vontade de seguirem os passos do Padre. Apesar de se afirmar que a bondade é humana, existe sempre a necessidade de a praticar. O Padre era uma pessoa de poucas palavras, mas que muito fazia e muito se dedicava sem esperar qualquer recompensa. O meu desejo é dar a conhecer os feitos deste grande missionário e a natureza da sua bondade perfeita, relevando a misericórdia divina.
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau115Aurora, N.º 46, de 11 de Dezembro de 1994. Aurora, N.º 22, de 14 de Junho de 1998.Cáritas de Macau: Cáritas Ligação N.º 94, Julho de 2011: Edição Especial sobre o Padre Luíz Ruiz Suárez - http://www.caritas.org.mo/uploads/wizpublicationdownload/201303/319_mcckz.pdf Cáritas Ligação, Nº 124, Dezembro de 2016: Edição Especial do 65.º Aniversário - http://www.caritas.org.mo/uploads/wizpublicationdownload/201711/2370_4vzje.pdfCasa Ricci: Breve História do Colégio Mateus Ricci, edição electrónica (em chinês) - https://www.ricci.edu.mo/index.php/zh-TW/about/history Página Electrónica dos Serviços Sociais da Casa Ricci: A nossa história. http://casaricci.org/en/about/story/index.html “Deus concorda com a boa vontade do homem”, Boletim Informativo dos Serviços Sociais da Casa Ricci, Dezembro de 2017. Serviços Sociais da Casa Ricci: Boletim Informativo de Novembro de 2011 – Encounter Nov. 2011: http://casaricci.org/en/whatnew/newsletter/files/CRSS-11w-ENG-v2-e.pdfChan Cheng I. Chama de Amor não morre: História de 109 Mártires Claretianos, Editora Claretiana, 2017.Companhia de Jesus: Society of Jesus Chinese Province - https://www.amdgchinese.org/en/FONTES DE REFERÊNCIA
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo116Jornal Va Ou, de 29 de Julho de 2011.Liu Miu Mei: “Luz Brilhante de Madrugada: Irmã Rosalia Ellerik, FMM”, Editora Yi Jin, Hong Kong, 2015.Pe. Michael Kelly, S.J. “Um grande Homem, o Padre Luíz Ruiz Suárez”, Semanário da Diocese de Hong Kong, 26 de Agosto de 2011.Seabra, Leonor Diaz. Padre Lancelote Rodrigues: Vida e Obra, Instituto Internacional de Macau., Colecção Missionários para o Século XXI, Agosto de 2017.Young Lam: “Eu e a Igreja de Santo Agostinho” (I), Observatório de Macau, 23 de Julho de 2006.Young Lam: “Eu e a Igreja de Santo Agostinho” (II), Observatório de Macau, 30 de Julho de 2006.Páginas Electrónicas dos Serviços Sociais da Casa Ricci, Cáritas de Macau, Companhia de Jesus de Macau, Colégio Mateus Ricci de Macau, Escola de Santa Teresa do Menino Jesus e Escola S. João de Brito.
MISSIONÁRIOS para o Século XXIIeong Chi Chau117IEONG CHI CHAU, natural de Macau, com a licenciatura, o mestrado e o doutoramento em Educação.Entrou na função pública como professor, técnico superior, inspector escolar e chefe de departamento.Depois da sua aposentação, exerceu as funções de professor, adjunto do director dos serviços escolares, e director de escola. Foi ainda orientador de estudantes de mestrados da Universidade de Macau e deu formação a professores.Principais obras:1. “Teoria e prática da Educação Criativa: Palavra do Editor e Preâmbulo” – Colectânea de Teses da Direcção dos Serviços de Educação 2002.2. “Habilidade de Professor”. Revista da Educação da Direcção dos Serviços de Educação, N.º 8, de 2004.3. “O Desenvolvimento do Ensino não superior em Macau sob a perspectiva da elevação qualitativa”, no Jornal Global Education da East China Normal University, N.º 7 de 2005.O AUTOR
MISSIONÁRIOS para o Século XXILuis Ruiz Suárez, uma vida a servir o próximo1184. “Programa Internacional de Avaliação de Alunos de Macau”, na Revista “100% Pais”, N.º 14 de 2005.5. “Análise do Significado do Currículo da Própria Escola e do Currículo da Chefia”, no Jornal Bimensal Middle Education N.º 4, Volume 57, 2006, National Taiwan Normal University.6. “Análise do Futuro Desenvolvimento do Ensino não Superior na RAEM”, na Revista Administração, N.º 72, 2006.7. “Da Profissão de Professor e do seu Desenvolvimento”, no Jornal “Global Education” da East China Normal University, N.º 5, 2007.8. “Estudo da Reforma Promovida através o Currículo da Chefia da Própria Escola”, na Biblioteca da East China Normal University.9. “Teoria da Formação de Professores e sua Prática”, Seminário Académico na Beijing Normal University, 2008.10. “Ensino Católico em Macau: Retrospectiva, Experiência e Prospecto”, Colectânea de Teses: Hundred Years of Time: The Perpetuation and Development of Chinese Catholic Communities in Macau, Instituto Politécnico de Macau, 2016.Desempenha actualmente as funções de revisor do chinês da “Lectio Divina” e Director do Programa da Formação da Chefia Escolar.
MISSIONÁRIOS para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação de ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombrada pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantos figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial - “Missionários para o Século XXI”.