Missionários para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Volume IPadre Lancelote rodrigues “Vida e obra”Leonor SeabraVolume IIPadre Joaquim Angélico Guerra, s. J. “Um Globetrotter ao serviço de Deus e da China”Padre Henrique de Jesus Rios, S. J.Volume IIIMário Acquistapace“Um salesiano no Extremo oriente”Mário Rodrigues BaptistaVolume IVP. Benjamim Videira Pires, Meu irmãoP. Francisco Videira PiresVolume VLuigi Versiglia e Callisto Caravario “Mártires salesianos na China”Luís CunhaVolume VIManuel Teixeira, de Menino a MonsenhorJosé TeixeiraVolume VIIUm Apostólo do oriente Aproximação à Vida e obra do Cardeal Costa nunesJosé Valle de FigueiredoVolume VIIIPe. áureo nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoJoão GuedesVolume IXD. Arquimínio rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)António ArestaCom testemunhos do Gen. J.E. Garcia Leandro,José Maria Bártolo e Maestro Simão BarretoVolume XCésar Brianzaa missão o coro e o sonho da ChinaJoão GuedesJoão GuedesCÉSAR BRIANZAa missão, o coro e o sonho da China
02César Brianza a missão o coro e o sonho da ChinaMissionários para o Século XXIJoão Guedes03 Missionários para o Século XXITítuloCésar Brianzaa missão, o coro e o sonho da ChinaAutorJoão GuedesEditorInstituto Internacional de MacauColecção“Missionários para o Século XXI” Volume XDirecção GráficaVictor Hugo DesignImpressão e EncadernaçãoTipografia WelfareTiragem500 exemplaresApoioFundação MacauMacau, Dezembro de 2016ISBN 978-99965-59-05-1César Brianzaa missão, o coro e o sonho da ChinaJoão Guedes
César Brianzaa missão, o coro e o sonho da ChinaJoão Guedes
Esta ColecçãoMissionários para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Os editores
08César Brianza a missão o coro e o sonho da ChinaMissionários para o Século XXIJoão Guedes09 Missionários para o Século XXI Índice 11 A infância 23 S. João Bosco e os Salesianos 39 O Colégio D. Bosco 53 A ordenação em Xangai e a Guerra 75 O Pe. Brianza e a restauração da música sacra 87 Maestro e educador 119 Notas 122 Bibliografia 123 Revistas e jornais 124 Artigos de imprensa 125 Testemunhos
10Missionários para o Século XXI 11 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesA infânciaAs preocupações que o irrequieto César não deu mesmo no seminário! “E agora a China”! Exclamava sua mãe Maria Rosola enquanto acabava o pequeno e imaculado vestido branco para o baptizado da filha de uma senhora vizinha para quem costurava desde sempre. “E agora a China!”...mas tinha fé em Deus” e levantava os olhos em direcção aos vidros empoeirados da bandeira da porta da sala, como se Deus estivesse a escutá-la do outro lado desses vidros translúcidos e acinzentados de pó de muitos anos que caía pelas frinchas lá de cima do sótão.É que, agora, antes de finalizar o seminário de Ivrea onde estudava e que estava em vias de completar, César tinha-lhe dito que iria tomar ordens na China. Nesse tempo em que a Itália ainda se recompunha do desastre que foi a Primeira Grande Guerra Mundial, mal se sabia sequer onde ficava Roma quanto mais a China. Mas o pequeno parece que tinha conhecido desde sempre aquele país, como nos sonhos de S. João Bosco.
12Missionários para o Século XXI 13 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes“Ele ainda mal balbuciava e parece que já sabia dizer aquela palavra: China”, recorda Piera a irmã mais velha. Apesar de ter ingressado no seminário e se revelar bom aluno, mesmo assim, ninguém o via como padre paramentado e a celebrar missa. Muito menos missionário nos confins do Oriente. César era tudo o que se possa pensar de uma criança com todas as qualidades e defeitos menos com vocação para o sacerdócio. A opinião era quase unânime entre os conterrâneos, era vivo, extrovertido, traquinas e até mal comportado.“De facto ninguém o olhava como vocacionado, mas era porque não conheciam D. Bosco, o Santo que gostava de recrutar preferencialmente jovens rebeldes desse género” lembra Dino Frigoli seu companheiro de escola.Mas certo é que desde cedo começou a contrariar todos os vaticínios mesmo os dos que o viam confinado para sempre à terra da Lombardia e condenado a laborar na “Cavalchina” a fábrica de Capriolo que empregava quase toda a gente, a poucos quilómetros de Chiari, a cidade onde tinha nascido em 1918, o ano que assinalava o fim da grande conflagração europeia e mundial. A fábrica pertencente ao poderoso grupo têxtil alemão Niggeler & Kupfer, constituía o ganha-pão de vários milhares de operários da região e Ângelo Brianza, pai do nosso jovem era um deles.Em última instância poderíamos ver na fábrica de Capriolo as raízes que levariam muitos anos mais tarde César Brianza aos caminhos da música. É que a “Cavalchina” estava então verdadeiramente inserida no espírito da democracia cristã segundo os preceitos do Papa Leão XIII. Assim Capriolo conhece uma série de iniciativas sociais em várias áreas, por ela dinamizadas nomeadamente a criação da banda de música em 1905. O grupo coral da igreja surge um pouco mais tarde, no início dos anos XX. Tanto a banda como o grupo coral registam um desenvolvimento sustentado, mantendo-se em actividade ininterrupta ainda hoje. Por isso também a fábrica acabava por intervir, ou mesmo confundir-se com todos os aspectos da vida de tudo e todos no município. A fábrica estava lá como sorvedouro das energias das gentes, mas também como recurso, muitas vezes o último, para suprir as necessidades da sobrevivência dos trabalhadores de uma província em plena industrialização, que por isso mesmo conhecia também os dramas e a agitação social que esse desenvolvimento acarretava.Ao conseguir emprego na “Cavalchina” Ângelo Brianza conseguia também garantir o rendimento necessário para sustentar família e só assim se pode casar com Maria Rosola que também trabalhava na
14Missionários para o Século XXI 15 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesfábrica. Os dois ordenados não eram suficientes para vogar na abundância mas davam para certo desafogo e até sustentar prole.Assim nasceu Piera a filha mais velha. Depois veio José, que em vez da fábrica preferiu enveredar pelo ramo da panificação com certo sucesso profissional. Seis anos mais tarde (28 de Agosto de 1918) surgiria no mundo o terceiro fi lho, César. A fel icidade parecia completa, mas subitamente tudo mudou. Inesperadamente. Quando completava os trinta e três anos de idade Ângelo Brianza sucumbia a doença mortal que lhe poria termo vida em pouco tempo.Quase de um dia para o outro Maria Rosola, via o mundo desabar sobre os seus ombros. Privada do marido e com três bocas para sustentar tinha agora que fazer possíveis e impossíveis para proteger e educar as três crianças. Isto tanto mais que dependia do número de clientes a quem fazia saias e vestidos, ou cerzia a roupa, o pecúlio que conseguia obter para pôr comida na mesa, vestir e calçar as crianças.A situação não mudou, mesmo depois de refazer a vida casando com Giuseppe Peluchi. É que deste segundo casamento adviriam mais dois filhos. Seja como for na casa de Maria Rosola nunca se passaria fome e, se havia provações, a Mãe seria a única que disso saberia não deixando em caso nenhum transparecer agruras .Se os dois primeiros filhos de Maria Rosola não despertaram particular atenção dos padres, o mesmo não aconteceria relativamente ao terceiro rebento da família, a quem o Instituto Salesiano São Bernardino abriria de par em par as portas para receber o “irrequieto e mal comportado” César, mal este concluiu a escola primária. Provava-se assim, quanto mais não fosse, que de facto os Salesianos preferiam as crianças rebeldes cujos espíritos poderiam ser melhor moldados para servirem como “operários de Deus” fazendo jus ao que o Santo João Bosco fundador da ordem dizia.Concluído o primeiro ciclo escolar em S. Bernardino, César Brianza, muda-se para o “Instituto Missionário Cardeal Cagliero”, a vetusta escola cujo
16Missionários para o Século XXI 17 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesempenho específico é “a promoção integral da pessoa humana e cujo objectivo é a formação cristã dos alunos, mas também, cultural, social e recreativa” O instituto formado para curar da inteligência, da bondade, vontade, e sociabilidade, pretende assim ajudar os alunos a serem “cidadãos honestos e cristãos convictos” segundo o projecto de D. Bosco.Este instituto nasceu da dádiva, em 1892, a D. Miguel Rua, sucessor de D. Bosco de uma casa com terrenos adjacentes para a construção de uma obra educativa e religiosa. Dessa doação nasce o actual instituto inaugurado em 1893 e aberto a alunos de várias nacionalidades. Em 1906 é ali inaugurada uma escola agrícola e um observatório meteorológico. Durante a Primeira Grande Guerra é ali instalado também um hospital militar e a instituição só retoma a sua vocação de seminário em 1919.É nesta instituição de tanta historia para os salesianos que César Brianza ingressa e é nesta altura também que a palavra China que tantos cuidados viria a dar à mãe Maria Rosola é pronunciada em sua casa. César estava então já bem longe de ser o tal miúdo mal comportado para ser agora um fervoroso aspirante a missionário.A China já não era apenas um sonho infantil, mas um local geográfico físico e verdadeiro para o qual a fé o chamava e para onde estava determinado a ir, mesmo à custa da separação da família. O que não lhe terá custado essa decisão? Diz quem o conheceu que tinha dois amores profundos e inconciliáveis. Um era a família, o outro a missão.A fé e a missão falaram mais forte do que o apego à família e César Brianza com 16 anos de idade deixa Itália rumo ao Extremo Oriente, em 1935, ansioso e pronto a fazer-se ali chinês entre os chineses (1).Mas antes de chegar à China, César Brianza desembarcaria primeiro na colónia britânica de Hong Kong permanecendo hospedado na “Casa Missionária de Shaukeiwan” no que eram então os arredores Norte da ilha. Naquele local, os salesianos tinham aberto, em 1930, um estabelecimento de ensino destinado à formação de sacerdotes missionários. Foi nesse local de recolhimento, que ainda hoje, funciona, ainda que com o novo nome de “Casa Salesiana de Estudos”, que o jovem recém-chegado professou na “Ordem Salesiana de S. João Bosco” que viria ser a sua até ao fim da vida. O acto solene teve lugar no dia 12 de Janeiro de 1936.Uma das cade i r as no rma i s dos a l unos consagrados ao sacerdócio era naturalmente a música na qual se empenhou com entusiasmo. O gosto que criou pela arte musical foi tanto maior quanto teve como professor Elísio Gualdi. Este professor, também italiano, ensinava em Hong Kong, e em Macau
18Missionários para o Século XXI 19 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesdesde 1924 tendo sido nome maior da introdução da música ocidental na colónia britânica da China. Todos os alunos de música depois de algum tempo de observação escolhiam um instrumento em que se passariam a especializar e assim foi também com César Brianza que escolheu o piano. Tudo indica no entanto que esta opção lhe foi inspirada por Elísio Gualdi que tinha notado a sua inclinação para esse instrumento. Críticos que o ouviram interpretar peças de piano muitos anos mais tarde já nos saraus da Academia de Música S. Pio X e no Teatro D. Pedro V, classificavam-no como talentoso executante. Depois de professar pouco tempo permaneceu na vizinha colónia britânica, partindo para Macau para nos dois anos seguintes concluir um estágio.César Brianza chegava no mesmo ano em que um dos mais violentos tufões de que há memória no século XX varria as duas colónias ocidentais da China provocando numerosas vítimas, tanto em Hong Kong, como em Macau e avultados prejuízos materiais. Mas o prenúncio de borrasca marcava também o adensar das nuvens de guerra que se acastelavam sobre a China. Apesar das ameaças que se revelariam devastadoras, Macau não parecia porém particularmente preocupado, nem mesmo quando no ano seguinte, o Japão desencadeia as operações que levariam à invasão da China e um inusitado afluxo de refugiados que pedem asilo se começa a registar nas Portas do Cerco. Para além de Macau ser ciclicamente procurado como local de asilo das vítimas das convulsões da China, tornando quase rotineira a chegada de famílias que pediam abrigo, as palavras de Salazar em Lisboa declarando a mais estrita neutralidade de Portugal no conflito da China tinha um efeito claramente tranquilizador.A inauguração da pr imeira l igação aérea intercontinental (2) através dos aviões da Pan American contribuía para o optimismo geral. Assim
20Missionários para o Século XXI 21 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedestambém o jovem estudante de filosofia se deixava contagiar pelo ambiente festivo prevalecente estando presente na inauguração do novo edifício escolar do Orfanato Salesiano, local onde noutros tempos se tinha erguido, fronteira à velha igreja de S. Lourenço a célebre “casa das “16 colunas” que no século XIX tinha sido a sede da não menos célebre “Real Companhia Britânica das Índias Orientais”.César Brianza, frequenta esses dois anos de filosofia no vetusto Seminário de S. José, local onde ainda se leccionavam estudos superiores tal como séculos antes se tinham leccionado no Colégio de S. Paulo a primeira instituição universitária que se estabeleceu na China.Apesar de leccionar cadeiras universitárias, o Seminário de S. José acolhia então exclusivamente nesse estágio escolar a lunos dest inados ao sacerdócio. Os alunos do seminário encontravam--se naturalmente entre eles fora das horas de estudo, ou nos recreios e é aí que César Brianza conhece um outro aluno que repartia com ele o seu gosto pela música. Tratava-se do açoriano Áureo e Castro que na altura frequentava o quinto ano. O encontro entre os dois terá sido breve e casual nessa altura, mas muitos anos depois ambos tomariam sobre si um dos mais importantes projectos musicais já levados a efeito pela Igreja Católica de Macau.Porém em 1938 era tempo de Brianza dizer adeus à colónia portuguesa do Sul da China e rumar a Norte em direcção à cosmopolita Xangai.Antes porém é necessário recordar a história da Sociedade Salesiana de S. João Bosco no seio da qual César Brianza perfizera os seus estudos secundários e onde tinha acabado de professar. É igualmente importante recordar a figura do fundador dos Salesianos, S. João Bosco, que tanto influenciou a vida do nosso biografado.
22Missionários para o Século XXI 23 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesS. João Bosco e os SalesianosA figura de João Melchior Bosco (S. João Bosco) é indissociável do longo penoso, convulso, mas igualmente rico processo de unificação da Itália, que teve início em 1815 e terminaria formalmente em 1870 com a anexação de Roma que antes era a capital dos chamados estados pontifícios. Isto ainda que a questão entre o estado italiano e a Igreja se tenha apenas resolvido definitivamente na vigência do regime fascista de Benito Mussolini em pleno século XX.Esse período, conhecido também como o “Risorgimento”, apanhou S. João Bosco durante a adolescência marcando-o de uma forma indelével. No âmbito desse processo, defrontaram-se as forças sociais e política mais diversas, mas pode dizer-se que, na construção do novo estado, estavam as forças conservadoras liberais do rei Vítor Manuel, por um lado, e os republicanos, jacobinos, maçons e democratas em geral capitaneados por Mazzini e Garibáldi. Nessa
24Missionários para o Século XXI 25 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesluta processava-se também a revolução industrial da península italiana que produziu uma nova classe, o proletariado. Era esta classe que ambas as forças disputavam e é nesse combate que S. João Bosco acaba por intervir do lado da doutrina social da igreja que se contrapunha à luta de classes proposta pelas correntes da esquerda.Nessa conjuntura o aceso da luta está em Turim onde tal como noutras grandes cidades italianas vagueiam grandes contingentes de jovens sem destino e sem rumo. Dirigida a estes a igreja mantém desde 1806 uma obra assistencial chamada “oratório” que se ocupava dos tempos livres, educação e catequese. Influenciado por estas iniciativas, D. Bosco funda na cidade o primeiro oratório em 1841. Três anos depois esse oratório passa a denominar-se “Oratório de S. Francisco de Sales”.O cenário político do Piemonte, tal como o de toda a Itália era declaradamente revolucionário com inúmeros conflitos entre o estado em formação e a Igreja, mas D. Bosco se não está de coração com os revolucionários mantém laços de amizade com os principais dirigentes da esquerda, nomeadamente com Camilo Cavour e Humberto Ratazzi. Simultaneamente está também directamente ligado por laços pessoais de amizade aos Papas Pio IX e Leão XIII. Essas “suspeitas” amizades de Bosco suscitaram a inimizade do bispo de Turim, D. Lourenço Gastaldi, que entendia que assim estava a ameaçar a ordem hierárquica da Igreja. O conflito só terminou com a intervenção do próprio Papa Leão XIII.Foi no entanto este conjunto diversificado de amizades pessoais que lhe permitiu vencer a conjuntura política vigente caracterizada pelo processo de separação da Igreja e do Estado que não estimulava a criação de uma ordem religiosa nos moldes tradicionais.É então que o ministro Humberto Ratazzi lhe sugere a organização de uma sociedade de cidadãos que se dedicasse às actividades educativas realizadas pelos oratórios em moldes civis. D. Bosco propõe a “Sociedade de São Francisco de Sales”, que seria vista como uma associação de cidadãos aos olhos do Estado e como uma associação de religiosos face à Igreja. Depois de consultar sobre o assunto o Papa Pio IX recebe a adesão dos seus companheiros, padres seminaristas e leigos e da “Sociedade de São Francisco de Sales” em 18 de Dezembro de 1859. Em 14 de Março de 1862, os primeiros salesianos fizeram os votos de castidade, pobreza e obediência. A partir de 1863, além dos oratórios, os salesianos passam a dedicar-se também à criação de colégios e escolas para crianças e adolescentes.A difusão da nova ordem eclesiástica acabava
26Missionários para o Século XXI 27 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedespor dissipar quaisquer dúvidas que ainda pudessem existir sobre as suspeitas amizades de D. Bosco.Para além do carisma, traço saliente da sua personalidade, possuía também um conhecimento de experiência feito do mundo que o rodeava. Quase sem meios, exerceu as mais diversas, profissões para poder estudar. Foi operário, professor, artista de teatro e até ilusionista. “A criatividade de Dom Bosco marcou o estilo dos Salesianos desde o princípio. Estes foram mestres, treinadores desportivos, artistas de teatro e música, catequistas e mães de família” recordava recentemente a Ordem nas comemorações dos seus 140 anos, mas D. Bosco fica também na história do ensino pela verdadeira revolução que nele operou repudiando os velhos métodos repressivos e antiquados e recorrendo a técnicas pedagógicas que, pelo seu elemento inovador, voltaram como antes a levantar suspeitas. Todavia os resultados só deram razão ao Santo escolástico. “São João Bosco jamais dava castigos corporais, na convicção de que isso só incitaria os corações à revolta e fecharia a alma do jovem para os conselhos salutares. A maneira pela qual ele repreendia era através de uma palavra fria, um olhar triste, uma mão retraída, ou qualquer outro sinal discreto de desagrado com alguma falta. Mas os resultados demonstravam ser extremamente eficaz essa forma de correcção”.César Brianza é um produto da aplicação desses métodos e ele próprio um seguidor das orientações pedagógicas do fundador da ordem principalmente na condução dos seus futuros “Pequenos Cantores do Colégio D. Bosco” onde a manutenção da disciplina dependia muito mais da imaginação do mestre do que de quaisquer admoestações que seriam sempre irrelevantes senão mesmo contraproducentes.Uma das facetas que contribuíram para elevar D. Bosco à santidade foi com certeza a dos sonhos que o afectavam desde criança. Há controvérsia se seriam sonhos, visões ou premonições. O próprio Santo parece que não sabia muito bem como lidar com esses eventos. Por fim, decidiu dar-lhes atenção, pois muitas vezes eram sonhos de carácter premonitório, que o avisavam sobre a morte iminente de algum aluno ou salesiano.Era seu costume contar o sonho ao seu confessor ou director espiritual antes de contá-lo aos demais. Estas “visões” acabaram por deixar de ser propriedade exclusiva de D. Bosco e dos que com ele privavam quando a certa altura o Papa Pio IX, lhe ordenou que os consignasse por escrito, no seu sentido literal e de forma detalhada, para maior estímulo dos filhos da Congregação Salesiana.Entre os sonhos que passou a papel contavam--se alguns em que viajava pela China, chegando num deles a ver Pequim. Aliás a China figurava de forma
28Missionários para o Século XXI 29 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesproeminente no seu pensamento tendo deixado como uma das suas últimas vontades a de que os salesianos deveriam ir em missão para a China.A missão de liderar essa marcha para o Oriente coube a Luís Versiglia, que seria igualmente o terceiro elemento dos salesianos a ser canonizado depois de D. Bosco (3).Luís Versiglia nasceu em Pavia (5 de Junho de 1873) e decidiu juntar-se aos Salesianos para concluir o ensino secundário a fim de seguir a carreira de médico veterinário. Porém a proximidade que teve com D. Bosco e uma experiencia mística que sentiu ao assistir na Basílica de Maria Auxiliadora à imposição do crucifixo a sete missionários que partiam para as missões levou-o a renunciar à carreira veterinária e tornar-se missionário. Depois de se licenciar em Filosofia recebeu a ordenação sacerdotal passando a dirigir um noviciado da ordem em Genzano, localidade próxima de Roma, durante 9 anos. Porém o próprio Luís Versiglia confessa que não se sentia à-vontade naquele lugar aceitando de braços abertos a oportunidade que lhe surgiu para liderar a primeira expedição salesiana à China. A porta de entrada no Império do Meio seria Macau.Quem primeiro encorajou a vinda dos salesia-nos para Macau foi o P. Francisco Xavier Rondina, o grande impulsionador da música na colónia portuguesa
30Missionários para o Século XXI 31 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesda China e professor no Seminário de S. José (1862-1871). No entanto a questão só seria formalmente encarada quase 20 anos depois, de acordo com carta que o P. Miguel Rua, Reitor dos Salesianos dirige em 1890 (3-10-1890) a D. António Joaquim de Medeiros, Bispo de Macau: “o ilustre P. Rondina fez-me saber o conteúdo das cartas a ele escritas de Macau, em nome de V. Exa., nas quais V. Exa. mostra o desejo de ter os filhos de D. Bosco na sua Diocese, propondo-nos de acordo com o governo português, facilidades para este fim...seria nosso intento estabelecer-nos perma-nentemente em Macau e aqui, de acordo com o fim da nossa Pia Sociedade, abrir um hospício, colégio desti-nado a recolher a juventude pobre e abandonada, os filhos do povo, adestrando-os nas artes e ofícios e em outros estudos. Estabelecida esta Missão de maneira que, embora tencionemos estabelecer-nos firmemente em Macau, todavia desde já prometemos que, fundada em Macau aquela primeira Missão, nos ocuparemos, segundo as nossas possibilidades de Timor”.O projecto ficaria em suspenso até 1906, data em que a expedição salesiana arribaria a Macau para ser acolhida não pelo bispo Medeiros, mas pelo seu sucessor D. João Paulino.D. Luís Versiglia relataria assim para o seu superior em Roma a chegada dos seis iniciadores da obra salesiana em Macau.“ É com o coração transbordante de reconhe-cimento para com Deus que lhe dou parte da nossa feliz chegada. A viagem foi esplêndida e não se podia desejar mais revelando-se a mão amorável da Provi-dência ainda nas coisas mais insignificantes. Não houve contratempos, esquecimentos ou desgostos, mas tudo correu à medida dos nossos desejos, como se fora prevenido com diligente estudo”.Este pequeno grupo começou por criar o Orfanato da Imaculada Conceição, num barracão de madeira localizado no Nº 5 da Rua de S. Lourenço que se dedicava a cuidar de órfãos e jovens delinquentes.Entretanto em 1910, os salesianos davam um passo em frente de grande vulto ao ocuparem a “casa das 16 colunas” o grande edifício que no século XIX tinha sido a sede da “Real Companhia Britânica das Índias Orientais”, a qual por seu turno a tinha vendido à Diocese na sequência da Guerra do Ópio.Essas amplas instalações onde funcionara um orfanato passaram a abrigar a Escola Técnica da Imaculada Conceição. Esta escola que antecedeu o actual Instituto Salesiano abria em Macau um novo ciclo pedagógico ligado ao ensino profissional que nunca antes tinha sido encarado como tal. Na escola ensinavam-se artes e ofícios nomeadamente tipografia, costura, sapataria e carpintaria e galvanização. De acordo com as suas aptidões as crianças eram
32Missionários para o Século XXI 33 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesdistribuídas por diferentes classes estudando também disciplinas como o Chinês, Matemática e Português. A escola criou também uma banda de música e dava formação desportiva. Tudo parecia correr pelo melhor quando no mesmo ano ocorre em Lisboa a revolução republicana de 5 de Outubro e com ela a expulsão das ordens religiosas. O decreto republicano visava especialmente os Jesuítas, mas os Salesianos acabam por ser abrangidos e obrigados assim, a deixar Macau fixando-se provisoriamente em Hong Kong.Nesse lance o Bispo de Macau “não querendo perder os seus missionários salesianos, refugiados em Hong Kong, faz uma proposta atraente a D. Luís Versiglia. Dado que a jurisdição da Diocese de Macau compreendia um vasto território que se estendia pela China, o Bispo propõe-lhe recomeçar de novo na região entre Macau e Cantão confiando aos salesianos o distrito de Xiangshan, longe do anticlericalismo da revolução portuguesa.Por felicidade novos missionários chegam ao Oriente e D. Luís Versiglia julga reunidas as condições para os salesianos se lançarem ao trabalho em terra por desbravar. Depois de uma primeira viagem de observação, D. Luís Versiglia conclui que o projecto é prometedor. Terra inculta mas bom campo de trabalho. No dia 9 de Maio começam a instalar-se no Sul da China com os seus missionários. O exílio em Hong Kong tinha durado cinco meses, mas “agora estavam prontos a recomeçar” (4).Entretanto em Portugal os sentimentos anticle-ricais abrandam o que leva o governo republicano a autorizar a permanência de religiosos estrangeiros em Macau permitindo assim o regresso dos salesianos à direcção das suas obras.Todavia no que se refere a D. Luís Versiglia este passa a dividir a sua vida entre Macau e a China.Em 1916 empreende novo projecto que leva à transformação do Instituto salesiano numa obra de maior dimensão, com grandes camaratas, oficinas de calçado e alfaiataria, laboratórios modernos, uma tipografia, um grande pátio para a recreação e uma escola comercial. O Instituto, depois de ter começado com sessenta alunos passava a ter capacidade para 200. Em 1923 ultrapassava mesmo essa fasquia registando 210 matrículas. D. Luís Versiglia e os seus salesianos continuavam também a expandir a obra alargando-a até limites exteriores à Diocese de Macau, Shaozhou, a região mais setentrional de Guangdong. Por tudo isso o território salesiano seria em 1920 elevado a Vicariato Apostólico, tendo na sua liderança precisamente D. Luís. Nessa data o recém nomeado bispo regressa pela primeira vez a Itália onde recebe apoio da cúria romana e também novas adesões
34Missionários para o Século XXI 35 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesnomeadamente a de Calisto Caravário que ficaria com ele para sempre ligado no caminho do martírio.Os dois chegavam plenos de optimismo e esperança na consolidação dos progressos que tinham conseguido em Macau e Hong Kong, mas principalmente em Guangdong. Todavia a China que vinham encontrar já não era a de 1906.Em 1926 morria Sun Yat sen, um momento de luto nacional, mas também um tempo de separação de águas entre a esquerda representada pelo Partido Comunista, fundado alguns anos antes (Junho de 1921) e a Direita nacionalista integrada no Partido Kwomintang. As duas correntes ideológicas que de algum modo dominavam o panorama político da China encontravam-se unidas numa coligação precária desde 1923, coligação essa que apenas se mantinha graças ao carisma de Sun. Com o seu desaparecimento a aliança de conveniência desfez-se quase de imediato levando a uma situação caracterizada pela anarquia generalizada e a constituição de grupos revolucionários que reinavam pelas províncias do Sul nomeadamente em Guangdong . Localmente dirigentes de várias matizes e sem ideologias definidas ascendiam e a r reg imen tavam as massas com s logans demagógicos, entre os quais os que apelavam à luta contra os cristãos, católicos e protestantes, vistos como os causadores de todas as desgraças da China. Este guarda-chuva nacionalista e xenófobo servia muitas vezes para cobrir com uma espécie de verniz político as actividades das tríades, de bandoleiros, piratas e fora-da-lei em geral que em tempos de tumulto sempre surgiam prontos a servir o senhor que melhor lhes pagava.Isto num processo semelhante ao que tinha tido lugar em finais do século XIX com a “revolta dos boxers”, seita utilizada pela imperatriz Tzu Hsi para combater a presença estrangeira no Império. Também agora se registava um movimento semelhante ainda que mais caótico socialmente e politicamente menos definido.O desaparecimento de Sun Yat sen favoreceu o clima de caos permitindo a purga dos comunistas no seio do Kwomintang liderada pelo generalíssimo Chang Kai shek. Nessa indistinta conjuntura feita de ideias confucionistas, fascistas, socialistas e comunistas o único cimento ideológico comum era o ódio aos Kwai Lo (diabos ocidentais) que era instigado na população. Neste âmbito começam a surgir perseguições organizadas contra cristãos e estrangeiros em geral em Shiu Chow. A campanha cresce de dimensões quando em 1927 são colocados grandes cartazes em tela no Colégio D. Bosco no qual se incitavam os alunos a deixarem a escola. Tudo isto
36Missionários para o Século XXI 37 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesacompanhado de insultos contra os estrangeiros. A 13 de Dezembro de 1927 os protestos radicalizam-se, com o incêndio de todas as igrejas e missões de Shiu Chow.A 24 de Fevereiro de 1930, D. Luís Versiglia partiu com o padre Calisto Caravario e com dois jovens professores e três alunas do Colégio Dom Bosco para Linchow (ou Lianzhou), para realizar trabalho pastoral na missão salesiana existente naquela povoação que era liderada por Calisto Caravario. No dia seguinte, durante a viagem, foram interceptados por um bando de piratas que exigiram o pagamento de um resgate para os deixarem prosseguir. O padre Caravario e monsenhor Versiglia tentaram proteger umas jovens que viajavam com eles, para que os bandoleiros não se aproveitassem delas. Os bandidos, influenciados pe la propaganda ant ic r is tã e ant ioc identa l , espancaram os dois missionários, obrigaram-nos a abandonar o barco e levaram-nos para uma mata perto da aldeia de Li-Thau-Tseul. Ali, os bandidos, depois de proclamarem que queriam destruir os “diabos estrangeiros e as suas religiões”, abateram os salesianos a tiro no dia 25 de Fevereiro de 1930 (5).D. Luís Versiglia, viria a ser canonizado pelo Papa João Paulo II no Vaticano no ano 2000. O dia escolhido para a canonização teve uma clara intenção e simbolismo. João Paulo II, o grande combatente da Igreja Católica contra o comunismo escolheu precisamente o dia 1 de Outubro para o efeito, data em que a China comemora a implantação da República Popular instaurada em 1949.A perda de D. Luís Versígl ia foi apenas o prenúncio das provações que desde essa altura se começaram a suceder no processo de evangelização na China. Todavia porém a obra dos Salesianos em Macau e Hong Kong estava de pedra e cal.
38Missionários para o Século XXI 39 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesO Colégio D. BoscoA 24 de Maio de 1939, o bispo deu licença para erigirem “uma Casa Salesiana em Macau para Oratório Festivo para Europeus e Macaenses com capela pública”. No ano seguinte, o Governador Tamagnini Barbosa concedeu-lhes um terreno em Mong-Há.A zona concedida ficava nesse tempo ainda nos arrabaldes da cidade pelo que foram efectuados trabalhos de aterro e terraplanagem para a construção dos futuros equipamentos desportivos e de recreio do estabelecimento. As obras prosseguiram com brevidade e a inauguração decorreria em Outubro de 1941 dois meses antes do avanço final japonês sobre Hong Kong que se renderia na véspera de Natal desse mesmo ano.Assinale-se que, a 24 de Julho de 1941, a Santa Casa da Misericórdia tinha entregue ao Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, o seu Asilo dos Órfãos, com 30 rapazes, sendo a 15 de Agosto desse ano confiados aos cuidados dos Salesianos. Enquanto se não levantava edifício próprio, os órfãos
40Missionários para o Século XXI 41 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesportugueses ficaram instalados no Orfanato da Imaculada Conceição juntamente com os chineses.“A 6 de Fevereiro de 1949 foi lançada nesse terreno a primeira pedra dum edifício que se chamou «Colégio D. Bosco», de Artes e Ofícios, destinado ao Ensino Técnico e Profissional, sendo seu primeiro Director, o Pe. António Giacomino. António Bastos foi o arquitecto que preparou todos os planos. Num apelo ao público dizia-se: «Consta que serão precisos dois milhões de patacas para levar a cabo a construção do grandioso Colégio e que o Governo da Metrópole já autorizou um subsídio de $600.000,00 para esse efeito» (Noticias de Macau, 7-2-49).O novo edifício desse grandioso colégio foi inaugurado em parte, num domingo, 10 de Fevereiro de 1951. A 30 de Novembro desse mesmo ano foi colocada a primeira pedra da nova ala desse edifício, destinada a refeitório, salão de teatro e oficinas.Em Dezembro de 1958 inauguraram-se no Colégio D. Bosco oito novas máquinas da sua oficina de mecânica, um campo de basquetebol, um centro dos antigos alunos salesianos e a sala de jantar «Dr. Pedro Lobo».A 30 de Janeiro de 1963, foram inaugurados dois novos andares para aulas e quartos.“E assim, por fases sucessivas, “apareceu esse grande colosso” que hoje se chama «Colégio
42Missionários para o Século XXI 43 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesD. Bosco», acabado de construir em 1963, com a ajuda do Governo da Província. Não obstante nele funcionar o ensino primário, o Colégio D. Bosco é principalmente uma Escola Industrial, oficializada pelo Decreto-Lei No. 43 093, de 28 de Julho de 1960. Funciona também oficialmente o Ciclo Preparatório do Ensino Secundário.A oficina de Mecânica possui equipamento à altura do ensino que se ministra, tendo para isso contribuído o Governo da Província pelas verbas dos vários Planos de Fomento.Além deste Curso oficializado e equiparado ao ministrado nas escolas oficiais similares, funcionam, em regime extracurricular, o Curso de Mecânica de Automóvel e o Curso de Dactilografia, abertos a todos os que desejam valorizar-se com uma melhor preparação para enfrentar a vida.Praticam-se e fomentam-se também todas as modalidades existentes na Província, dando aos alunos todas as facilidades para a prática desportiva, descobrindo nele um valor educativo de grande importância. Além dos campeonatos escolares, que se vão realizando ao longo do ano entre as diversas classes e em que participam os professores, os atletas do D. Bosco participam em todos os campeonatos provinciais de diversas modalidades, tendo-se distinguido com boas classificações.O Colégio D. Bosco aproveita também todas as ocasiões para dar aos seus educandos uma sól ida preparação moral e cultural, técnica e literária, fomentando a prática de recitais, palestras, representações de cinema e outras manifestações.Para activar a vida do Colégio e para que os Antigos Alunos se mantenham em contacto com a instituição que os educou é editado quinzenalmente um opúsculo intitulado «Vida Colegial», com excelente apresentação.Grupos naturais, constituídos pelas diversas
44Missionários para o Século XXI 45 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesturmas, reúnem-se depois das aulas, para discutir e dialogar sobre temas de interesse para a sua idade, orientados por um professor. Entre as várias actividades contam-se o Desporto, organizado pelos chefes de turma e conselho desportivo e o «Clube de Guitarras» para aprendizagem e actuação nas festas, dentro e fora do Colégio, tendo-se já registado várias execuções notáveis, especialmente nas missas dominicais».“Todos os domingos as portas do Colégio D. Bosco abrem-se aos jovens que ali queiram passar momentos de proveitosas distracções. Das actividades constam: Missa dominical, Instrução Moral, Desportos, Jogos variados, Sessões de cinema e Distribuição de bolos e guloseimas”.O texto aqui reproduzido, escrito pelo historiador Monsenhor Manuel Teixeira no seu livro “A Educação em Macau” (6) sintetiza a história do colégio D. Bosco salientando logo em seguida a importância de uma outra actividade particularmente tida em conta no âmbito do projecto pedagógico da ordem de D. Bosco, a música.
46Missionários para o Século XXI 47 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes“A música é um complemento das actividades escolares. Nos Colégios Salesianos esta actividade é fortemente valorizada e constitui uma das facetas da educação salesiana, desde as origens, segundo o pensamento e exemplo do próprio D. Bosco.Assim, além do Canto Coral (Geral), existe ainda o grupo dos «Pequenos Cantores», fundado em 1959 pelo P. César Brianza e que se encontra filiado no grupo internacional dos «Pequenos Cantores da Cruz de Madeira», sendo director o mesmo P. Brianza, diplomado em piano pelo Conservatório Nacional de Lisboa. Tem-se apresentado várias vezes em público, criando à sua volta uma justificável auréola de prestígio. Com a digressão ao Japão, em Abril
48Missionários para o Século XXI 49 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesde 1974, tornou-se realidade um sonho acalentado durante anos, dando-se assim a maior projecção e internacionalização a um coro que tem alto nível, como o deixou bem demonstrado, fora de Macau”.Era a este colégio que César Brianza regressaria pouco depois da sua ordenação em Xangai e ao qual iria imprimir uma marca própria da sua passagem.Mas retomemos a sua história onde a deixamos, ou seja no momento em que o jovem salesiano parte para Xangai a fim de ali concluir o curso de teologia e ser ordenado padre.
50Missionários para o Século XXI 51 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes
52Missionários para o Século XXI 53 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesA ordenação em Xangai e a GuerraO momento de partir para a China não é o melhor. No horizonte avoluma-se as nuvens cada vez mais negras de uma borrasca social política e militar que estalaria em breve, mas que muitos se recusavam a admitir.Nesse tempo já Xangai é uma das maiores cidades do Mundo com uma população de 3,000,000 de habitantes. De entre estes cerca de 50 mil são europeus ocidentais, mas também do Leste já que o número de refugiados russos deslocados desde a revolução de 1917 atingia em 1930 os 35 mil, excedendo já largamente a restante população caucasiana.Esta comunidade russa de Xangai era muitas vezes mal olhada pelos restantes ocidentais pelo facto de aceitarem os trabalhos mais mal remunerados e inaceitáveis pelos restantes europeus, como a prostituição. A esta juntava-se um segmento da mesma nacionalidade que incluía algumas famílias
54Missionários para o Século XXI 55 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesbem instaladas. Eram os russos também que dominavam a vida artística.A cidade estava assim dividida entre uma metade ocidental mais europeizada e a metade oriental tradicionalmente chinesa.As novas invenções como a electricidade e os carros eléctricos foram inovações prontamente introduzidas, o que rapidamente transformou Xangai numa metrópole.Ingleses e americanos faziam dinheiro no comércio e nas finanças enquanto os alemães a usavam como base dos seus investimentos na China, fazendo com que constasse nas estatísticas como centro por onde passavam metade das importações e exportações do país.Deste modo a parte ocidental cresceu quatro vezes mais do que a parte oriental chinesa.Xangai nunca chegou a ser uma colónia na verdadeira acepção da palavra, mas a zona ocidental, ou “International Settlement” como era conhecida tinha quase todas as prerrogativas de uma colónia com administração municipal própria, tribunais e destaca-mentos militares que se encarregavam da protecção dos nacionais das diversas potências. Certas áreas eram mesmo proibidas aos nativos chineses, com
56Missionários para o Século XXI 57 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesexcepção dos chamados “compradores” interme-diários entre as empresas ocidentais e o resto do país. Estes “compradores tornaram-se numa classe particularmente dinâmica que passou a certa altura a constituir-se como o verdadeiro motor do desenvolvi-mento da China convertendo Xangai no maior centro financeiro da Ásia Oriental.Nas décadas de 20 e 30 do século XX, Xangai passou a ser citada na imprensa como a Paris do Oriente, ou a Nova Iorque do Ocidente reflectindo o seu estatuto ímpar numa China dividida pelos “senhores da guerra”.É dessa época que data a construção dos grandes e emblemáticos edifícios do “Bund”, como o “Shangai Club”, o “Asia Building” e o “Hong Kong & Shangai Bank”. A cidade criava assim uma nova e distinta silhueta reflectindo riqueza e poder que a distinguia também de qualquer outra incluindo as colónias portuárias como Cantão ou Amoy.Mas para além do comércio e do investimento legítimo, Xangai transformou-se também nessa época num centro nacional e internacional de tráfico de ópio, os casinos surgiram e multiplicaram-se, a par da prostituição, tudo isso controlado pelas “tríades” fazendo com que a corrupção reinasse impune. As tríades tinham como principal líder Huang Jinrong, que era simultaneamente chefe do corpo de detectives da
58Missionários para o Século XXI 59 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes“concessão francesa”, o que por si só define bem a conjuntura prevalecente.Para complicar ainda mais a situação o Partido Comunista (fundado em 1921 precisamente em Xangai) inicia desde essa data uma campanha de agitação permanente.A turbulência laboral que atingia particularmente os estivadores acabaria por levar o Partido Nacionalista a aliar-se ao “Bando Verde” principal seita da cidade desencadeando uma luta feroz entre os operários de ambos os lados. Esta guerra termina com a eliminação de centenas de militantes comunistas e a erradicação do partido, deixando o campo livre às tríades que passam a dominar os sindicatos e também a bolsa.Esta situação altera-se em certa medida depois da chamada batalha de Xangai travada em 1937 que leva à ocupação da cidade pelos japoneses. Os combates deixam porém intactas as concessões internacionais que se tornam num enclave de prosperidade, mas também de decadência no meio de uma mar de miséria e medo.
60Missionários para o Século XXI 61 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesEssa situação atrai um inusitado afluxo de refugiados que chega às 400.000 mil pessoas que buscam a protecção internacional em apenas 4 anos. Este afluxo contribui como seria de esperar para o agudizar de tensões levando a uma vaga de assassinatos de funcionários chineses que trabalhavam para as autoridades japonesas. Esta campanha alarga-se depois tomando como alvos os comerciantes que faziam negócios com as forças nipónicas. O rumo que as coisas tomaram acabou naturalmente com a ocupação do “International Settlemente” pelas forças nipónicas.É pois esta cidade ocupada pelas forças do “Império do Sol nascente” com milhares de refugiados das mais diversas proveniências e com todos os estratos sociais em processo de rápida degradação que César Brianza encontra e a que terá de se adaptar.Diga-se em abono da verdade que apesar de tudo a Igreja Católica ainda não é nesta altura alvo prioritário de nenhuma das forças em confronto no terreno. Isso só viria a acontecer mais de uma década depois.Naquele período, entre os Salesianos em geral e César Brianza em particular, reinava até uma certa sensação de segurança. Esse sentimento advinha de dois factos. Primeiro porque Mussolini no poder, em Itália, desde 1922, tinha posto ponto quase final a um diferendo entre a Igreja e o Estado que vinha desde os tempos da unificação do país, quando o Papa se considerou prisioneiro no Vaticano do poder laico. A questão arrastou-se sem acordo até à assinatura da “Concordata” (11 de Fevereiro de 1929), altura em que Mussolini reconhece o Vaticano como estado soberano, para além de aceitar a intervenção da Igreja em diversos domínios nomeadamente no da educação (7).
62Missionários para o Século XXI 63 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesA “Concordata” permitiu também que o Estado italiano apoiasse a igreja missionária não só em Itália, nomeadamente subsidiando os seminários, mas também no exterior, particularmente na China, onde as autoridades italianas garantiam protecção aos seus sacerdotes nomeadamente aos Salesianos independentemente da nacionalidade.A acrescentar a isto há a destacar o facto de Mussolini ser aliado do regime imperial de Tóquio, pelo que César Brianza se não contava com qualquer apoio explícito japonês pelo menos sabia que as autoridades de Tóquio não se manifestariam directamente hostis contra si próprio ou contra os seus irmãos das ordens religiosas activas em Xangai. Aliás os japoneses manteriam na generalidade uma atitude de respeito para com a Igreja ainda que alguns incidentes como o que envolveu o internamento do bispo Canazei, em Shiuchow (vicariato da província de Guangdong) que foi mantido incomunicável na torre da igreja anexa ao seminário menor tivessem constituído mais a excepção do que a regra.Apesar de todo o ambiente de guerra que se vivia, César Brianza conseguiria concluir o seu curso de teologia sem demasiados sobressaltos, mas não só. Paralelamente conseguiu manter a aprendizagem de piano que tinha encetado em Hong Kong anos antes com Elísio Gualdi.Em Xangai encontraria outro professor com semelhante estatura musical Tratava-se do célebre maestro e pianista russo Vladimir Nicolas Kostevich.Os seus anos finais de estudo estiveram longe de corresponder ao que seriam as rotinas de qualquer seminarista numa situação normal. Xangai estava muito longe de viver uma situação normal.Os guetos e campos de concentração, entre os quais avultavam o que mantinha detidos cerca de 23 mil refugiados judeus e o “centro de reunião de civis” (Civil Assembly Center) com mais de seis mil europeus enclausuravam em condições de difícil sobrevivência a parte da comunidade expatriada que não tinha conse-guido fugir de Xangai, e que anteriormente mantinha nos mais diversos sectores, comerciais, industriais, artísticos e culturais, a vida frenética da cidade e que agora apenas existia nos limites da sobrevivência.Nas ruas, antes repletas de tráfego, salientavam-se agora mais do que ninguém as patrulhas e as sentinelas japonesas. Contra estas moviam-se nas sombras os grupos da resistência comunistas e as tríades nacionalistas levando a cabo campanha sistemáticas de assassinatos.Nesse quadro, os cruzamentos de ruas e avenidas eriçavam-se de barricadas de arame farpado, enquanto as guaritas das sentinelas eram reforçadas com chapas de aço. A cada assassinato
64Missionários para o Século XXI 65 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesos japoneses respondiam mandando evacuar bairros inteiros a meio da noite, expondo os moradores à humilhação de passarem horas ao relento apenas de roupa interior.Essas rusgas de grandes dimensões que levavam ao encerramento de quarteirões inteiros acabavam por não resultar em nada, já que os atiradores furtivos facilmente escapavam misturados com a população, pelos dédalos de becos e vielas que se escondiam à sombra das traseiras dos grandes edifícios do centro da cidade (8). Foi nestas ruas que César Brianza se moveu no seu quotidiano de estudante durante sete longos e trágicos anos, tropeçando a cada passo com cadáveres abandonados nas ruas, ou interpelado pelas patrulhas japonesas. Concluída a graduação em Teologia, César Brianza é ordenado padre no dia 29 de Janeiro de 1944.Esse acto solene que deveria ser festivo também esteve longe de o ser. A sua ordenação ficaria indelevelmente marcada pelo início dos raides aéreos americanos contra Xangai.Os japoneses da ofensiva passavam à defensi-va e estavam a ser acossados do lado do mar pelos bombardeiros dos porta-aviões da esquadra america-na do Pacífico e por terra pelas tropas nacionalistas do generalíssimo Chiang Kai Chek.César Br ianza exultou naturalmente com a l ibertação e mais ainda com o regresso da administração de Xangai a mãos chinesas.As potências vencedoras tinham de facto posto termo à administração internacional da cidade e fim ao colonialismo partilhado que ali vigorava desde a sua fundação em 1842.
66Missionários para o Século XXI 67 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesA nova s i tuação atenuava igualmente as patentes desigualdades sociais e políticas e as injustiças que geravam. O novo ambiente parecia propício a um recomeço mais são e também a restaurar a paz entre a juventude de que César Brianza se encarregava agora como professor no seminário menor de Xangai.No entanto nada disso se viria a verificar. Ainda que os Salesianos passassem a poder actuar mais livremente, recuperando as escolas comerciais e industriais e os orfanatos que tinham a cargo, a administração nacionalista que sucedeu à ocupação nipónica rapidamente perdeu a confiança dos munícipes e da Igreja Católica.No decurso da reocupação de Xangai pelo Kwomintang a desordem e a corrupção caracterizavam a administração pública. Oficiais das mais diversas procedências e escalões, e até comerciantes e criminosos de delito comum apoiados por nacionais das antigas potências colonizadoras prosseguiam as mais díspares agendas que desafiavam toda e qualquer racionalidade.A situação agravou-se de tal modo que foi o próprio presidente do parlamento nacional T. V. Soong que teve de assumir a administração do município. Porém a sua intervenção não chegou para reparar os danos causados ao prestígio do governo nacionalista do Kuomintang factor que contribuiu também para a fácil tomada do poder político na cidade mais tarde pelos comunistas (9).Apesar de tudo César Brianza e os Salesianos mantinham-se cheios de fé no futuro de Xangai e de esperança quanto à expansão da sua obra não só na imensa metrópole, mas em toda a vizinha região Norte que Xangai influenciava. Todavia a realidade estava longe de indiciar qualquer futuro para os salesianos.De facto para a maior parte da população os missionários eram vistos na generalidade como aliados do partido nacionalista o que era aproveitado pelos comités de agitação e propaganda comunistas para denunciar a Igreja Católica como um dos braços do imperialismo ocidental e cúmplices dos desmandos e corrupção que afectavam o país. Por outro lado ainda que os padres pouco ou nada tivessem a ver com a situação catastrófica que se vivia na China e a sua acção filantrópica fosse reconhecida mesmo pelos não católicos e até por comunistas que os salesianos tinham auxiliado em diversas circunstâncias, certo é que a presença da Igreja católica não era vista como humanitária ou exclusivamente espiritual mas sim como uma questão política.O futuro da Igreja encaminhava-se para um desfecho dramático à medida que os grupos guerri-
68Missionários para o Século XXI 69 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedeslheiros de Mao Tsé Tung por todo o país se iam inte-grando num exército regular e disciplinado e iniciavam uma movimentação das suas bases tradicionais de apoio nos campos com o objectivo de cercar as cidades que começavam a cair uma a uma.Xangai a quarta maior cidade do Mundo rende-se aos comunistas no dia 1 de Maio de 1949. A partir desta data sela-se também o destino de César Brianza. O sonho chinês da sua infância terminava para todos os efeitos naquele dia. A sua Ordem chamava-o a servir em Hong Kong e Macau.O ainda recém-ordenado padre sai da China num momento em que a ordem de expulsão dos missioná-rios da China ainda não tinha sido dada. Pouco tempo depois o Partido Comunista decretaria a erradicação das missões estrangeiras de todo o país. Muitos recusam-se a acatar a ordem e permaneceram firmes nos seus postos mas apenas para se verem presos, encarcerados, submetidos a julgamentos sumários por tribunais populares, fuzilados, ou condenados a longas penas de prisão.Entre muitos, contam-se os jesuítas Angélico Guerra e Luiz Ruiz Suarez, este que seria mais tarde o fundador da Cáritas de Macau. Ambos foram presos e removidos à força das suas missões, tendo o padre Guerra estado mesmo perante um pelotão de fuzilamento. Salvou-o o próprio comandante comunista que suspendeu a execução ao reconhecer nele o missionário que nos tempos mais acesos da guerra civil, o tinha escondido bem como aos seus camaradas guerrilheiros que o acompanhavam na igreja da missão quando eram perseguidos pelas tropas de Chiang Kai Shek livrando-se assim de uma morte certa.
70Missionários para o Século XXI 71 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesQuanto a César Brianza a sua retirada do país esteve longe da violência que outros conheceram. O único traumatismo que sofreu foi o ter visto o seu sonho da China desvanecer-se em brumas nas paisagens que desfilavam do outro lado da janela da carruagem de terceira classe do comboio que o trouxe de Xangai até à estação terminal de Kowloon na colónia britânica de Hong Kong.César Brianza chega a Macau num momento de crise da cultura. Os anos da Guerra (1939-45) tinham transfigurado Macau. Tendo-se então transformado num centro de refugiados de toda a China, a colónia portuguesa acolheu durante esse período artistas das mais diversas áreas.No âmbito da música as grandes orquestras que animavam a vida cultural de Xangai e de outras grandes cidades da China mudaram-se com armas e bagagens para a colónia portuguesa. Este movimento seria reforçado a partir do Natal de 1941, data da ocupação de Hong Kong pelos japoneses, o que fez com que se registasse um êxodo semelhante dos elementos mais destacados do panorama da música erudita e ligeira, do teatro e do espectáculo em geral da vizinha colónia britânica.Com a reposição da normalidade que começou a ter lugar a partir de 1946, outro êxodo se viria a registar, mas este em sentido contrário, ou seja os grandes intérpretes culturais que tinham animado as “matinés” e “soirées” dos tempos da guerra deixavam inexoravelmente Macau. Uns regressavam aos seus pontos de origem, nomeadamente a Hong Kong que rapidamente se recompunha da tragédia da ocupação nipónica. Alguns, voltavam a Xangai confiados que a grande metrópole de outrora voltaria a alcandorar-se ao brilho de antes da guerra. No entanto a maioria desiludia-se das promessas asiáticas e rumava à Europa, aos Estados Unidos da América, ou à Austrália. Todos tinham, um destino, mas ninguém ganhara raízes suficientemente sólidas para permanecer. De facto, Macau era um território demasiado pequeno para poder manter uma classe
72Missionários para o Século XXI 73 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesartística profissional fosse em que domínio fosse. Finda a guerra a música e o teatro passavam de novo a depender inteiramente de mecenas de ocasião e do empenho de amadores mais ou menos dotados.Depois disso tudo foi definhando o que levava mesmo o escritor Henrique de Senna Fernandes a afirmar que a vida cultural macaense morreu nos anos 50. O panorama não seria tão drástico como o escritor afirmava, mas não se encontrava muito longe disso.Salvava a situação Pedro José Lobo, com o seu “Círculo Cultural de Macau” que promovia iniciativas em várias áreas. Assim surgem os debates palestras e conferências em torno dos grandes temas que animavam a vida cultural europeia e americana. “Pedro Lobo financiava também a edição de livros e era já conhecido na cidade como o mecenas. Sob a sua protecção (...) nasce pouco depois a delegação em Macau do “Círculo de Cultura Musical de Portugal” que trouxe até cá grandes artistas nacionais e estrangeiros. Sequeira Costa, Silva Pereira, Varella Cid, Hellen Traubel, Catarina Heinz e António David foram apenas alguns dos que aqui actuaram.Seja como for, porém, as iniciativas promovidas por Pedro Lobo e o seu “Círculo Cultural” não passam de eventos esporádicos ainda que meritórios que não chegavam para levar verdadeiramente a arte à população em geral de um modo contínuo e abrangente.No âmbito da educação musical, esteio e pólo de atracção de músicos, o ambiente era desolador. Nesse âmbito a educação com algum grau de estruturação limitava-se quase estritamente ao Seminário de S. José, já que o ensino oficial se circunscrevia às aulas rudimentares de solfejo do Liceu.É nesta conjuntura de quase desmoralização que surge a ideia do professor Ivo Cruz de criar delegações do Conservatório Nacional de Música nas colónias portuguesas. A ideia de Ivo Cruz que nasceu logo no início dos anos 50 do século XX confrontava--se porém com dois obstáculos de monta. Por um lado o regime não demonstrava qualquer interesse em estabelecer instituições de ensino superior nas colónias, mesmo que de matéria tão politicamente neutra como era a música.Por outro lado os professores habilitados para o efeito estavam longe de se sentir atraídos pelos magros salários que se praticavam no ultramar português que não compensavam os incómodos de longas viagens e reinstalação em locais de que pouco se sabia para além dos mais diversos tipos de inconvenientes.
74Missionários para o Século XXI 75 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesO Pe. Brianza e a restauração da música sacraApesar de tudo a ideia germinou, pelo menos em Macau, onde o Bispo D. João Ramalho a acolheu de braços abertos. É que a Igreja macaense estava determinada a fazer elevar o nível do ensino e da cultura musical sacra aos altos índices que tinha conhecido no Seminário de S. José sob a direcção de notáveis maestros, principalmente italianos, que tinham formado bandas e orquestras cuja fama perdurou na memória por muitas décadas.O forte empenhamento, que pode dizer--se político, da Igreja de Macau na aplicação dos conceitos da encíclica “Motu Próprio” do Papa Pio X, que envolveria o Pe César Brianza mas não só inseria--se num movimento restaurador que vinha detrás.Esse movimento restaurador caracterizou-se por um vínculo particularmente estreito com Roma, representando sob determinados aspectos o culminar de desenvolvimentos de séculos que marcaram para a igreja católica essa zona do globo, nomeadamente
76Missionários para o Século XXI 77 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesaquela que levou à gradual predomínância da ação missionária ao serviço da Propaganda Fide em esfera do Padroado Português do Oriente. D. Domingos Lam Ka-Tseung, antigo bispo de Macau e ele próprio um compositor de mérito de música sacra considera que “antes da Reforma, a prática musical no Seminário e nas igrejas da Diocese tinham sido marcadas pela tradição portuguesa com acompanhamento instrumental, comuns a outras regiões do Padroado, como por exemplo em Goa”.Para o prelado, essa tradição era portuguesa, ou seja, tinha conotações nacionais, não considerando, nessa sua opinião, que a “corrente restaurativa que a ela se seguiu era ainda em muito maior escala orientada segundo modelos europeus”.Pela passagem do século XIX, o desenvolvimento musical iniciado em Hong Kong passou a ser liderado pelo Seminário Diocesano de Macau. O grande vulto dessa fase da história do Extremo Oriente foi D. João Paulino de Azevedo e Castro (1852-1918), bispo de Macau de 1902 a 1918.Ainda que empenhando-se de forma especial pelo património representado pelos bens do Padroado Português do Extremo Oriente, foi, do ponto de vista músico-cultural, um dos principais promotores da reforma sacro-musical através da formação de uma geração de sacerdotes imbuídos do espírito da restauração litúrgica. Esses sacerdotes deveriam vir a ser multiplicadores dos ideais restauradores, dos quais a música sacra era parte integrante e fundamental.Após um per íodo de f loresc imento e de interrupção da vida do Seminário, teve início uma nova época com a instituição da formação local de religiosos para a missão na China.O ensino dos seminaristas foi marcado por uma especial atenção dada à música, orientados por professores de alta competência vindos da Europa, estabelecendo-se sob o ponto de vista musical, elos com instituições de renome, entre eles com a Academia de Santa Cecilia de Roma. Os próprios agentes da missão externa, de Macau para a China, passaram a ser formados segundo os ideais da restauração litúrgico-musical.D. Domingos Lam salientou o significado do desenvolvimento da instituição após a Primeira Guerra, em particular na década de 20, quando, sob o reitorado do Pe. Francisco Bonito Bragança (1924-1929) se deu acentuada atenção à formação musical de seminaristas. Assim, se houve pela passagem do século uma reconsciencialização do património histórico e material representado pelos bens do Padroado, não houve reconhecimento do património imaterial representado pela cultura de séculos desenvolvida sob a sua égide,
78Missionários para o Século XXI 79 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedescom características próprias, e que agora passava a ser reformada segundo concepções e tendências desenvolvidas nos centros do pensamento restaurador da Europa, em particular da França, da Alemanha e da Itália. Macau transformou-se, assim - também de forma paradoxal - em centro de difusão do Restauracionismo cató l ico no Ext remo Or iente , dete rminando desenvolvimentos em várias outras regiões.Uma nova e importante fase foi inaugurada com a vinda do Salesiano austríaco Wilhelm Schmid SDB (Sima), destacado músico e professor de música de Macau, que até 1966 actuou como regente coral e professor do Seminário de São José e do Colégio Salesiano, assim como mestre da Banda do Corpo de Policia e da Banda Salesiana (10). Com os seus estudantes e com o apoio de músicos das diversas instituições com as quais mantinha contatos criou pressupostos para a realização de obras de maior envergadura em apresenções teatrais e concertos. Como professor, deu atenção especial a uma sólida formação teórica em harmonia, contraponto e fuga; como compositor, criou cantos marianos e eucarísticos em latim, portugues e chinês. Entre os seus alunos, além do próprio D. Domingos Lam, destacaram-se D. José Lai - que seria sucessor de D. Domingos Lam - e Domingos Lam Ngok-pui, assim como Mons. Antonio Lau, da Universidade Católica de Taiwan. Assim como a atuação de Wilhelm Schmid demonstra, Macau distinguiu-se por um singular relacionamento entre as redes da música sacra e da banda de música. Este foi o caso da banda chinesa da paróquia de São Lázaro, que tocava na tradicional Procissão dos Passos, um dos grandes acontecimentos religioso-culturais de Macau, e cujos instrumentos e materiais passaram posteriormente para a Banda Policial. W i lhe lm Schmid , t e r i a s ido aque le que possibilitou a criação de estreitos elos entre Macau e o mundo de língua alemã. De recordar que o movimento de reforma da música sacra tinha sido promovido privilegiadamente por centros sacro-musicais da Alemanha, em particular de Regensburg, sendo a partir desses fundamentos que deviam ser considerados os elos do movimento de reforma litúrgico-musical de cunho restauracionista do Extremo Oriente com o mundo de língua alemã. Nessa conjuntura e relativamente aos elos com Portugal, D. Domingos Lam salientou a personalidade e a obra do Pe. Áureo da Costa Nunes e Castro. Nascido nos Açores, na ilha do Pico, desde 1931 em Macau, onde estudou no Seminário de São José e foi ordenado sacerdote em 1943, tornou-
80Missionários para o Século XXI 81 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesse ali professor e capelão da Sé, além de pároco da Paróquia de São Lourenço e professor de canto coral do Liceu de Macau. Enviado a Lisboa, estudou Composição no Conservatório Nacional, de 1951 a 1958, tendo como professores, entre outros, Croner de Vasconcelos (1910-1974); chegou a ser assistente de Mário Sampayo Ribeiro (1898-1966), um dos principais nomes da erudição musical portuguesa. Como compositor, o Pe. Áureo da Costa Nunes e Castro escreveu, ainda em Portugal, sonatas e sonatinas, Três Corais sobre Melodias Gregorianas e um Te Deum, o que indica a sua orientação estética presa à tradição e à orientação teológico--musical fundamentada no Motu Proprio e no culto ao Gregoriano e à Polifonia Vocal. Significativamente, fundou, ao retornar, o Grupo Coral Polifónico e, em 1962, a Academia de Música de S. Pio X. Exerceu, assim, importante papel na formação de grande número de músicos e no alcance do alto nível musical que caracterizou o clero de Macau. Neste contexto, o antigo Prelado lembrou igualmente e com o mesmo destaque o nome do Pe. César Brianza, que, juntamente com Pe. Áureo da Costa Nunes e Castro, actuou na Academia de Música S. Pio X.O seu trabalho teve repercussões entre outras regiões do Extremo Oriente e do Sudeste da Ásia.Os elos culturais com os Açores representados pelo Pe. Áureo da Costa Nunes e Castro tiveram a sua expressão também na acção de D. Paulo José Tavares, que, após ter actuado na Secretaria de Estado do Vaticano (1947-1961), foi Bispo de Macau (1961-1973), tendo tomado parte no Concílio Vaticano II. Ainda que o Seminário São José tenha deixado de funcionar no período pós-conciliar, sendo os seminaristas enviados para Portugal e Hong Kong, esse bispo promoveu o estudo de sacerdotes em Manila e em Roma. Sob D. Paulo José Tavares acentuou-se o antigo anelo da formação de clero local, levando-o a apoiar a formação de sacerdotes chineses com o sentido de equipará-los aos europeus filiados no Padroado Português. Assim, em 1966, nomeou o Pe. António André Ngan, vigário-geral (1966-1974), o primeiro chinês que ocupou um cargo de governo do bispado. Como D. Domingos Lam salientava, “ainda que chinês, A. A. Ngan compunha na tradição teórico-musical ocidental, escrevendo motetos com texto latino”. Com o encerramento das act iv idades do seminário, em 1976/77, o ensino musical em Macau passou a ser mantido pela Academia de Música, apoiada por alguns sacerdotes e seminaristas, entre eles Marcos Lau na área das matérias teóricas.
82Missionários para o Século XXI 83 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesA prática sacro-musical nas igrejas, segundo D. Domingos Lam, passou por um substancial retrocesso nas décadas posteriores ao Concílio Vaticano II, podendo-se constatar apenas mais raramente a execução de uma ou outra obra polifónica. Os padres chineses da nova geração tiveram sobretudo a preocupação de traduzir textos do latim e do português para o chinês. As missas mais recentes, em chinês, com cantos de diferentes autores, foram antes colectâneas de melodias simples de cunho popular. Muito raramente se passou a ouvir uma obra a várias vozes em latim do reportório mais antigo, e, neste caso, tratava-se da Missa Tertia de Lorenzo Perosi (1878-1903). Segundo D. Domingos, houve uma certa preocupação pelo desenvolvimento de uma música com características locais após a Segunda Guerra Mundial, sobretudo nos anos 50; teria sido um fenómeno paralelo o movimento de formação de uma hierarquia chinesa e teria levado à criação de algumas obras significativas. Entretanto, não teriam sido feitos esforços para a utilização de instrumentos chineses na música sacra, com excepção de algumas tentativas mais recentes encetadas por ele próprio, com as quais alguns não concordavam. Essa singularidade poderia ser explicado pelo facto dos euro-asiáticos não apreciarem música chinesa; “isso mudava-se apenas gradualmente com uma nova geração de sacerdotes chineses“.Tendo em conta a dificuldade de atrair docentes para iniciar a obra projectada haveria que enviar músicos de Macau a Lisboa a fim de adquirirem as necessárias habilitações para puderem avançar com a tão almejada instituição de um Conservatório de Música em Macau.O campo de recrutamento nesta área não se mostrava fértil, mas também não exactamente um deserto. Alguns jovens padres da diocese demonstravam então qualidades na área musical. Entre os que falamos anteriormente destacavam-se também vários outros compositores e executantes que se perderiam no anonimato da história no que à música diz respeito com destaque para D. Arquimínio da Costa, que viria a ser o antecessor de D. Domingos Lam à frente da Diocese de Macau.A escolha recairia sobre Áureo de Castro, que se submete a exames para o Conservatório de Lisboa sendo admitido com altas notas. Áureo de Castro seria a figura destinada pelo bispo D. João Ramalho a abrir e dirigir no ensino superior de música o que viria a acontecer ainda que não da forma que o prelado de Macau e o reitor do Conservatório Nacional Ivo Cruz tinham inicialmente idealizado.
84Missionários para o Século XXI 85 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesEnquanto Áureo e Castro frequentava o curso na Metrópole porém os problemas relativos à fundação de uma escola superior de música multiplicavam--se nomeadamente pela falta de interesse político e também pela ausência de incentivos materiais à docência na futura instituição.Tal situação acabaria por inviabilizar na sua quase totalidade o projecto, mas a diocese de Macau, apercebendo-se que a ideia de Ivo Cruz não se realizaria, decidiu assumir o processo criando uma instituição que, ainda que não oficial, permitiria preparar os alunos interessados em fazer carreira na área da música para admissão nas grandes escolas internacionais do género.Nasceria assim, mais tarde, a “Academia de Música S. Pio X”, uma instituição pertencente à Igreja Católica, ainda que em grande parte subsidiada pelo governo de Macau e por algumas personalidades nomeadamente o magnata Stanley Ho.É com este objectivo, e tendo em conta também que apenas um padre era insuficiente para levar a cabo a tarefa face à esperada ausência de candidatos a professores em Macau, que o bispo escolhe em 1954 César Brianza para seguir Áureo de Castro e obter também uma licenciatura no Conservatório Nacional de Lisboa mas desta vez em piano. Assim, seriam dois a deter as habilitações necessárias não só para fundar a escola, mas também a poderem exercer a docência musical nos estabelecimentos de ensino oficial do Território, ou integrarem e dirigirem coros ou orquestras do estado que eventualmente se formassem.
86Missionários para o Século XXI 87 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesMaestro e educadorCésar Brianza assumiu a sua tarefa de uma forma determinada e em três anos obteve a licenciatura em piano na capital portuguesa regressando a Macau em 1957.Mal terminado o conservatório e antes de voltar à colónia portuguesa da China, rumou à Áustria para um estágio de três meses no “Augarten Palais” residência do Coro dos Pequenos Cantores de Viena, onde acompanhou as rotinas deste já então mundialmente famoso agrupamento infantil de música sacra, especializando-se assim, na direcção e condução deste tipo de coros.Inserido numa Ordem missionária que faz apostolado através do trabalho, cada salesiano é um operário que se especializa na área que mais sente como vocação da sua própria vocação e César Brianza depois de alguns anos como perfeito, primeiro, e mais tarde como professor de Religião e Moral” encontra na música a inspiração divina que o levou a tornar-se missionário.
88Missionários para o Século XXI 89 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesConvencido de que tinha encontrado o caminho, o passo seguinte foi o de convencer os seus superiores a darem-lhe carta-branca para a reorganização do canto coral no Colégio D. Bosco, elevando esta disciplina a um nível de grande perfeição, tendo como modelo os pequenos cantores de Viena, onde tinha estagiado e de que sempre falava a propósito disto ou daquilo, tanto nas aulas como nas conversas com os seus colegas, ou nos encontros habituais com a comunidade laica de Macau.César Brianza que sempre se tinha destacado pela sua tenacidade na prossecução de objectivos não tardou a obter a concordância do director do Colégio, bem como o apoio do corpo docente da instituição na elevação do canto coral a um estatuto de especialidade no seio das disciplinas técnicas e curriculares em vigor.Seria assim decorrente do salutar espírito determinado de César Brianza e da confiança que os seus irmãos salesianos nele depositavam que nasceria, em 1957, um dos projectos de maior alcance da história da música de Macau. Um projecto que transformaria um conjunto de crianças naturalmente irrequietas e em idades caracterizadas pela aversão à disciplina e na irrequietude num grupo homogéneo de vozes cristalinas que levaria o nome de Macau às mais distantes paragens e ao qual o próprio Papa, apesar de toda a sua agenda preenchida, encontrou tempo para dele tomar conhecimento e abençoar.Os “Pequenos Cantores da Cruz de Madeira do Colégio D. Bosco” um projecto tão extraordinário quanto efémero já que nascido com o mestre não sobreviveria ao seu desaparecimento, apesar de decorrer da política firme da Igreja que anteriormente
90Missionários para o Século XXI 91 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesabordamos de restauração e engrandecimento da música Sacra no âmbito da “Encíclica Motu Próprio” de Pio X.A importância dos pequenos cantores do Colégio D. Bosco e a estatura artística e profissional do Pe. César Brianza ficaram para a história desta área da música sacra. Isso mesmo seria relevado no 40º Congresso Internacional dos “Pueri Cantores” realizado em Roma (2015-16) por Aurélio Porfiri, doutorado em história da música com uma tese sobre Macau. Aurélio Porfiri lembrou num artigo publicado no jornal católico de Hong Kong “Sunday Examiner” que César Brianza retirava a maior satisfação dos muitos concertos e “performances” em igrejas levados a cabo pelos seus “Pequenos Cantores da Cruz de Madeira”, ao longo de mais de 30 anos em Macau, Hong Kong, Japão, Filipinas, Malásia, Itália e Portugal.“Fundou esse bem conhecido coro em 1959 e elevou-o a um assinalável nível de excelência artística através de trabalho árduo, paciência e entusiasmo que ele conseguia estabelecer com esses meninos. Era exigente mas os rapazes gostavam dele porque sabiam que o seu grande coração estava aberto para eles”.Ainda hoje o trabalho do Pe. Brianza e de outros como ele são lembrados não só pela maravilhosa música que ensinou aos coristas, mas também pelos profundos valores e emoções que os cantores transportaram ao longo das suas vidas. Quão importante é isso especialmente em lugares como Macau onde a maioria da população não é cristã. Estes jovens associam-se a Jesus, à liturgia, com o sagrado de uma música reverente, celestial e não contaminada pelas paixões (11). Como assinala Aurélio Porfiri a paciência, trabalho árduo e perseverança eram características intrínsecas deste homem que não só estabelecia laços especiais entre si e os pequenos coristas, mas igualmente com todos e cada um no Colégio. Tanto alunos como professores.
92Missionários para o Século XXI 93 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes
94Missionários para o Século XXI 95 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes
96Missionários para o Século XXI 97 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesO Pe Brianza tinha um jeito especial para cativar os jovens que ao longo dos anos iam engrossando o Grupo. Era exigente, mas compreensivo quanto baste. Foi com eles que percorreu cidade e países, com um reportório rico e variado, conseguindo assim derrubar fronteiras e unir povos, utilizando ritmos e línguas diferentes com especial destaque para a linga portuguesa.Como bom salesiano, o Pe. Brianza preocupava--se sempre com a formação e crescimento espiritual dos seus pupilos. Foi o que reconheceu o responsável internacional dos “Petits Chanteurs”, o Pe. Roucariol, aquando da Peregrinação Internacional dos Pequenos Cantores à Terra Santa, em Abril de 1973, na qual o Pe. Brianza representou o Grupo. O Pe Roucariol enviou uma mensagem aos pequenos cantores de Macau, sublinhando: “Espero meus rapazes que continueis a cantar bem, a rezar bem e a fazer rezar bem os outros, através do vosso canto e a distraí-los também com os vossos concertos”.Durante mais de década e meia, desde a sua fundação em 1959 até finais de 1973, os Pequenos Cantores de Macau deram centenas de concertos, dentro e fora de Macau, sem contar com as inúmeras participações nas festas do Colégio, tendo sido condecorados por diversas autoridades nacionais e estrangeiras.
98Missionários para o Século XXI 99 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes
100Missionários para o Século XXI 101 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesPara o seu colega Ramiro Galhspo que com ele conviveu desde que chegou a Macau em 1964 o retrato que dele conserva é o “da sua juventude, dinamismo, disponibilidade, o seu grande amor aos jovens, o seu saber e empenho no campo da música, tão bem expresso nos seus queridos pequenos cantores”.O Pe . Rami ro que , reconhecendo- lhe a personalidade multifacetada que o cativou desde o princípio, sublinha não ser fácil falar dele. Recorda “os Pequenos Cantores do Colégio Dom Bosco” que levaram o nome de Macau pelo mundo fora, sempre com brilhantes actuações, muitas vezes aplaudidas de pé entusiasticamente.O Pe Brianza morreu jovem, tinha ainda muito para dar e ensinar, mas deixou-nos uma herança e um desafio , “a vida só tem sentido quando a gastamos ao serviço dos outros”. A sua vida e a sua obra não terminaram com o seu último suspiro: a semente por ele lançada no coração dos seus pupilos, passados tantos anos , continua a dar bons frutos na vida de muitos deles recorda o Pe. Ramiro. Essa memória é partilhada por outro salesiano o Pe. Jorge Falcão que dirigiu mais tarde o Colégio D. Bosco, no seu elogio fúnebre: “A música, mais do que um peso, foi desde sempre a grande “paixão” que ele sentia fortemente como missão educativa. Além das tarefas que desempenhava regularmente no Colégio,
102Missionários para o Século XXI 103 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesdistinguiu-se como Mestre da Banda da Polícia durante vários anos, e como professor de piano muito conceituado na Academia Musical S. Pio X, até ao último dia da sua vida”.A severidade e a presença física, austera de barba negra intimidavam. Arnaldo Teixeira lembra--se bem de que a primeira pessoa que encontrou no seu primeiro dia no Colégio D. Bosco foi o Pe Brianza, um decano com olhar ameaçador. O seu aspecto era quase feroz, mas foi a barba que o assustou mais. Lembra-se dessa barba e de ter sido sem mais nem menos literalmente arrastado para uma sala, onde sua mãe assinou uns papéis. Que papéis seriam? Perguntava-se a criança timorata. Um mês depois o Pe. Brianza levou-o a uma audição e ingressou no coro infantil. Desde aí o susto da primeira hora transformou-se num sentimento de respeito e as ameaçadoras barbas negras do padre apenas na moldura de um sorriso alegre que a todos contagiava.Mas esse sorriso perdia-se sempre que as coisas não corriam bem e as coisas não correram bem, por exemplo, durante a grande digressão ao Japão de Abril de 1974. Isto apesar do périplo dos pequenos cantores ter sido acompanhado pela imprensa de Macau, que exprimiu opinião contrária salientando a forma entusiástica como o coro foi recebido nesse país. Mas o maestro não tinha gostado e pronto. O Pe. Brianza acusou os pequenos de apenas gostarem de viajar e de não ligarem quando deviam ao coro pois não se esforçavam por melhorar. Essa reprimenda ainda hoje é lembrada por muitos dos coristas. Felisberto Rosário ainda recorda com mágoa tanto mais que integrava o coro pelo puro prazer de cantar. Assim se exceptuava. Não se julgava como os outros.Felisberto Rosário dizia tal porque o Maestro, a fim de manter o interesse das crianças no coro, tinha engendrado um “sofisticado” sistema de incentivos monetários para o efeito. Aliás era conhecido pelo seu pragmatismo relativamente ao dinheiro, ainda que também para ele o dinheiro só tinha valor enquanto instrumento de sustentação do seu coro.
104Missionários para o Século XXI 105 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesO colégio realizava normalmente concertos durante as férias grandes de Verão, ou nas férias de período, pelos quais os pequenos cantores recebiam uma pequena quantia por cada ensaio, chamada taxa de presença. Ainda hoje os coristas recordam com admiração a hábil maneira que o padre utilizava para os motivar com aqueles bónus. Nenhum se lembra ao certo nem do número de ensaios nem do montante do bónus, mas andaria em torno dos 10 avos. O Pe. Brianza nunca pagava aos rapazes os vinte e tal a 40 de uma só vez. Em vez disso pagava primeiro metade do montante semanal . No mês seguinte com base no número total de presenças, fazia pagamentos parcelares. Por exemplo se um cantor aparecesse 14 vezes, só recebia 35 avos. Os remanescentes 35 só lhe seriam pagos depois do concerto. Era essa a técnica do Pe. Brianza para incentivar os rapazes e os tornar mais participativos. De resto ele “conseguia
106Missionários para o Século XXI 107 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesaté pôr a cantar os que não tinham nascido para isso”, lembra Diamantino Santos, que foi contralto nos pequenos cantores entre os 8 e os 10 anos de idade. Segundo se recorda, quando ensaiavam novos temas, primeiro tinham de ouvir a música e só depois recebiam a partitura com as letras em português. O tema era rapidamente afinado em dois ou três ensaios, durante os quais as imperfeições eram corrigidas uma a uma. A técnica era combinar o ensino com o canto. E todos anos o Pe. Brianza que já andaria na altura pelos cinquenta e tal ou quase 60 anos tinha de recrutar uma nova fornada de pequenos cantores. Por isso admiravam-no pela sua energia aparentemente inesgotável.Apesar de tudo e da admiração pelo professor e maestro, os antigos pequenos cantores reconhecem hoje que um razoável número de estudantes não se deixava fascinar pelo canto coral tão encorajado na escola, mas todos acabavam por desenvolver um espírito de grupo que perdura. Se um cantor cometesse um erro, todo o coro teria de repetir o tema e, sobretudo antes das refeições, ninguém se queria enganar. Bem ciente destes pequenos pormenores o Pe. Brianza era capaz de ler a mente de todos eles. Por isso a primeira metade dos ensaios consistia apenas num aquecimento e eram os dez ou 20 minutos finais que realmente contavam. Se a meio
108Missionários para o Século XXI 109 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesda sessão, num ensaio com 20 temas, os pequenos cantores ainda não tivessem ensaiado pelo menos 10, isso significava que o ensaio seria prolongado com os custos inerentes para os pequenos estômagos vazios.Mas o zelo do maestro pela perfeição não era menor do que o seu interesse pelo bem-estar dos seus alunos e por isso era vê-lo montar na sua “Vespa” e ir de porta em porta à casa de cada um para os acompanhar individualmente nos seus estudos e também nas suas horas de lazer.Era um bom conselheiro, uma pessoa incansável recorda José Tavares, lembrando porém com humor que “ na altura para muitos dos coristas ele não passava de um grande “chato”. Neste contexto de voluntariado e entrega à música e apesar dos “míni” incentivos financeiros aos pequenos coristas do seu maestro, que pouco pesavam no orçamento geral, o projecto a que tinha metido ombros custava caro. Uniformes, refeições, deslocações, principalmente as que implicavam viagens para outros países envolviam largas somas que nem o Pe. Brianza nem o Colégio D. Bosco tinham capacidade de dispor por si sós. Salvava a situação o seu famosos engenho financeiro.Grande parte do financiamento do coro provinha dos honorários das suas aulas de piano e do salário que recebia como professor na Academia de Música S. Pio X e também “dos seus negócios” como ele próprio dizia, mas não só.Para financiar as deslocações ao estrangeiro o processo “oficial”, como lembra António Pacheco, um dos dois coristas que com o Pe. Brianza se deslocaram à Terra Santa, em representação dos pequenos cantores, consistia em organizar concertos prévios e convidar patrocinadores e as escolas para comprarem bilhetes. Outra fonte de financiamento (“não oficial”) eram os “rendimentos do negócio”. O Pe. Brianza aludia ao “negócio”, mas nunca dizia do que se tratava deixando pairar o mistério. Um dos
110Missionários para o Século XXI 111 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes
112Missionários para o Século XXI 113 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedespoucos que sabiam do que se tratava era António Pacheco que esclarece o segredo. A fim de obter as verbas necessárias para o coro o Pe. Brianza utilizava as suas poupanças na compra de mobiliário de pau-rosa que enviava para Itália para ali ser revendido com apreciáveis margens de lucro por sua irmã Piera. António Pacheco ficou a saber disso por acaso durante a sua deslocação a Roma, quando na cave da casa da irmã do Pe. Brianza viu uma grande quantidade de mobiliário feito com aquela madeira preciosa. Quando perguntou a que se destinava o Padre respondeu: “É com o dinheiro da venda destas mobílias que pudemos deslocar-nos ao estrangeiro. É com o dinheiro destes móveis que os três estamos hoje em Roma!” Estava esclarecido o mistério e foi António Pacheco que o soube em primeira mão. “Ainda hoje poucos o sabem”, afirma com um sorriso cúmplice por ser o único a partilhar o “segredo” do Pe. Brianza.Ao longo de 16 anos o Pe. Brianza ensaiou 378 rapazes, conduzindo-os em 602 concertos. O primeiro realizou-se na capela do Colégio D. Bosco, a 7 de Dezembro de 1959.Apesar de os pequenos cantores constituírem o centro dos seus interesses e afectos, o Pe. Brianza não resumia à sua direcção a actividade que levava a cabo no mundo da música em Macau. Paralelamente integrava o quadro docente da “Academia de Música S. Pio X” que juntamente com o Pe. Áureo de Castro tinha ajudado a erguer nos anos idos de 1962. O ensino da música na Academia era de elevado nível e nela se formaram vários talentos. Muitos dos seus alunos prosseguiram estudos em conservatórios de nomeada nos Estados Unidos e na Europa obtendo licenciaturas com distinção. Para além de tudo isso tinha sobraçado em 1966 o cargo de regente e director da banda da Polícia
114Missionários para o Século XXI 115 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesde Segurança Pública. Nesta posição herdava a responsabilidade de continuar a longa e prestigiada tradição que Macau mantinha com as bandas de música. Além disso acrescia o facto da banda da PSP ter sido fundada em 1951 com músicos do seu próprio Colégio D. Bosco.O Pe. Brianza cumpriu com zelo e reconhecido mérito essa missão. Atesta-o entre outros, o facto de ter sido o director e maestro que mais tempo esteve à frente daquela instituição (1966-1980).Apesar da sua preenchida agenda profissional nunca deixou também de leccionar a cadeira de Religião e Moral no Colégio D. Bosco, bem como noutros estabelecimentos de ensino. Esta disciplina
116Missionários para o Século XXI 117 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedestinha sido a primeira de que se tinha incumbido como docente logo que foi ordenado padre no seminário em Xangai.O Pe. Brianza não era reconhecido apenas pelos que lhe eram próximos. De facto, a sua personalidade despertava simpatias gerais e só assim se compreende certa facilidade com que obtinha apoios para as suas múltiplas iniciativas. Neste âmbito o estado acabaria também por reconhecer a sua estatura humana e profissional concedendo-lhe em 1995 a medalha de Mérito Cultural.Extemporaneamente morreria de um ataque cardíaco às dez horas da noite de 18 de Janeiro de 1986, aos 67 anos de idade. As suas exéquias realizaram-se na Igreja de S. Lázaro com uma missa celebrada pelo bispo da Diocese D. Arquimínio da Costa coadjuvado por mais de 40 sacerdotes.Ao funeral compareceu uma multidão de amigos e admiradores para o último adeus.Adeus disseram também ao homem que os ensinou a cantar e a viver melhor os “Pequenos Cantores da Cruz de Madeira do Colégio D. Bosco” na sua última audição.João Guedes11 de Novembro de 2016
118Missionários para o Século XXI 119 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesNotas1) L’ Angelo Nº 1 Janeiro de 2005 Ano XV nuova serie.2) Pan American foi a companhia que estabeleceu a primeira ligação aérea entre Macau e o exterior. A “Pan Am” fazia a rota entre S. Francisco (EUA), Manila, Macau e vice-versa utilizando hidroaviões “Catalina”.3) Luís Versiglia seria canonizado a 1 de Outubro de 2000 pelo Papa João Paulo II.4) Luigi Versiglia, Callisto Caravario, Mártires Salesianos na China, Luís Cunha, Instituto Internacional de Macau, 2011.5) In Wikipedia.6) A Educação em Macau, Pe Manuel Teixeira. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura 1982.7) Em 756, Pepino, o Breve, rei dos francos, cedeu ao Papa um grande território no centro da penín-sula itálica. A existência destes Estados Pontifí-cios terminou quando, em 1870, as tropas do rei Vítor Manuel II entraram em Roma e incorporaram ao Reino de Itália esta parte do território. Embora tenha negado inicialmente a proposta do governo italiano, a Igreja aceitou estas condições em 11 de Fevereiro de 1929, por meio do Tratado de São João de Latrão ou simplesmente Tratado de Latrão,
120Missionários para o Século XXI 121 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedesassinado por Benito Mussolini então chefe do governo italiano e o cardeal Pietro Gasparri, secre-tário de Estado da Santa Sé. Este tratado forma-lizou a existência do Estado do Vaticano (cidade do Vaticano), Estado soberano, neutro e inviolável, sob a autoridade do papa, e os privilégios de extraterri-torialidade do palácio de Castelgandolfo e das três basílicas de São João de Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros. Por outro lado, a Santa Sé renunciou aos territórios que havia possuído desde o acordo. Também garantiu ao Vaticano o recebimento de uma indemnização financeira pelas perdas territoriais durante o movimento de unifi-cação da Itália. O documento estabeleceu normas para as relações entre a Santa Sé e o Reino da Itália, reconheceu o catolicismo como religião oficial desse país, instituiu o ensino confessional obrigatório nas escolas italianas, conferiu efeitos civis ao casamento religioso, aboliu o divórcio, proibiu a admissão em cargos públicos dos sacer-dotes que abandonassem a batina e concedeu numerosas vantagens ao clero. O tratado foi incorporado à constituição italiana em 1947, com a condição de que o Papa deveria jurar neutralidade eterna em termos políticos. O Papa poderia actuar como mediador em assuntos inter-nacionais, mas só quando fosse solicitado. (Nota extraída da Wikipedia)8) WW2 Peoples War BBC History Witnesses, Norman Douglas Shaw & Freddie May.9) The Nordic Institute of Asian Studies (NIAS) 100 DAYS IN 1945 THAT CHANGED ASIA AND THE WORLD por LY LIN (is Lecturer in the History of Education, East China Normal University).10) Wilhelm Schmid S.D.B. (1910-2000) missionário salesiano nascido na Áustria . Frequentemente referido nas fontes portuguesas como Guilherme Schmid. Segundo Pe. Manuel Teixeira, o Pe Schmid estudou composição em Viena e direcção de orquestra em Berlim. Chegou a Macau em 1939 e foi professor de música no Seminario de S. José. Actuou também como instrutor da banda do Instituto Salesiano e mestre da Banda da Polícia de Segurança Pública de Macau. Foi director do Instituto Salesiano entre 1960 e 1966, ano em que regressou à Àustria onde permaneceu até à sua morte. Hábil compositor, deixou inúmeras operetas de cunho catequético e obras vocais religiosas entre as quais uma Missa em Si bemol, para três vozes e órgão.11) Aurélio Porfiri, in “40º Congresso internacional dos Pueri Cantores”, Roma 2015-16.
122Missionários para o Século XXI 123 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesBibliografiaJoão Guedes. Pe. Áureo Nunes e Castro, Missionário músico e pedagogo. Instituto Internacional de Macau, Novembro de 2015.Luís Cunha. Luigi Versiglia, Callisto Caravario, Mártires Salesianos na China. Instituto Internacional de Macau, Outubro de 2011. Margaret Lynn, Graça Marques. Áureo Castro Retrato de um músico. Diocese de Macau – Academia de Música S. Pio X. 1ª Edição Maio de 2015.Pauline, Choi Pui Leng. Os Pequenos Cantores da Cruz de Madeira (Os Pequenos Cantores do Colégio D. Bosco de Macau). História oral.Pe. Manuel Teixeira. A Educação em Macau. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Macau 1982.Revistas e jornaisBoletim Salesiano – a Revista da Família Salesiana Nº 315, Dezembro de 1975.Giornale Di Brescia del 15-02-2006Il Bolllettino Salesiano ANNO 109 N. 17L’ Angelo A. Notiziario dela Comunita Parrocchiale di Chiari - N. 9 Novembre 2005.L’ Angelo A. Notiziario dela Comunita Parrocchiale di Chiari N. 1 Gennaio 2005 – Anno XV nuova serie.Notícias de MacauO Clarim de 15 de Janeiro de 2016.Tribuna de Macau de 4 de Abril de 2014.The Daily Illinois, 25 May 1949
124Missionários para o Século XXI 125 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João GuedesArtigos de imprensaNacional ismos exal tados e seus ref lexos na congregação salesiana: Primeira metade do século XX. Amador AnjosEAO Regional Conference on Salesian Historiography Day 2 | Tuesday | 5 Nov 2013 “The State of Salesian Historiography and the Conservation and Development of the Salesian Historical Patrimony in the Region” (Cebu, 4-8 Nov 2013)TestemunhosAntónio PachecoArnaldo TeixeiraDiamantino SantosFelisberto RosárioJosé TavaresPedro RosaPe Ramiro Pereira Galhispo S.D.B.
126Missionários para o Século XXI 127 Missionários para o Século XXICésar Brianza a missão o coro e o sonho da China João Guedes